Mal de Montano

abril 13, 2009

É do espanto que nasce o poema…

Filed under: Entrevistas — maldemontano @ 1:26 am

De repente, quando se ergue da cadeira, o poeta percebe que o fêmur de uma perna resvala no osso da bacia. Aquilo o intriga. “É desse tipo de surpresa que nasce um poema”, diz Ferreira Gullar

Por Armando Antenore (Revista Bravo!)

Certa manhã, enquanto fazia recortes para novas colagens, notou que umas tiras miúdas de papel salpicavam o piso da sala. Mal se abaixou com a intenção de recolhê-las, viu que formavam um desenho abstrato. A figura inusitada e bela surgira de modo espontâneo, à revelia de qualquer pretensão estética. O escritor, hipnotizado, apanhou os pedacinhos de papel e os fixou em uma cartolina amarronzada exatamente da maneira como caíram no chão. Batizou o trabalho de Por Acaso, Puro Acaso. Quem percorre o apartamento carioca logo avista a composição pendurada numa nesga de parede e um tanto oprimida pelas dezenas de outros quadros e gravuras que decoram o imóvel — a maioria de artistas tão míticos quanto Iberê Camargo, Rubem Valentim, Oscar Niemeyer e Marcelo Grassmann. “Todos bons amigos”, comenta o dono da casa, com um híbrido de displicência e orgulho.

O episódio dos papéis revela muito sobre o jeito de o poeta enxergar a vida e o ato criativo. Para o autor do célebre Poema Sujo, viver (ou criar) é o resultado de um diálogo contínuo entre o arbítrio e o inesperado, a ordem e a desordem, a necessidade e o acaso. O assunto veio à tona numa tarde abafada de fevereiro, ao longo da conversa de três horas que Gullar manteve com BRAVO!. O apartamento de Copacabana, silencioso àquela altura do dia, serviu de cenário.

Viúvo, o maranhense namora a poetisa gaúcha Cláudia Ahimsa. Ele a conheceu durante a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994. Pouco tempo antes, amargara a morte da mulher, Thereza Aragão, e de um dos três filhos, o caçula Marcos. Inspirado pela atual companheira, escreveu os versos “Olho a árvore e já/ não pergunto ‘para quê?’/ A estranheza do mundo/ se dissipa em você”.

BRAVO!: O senso comum costuma apregoar que poetas nascem poetas. Poesia é destino?

Ferreira Gullar: Prefiro dizer que é vocação. O poeta traz do berço um modo próprio de lidar com a palavra. Não se trata, porém, de um presente dos deuses, de uma concessão divina, como se pregava em outras épocas. Trata-se de um fenômeno genético, biológico, sei lá. Há quem nasça com talento para pintar, jogar futebol ou roubar. E há quem nasça com talento para fazer poemas. Sem a vocação, o sujeito não vai longe. Pode virar um excelente leitor ou crítico de poesia, mas nunca se transformará num poeta respeitável. Quando um jovem me mostra originais, percebo de cara se é ou não do ramo. Leio dois ou três poemas e concluo de imediato. Por outro lado, caso o sujeito tenha a vocação e não trabalhe duro, dificilmente produzirá um verso que preste. Se não estudar, se não batalhar pelo domínio da linguagem, acabará desperdiçando o talento. “Nasci poeta, vou ser poeta.” Não, não funciona assim. Converter a vocação em expressão demanda um esforço imenso. Tudo vai depender do equilíbrio entre o acaso e a necessidade. A vocação é acaso. A expressão é necessidade. Compreende a diferença? No fundo, a vida não passa de uma constante tensão entre acaso e necessidade.

Nada escapa desse binômio?

Nada. O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.

Você não crê que Ele exista?

Gostaria de acreditar, mas não acredito. Uma pena… Poucas crenças podem ser mais reconfortantes do que a fé em Deus. Ele enche de sentido as nossas vidas sem sentido. “Eu não sou cachorro, não!”, cantava o Waldick Soriano, lembra? Uma frase sugestiva, já que os homens realmente não se veem como cachorros. Os homens anseiam uma condição sublime. Não à toa, inventaram Deus: para que Deus os criasse. Se você pensar direito, todas as coisas abstratas ou concretas que a humanidade constrói têm a intenção de dar significado à vida — e, não raro, um significado especial. Nós, que frequentemente praticamos atos injustos, inventamos a justiça. Por quê? Porque desejamos ser melhores do que somos e tornar menos insolúvel o mistério de viver. A arte surge pelo mesmo motivo.

Conclui-se, então, que o poema também almeja dar significado à vida.

O poema nasce do espanto, e o espanto decorre do incompreensível. Vou contar uma história: um dia, estava vendo televisão e o telefone tocou. Mal me ergui para atendê-lo, o fêmur de uma das minhas pernas bateu no osso da bacia. Algo do tipo já acontecera antes? Com certeza. Entretanto, naquela ocasião, o atrito dos ossos me espantou. Uma ocorrência explicável de súbito ganhou contornos inexplicáveis. Quer dizer que sou osso?, refleti, surpreso. Eu sou osso? Osso pergunta? A parte que em mim pergunta é igualmente osso? Na tentativa de elucidar os questionamentos despertados pelo espanto, eclode um poema. Entende agora por que demoro 10, 12 anos para lançar um novo livro de poesia? Porque preciso do espanto. Não determino o instante de escrever: “Hoje vou sentar e redigir um poema”. A poesia está além de minha vontade. Por isso, quando me indagam se sou Ferreira Gullar, respondo: “Às vezes”.

A falta de controle sobre o ato de escrever o angustia?

Não, em absoluto. A experiência de criar um poema é maravilhosa. Mas, como não depende inteiramente de mim, sei que corro o risco de nunca mais vivenciá-la. Se parar de fazer poesia, vou lamentar — só que não a ponto de disparar um tiro na cabeça. Nenhum poema, de nenhum poeta, me parece imprescindível. Dante Alighieri poderia não ter escrito A Divina Comédia. Ou poderia tê-la escrito de outro jeito. Novamente: tudo se subordina à lei do acaso e da necessidade.

Um poema deve sempre emocionar?

Sim, deve emocionar primeiro o poeta e depois o leitor.

O pernambucano João Cabral de Melo Neto, com quem você conviveu, pensava diferente, não? Ele preconizava uma poesia menos emotiva.

João Cabral gostava de mentir! (risos) Pegue o poema O Ovo de Galinha e veja se aquilo não comove o leitor. Você acha que o João também não se comoveu ao escrevê-lo? Lógico que se comoveu! Na verdade, João recusava a ideia de o poeta transformar a poesia em confessionário, em objeto do sentimentalismo. Daí proclamar que o poema tinha de ser uma construção intelectual. A razão lhe serviu de bússola. No entanto, paradoxalmente, inúmeros de seus versos não resultaram tão frios. À medida que o tempo passa, o João se revela cada vez mais complexo, uma soma de contradições — o que, no fim das contas, só aumenta a grandeza dele.

Você concorda quando os críticos apontam o Poema Sujo, de 1975, como sua obra máxima?

Difícil responder. Não me debrucei profundamente sobre o assunto… O Poema Sujo é, de fato, o que reúne o maior número de interrogações e descobertas — em parte, pela extensão (os versos se espalham por quase 60 páginas); em parte, pela febre criativa que me assaltou enquanto o redigia. Entre maio e outubro de 1975, fiquei imerso no que classifico de “estado poético”. Nada me tirava daquele clima. Eu comentava, brincando, que me tornara uma espécie de rei Midas. Tudo em que botava a mão virava ouro, tudo virava poesia. Foi uma fase excepcional. Para mim, porém, trabalhos mais recentes podem ter importância idêntica à do Poema Sujo, por exprimirem reflexões novas, algo que não me ocorrera dizer antes.

Uma parcela da crítica sustenta que você é o maior poeta brasileiro vivo. É mesmo?

Imagine! E como se mede o tamanho de um poeta?, já perguntava Carlos Drummond de Andrade. Que régua consegue dimensionar um negócio desses? Claro que, quando escuto uma avaliação do gênero, me envaideço. Mas não me iludo. Cada poeta, vivo ou morto, é inigualável. O João Cabral, o próprio Drummond, o Vinicius de Moraes, o Mário Quintana nos transmitiram um legado riquíssimo. São inventores de um universo muito pessoal e insubstituível. Sem mencionar o Murilo Mendes, autor de pérolas tão lindas quanto “A mulher do fim do mundo/ Chama a luz com um assobio”.

Poeticamente, você jamais permaneceu num único lugar e sempre procurou a renovação. Em contrapartida, como crítico, acabou recebendo a pecha de conservador, por rejeitar diversas manifestações da arte contemporânea. O rótulo o incomoda?

Não, não me incomoda. Nesta altura do campeonato, quando o vale-tudo se apoderou das artes plásticas, a qualificação de “conservador” perdeu sentido. Conservador por quê? Por diferenciar expressão e arte? No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música. O filósofo francês Jacques Maritain, católico, afirmava que a arte é “o Céu da razão operativa”. Ou melhor: é o ápice do trabalho humano. Arte, portanto, pressupõe o “saber fazer”. Saber pintar, saber dançar, saber esculpir, saber fotografar, saber tocar, saber compor. Tal critério prevaleceu durante milhares de anos, desde as cavernas até o advento das vanguardas, no final do século 19, período em que se questionou o “saber fazer”. Pois bem: sob a minha ótica, a preocupação vanguardista é um fenômeno que se esgotou. Por milhares de anos, a arte seguiu adiante sem ligar para o conceito de vanguarda. Ninguém me convencerá de que, em pleno século 21, crucificar-se na traseira de um Fusca, deixar-se filmar cortando a vagina ou masturbar-se numa galeria equivale a um gesto artístico. Segundo o norte-americano John Canaday, historiador da arte, os críticos de hoje temem repetir o erro cometido pelos críticos do século 19, que não compreenderam os impressionistas. Em consequência, assinam embaixo de qualquer bobagem que levante a bandeira do “novo”. Percebe a armadilha? Caso três ou quatro artistas resolvam espremer uma bisnaga de tinta no nariz de um crítico, ouvirão dele que praticaram um ato inovador. Definitivamente, não penso desse modo.

Nos tempos de militância comunista, você usou a poesia com fins políticos. O engajamento dos poetas ainda se justifica?

Não, de jeito nenhum. Os poetas, agora, irão se engajar em quê? No socialismo ridículo do Hugo Chávez? Foi um engano imaginar que versos contribuiriam para a revolução social. Admito que um poema consiga iluminar o leitor, consiga lhe abrir a cabeça. Mas daí a mudar a sociedade… Muito complicado! Abandonei todos os mitos daquela época. Não creio mais em luta de classes. Já aprendi que o capitalismo é como a natureza: invencível.

E a crise econômica que o mundo enfrenta atualmente? Não põe o capitalismo em xeque?

Sem dúvida atravessamos um momento delicadíssimo. Mesmo assim, estou convicto de que o capitalismo resistirá. Trata-se apenas de mais uma crise num sistema que vive de crises. Repito: o capitalismo vai imperar porque segue a lógica da natureza. É brutal, é feroz, é amoral. Não demonstra piedade por nada nem por ninguém. Em compensação, nos oferece uma série de benefícios. O capitalismo, à semelhança da natureza, se desenvolve espontaneamente. Não precisa que meia dúzia de burocratas dite o rumo das coisas, como acontecia nos regimes socialistas. Em qualquer canto, há um cara inventando uma empresinha. De repente, no meio deles, aparece um Bill Gates. São multidões em busca de dinheiro! Impossível deter uma engrenagem tão eficiente. Podemos, no máximo, brigar para que as desigualdades geradas pelo capitalismo diminuam. Aliás, convém que briguemos. Não devemos abdicar de um mundo mais justo, ainda que capitalista.

Como você avalia o governo Lula?

Avalio mal. O Lula é um grande pelego. Sabe aquele indivíduo que se infiltra nos sindicatos para amortecer os conflitos entre trabalhadores e patrões? O Lula age exatamente assim. Por um lado, agrada os banqueiros e os empresários. Por outro, corrompe o povão com programas assistencialistas. Posa de líder popular, e a massa o aplaude. Viva o pai dos pobres! Resultado: todo mundo confia no Lula, o rico e o miserável. Em decorrência, as tensões sociais se diluem. Que maravilha, não? Um país de carneirinhos…

Em setembro de 2010, você completa 80 anos. Sente-se realizado?

Olha, a vida é uma cesta em que, quanto mais se põe, mais se deseja colocar. Estamos sempre partindo do zero. Hoje pinto um quadro ou termino de ler um livro. Fico satisfeito. Mas, amanhã, me pergunto: e agora?

dezembro 31, 2008

Minhas histórias vêm da voz’, diz Alessandro Baricco

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 3:35 pm

por André Miranda

Entre goles de cerveja e baforadas de cigarro, um simpático Alessandro Baricco (na foto de Michel Filho) conversou com O GLOBO num bar de Paraty. O autor italiano está na cidade fluminense para participar, neste sábado, às 15h, da mesa “Fábulas italianas”, com Contardo Calligaris. Autor de “City”, “Seda” e “Esta história”, Baricco é considerado um dos mais importantes escritores contemporâneos da Itália, e alcançou fama na Europa com seus livros, suas participações em programas de TV, sua parceria com a banda francesa Air e a adaptação de suas histórias para o cinema — como foi o caso da peça “Novecentos”, transformada no filme “A lenda do pianista do mar” por Giuseppe Tornatore. Dele, a Companhia das Letras acaba de lançar o romance “Sem sangue”, em que a personagem Nina parte para uma vingança depois que sua família é vítima de uma guerra cruel. O resultado é uma obra bem ao estilo do autor: guiada por música e útil para o leitor.

Você foi um dos fundadores de uma escola de escrita criativa na Itália, nos anos 1990. Mas é possível ensinar alguém a escrever com criatividade?

ALESSANDRO BARICCO: Na verdade, não é exatamente uma escola de escrita criativa. Nós costumamos dizer que é uma escola de narrativa. Os alunos ficam dois anos com a gente e alguns escrevem livros, mas muitos outros escrevem para televisão, para o cinema, para publicidade, para quadrinhos… Não é uma escola para se aprender a escrever livros, mas uma escola para você aprender a contar histórias.

Da mesma forma, esta edição da Flip tem um sentido mais amplo do que é considerado literatura. E você, também, é um autor acostumado a trabalhar com outras formas de narrativa, como cinema e teatro. Partindo da experiência da escola, no fundo, tudo isso se trata do mesmo assunto, contar uma história?

BARICCO: É o mesmo ato, o ato da escrita. Se você quer ter isso como profissão, escrever é uma coisa bem natural, como correr. Não é necessário ir para uma escola aprender a correr. Mas se você quiser viver de correr, se quiser ir para os Jogos Olímpicos, aí é diferente, você também precisa estudar. Além disso, há muitos talentos que vivem distantes do mundo cultural, e a escola os coloca próximos a esse mundo cultural. A escola os coloca mais perto do mundo que eles querem habitar. Nossa escola ajuda os alunos a entender muito mais seu próprio talento.

O nome da escola é Scuola Holden, numa homenagem ao personagem de J.D. Salinger. A influência de Salinger é grande assim?

BARICCO: Quando eu e outros quatro amigos a fundamos, nós queríamos fazer uma escola diferente. Então pensamos numa escola em que Holden Caulfield pudesse aprender alguma coisa. Escolher o nome de Holden foi um desafio de fazer uma escola que ele iria amar. Salinger se mantinha na superfície dos temas e, assim, conseguia alcançar resultados muito profundos.

Você apresentou um programa de TV sobre ópera na Itália e, anos depois, gravou o CD “City reading” com a banda francesa Air, de música eletrônica. Como nas várias formas de escrita, os diferentes estilos musicais também têm o mesmo valor?

BARICCO: A música está dentro da escrita. Não em todas. Nos textos de Kafka, por exemplo, quase não há música. Mas para mim é muito importante, é meu jeito de escrever. Minhas histórias vêm da voz, na minha forma de escrever é possível reconhecer a voz. Na minha vida, eu trabalhei de muitas formas diferentes para cruzar música com palavras, histórias e ficção. Minha paixão pela ópera nasceu daí. Eu via as óperas como grandes histórias e, depois, havia a música. Eram as palavras dentro do ritmo. O cruzamento foi muito forte, muito bem-sucedido. E o mesmo ocorre hoje. Eu pedi ao Air para fazer uma performance comigo em Roma, com música ao vivo. Eles aceitaram e nós fizemos uma espécie de leitura de algumas páginas de “City”. Aí eles pediram que gravássemos um CD. É um CD estranho, um tipo de música que não existe. Mas eu gosto.

Você também apresentou um programa de TV sobre livros. Televisão e literatura são artes consideradas quase antagônicas: uma está mais ligada à alta cultura, enquanto a outra é mais associada à cultura popular. É possível juntas as duas?
BARICCO: É possível. Você tem que pensar que um programa de TV quer dizer, pelo menos, um milhão de pessoas. É um público pequeno em comparação com outros programas de TV, mas é muito grande para a literatura. Então, se essas pessoas param e te ouvem, elas demonstram curiosidade, mostram que podem entender o que você está falando. O que funciona na TV é alguém contando alguma coisa com paixão. Isso pode ser com beisebol, com política, com outros temas. É exatamente o que eu fazia. De uma forma bem simples, eu ia lá e falava dos meus livros favoritos. E funcionava. Eu conseguia botar um livro na lista dos mais vendidos no fim de semana, depois de falar dele no programa. Fiz isso com o Salinger, por exemplo.

O seu romance “Sem sangue”, que está sendo lançado aqui agora, foi publicado originalmente em 2002, um ano depois do 11 de Setembro, numa época em que todo o mundo só falava de guerra. Isso de certa forma o influenciou?

BARICCO: Escrever sobre guerra era uma coisa que eu já tinha na minha cabeça muito tempo antes. Mas eu tinha um certo medo de tratar disso. Aí, comecei a fazer o “Sem sangue”, escrevi um trabalho sobre a “Ilíada”, que para mim é uma ótima reflexão sobre a guerra, e uma parte do “Esta história”, meu último romance, é sobre guerra. Acho que precisei escrever de formas diferentes sobre esse tópico. Talvez o 11 de Setembro tenha, de certa forma, me empurrado para o tema.

E como você enxerga a personagem Nina? Ela é uma vítima?

BARICCO: Ela é motivada pela vingança. No livro, até o fim, você não consegue saber se ela é mesmo uma assassina ou não. Você sempre tem duas versões. Tradicionalmente, as personagens femininas são a voz da paz. Os homens agem como animais e as mulheres ficam em casa com as crianças, esperando os homens voltarem da guerra. É assim na “Ilíada”, por exemplo. Em “Sem sangue”, trabalhei com uma personagem feminina e eu mesmo não sei dizer se a Nina é uma assassina ou não.

Você é um dos mais respeitados autores contemporâneos da Itália e também um dos mais vendidos. Ao criar uma história, você pensa no leitor?

BARICCO: Não em termos de mercado. Eu acho que é como fazer uma mesa. Eu quero fazer alguma coisa que funcione. Uma coisa sólida onde as pessoas podem apoiar seus copos e beber. Os livros, para mim, são coisas úteis, de que as pessoas precisam, como precisam de pão. Eu penso no leitor porque quero que ele se sente e use a mesa. E quero que ele ache que é uma mesa confortável, bonita. Esse é o meu trabalho.

Você já conhecia o Brasil, não? Quais suas impressões sobre o país?

BARICCO: Eu já havia estado no Brasil duas vezes. Na última, houve um grande problema em São Paulo, um ataque a vários pontos comandado por criminosos de dentro da prisão. Achei aquilo assustador. Não consigo imaginar como é conviver com esse tipo de situação. Como vocês conseguem?

(entrevista publicada no caderno especial do Globo na Flip)

dezembro 29, 2008

O outro – Neil Gaiman

Filed under: Contos,Mal do dia — maldemontano @ 12:25 am

dezembro 26, 2008

Não existe pote de ouro no arco-íris do escritor

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 4:09 pm

Sexta-feira, 29/7/2005

Julio Daio Borges

Eu já ia usar esse título, mas eu ia escrever sobre a Geração 90. Eu ia escrever sobre a história que eu ouvi de um dono de sebo, que conheceu todo esse pessoal. De como eles estão na mídia toda hora (tema de Coluna anterior) e de como eles estão felizes por receber um adiantamento (para escrever um livro em, sei lá, um ano) de 500 reais mensais. 500 reais. Tem base? Para ser escritor. Escritor de editora grande. Escritor com distribuição nacional, tal e coisa, coisa e tal. Escritor.

Mas o assunto do Movimento Literatura Urgente me atropelou. Na verdade, por conta de uma matéria sobre isso na Veja, os próprios escritores já entraram na conversa que eu ia começar. Entraram de sola. E eu vou tentar provar por que esse Movimento está errado e por que quase todos eles – dentro desse Movimento – também estão. Não provar pelas mesmas razões que eles evocam, mas por outras, e por experiência própria. Vocês estão livres para concordar ou discordar, tá?

Eu não sei o que aconteceu dos anos 90 pra cá, mas um montão de escrevinhadores – na minha geração (e eu me incluo) – resolveu achar que podia viver de publicar. Será que foi o surgimento (e a consolidação) da editora do Luiz Schwarcz? Será que foi a revolução (editorial) que a Companhia das Letras provocou? Será que foi a modernização do setor que as outras editoras (velhas e novas) se viram obrigadas a implementar? Será que foi o êxito do Rubem Fonseca? Será que foi o João Ubaldo Ribeiro na Nova Fronteira? Será que foi o Luis Fernando Verissimo na Objetiva? Será que foi o Paulo Coelho – sinal-da-cruz agora – na Rocco?

Eu sei lá. Eu sei que um monte de gente, na aurora dos seus vinte anos, dos anos 90 pra cá, resolveu achar que dava.

Não dá. Nunca deu e nem digo que nunca dará, mas dificilmente daria – em qualquer lugar. Não é um problema do Brasil. Não é um problema estrutural nosso, mas é a realidade do escritor. Vocês – escritores da Geração 90, que estão agora reclamando – já pensaram que Kafka, um dos pais da modernidade, morreu antes de se consagrar? Lembram que ele pediu a Max Brod, seu testamenteiro, para queimar a maior parte do seu espólio? Não, vocês não se lembram, vocês não conseguem se lembrar. Lembram provavelmente de Thomas Mann, outro dos pais da modernidade, que não amargou falta de reconhecimento mas que já se estabeleceu logo no primeiro romance. Mas vocês se esqueceram de que Thomas Mann é um caso à parte.

Vamos voltar pra cá. Vocês – escritores da Geração 90 – esqueceram que, no Brasil, quase ninguém viveu de ser escritor? Eram funcionários públicos; tinham outros cargos, tinham outras profissões. Ninguém era escritor full time. Só o Jorge Amado – que tinha a militância por trás. O Drummond foi trabalhar com Gustavo Capanema, ministro do Getúlio. O Guimarães Rosa foi ser médico; depois, diplomata. O Euclides da Cunha era engenheiro; construía pontes (nem jornalista era). O Rubem Fonseca trabalhou um tempão na Light (foi também delegado de polícia, como todo mundo sabe). O Ferreira Gullar foi escrever roteiro e dramaturgia na Globo. O Mário de Andrade não foi ao casamento do Fernando Sabino por falta de grana. O Oswald de Andrade era dono do bairro inteiro de Cerqueira César (vulgo “Jardins”), em São Paulo, e torrou toda a sua fortuna com esse negócio de ser escritor. O Álvares de Azevedo morreu aos 22 anos; o Castro Alves, aos 24. O Luis Fernando Verissimo – o bem-amado da capa da Veja, que vende milhões de exemplares todos os anos – mora até hoje na mesma casa que foi de seu pai (Érico Verissimo, também escritor). O Paulo Coelho ficou milionário, tá, mas só. E alguém aqui quer imitá-lo?

Agora, vocês, com vinte, trinta anos, que querem viver de literatura (ou viver de escrever), acham que dá. Não é por que vocês querem que vai dar. Sinto lhes informar.

O problema de escrever é um só. É gostoso; é terapêutico; alivia que nossa… Mas não resolve os nossos problemas, de escritores. O escritor geralmente começa na adolescência, com um diário (eu disse “diário”, não disse “blog”). Tem um problema qualquer – de carência, de insegurança, de auto-afirmação – e dá-lhe diário pra extravasar. Como eu disse, é terapêutico, funciona. O problema continua lá (escrever não resolve), mas parece que – depois de escrever – fica mais fácil lidar. Esse é o problema, na verdade. A maioria dos escritores carrega essa muleta para a vida inteira (“Os escritores – ao contrário de todas as outras pessoas – não conseguiram se livrar do diário”, Martin Amis na Flip 2004), e quando a coisa aperta, mais lá na frente, dá-lhe diário ou o que estiver no lugar (agora pode colocar “blog”). Como os problemas não se resolvem escrevendo, o escritor começa a colocar a culpa nos que estão em volta: pais, professores, namorada, esposa, chefe, sociedade, governo, essas coisas. A escrita vira uma fuga e ele desiste de resolver os problemas que – porque o mundo está contra ele – não se resolvem mais. Então procura uma solução mágica.

Esse Movimento Literatura Urgente é mais uma solução mágica para resolver o problema do escritor. Uma mesada, um subsídio, uma parte dos impostos, sei lá, não importa. Os escritores não se convenceram até agora de que não vão viver apenas de publicar. Ainda mais no começo da carreira…

Se eu, pela minha experiência, tivesse um conselho para quem pensa em ser escritor – e deixar tudo pra trás para se dedicar –, meu conselho seria: não largue, não deixe tudo pra trás. Se você tem um emprego, não deixe seu emprego. Se você tem uma profissão, não largue sua profissão. Porque ser escritor não é emprego, não é profissão, não é cargo. Ainda não descobriram uma maneira de se viver só de publicar. E não é só no Brasil – em nenhum lugar.

O problema – da Geração 90, agora – é que eles acreditaram que dava pra viver de publicar. Eles viram a miragem – largaram tudo –, caminharam até lá e depois descobriram que não havia nada. Percorreram o arco-íris inteiro mas o pote de ouro não estava lá no final. Saíram na Folha, falaram na televisão, tocaram no rádio, embarcaram para feiras (ou festas ou jornadas) literárias, bienais, fundaram editoras, foram contratados por “editora grande”, montaram blogs, o escambau – mas, enfim, descobriram que não adiantava nada. Porque não existe mercado editorial no Brasil. O mercado editorial daqui é uma ficção! Não temos leitores, as tiragens são simbólicas, os livros são considerados caros, proporcionalmente quase ninguém compra, e a porcentagem que o escritor recebe é aquela que vocês já sabem: 10% ou menor, muito menor. Vamos fazer uma conta rápida: as tiragens máximas são de 3 mil exemplares; vender mil (um mil) no Brasil (estou falando de escritor relativamente novo) é um estrondo; um livro de R$ 50 (preço de capa – livro caro), mil exemplares, 10% para o escritor; dá 5 mil reais. Cinco mil reais para viver um, dois anos – dá menos do que os 500 reais mensais (de adiantamento) que eu citei no primeiro parágrafo.

E como é que vocês foram achar que dava?

Então o escritor – da Geração 90, da Geração 2000, sei lá – acabou de concluir que não dá. Tenta outras formas de remuneração (afinal, já largou tudo: amigos, família, profissão – às vezes, nem tem pra largar): jornalismo, cinema, etc. Jornalismo também não dá. Escritores e jornalistas precisam conversar. O escritor – que não é jornalista – não é, portanto, contratado do jornal (da revista, sei lá). Colabora mas quase nunca recebe (é colaborador, não é do staff). Ou recebe, mas recebe mal (de novo, nem aqueles 500 reais). A mídia está quebrada, cara, não te contaram? Cinema. Ele ouviu falar que o Marçal Aquino ganha uma grana para roteirizar. Mas é o Marçal. O Marçal tem quantos anos nas costas de sua carreira de escritor? E a indústria cinematográfica brasileira vive – ainda – uma situação de instabilidade periclitante. As leis de incentivo podem mudar. O cinema brasileiro pode acabar, como acabou – de uma hora pra outra – na era Collor, porque acabaram os subsídios, a isenção de impostos, blablablá. E quem ganha com cinema é profissional de imagem. R$ 8 mil, por semana, para um diretor de arte. Escritor não é diretor de arte.

“E, agora? Devo me jogar da ponte?” Não, não deve; mas deve olhar os dois lados da questão. Por causa da internet (eu não disse “por culpa”), temos cada vez mais escrevinhadores. Inflacionou o mercado. É natural que escrever – que já não valia nada – agora valha menos do que nada. Os escritores vão ter de pagar pra publicar. Aliás, já está acontecendo. Vocês são escritores da Geração 90, vocês sabem. Quantos não tiveram de editar com dinheiro do próprio bolso para poder começar? Eu acho que – tirando quem tirou a sorte grande – todos tiveram de se (auto-)editar. Agora olhem para os empregadores de escrevinhadores como nós. Se você não aceitar colaborar a troco de nada (ou a troco de uma remuneração aviltante), numa revista ou num jornal, alguém vai aceitar. A oferta é enorme. Cinema, mesma coisa. O resto, mesma coisa (tradução, mesma coisa). E quanto mais blogs, e quanto mais ferramentas de publicação, pior. Mais escrevinhadores passando fome. É uma tendência que não dá pra mudar.

Aí os escritores que já partiram pro tudo ou nada (independentemente da sua qualidade literária) chegam a essas mesmas conclusões e começam a se desesperar. Apelam então. Exigem desvio de impostos, ou alíquotas, para um Movimento que vai – em princípio – lhes garantir maneiras de se sustentar. Ou seja: mais uma vez, eles não querem resolver seus problemas próprios, mas querem que o governo – ou o mercado editorial, mediante uma taxa – resolva (ou facilite o seu lado). Nada contra palestras e circuitos literários, e oficinas, e colóquios, e o escambau, mas isso não resolve. É que nem acreditar que o Fome Zero resolve o problema da fome. Não resolve. É artificial. Amanhã, o governo muda, as taxas mudam, baixam uma portaria, e voltamos à aridez do cinema da era Collor. Não adianta se pendurar no estado, não adianta querer impor – à força – um número crescente de escritores, ao mercado (e ao público), que o Brasil (ou qualquer país) não comporta.

As soluções – se é que elas existem – são as mesmas e não são de agora. Educação, leitura, livros baratos, poder aquisitivo, cultura, hábito, bons escritores. O melhor que o escritor pode fazer agora é escrever o melhor que pode, e esperar. Que venha uma nova geração. Que venham novos leitores. (A geração internet, quem sabe?) Que o Brasil avance. Que o mercado editorial se desenvolva… O caminho é o mesmo em todo lugar.

E, óbvio, a maioria dos “escritores” que estamos vendo aí hoje vai “rodar”. É a lei da selva. É a seleção natural. Sobram os melhores. Não adianta impor cotas, não adianta querer sustentar uma casta se a mesma sociedade – em que se circunscreve essa casta – não parece, naturalmente, inclinada a sustentá-la. Sem mencionar um simples fato: que critérios vamos adotar? Os fundadores do Movimento Literatura Urgente têm prerrogativa na hora de administrar (e de ministrar) as verbas? É triste, mas, mais uma vez, os escritores brasileiros estão deixando de se envolver com literatura para se envolver com política. Não podem querer transmitir, para a sociedade, o ônus de uma escolha pessoal. Uma escolha problemática.

Julio Daio Borges

São Paulo, 29/7/2005

Por que não estudo literatura?

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 3:26 pm

A principal função da Literatura – a educação sentimental, digamos assim – desaparece quando a dedicação aos livros se torna obrigatória e mecânica.

Eduardo Carvalho

Por que não ler os clássicos

Filed under: Aqui o mal geral,Mal do dia — maldemontano @ 3:08 pm

Terça-feira, 3/6/2008
Não gostar de MachadoDaniel Lopes

Não gostar de Machado de Assis, no Brasil, é arriscado. Quero dizer, se você sair por aí dizendo que não gosta. Mesmo se lhe foi pedida uma opinião. Você não corre o risco de ser surrado (não sei se essa garantia serve caso você esteja nos corredores da ABL), mas com certeza receberá aquele olhar de piedade que apenas os seres superiores sabem produzir.

Você é criticado por não gostar de Machado mesmo por quem nunca o leu, ou, ainda pior, por quem o leu e também não gostou, mas ainda assim… patrimônio nacional é patrimônio nacional. Mexer com Machado é quase como mexer com a Amazônia. Quase, nada, é pior, muito pior. Se Al Gore quer saber o que é realmente bom pra tosse, que experimente, em vez de dizer que a Amazônia é do mundo, declarar que Machado é “um escritor de segunda”, como já opinou Millôr Fernandes.

Há pouco tempo, um leitor do Digestivo, comentando no meu perfil, se revoltou contra o fato de eu ter escrito que “ainda no colégio, nunca consegui gostar de Machado de Assis, e apenas quando já havia entrado na universidade pude compreender que não perdera nada”. Também concorreu para aumentar a indignação do leitor o fato de eu ocupar espaço no Digestivo com textos sobre livros de autores estrangeiros, insignificâncias como J. M. Coetzee e Nathaniel Hawthorne: “Não gostar do Machado e gostar de escritores estrangeiros bem traduz esta juventude de hoje influenciada pela cultura americana e outras, que entram nos nossos ouvidos diariamente pela mídia e também por livros”.

O autor da mensagem assinou como Delton. Eu lhe enviei uma resposta, mas esta voltou, acusando e-mail inválido.

Seja como for, assim que li seu comentário lembrei de algo que me ocorreu logo que entrei no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí. Foi em 2003. Certo dia, entre uma aula e outra, estou a folhear no corredor um livro de George Orwell, quando um rapaz mais ou menos da minha idade pára sua caminhada simplesmente para dizer que eu sou um alienado. Eu levanto os olhos e o vejo erguendo um livro de José de Alencar. “Já leu isso?”, perguntou. Sou um sujeito muito tímido, não gosto de discutir nem com gente inteligente. Disse apenas que “já, é um livro muito ruim”. Nem vi direito o título, mas se era José de Alencar só podia ser algo chato, e eu queria me livrar do rapaz o mais rápido possível. Ele resmungou e foi embora.

Hoje penso que ele devia ser um desses membros do movimento estudantil que gastam mais tempo se movimentando do que estudando. Não sei se ele viu que o livro do Orwell era em inglês, pois eu estava começando a estudar inglês. Acho que não viu. Se tivesse visto, a bronca poderia ter sido maior. Com certeza, ele não sabia da história de vida de George Orwell. Tomara que, de 2003 para cá, a militância do jovem fã de Alencar em um partido político ou outro lhe tenha deixado algum tempo de sobra para aprender sobre a participação de Orwell na Guerra Civil espanhola, do lado dos republicanos e contra os fascistas ― experiência que gerou o livro Homage to Catalonia.

Nacionalismo literário
“Triste do povo que precisa de heróis”. O que diria então Bertolt Brecht da carolice de uma intelectualidade nacional que precisa de heróis para se sustentar?

Sempre duvidei que alguém em sã consciência, se lhe fosse dado dois livros, um de George Orwell e um de José de Alencar, ao cabo das leituras preferisse Alencar. Se preferir, não discriminarei. Juro. Mas duvido que prefira.

É verdade que Machado de Assis não é tão ruim quanto José de Alencar. Se, conforme disse em recente entrevista ao jornal Rascunho o professor e escritor sergipano Antonio Carlos Viana, “dar Machado de Assis para um menino de 15 anos é querer que ele não goste de literatura, nunca mais”, o que dizer do trauma gerado em um jovem que é forçado a ler coisas como Senhora? Viana diz ter acabado de escrever um livro em que indica 45 autores indispensáveis para que alunos do segundo grau tomem gosto pela leitura ― entre os quais, Franz Kafka e John Fante. Estou com ele.

Aliás, por que mesmo nossas crianças e jovens são torturados com obras monstruosas da literatura brasileira e portuguesa, ao mesmo tempo em que são privados dos grandes clássicos da literatura universal? É claro que existem excelentes obras brasileiras ― é difícil, por exemplo, imaginar um estudante não se divertindo e se comovendo com Memórias de um sargento de milícias ou Triste fim de Policarpo Quaresma. Mas por que, em vez de incluir estorvos do período romântico brasileiro, nossas grades curriculares não permitem aos mestres trabalhar novelas de Herman Melville, Gogol e Tolstoi, contos de Jack London e por aí vai? É para “valorizar o que é nosso”?

Mas enquanto a função principal dos nossos professores de literatura for fazer os alunos detestarem a literatura, o tipo de produto literário nacional que os estudantes irão comprar em sua vida adulta será, no máximo, as obras completas de Paulo Coelho, empilhadas estrategicamente na estante da sala, unicamente para fins de enfeite.

De cada 100 jovens que entram na universidade (tendo feito belos pontos nas provas de literatura), quantos se tornarão adultos apreciadores da literatura relevante, nacional e internacional? Sejamos benevolentes, suponhamos que esse número seja de 10. Desses 10, quantos devem à escola essa dádiva? 1. Podem sair pesquisando por aí. Os outros 9 se comportaram de forma rebelde na juventude, fingindo que liam poesia parnasiana, apenas para fazer a média na prova, enquanto que, na surdina, encontravam em sebos e bibliotecas o que realmente lhes dava prazer e o que de fato os transformou em leitores maduros ― alguns, até, apreciadores de Machado de Assis.

E para constar. O que respondi ao leitor Delton no e-mail que não foi entregue, em resumo, foi que

― é verdade, não gosto de Machado de Assis. E não é porque nunca o li, ou não entendi as estórias. Sim, li algumas e as compreendi, mesmo as que abandonei pela metade. O que não quer dizer que no futuro, em novas leituras, não possa vir a gostar dele. Mas não sinto a menor obrigação de fazê-lo;

― é uma besteira achar que se alguém não gosta de Machado ou qualquer outro escritor é porque tem que crescer mais “literaturalmente”. Claro, eu tenho muito que evoluir, e espero evoluir sempre. Mas quem garante que, lá pelos 140 anos, tendo evoluído continuamente, ainda assim eu não vá gostar de Machado? Ou será que se o sujeito tem 100 anos e não gosta de Machado é porque ele não evoluiu o suficiente? E quem gosta de Machado aos 15 anos já atingiu o ápice de sua vida “literatural”? Que bobagem, não é mesmo?

― eu lhe asseguro que é muito bom ser influenciado por culturas de fora, dos EUA, da Europa, Oriente, África, Marte… Tão bom quanto ser influenciado pela cultura local. Acredite, há porcaria escrita em todo lugar, e em todo lugar há coisa boa à nossa espera. Pergunte a Machado, que era fã de carteirinha de Montaigne e Laurence Sterne.

Daniel Lopes
Teresina, 3/6/2008

novembro 9, 2008

Fernando Bonassi, escrever também pode ser profissão!

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 2:43 am

A surpresa divertida do mês foi encontrar no Jornal Plástico Bolha a entrevista com o escritor Fernando Bonassi (edição 24, outubro/2008).
Na minha ignorância não me lembrava dele e nem de seus livros. Mas depois vi que tem uma obra diversificada, para vários públicos, e premiada.
O que mais gostei em Bonassi foi do seu pensamento agudo e certeiro. Por isso, colo aqui algumas passagens que é para eu não me esquecer…
______
“A literatura brasileira é pouco ousada e covarde porque os escritores têm relações promíscuas com o Estado, a maior parte deles”.
“Eu escrevo sob encomenda. Estou acostumado a escrever um conto para a Folha, com prazos, tamanhos, verbas. Esse tipo de relação é de negociação. Sou eu contratado para escrever roteiros de cinema que eu não quero escrever, sou pago para desenvovler idéias de outros. A única coisa que eu não sei fazer é o que o ator faz”.
“Eu acho que sou formado moralmente por Henry Miller. Ele dizia que para escrever você tem que se conhecer primeiro. Se você é um covarde, escreva sobre sua covardia”.
“Minha família precisou ser extinta para funcionar. Como extintos, somos muito felizes – não nos vemos, não nos falamos…”.

novembro 1, 2008

Oficinas de texto, leitura, comunicação, criatividade…

Filed under: Mal do dia,Oficinas e cursos — maldemontano @ 3:51 pm
Tags: , , ,
Folder eletrônico, clique nele para ampliar a imagem:
 

  

 

 Quem nunca sentiu um friozinho no estômago ao ver uma folha em branco e ter literalmente “um branco”? E aquela dificuldade de ordenar as idéias para compor uma redação? Hum… Mas como fazer um resumo de um texto complicado? E se o problema for a diculdade de comunicação oral? Ah… Tem jeito? Tem sim!

Pesquisadora em Comunicação e desenvolvimento humano, a professora e escritora Solange Pereira Pinto tem se dedicado a formular projetos que desenvolvam a capacidade comunicativa dos indivíduos. Elaborando aulas (que ela chama de encontros) personalizadas, Solange tem obtido sucesso com seus alunos.

“Creio que o mais importante hoje seja derrubar os mitos que envolvem a comunicação. Por exemplo, vivemos numa cultura que passa a idéia de que quem não estuda não é inteligente, capaz, ou, ainda, de que quem é intelectual sabe de tudo. E não são verdades… Estamos na sociedade dos ‘títulos acadêmicos’, dos papéis, das visões estereótipadas, principalmente em Brasília que é uma cidade burocrata. Vivemos em um tempo de celebridades, mitos, ídolos e quem está fora se sente menos. Temos que valorizar outros aspectos da vida. Temos que ‘democratizar’ a auto-estima coletiva, popular”, analisa.

Em seu ateliê colorido e cheio de imagens para desvendar, se abre outro mundo para quem quer se autodesenvolver. Quem quiser conhecer melhor o trabalho dessa educadora é só entrar em contato pelo email sollpp@gmail.com ou visitar seu blog http://atocomtexto.blogspot.com/

Quem nunca sentiu um friozinho no estômago ao ver uma folha em branco e ter literalmente “um branco”? E aquela dificuldade de ordenar as idéias para compor uma redação? Hum… Mas como fazer um resumo de um texto complicado? E se o problema for a diculdade de comunicação oral? Ah… Tem jeito? Tem sim!

outubro 6, 2008

Capitu mandou flores no centenário da morte de Machado

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 8:03 am

 

 

Por Linaldo Guedes

 

 

Rinaldo de Fernandes tem se destacado na literatura brasileira contemporânea como contista e antologista. Doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP, é professor de literatura brasileira na Universidade Federal da Paraíba. Obteve em 2006, com o conto “Beleza”, o Prêmio Nacional de Contos do Paraná, um dos mais tradicionais da literatura brasileira. Autor dos livros de contos O Caçador (1997 – Ed. da UFPB) e O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) e da novela inédita Rita no pomar. Organizou e lançou nacionalmente as seguintes antologias: O Clarim e a Oração: cem anos de Os sertões (São Paulo: Geração Editorial, 2002); Chico Buarque do Brasil (Rio de Janeiro: Garamond/Fundação Biblioteca Nacional, 2004); Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (São Paulo: Geração Editorial, 2006); e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Rio de Janeiro: Garamond, 2006).

 

Está lançando em 10 de julho próximo, pela Geração Editorial (SP), a sua mais nova antologia, intitulada Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos 100 anos de sua morte. A antologia, reunindo um conjunto de excelentes escritores brasileiros, está prevista para ser lançada em João Pessoa em agosto. Veja mais detalhes sobre esse importante lançamento na entrevista abaixo.

 

 

Como surgiu a idéia de lançar a antologia Capitu mandou flores, reunindo textos de, sobre e baseados em Machado de Assis?

 

Rinaldo de Fernandes – Em 2006 organizei a antologia Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, que foi publicada, numa bela edição, pela Ed. Garamond, do Rio de Janeiro. Foi um livro muito bem recebido, sendo hoje – pelo que acabo de ser informado numa nota do Diário de Pernambuco – objeto de estudo até na Sorbonne. Nas Quartas histórias foram recriados todos os contos do livro Sagarana, que Guimarães Rosa publicou em 1946, e trechos e situações do romance Grande sertão: veredas, que é de 1956. Na época eu já tinha o projeto de organizar uma nova antologia, desta vez em torno de Machado de Assis. Fiz, ainda em 2006, uma enquete com 17 escritores brasileiros para escolher os 10 melhores contos de Machado. Feita a escolha, convidei 35 autores para o trabalho de recriação.   

 

 

Como está estruturada a antologia?

 

Rinaldo de Fernandes – A antologia, intitulada Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos 100 anos de sua morte, que está saindo pela Geração Editorial (SP), se compõe de três partes: na primeira, há a recriação dos 10 melhores contos de Machado de Assis (aqui, abrindo cada uma das seções, constam os 10 melhores contos do autor de “Missa do Galo”); na segunda, há 5 contos recriando trechos e situações do Dom Casmurro (um resumo do romance foi feito pela professora da UFPB Sônia Maria van Dijck Lima); e na terceira, há 5 ensaios exclusivos sobre a obra de Machado, tratando do ficcionista, do dramaturgo e do poeta. Ensaios de Silviano Santiago, Luiz Costa Lima, Pedro Lyra, Regina Zilberman e André Luís Gomes (professor da UnB).

 

 

Quais os 10 melhores contos de Machado escolhidos na enquete e que são recriados na antologia? Que autores os recriaram?

 

Rinaldo de Fernandes – Os contos de Machado, na ordem da escolha na enquete, são: “Missa do Galo”, “A Cartomante”, “O Espelho”, “Noite de Almirante”, “A causa secreta”, “Pai contra mãe”, “O Alienista”, “Uns braços”, “O Enfermeiro” e “Teoria do medalhão”. Foram reescritos na antologia pelos seguintes autores: Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Cecília Prada, Nelson de Oliveira, André Sant’Anna, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Ivana Arruda Leite, Andréa del Fuego, Marcelo Coelho, Deonísio da Silva, Bernardo Ajzenberg, João Anzanello Carrascoza, Antonio Carlos Secchin, Leila Guenther, Marilia Arnaud, Rinaldo de Fernandes, Raimundo Carrero, Mário Chamie, Aleilton Fonseca, Tércia Montenegro, Maria Valéria Rezende, Amador Ribeiro Neto, Carlos Gildemar Pontes, Aldo Lopes de Araújo, Suênio Campos de Lucena, Carlos Ribeiro, Ronaldo Cagiano, Sérgio Fantini e Maria Alzira Brum Lemos. Participo com o conto “Beleza”, que obteve em 2006 o Prêmio Nacional de Contos do Paraná e cuja epígrafe é retirada de “O Alienista”.

 

 

E os autores que recriaram passagens do romance Dom Casmurro?

 

Rinaldo de Fernandes – Foram Hélio Pólvora, Daniel Piza, Godofredo de Oliveira Neto, W. J. Solha e Nilto Maciel.

 

 

Esta não é a sua primeira antologia sobre um autor de renome. Antes, já havia feito outras, sobre Euclides da Cunha (O Clarim e a Oração), Chico Buarque (Chico Buarque do Brasil) e Guimarães Rosa (Quartas histórias). Que critérios você utiliza na seleção dos autores que são incluídos nas antologias?

 

Rinaldo de Fernandes – O primeiro, e principal, é o critério do bom texto. Todos os autores que convido já têm obras publicadas e, alguns deles, um trabalho já consagrado. Normalmente, junto consagrados, emergentes e jovens promessas. Além disso, não priorizo o eixo Rio-São Paulo, convidando autores de várias regiões. O Nordeste (a Paraíba, Pernambuco, o Ceará e a Bahia, em especial) tem sido sempre muito bem representado em minhas antologias. Há ótimos contistas aqui na Paraíba, a exemplo de Marilia Arnaud, Aldo Lopes e Geraldo Maciel, para citar só estes três. O trabalho que desenvolve o Clube do Conto é dos mais importantes, admiro muito.

 

 

De um modo geral, os autores convidados a participarem das antologias têm correspondido às suas expectativas?

 

Rinaldo de Fernandes – Sim. Aqui e ali, até pela natureza de minha proposta – a recriação de autores clássicos de nossa literatura –, há casos em que tomo a liberdade de sugerir algumas mudanças no texto. Isto é raro acontecer, mas, quando acontece, os autores entendem o meu gesto, sabem que eu, no trabalho de organizador, estou tendo uma visão de conjunto dos textos da coletânea. Os colaboradores de minhas coletâneas, além de competentes, sempre foram muito gentis comigo.    

 

 

Nesta antologia sobre Machado de Assis, que resultados lhe surpreenderam?

 

Rinaldo de Fernandes – Vários. Como organizador, até por uma questão de ética e de respeito pelo conjunto dos autores, não acho bom ficar citando os melhores textos da coletânea, mesmo porque cada um dos textos tem sua história e momento de produção. Vou recebendo os contos e montando o livro – e cada conto tem seu valor próprio. Posso adiantar que o conto do Moacyr Scliar, recriando “Missa do Galo”, é excelente. Mas na coletânea há outros tantos contos excelentes, e prefiro, como disse, não citá-los. Gostaria, por outro lado, de aproveitar para dizer uma coisa que considero importante: todas as minhas antologias são revisadas por mim mesmo – normalmente não aceito os revisores das editoras. Não é por desconfiança no trabalho desses profissionais, é por um critério próprio. Sinto-me mais seguro assim, além de acompanhar de perto o trabalho dos colaboradores. É muito trabalhoso organizar antologias, há que ter muita responsabilidade, mas tenho muito prazer em prepará-las.

 

 

Você sempre procura encaixar autores paraibanos nessas antologias. Fale um pouco sobre isso.

 

Rinaldo de Fernandes – Já participaram de minhas antologias cerca de 25 autores da Paraíba. Ou como contistas, ou como ensaístas, ou como poetas. Mas eu sempre faço o convite baseado no critério, já referido, da qualidade do texto. Sempre convido escritores cujos textos eu conheço e admiro. Na Paraíba há ótimos escritores, que estão entre os melhores autores do País. Alguns deles deveriam ter mais oportunidades no mercado editorial, que ainda é muito excludente.

 

 

Estamos no centenário da morte de Machado de Assis. Qual a importância de sua obra para a literatura universal?

 

Rinaldo de Fernandes – Machado é um caso extraordinário, de autor da chamada periferia (dos países ocidentais) que se eleva a gênio. Ele desperta interesse e é atual tanto pela absoluta genialidade em investigar a alma humana, em entender os mecanismos de ambigüidade dos seres, sempre divididos entre o prestígio e o prazer, sempre interessados em si mesmos, como pela enorme capacidade de representar o Brasil de seu tempo, tanto o sistema social com o político. Machado se utilizou da ironia como o recurso mais apropriado para o material humano e social que estava retratando. E tornou-se, em nossa literatura, um mestre insuperável do romance e do conto, sobretudo.

 

 

Há alguma influência de Machado de Assis em sua obra?

 

Rinaldo de Fernandes – Penso que sim. Sempre que vou construir os personagens dos meus contos, tenho em mente o processo machadiano. Machado é cruel, sugestivo. E isto eu aproveito no momento da criação dos meus protagonistas (o advogado do meu conto “O perfume de Roberta” é uma figura escorregadia, inteiramente machadiana; como é também a madrasta do protagonista do conto “Beleza”). Todos os personagens machadianos – ou quase todos – são suspeitos. São dadas pistas pelo narrador que deixam uma sugestão de base, e de repente nos encontramos diante do ambíguo absoluto. O que Conceição, a mulher casada do conto “Missa do Galo” (um dos recriados na antologia), faz naquela sala conversando com o adolescente? Que ser mais sugestivo e insinuante é a Conceição, hein? Não somos quase sempre assim, sugestivos e insinuantes, quando estamos atrás de nossos interesses?

 

 

E na literatura contemporânea, você vê influências machadianas em algum autor ou nossos escritores contemporâneos se influenciam mais pelas experimentações de linguagem de um Guimarães Rosa, por exemplo?

 

Rinaldo de Fernandes – Guimarães Rosa é um caso à parte. É o nosso autor mais inventivo no séc. XX. É, portanto, inimitável na linguagem. A psicologia machadiana é base para grandes escritores. Lygia Fagundes Telles (lembremos, por exemplo, do conto “Antes do baile verde”) e Dalton Trevisan (quase tudo nele) são autores profundamente machadianos, no meu entender.

 

 

Que conto ou romance de Machado de Assis você prefere e por quê?

 

Rinaldo de Fernandes – Os três romances capitais de Machado são Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. A história de Capitu e Bentinho (Dom Casmurro) é a minha preferida. Os 10 contos que estão na antologia Capitu mandou flores são extraordinários. Talvez pelo fato de eu os ter lido e relido várias vezes na preparação do livro, terminei os tendo como os meus preferidos também. “Missa do Galo”, “O Espelho”, “O Enfermeiro”, “O Alienista” e “A causa secreta”, para só citar estes cinco (dos cerca de 200 contos escritos por Machado), são peças riquíssimas, que retratam com muita força a natureza humana. Estão, certamente, entre os melhores contos da literatura universal.  E há retrato mais pungente da escravidão do que um relato como “Pai contra mãe”? Penso que não.

 

 

A antologia será lançada em São Paulo dia 10 de julho. E na Paraíba, alguma previsão?

 

Rinaldo de Fernandes – O lançamento nacional de Capitu mandou flores será dia 10 de julho, na Livraria da Vila, em São Paulo, com a minha presença e a de vários colaboradores do livro. Depois haverá os lançamentos regionais, dos quais participarei também: Belo Horizonte (dia 11 de julho), João Pessoa, Fortaleza, Salvador, São Luís, etc. Em João Pessoa o lançamento deverá ocorrer, muito provavelmente, na primeira semana de agosto.

 

 Fonte: Cronópios

 

 

(Entrevista concedida ao jornalista e poeta Linaldo Guedes, publicada no jornal A União, de João Pessoa-PB)

 

 

 

Capitu mandou flores
Autor: Rinaldo de Fernandes – Contos
Formato 16X23 cms, 528 págs.
ISBN: 978-85-61501-02-0
Cód. barra: 978-85-61501-02-0
Peso: 0.7 kg.
R$ 49,90
Descrição:
Nos cem anos da morte de Machado de Assis, 40 escritores brasileiros recriam seus 10 melhores contos – mais trechos e situações do romance DOM CASMURRO – e escrevem sobre a obra do maior escritor brasileiro de todos os tempos. A presente edição publica os 10 contos originais nos quais se basearam estes autores para levar adiante este enorme desafio: recontar, à luz de hoje, histórias que Machado de Assis tornou eternas.

Psiu poético está na área

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 7:14 am
« Página anteriorPróxima Página »

Blog no WordPress.com.