Mal de Montano

setembro 21, 2006

Curiosidade… Os dez amigos de Freud

Filed under: Mal do dia,Sobre Títulos... — maldemontano @ 6:26 pm

 

Freud (Internet)

Moacyr Scliar escreveu o artigo “Freud e a Literatura” (Revista Viver Mente & Cérebro, nr 159, abril/2006) que revela como os vínculos entre a arte literária e o mundo psíquico ajudaram o fundador da psicanálise a elaborar sua teoria e a abrir novos caminhos para a imaginação.  Trazemos aqui dois trechos afins à temática do mês sobre títulos:  

 “[…] Freud era um leitor incansável. Lia de tudo, desde os clássicos até obras populares, como assinala Sérgio Paulo Rouanet em “Os dez amigos de Freud” (Companhia das Letras). O título refere-se a um curioso episódio na vida do criador da psicanálise. O editor Hugo Heller solicitou-lhe que elaborasse uma lista de dez bons livros. Na carta que enviou como resposta, Freud ressalta que sua lista não está baseada nas obras-primas da literatura universal, mas sim em livros que são “bons amigos”. […] […] Os livros que Freud considera “bons amigos” certamente seriam, e são, vistos como literatura popular por setores da crítica. Entre os escritores citados estavam alguns de grande sucesso de público, como Mark Twain, Rudyard Kipling, Anatole France e Dmitri Merejkovski, autor de uma biografia romanceada de Leonardo da Vinci. […]” 

Scliar continua seu texto discorrendo sobre a análise que Freud fazia de personagens literários como se fossem pacientes, dentre outros temas. E finaliza, “Freud, que via nos livros bons amigos, deu sua contribuição no sentido de reforçar os elos afetivos entre os seres humanos e o texto escrito”.  

Sofreria também, ele, do Mal de Montano? É o que ficamos a questionar…

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Títulos em debate

Filed under: Debatendo,Mal do dia,Sobre Títulos... — maldemontano @ 2:43 pm

Neste mês de setembro o blog Mal de Montano traz o debate sobre “Títulos”. Sim. Aqueles textos, palavras ou expressões que estampam as capas dos livros. Confira nossas idéias na categoria “Sobre títulos”.

E você, o que pensa sobre os títulos?

 Que tal arriscar um título para a imagem abaixo?

Qual é o tôulo?

Títulos? Qual título? De crédito?

Filed under: Debatendo,Sobre Títulos... — maldemontano @ 2:22 pm

por  Solange Pereira Pinto

Eis que surge nosso primeiro tema: falar sobre os títulos. Cá estamos, as “Montanas”, a opinar. O que significa o título para mim?  Em um primeiro momento, quando se fala a palavra “título” eu logo penso em eleição. Ainda mais porque estamos numa época próxima, presidencial, aí me lembro do título eleitoral.  

Título também me remete à “titulação” acadêmica. A velha pergunta que se faz a uns e outros: “quais são os seus títulos?”. Graduada? Especialista? Mestre? Doutora? Argth! Coisinha chata essa!  No entanto, como a vida está difícil demais (pelos menos para mim), a conta bancária no vermelho, vem à mente o “título de capitalização”. Aquele que o banco empurra, a gente às vezes compra, não é sorteado, paga por muito tempo, e um dia ele surge na conta dando certo “falso” alívio. Ufa! Cadê o meu numa hora dessas? 

Recordo também dos “títulos da dívida ativa” ou da “dívida pública”. Aqueles que se originam de empréstimos que o país faz, para depois reembolsar os credores. Hum… Esses dão, em geral, dores de cabeça para muitos e vantagens para poucos. Temos ainda os chamados títulos de crédito… Título hipotecário… Chega! São muitos os títulos. Nem todos muito bons…

Mas e daí? O que essa enrolação introdutória tem a ver com títulos literários? Tentarei explicar. O Houaiss diz que título é “nome ou expressão que se coloca no começo de um livro, em seus capítulos, em publicação jornalística, peça teatral, filme, composição musical, programa de televisão etc. para indicar o assunto tratado ou simplesmente para identificar, distinguir, individualizar a obra ou o trabalho em questão”. Um rótulo. Um nome. Uma qualificação… 

Eu confesso. O título me chama sim. Em qualquer situação. Ele está lá berrando: “olhe para mim”. Garrafal. Se o título do filme for, por exemplo, “O matador xyz”, eu corro léguas do cinema. Se vier numa capa uma palavra como “tratados da abcde”, nem pego para tomar conhecimento. É que alguns títulos são tão burocráticos que me lembram todos os parágrafos acima, e desses não preciso. Juro! Bastam-me os obrigatórios títulos da vida. 

Como boa doente das letras, e compulsiva por livros, vou às estantes e fico namorando títulos. É como olhar nos olhos do outro para ser fisgado. Mirar para ver se ali tem alma. Os títulos são, em minha opinião, as janelas ou portas que me levarão às páginas.   Assim como toda aparência, e o título (juntamente com a capa) faz a “embalagem”, pode enganar. Sabe aquele rapaz alto, moreno, sarado, olhos profundos, sorriso lindo que quando abre a boca você quer chorar (de raiva!)? Pois é. Com títulos também acontece isso. São títulos de olhos azuis que escondem futilidades. São títulos sarados que escondem falta de um bom-humor. São títulos de sorrisos perfeitos que escondem linhas tortas. São títulos bem-penteados que escondem histórias desarranjadas. Realmente a gente pode se iludir com um “bom título”.  

Aliás, o que é um bom título? Eta pergunta subjetiva! Cada pessoa tem o seu jeito de escolher, seus critérios, seu encantamento. Um título bom para um, pode não ser atraente para outro. Como tudo. Por isso, não entrarei no mérito se minha eleição de títulos é permanente ou acertada. É boa ou ruim. São títulos de fases. São títulos de momentos. São alguns títulos de eternidade. Tem título que me conquistou e hoje passaria longe. Já outros são, para mim, encantadores sempre. Gosto de títulos curiosos. Gosto também de títulos enigmáticos. E, já peguei muito título piegas totalmente apaixonada.  

Vamos lá. Listarei finalmente alguns títulos que pularam no meu colo (simplesmente pelo título), que acariciei, que levei para cama, que chorei, que ri, que levei para o engarrafamento, para a sala de espera do dentista, que carreguei na bolsa por semanas, que tive vontade de jogar pela janela… As obras são boas? Não responderei, afinal este texto é sobre TÍTULOS, que isso fique bem claro. Mas, sem dúvida alguns me deram crédito… 

“Regue as flores e me espere” (Lídia Ravera); “Um copo de cólera” (Raduan Nassar); “É preciso duvidar de tudo” (Soren Kierkegaard); “Para além do falo”(Teresa Brennan); “Mentiras essenciais, verdades simples” (Daniel Goleman); “Ame e dê vexame” (Roberto Freire); “Famílias terrivelmente felizes” (Marçal Aquino); “Perdas necessárias” (Judith Viorst); “Mulheres que amam demais” (Robin Norwood); “Torre de babel” (Roberto da Matta); “Os piores textos de Washington Olivetto” (Washington Olivetto); “Ensaio sobre a cegueira” (José Saramago); “Arquitetura do arco-íris” (Cíntia Moscovich); “O imbecil coletivo” (Olavo de Carvalho); “O direito à preguiça” (Paul Lafargue); “Crepúsculo dos ídolos” (Nietzsche); “Escuta, Zé Ninguém!” (Wilhelm Reich); “A noite dos vagalumes feéricos” (Maria do Carmos Lobato); “Os fantoches de Deus” (Morris West); “Com licença, eu vou à luta” (Eliane Maciel). Por fim, “Se for preciso grite” (o livro que ainda não escrevi).

Escolhendo o título…

Filed under: Debatendo,Sobre Títulos... — maldemontano @ 2:43 am

 Por Selena Carvalho

Com os textos impressos, já ortograficamente corrigidos, chego ao Ateliê de Literatura um pouco antes da aula: – Só falta agora pensar em um título e na seqüência. Vamos fazer isso enquanto os outros não chegam? Olhar atônito do professor. – Só isso?- Aí me dei conta da dificuldade. É claro, já devia estar pensando nisso há mais tempo. Para alguns, o título, inclusive, vem primeiro que o resto do livro. No meu caso, não. Nem antes, nem depois. Tinha a idéia de colocar o nome de um dos contos com “E outros contos”. – Mas não fica meio Tchekhov, “A Dama do Cachorrinho e outros contos”, “O Beijo e outros contos”? – perguntou ele. E se colocarmos então: Espírito bom, Espírito mau e outras histórias? – Continua Tchekhov: “O Assassinato e outras histórias”. E além do mais, esse título com a palavra “Espírito” pode levar a interpretações errôneas. Já pensou estar na prateleira de “Religiões” ou pior ainda, em “Auto-Ajuda”? Tem também o problema que, quando você escolhe um conto para título, chama muita atenção para ele, tem que ser perfeito. – Ai, Meu Deus, tem algum perfeito?  Fui descartando um a um. – Pode-se pegar também uma frase de um dos textos.- Que tal: “Só por causa de um bigode?” ou então: “Não disse nada, mas na hora pensei que aquilo não tinha a menor possibilidade de dar certo”? – Não, frases assim, só o Marçal. – O livro tem uma coerência, temos que pensar em um título que a reflita ou que seja o seu oposto. – Tem mesmo uma coerência, mas só de estilo, não temática. Complicou! Pegamos o dicionário. Nenhuma luz. Qual o oposto de “Cotidiano”? – “Raro”? – “Contos Raros”, mais pretensioso impossível. – Cheguei a pensar em “Primeiros Contos”- “Primeiras estórias”, Guimarães, ele replicou – E apenas “Contos”? – Mas essa é a classificação, não tem cabimento.- O tempo passando, a angústia tomando conta. – Vamos definir a seqüência, enquanto pensamos?- Começar com os muito bons; o miolo, com os apenas bons, e depois voltar a crescer, com os ótimos. Difícil. Acho-os todos muito bons, senão não estaria colocando
em livro. Posta a questão nestes termos, no entanto, começo a achá-los apenas bons, alguns nem tão bons assim. Quero pô-los todos no miolo. Crise total. Algumas discussões, essa parte classificatória ficou por conta do professor, exímio conhecedor da minha escrita. Gostei do resultado. Percebi que os primeiros e os últimos são os que realmente gosto mais. Se são os melhores, só o leitor. Tempo da aula se esgotando, chegamos a uma conclusão sobre o título. – Se tiver alguma outra idéia maravilhosa na madrugada, te ligo.- Amanhã passo para diagramadora. Depois, para vocês.

Títulos: por que são objetos de culto e adoração?

Filed under: Debatendo,Sobre Títulos... — maldemontano @ 2:35 am

                                                                                       por Fernanda Benevides de Carvalho

 

Quem sofre de entupimento nas coronárias por causa do Mal de Montano não deixa escapar um bom título. Corre sebos, livrarias. Registra o título nos escaninhos da memória, se não pode adquirir seu objeto de culto, de adoração. O Doente de Montano procura a diagramação das capas da mesma forma que o viajante atento capta a cidade desconhecida, lendo obsessivamente o chamariz do comércio das placas nas ruas. 

Um título é como o biquíni ou a sunga: tem de valorizar o miolo. Existem tantos gêneros quantas são as nuances de temperamento. Uns são pé-no-chão, retratam com fidedignidade o conteúdo, cabem no quadro do livro. Normalmente os acadêmicos mantém esta característica de honestidade e de funcionalidade. É como se houvesse uma propriedade articulada num todo orgânico na “Dialética da Colonização”, de Alfredo Bosi. O autor sintetizou no título-ícone o que seu leitor vai encontrar nas páginas seguintes, quase que o adverte, “Dialética da Colonização, hipócrita leitor!”, antes de entrar em contato com o pensamento rigoroso da academia, escute o título. 

Casos curiosos são os “grandes achados”, títulos tão perfeitos que dispensam até a leitura do livro. “A Angústia da Influência”, de Harold Bloom é desse tipo: já contém a premissa, a “angústia”, e a conclusão, ainda a “angústia”. 

Foi o humorista Millôr, no entanto, na opinião dessas blogueiras de Montano, quem bolou o melhor título de todos os tempos, e mesmo atribuído a um conto, merece citação. Convidado a escrever um miniconto para a coletânea de mínimos de Marcelino Freire, aproveitou justamente que o título estava livre dos limites formais exigidos. Sacou de um fôlego só: “Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramirez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do Sul da Flórida para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais”. O miniconto era o seguinte: “Capitão, tem que me estuprar em ½ minuto; às 8 seu navio explode”. 

Outra forma de titular – esse, o verbo correto? – é apelar à carência do leitor. Quando Nietzsche e Platão são usados no título, pretende-se apanhar o leitor carente que quer se tornar ilustrado, mas não tem forças para mamar o original. Os títulos visam cifras, dindim. O escritor Marcos Rey contava, às gargalhadas, junto às mesinhas de latão da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional,
em São Paulo, como a mira num título certeiro de “O Enterro da Cafetina” resolveu a sua aposentadoria e a de seus descendentes – não me lembro se os tinha. Enfim, o leitor gosta dos apelos dos folhetins, se no mercado oficial quer se edificar e ilustrar, no paralelo, gostamos, nós os leitores, de sacanagem.
 

Um desses títulos geniais que apareceram recentemente é “Contos para Ler Cagando”, de Caco Belmonte (aqui cabe uma perguntinha ao autor, monte de quê?). Depois, tudo o que vier estará na descida da ladeira à banalidade, o título será insuperável. Fedorenta é a paródia aos manuais de auto-ajuda do pessoal do Casseta: “Como Vencer na Vida, Mesmo Sendo um Bosta”. 

Editores, às vezes, são protagonistas. Conseguem impor caprichos aos indefesos autores. Com o escritor Ford Madox Ford a coisa chegou a níveis baixos, o editor lhe recusou o “The Saddest History”, livro lançado durante a Iª Guerra; a explicação dada a ele pela negativa foi o seu título originário ter sido considerado sorumbático ou depressivo. Num arrebatamento vaidoso, Ford Madox Ford disse então que pusesse “O Bom Soldado”. Um dia esse nome estampado numa vitrine aprisionou seu olhar. Quando se deu conta, era o seu livro à venda na livraria, titulado com a piada que mandou ao editor. 

Emblemáticos são os títulos dos segmentos viagens/gastronomia. Os que tratam de comida procuram servir o título como aperitivo. Nina Horta, poeta das caçarolas, que tem sobrenome vocacionado para o ramo da culinária, emplacou o seu delicioso “Não é Sopa”. O marido, creio que o crítico Luiz Henrique Horta é sua cara-metade, mais proustiano, lançou o clássico dos clássicos “Em Busca do Prato Perfeito”. Há os de índole reflexiva, ainda em gastronomia e afins: “O Cozinheiro e o Mar”, “Porto – Um Vinho e Sua Imagem”. O sensual “Conforte-me com Maçãs”. O pantagruélico “Comer como um Frade”. O oportunista “Receitas para Saborear Assistindo à Copa do Mundo”. O insólito “Alho e Safiras”. E os de mistério: “O Que Einstein Disse a Seu Cozinheiro”, além de “Um Ganso em Toulouse”. Antes de mencionar as viagens, não podemos esquecer os da linhagem medicina/saúde, onipotentes, conclamativos, que são: “O Poder dos Sucos”, “Deixa Sair”, e as revoluções. Ah, as revoluções, como “A Nova Revolução da Glicose”; e eu que perdi a velha, como fico? 

Do gênero viagens, gosto de “Sob o Sol da Toscana”, que deveria estar inscrito na porta do paraíso, porque o éden só pode ser um torrão de terra como a Toscana, com suas bicicletas, seus moleques, a língua das mammas italianas, as caves e vinherias dos chianti. É assim. Um título puxa outro, que puxa outro, que puxa outro. Lembro-me de Carlos Heitor Cony, voltou de Pompéia, viu o Vesúvio, as cores ocres, os mosaicos e “A Casa do Poeta Trágico”. E há os que tratam do mar. Todos os que descrevem ou evocam o mar merecem amor incondicional. Por exemplo, os livros de Moacir Lopes, novelista das maresias: “Onde Repousam os Náufragos”, “Cais, Saudade em Pedra”, “A Ostra e O Vento”, “Belona, Latitude Noite”. Ainda na linha dos espaços geográficos e míticos, existem os que escorregaram no japonismo. “Paisagem Pintada com Chá”, de Milorad Pavitch, das bandas da Sérvia ou da Croácia, que arriscou um título autenticamente japonês, mais primoroso do que os de Yasunari Kawabata, com os seus etéreos “No País das Neves” ou “A Casa das Belas Adormecidas”. 

Os meus preferidos?Avalovara”, de Osman Lins, título com um quê de árabe, de sonoridade forte, como se fosse a miragem de uma palavra abrindo a boca de sede no deserto. Outro impressionante, cuja beleza rasga a capa, é “Coivara da Memória”, de Francisco Dantas. Os lúdicos, da prosa épica e luxuriante de Evandro Affonso Ferreira: “Araã!”,Grogotó”, “Erefuê”. Lúdico e com toques de humor negro: “O Outro Pé da Sereia”, de Mia Couto e “A Orelha de Van Gogh”, do Scliar. 

O maior título de todos: o epifânico “Cinza das Horas”. Não há nada mais lírico do que a imagem de uma fogueira consumida, de cinzas que já foram brasa e fogo. Traduz a transformação de nossos dias agitados pelo percurso não menos agitado da vida. Ao final, só resta a cinza fria.      

 

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