Mal de Montano

agosto 1, 2010

Resenha – Os suicidas – Antonio Di Benedetto

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01 Agosto, 2010

Entendidos, mal entendidos, desentendidos e tolos

Para Fernanda de Aragão e Ramirez

por Solange Pereira Pinto

Cerrado gelado, julho/2010.

sollpp@gmail.com

“A única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior” (Laing)

 

 

 

Mês qualquer de 2007. A pilha de notícias recortadas amiúde, como diria o Zé Ramalho, me olhava naquele sábado. Vontade louca de ler. Daquelas que somente os fins de semana me permitem realizar em compulsão. Do jeito que eu gosto. Uma possível página amarelada de jornal, daquelas que a gente obsessivamente guarda para ler depois (provavelmente do caderno Dois ou da Ilustrada), me deu piniqueira. Uma comichão de desejo de ler. Titulo ponta de lança. Direto ao assunto. Lancei na lista.

No Brasil a partir de 2005, vagava pela Argentina desde 1967. Ano em que nasci. A fórceps. Na epígrafe a sentença de Albert Camus que eu viria a conhecer somente em 2010: “Todos os homens sãos pensaram em suicídio alguma vez”. Li 42 anos depois por terceiras mãos. “O meu pai pôs fim à sua vida numa tarde de sexta-feira. Tinha 33 anos. Na quarta sexta-feira do próximo mês eu terei a mesma idade”, ele me contou, o jornalista medíocre. Começava a sina. Dele. Minha. Nossa.

Por três anos. Em duas mudanças de apartamento ele não se perdeu. Mas precisou de uma preciosa visita jogar Antonio Di Benedetto novamente em meus braços. Ele, que sempre esteve ali, mirando na altura do meu queixo, diariamente, mais se fez notar esmagado entre a poeira dos tablóides do que em sua postura entrosadamente deitada. Tranqüilo. Alaranjado em meio a José Luis Peixoto e Luiz Antonio de Assis Brasil. “Ver claro é muito difícil”;

Sua conversa sem aspas, ou outros sinais, e direta me atraiu rapidamente. Como nos momentos fáticos dos pontos de ônibus ou elevadores nos quais nos vemos monossilábicos e atamancando as palavras. Entre um respiro e outro. “Tem razão. Trabalhe com Marcela. Por que a Marcela? Lembra, a reportagem do avião caído na cordilheira. Sabe se arriscar. Neste assunto não haverá riscos, vamos lidar com mortos. Não haverá? Assim espero. Quem sabe”. Sem travessões.

Fernanda queria um livro para passar o tempo enquanto eu trabalhava ou dormia. Rotina de visitante, de feriado. Uma semana entremeando 164 páginas. Por que Tiflis e Pizarro não suportaram viver? Qual é o mistério daqueles que se matam? Haveria sete dias para ela conhecer os rumos de Júlia, Mercedes, Bibi, Paolo, Maurício e outros. Tempos depois Fernanda me disse a literatura lhe ajudava a esperar meu alerta. As horas acabarem. Desentendi. “Justamente, ontem à noite sonhei de novo que estava andando nu”. Por muitas vezes isso se repetiria. Conosco.

O encontro do novo grupo de literatura viria acontecer somente quatro meses depois que a Fer tinha voltado para São Paulo. Eu e alguns amigos tínhamos inaugurado o bate-papo com “A Trégua”, do quase homônimo, o uruguaio, Benedetti. E, no mesmo dia, procurávamos por uma obra a ser debatida. Lembrei dos comentários da Fernanda dizendo o quanto a parte que ela lera de “Os suicidas” era divertida e engraçada. Leve. Sugeri. Tolas.

“Pergunto-lhe se seria capaz de fotografar um tremor. […] Insisto: ‘O tremor em si mesmo, não os efeitos e conseqüências: nem pessoas que correm nem uma parede rachada nem a torre caída de uma igreja’”. Era o argumento do personagem para se pensar o significado dos olhos estáticos e abertos de um morto naquele último instante; diante da morte sentiu algo. O que? É possível captar, interpretar? Do mesmo jeito Benedetto ia me guiando pelas impossibilidades de uma leitura só. Além dos entendimentos. Comuns.

Vieram os conceitos de morte. A pesquisa do autor na voz dos personagens. Os fragmentos de textos. Reportagens. Explicações filosóficas. Estatísticas e manipulações. Casadas ficção e realidade. Interpretação. A linguagem pós-moderna tomava as páginas daquele livro do século passado. “Viver é bom, às vezes. […] Ele ficou, no retrato, para sempre, jovem. Nunca será velho. Ninguém poderá humilhá-lo. Se não se vive, não é preciso agüentar que nos deixem viver. Os demais nos deixam viver, mas determinam como”.

Eu tinha apenas uma noite para decifrar a escrita entrecortada e fascinante; para mim – novidade. O grupo literário já revelava, virtualmente, o desapontamento e a nota desfavorável. A pontuação da turma beirava de zero a menos da metade. Muito longe da nove; eu lhe daria. “Prescindo do café-da-manhã, tomo um café preto, na cozinha, onde permanece com seu vinho tinto o copo que servi à Mae West”. Deliro – “Nascemos com morte dentro de nós […] Os corpos já se encontram nas padiolas, mas estas permanecem no chão. Panos ásperos os cobrem. Quero ver o rosto.” – sob edredons que vestem a noite gelada do cerrado. É julho em Brasília.

“Acho que é um pacto. É um pressentimento meu”. A trama vai envolvendo desentendimentos familiares. Traição. Ciúme. Competição. Melancolia. “O meu irmão se suicidou aos 60 anos. Eu nunca havia me preocupado seriamente com isso, mas, quando cheguei aos 50, a lembrança adquiriu vivacidade para o meu espírito, e agora eu a tenho presente”.

A narrativa é atraentemente descompassada, feito peito em arritmia frente ao medo ou à excitação. Ela coloca em plano secundário os nomes dos personagens e o fio da investigação sobre a motivação dos suicidas; apresentados como cadáveres nas primeiras páginas do enredo. Não importa. O mote é outro. O foco, o que se pretende instigar, está do outro lado do miolo impresso pela editora Globo. O livro é a arma que o leitor aponta para si. Para os próprios miolos.

Interessante, além da polêmica que o livro gerou no debate literário sobre a sua qualidade, é o preconceito que o título evidencia. “Os suicidas”. Colado ao lado do nome de seu autor. Logo abaixo da mancha alaranjada que escorre do topo para ilustrar sua capa. Aquarela? Sangue? Quem enxerga o que? A escolha em ler a obra, tardiamente traduzida no Brasil, gerou suspeitas. Um amigo disse: ela (eu) deve estar muito desiludida, deprimida e melancólica para sugerir essa leitura. “Doze, doze suicidas já houve entre os nossos. Eram fantasias de glória, revanches de quem vinha de uma existência de humilhada adversidade? Ele sonhava isso ou eu sonhei que ele sonhava?”. Mal entendidos. Desentendidos.

“Senti um tremor e indaguei na minha alma se era medo e eu não soube me responder, mas descobri que também podia ser a irrupção de um vivo gozo. Nesse momento, me acometeu algo inesperado, uma espécie de forte ataque de vaidade: enrolei o papel…”. Tive a chance de saber mais da morte por outras mentes e viventes. Durkheim. Cleópatra. Hamlet. Kierkegaard. Kant. Camus. Platão. Pitágoras. Camus. Balmes. Buda. Confúcio. Voltaire. Hegel. Nietzsche. Schopenhauer. Hume. Napoleão. Em complemento às religiões. “A tarde flui lentamente para o ocaso”.

“De fato, a questão não é por que eu me matarei, mas por que não me matar”. Às 17 horas, quatro antes do encontro, fechei a última capa entre: entendidos, mal entendidos, desentendidos e tolos. “São 11 horas. Terei de avisar, o que será embaraçoso. Devo me vestir porque estou nu. Completamente nu. Assim se nasce”. Vesti uma calça preta, uma blusa azul. Passei batom. Cheguei atrasada no Café com Letras. Pedi um chopp. Entre seis, o debate começou. “O vento continua, faz uuh, enfia-se por entre os edifícios”. Eu sonho também que vou descalça para o trabalho. “Sobra-me noite”. Ela chega.

setembro 20, 2008

O casulo de nós mesmos (Resenha – Seda, de Alessandro Baricco)

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 9:43 pm


Por Solange Pereira Pinto

O livro “Seda”, de Alessandro Baricco, escrito em 1996, é inexplicavelmente lindo. A alegoria, construída com maestria, nos faz sentir como os bichos da seda a tentar virar mariposas. O texto, tramado como as voltas das mãos de um ilusionista, surpreende. “Uma vez tivera entre os dedos um véu tecido com fio de seda japonesa. Era como ter entre os dedos o nada”.

Narrativa breve. Concisa. Não sobra e nem falta. Encanta. Tal qual a borboleta para nascer, Hervé Joncour, protagonista, segue seu destino com uma naturalidade que pode beirar ao nada. Como o cair de uma tempestade… “Era, além disso, um daqueles homens que amam observar a própria vida, julgando imprópria qualquer ambição de vivê-la”.

Baricco empresta à obra uma composição melodiosa do ritmo da prosa à escolha dos nomes de lugares, das personagens, dos detalhes; aspecto talvez influenciado por sua formação musical.

O recurso da repetição de trechos ampliados e sutilmente modificados dá no leitor a impressão de rotina, de “mundo que gira em torno de si mesmo”, de bicho a se revirar dentro do casulo para confeccionar o fio da seda.

A pacata Lavilledieu, o visionário-idealista Baldabiou, o instigado Hervé Joncour, o misterioso Japão e Hara Kei, e o contraponto feminino de Hélène, a menina dos olhos sem corte oriental, Mme. Blanche fazem as imagens sensoriais de Baricco correrem no sangue do leitor. São pequenos e certeiros picos na veia embriagando, inebriando… até o fim do mundo.

A seda. Os segredos. A sedução. “Esperou longamente, no silêncio, sem mover. Depois, lentamente, retirou o pano molhado dos olhos. Já não havia quase luz, no cômodo. Não havia ninguém, ao redor. Levantou-se, apanhou a túnica que jazia dobrada no chão, colocou-a sobre os ombros, saiu do cômodo, atravessou a casa, chegou diante de sua esteira e se deitou. Pôs-se a observar a chama que tremia, diminuta, na lanterna. E, com cuidado, parou o Tempo, por o todo o tempo que desejou. Foi um nada, depois, abrir a mão e ver aquele papel. Pequeno. Poucos ideogramas desenhados um embaixo do outro. Tinta preta.”

Disse Walter Benjamin que “toda ordem é precisamente uma situação oscilante à beira do precipício”. Lá estava Joncour. Dedilhando a seda. “Tinha atrás de si uma longa estrada de oito mil quilômetros. E diante de si o nada. De repente viu aquilo que julgava invisível. O fim do mundo”.

A rotina caminha, se repete trecho a trecho. Num átimo algo que muda… Para iludir uma rotina que insiste em se repetir… Assim como nós nos insistimos. Uma dor estranha. Tentar sair do casulo de nós mesmos… para chegar ao fim do mundo.

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Brasília, chuva fina sobre o cerrado, 20 de setembro de 2008.

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novembro 8, 2007

Livro: O Bispo – A história revelada de Edir Macedo

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 11:18 am

Primeira edição de 700 mil exemplares esgotada

É fácil julgar ao invejar

 

Domingo, dia de culto, dia de missa, dia de Faustão, eu estava passeando pelo Café com Letras e encontrei ‘O bispo’ em primeiro plano no balcão do caixa. Confesso que sempre tive preconceito relacionado à Universal, aos evangélicos, aos carolas, aos fanáticos religiosos de qualquer espécie. Aliás, fazendo a famosa mea-culpa: aversão a qualquer fanatismo que não fosse o meu.

Contudo, no caso Edir, eu não sabia a outra versão. Nos dias de hoje é muito fácil se formar uma opinião apenas por um lado da história. Vence a mídia que você mais acessa, mais participa, mais lhe atinge.

Quero dizer com isso que a interferência dos grandes meios de comunicação de massa (MCM) “pautam” nossas idéias, nossos pensamentos e até nossas atitudes (ou principalmente, o que é pior). TV, rádio, internet, jornais…

Porém, minha curiosidade é bem maior do que o meu preconceito e sempre será. Eu boto a cara e quero chafurdar na realidade vista diretamente pelos meus olhos. Comprei o livro (estava ansiosa pelo lançamento). Especular a vida do Edir Macedo, em sua biografia autorizada, foi um prazer. Nem tanto pela leitura, que, apesar da escrita fluente, da excelente diagramação e tipologia, peca por repetir demais. Eu li, eu gostei.

Levei um susto! Embora se tenha em mão um exemplar do “olhar do outro” (no caso o dos autores da obra) dá para se refazer conceitos. A notícias que todos temos, pela mídia “global” (imperial e católica de carteirinha) é que o bispo é, em resumo, charlatão e estelionatário.

Vejamos: qual igreja, religião, não é chartalã e estelionatária? Simples: aquela em que acreditamos! Para os ateus o ateísmo, para os budistas o budismo, para os católicos o catolicismo. Daí a César o que é de César…

Todas as cristãs, praticamente, prometem milagres, cura, um pedaço do céu, a salvação do inferno, realização de promessas etc. Todas pedem uma “oferta”, “oferenda”, “dízimo”, “contribuição” etc.

É o câmbio da salvação: pague e (um dia) terás!

Óbvio que há quem “pague” com dinheiro! A maioria decerto. Há quem pague com doações patrimoniais, alimentos, trabalho voluntário. Uma “ajudinha” daqui e outra dali.

Questionar os “pagamentos” feitos à igreja católica, por exemplo, não entra em cena. Por quê? Estamos acostumados! Simples assim.

Nossa cultura tem base católica e seus dogmas estão profundamente arraigados em nossas atitudes “cristãs”. Mas ela prega o sacrifício, o voto de pobreza, o celibato.

O catolicismo prega a miséria, eu diria.

Eu que fui batizada, fiz primeira comunhão e crisma, aprendi, em síntese, a me sentir culpada. Sentir culpa de transar. Sentir culpa de ganhar dinheiro. Sentir culpa de ambicionar conforto. Sentir culpa de viver com os prazeres “da carne e da grana”.

Lucrei frustrações e culpas que até hoje estão impregnadas no “automático” de minhas ações (claro que quando percebo mudo o rumo imediatamente). Ser “humilde”, dar a outra face e carregar a cruz me foi ensinado. Vida de “penitências”, de “pai-nosso” automático, de 230 aves-maria!

Sim. Nas outras também existem dogmas, submissões e blablabla. É por isso que jogar as pedras no Edir Macedo se torna um pouco ridículo. O papa é pobre? Come pão velho e água? Veste roupa de feira? Não, o papa é nobre! E o Edir é o papa da Universal.

Não, eu não me tornei evangélica. Continuo sem religião, entretanto não aprecio injustiças midiáticas advindas de visões rasas.

Acontece que os neo-evangélicos invadiram a praia e tomaram o terreno monopolizado da Igreja Católica. Isso sacudiu. Abalou. “Almas” foram “perdidas” para a concorrência. Lembremo-nos que estamos no capitalismo globalizado. Perder fiéis significa perder poder, que significa perder dinheiro, bens etc.

Acusam o Edir de atentar contra a “fé pública”. Nada diferente, na minha opinião, do que faz a publicidade de celulares e os noticiários da TV que miram a camêra e editam precisamente as imagens que “devemos” ver… Ah, e o Congresso Nacional, o Executivo, o Judiciário, os padres pedófilos, as freiras autoritárias, as religiosas que usam Gucci… de uma lista sem-fim não escapam às distorções.

A Folha On-line acusa o jornalista Douglas Tavolaro (autor do livro) de ser “parcial”, pois foi pago por seu patrão Edir para escrever…

Digam-me, então, sobre a mídia. Diariamente ela atenta contra o público ao selecionar as “matérias” que vão ao ar e mais, todos jornalistas são pagos por seus patrões para escrever e por isso parciais, não é mesmo? Ou neste caso há dois pesos e duas medidas? (adoro usar clichês em assuntos clichês).

Voltando ao livro “O Bispo”. A obra mostra o que pensa Edir. Sim, o que Edir quer mostrar sobre ele. Sim, o que Edir assume como sendo “ele”. Sabe, vi um Edir sincero. Autêntico. Posso dar meu testemunho: ele prega e dá exemplo! Ele quebra o paradigma da massa pobre, coitada, carente, sem eira, sem auto-estima, penitente, dócil.

Edir sacode a massa e chama, clama, à ação!

Ontem fui em um culto evangélico, como o São Tomé – ver pra crer -, percebi que o que lá acontece é uma verdadeira terapia popular e o dízimo é o seu pagamento. Fundadores de terapias, de religiões, de seitas é que ditam as regras, né! Muitas vezes o que se muda é apenas o nome das coisas, vamos usando sinônimos e criando palavras novas. Roupagem diferente para antigas ações.

Lembrando de outros métodos, quem conhece a psicanálise sabe o quanto é importante o investimento do paciente em sua cura e isso, necessariamente, passa pelo metal. Em psicanálise o dinheiro (o valor da consulta paga ao psicanalista) faz parte da terapia. Se investe tempo e grana!

Se temos, hoje, consultas terapêuticas custando em média R$ 120,00 (por uma hora), em se tratando de dízimo equivaleria a um salário mensal de R$ 4.800,00. Então, quem ganha um salário mínimo poderia pagar cerca de R$ 40,00. Essa é a conta! Um “culto-terapêutico” fica na ordem de R$ 10,00 para quem ganha R$ 400,00. E, ainda, com direito a duas horas e meia de tempo, com direito a música (lembram do couvert de bar? mínimo R$ 3,00 por pessoa), interação grupal… E, mais, elevação da auto-estima pela fé! “Tudo pode quem nele crê”.

Eu li num comentário que: “crente” é quem “crê” mas não se diz em “quê”.

Crer é crer e dar o dízimo é crer e dar a oferta é crer. Jogar flores e champanhe para Iemanjá é crer (e poluir o meio-ambiente). Comer hóstia é crer. Rezar terço é crer. Ser voluntário (mão-de-obra grátis) é crer. Fazemos o que acreditamos que irá ajudar em nossa crença. Ler Saramago é crer. Ler boa literatura é crer nas possibilidades da arte e do intelecto.

Crer é crer. Dar crédito.

Edir Macedo crê no que diz. Seus fiéis também. O problema dele é ser claro. Ele é a favor do aborto e diz que é. Ele apóia o uso de camisinha, o controle da natalidade, o conforto, a riqueza material e espiritual. Ele é contra um monte de coisas também. Quem não é…

Os templos da Universal são requintados, confortáveis, suntuosos. O dinheiro dos fiéis é reinvestido em cadeiras macias, em piso nobre, em ar-condicionado, em pagamento de “salários”. Algums padre trabalha de graça? Algum profissional quer trabalhar de graça?

Edir mostra que o que é bom, é bom, e deve ser para todos e não para poucos. Todavia não é parado que se conquista! Edir é movimento. É modelo.

Por fim, prefiro um Edir Macedo que conscientiza milhões de pessoas da “massa” (que deixam de ver TV apenas) para por a mão na massa e mudar de atitude. Ele prega que não se tenha filhos, pois o mundo já está lotado. Ele prega a adoção. Ele prega o não uso de drogas. Ele prega a união da família. Ele prega valores cristãos e capitalistas.

Ele é atual e prega para uma sociedade atual.

E, no final, como qualquer profissional, como qualquer terapeuta, ele ganha por isso. É injusto?

Por Solange Pereira Pinto

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A guerra da TV Globo Católica com a TV Record Evangélica está no começo. Talvez, a sociedade se equilibre mais.

Se a TV Record foi comprada com dinheiro “ilegal”, a TV Globo também e outras tantas mídias, rádios, afiliadas bláblábla…

outubro 30, 2007

A menina que roubava livros

Filed under: Mal do dia,Resenhas — maldemontano @ 10:05 pm

O Globo  / Data: 3/3/2007
Crença no poder salvador das palavras

Para a heroína de Markus Zusak, literatura é refúgio num mundo que desmorona

Por Mara Bergamaschi ‘Uma cordilheira de escombros fora es­crita, desenhada, erigida à sua volta. Ela estava agarrada a um li­vro’. A descrição que o escritor australiano Markus Zusak faz de sua heroína, a adoles­cente Liesel Meminger, quan­do ela sobrevive a um bombar­deio na Alemanha de 1943, não vale só para este momento, mas para todas as 500 bem en­redadas páginas de seu romance ‘A menina que roubava livros’. Antes mesmo do início da Guerra, Liesel Meminger já se agarrava a livros para ten­tar escapar ao desmorona­mento de seu mundo. Aos nove anos, após perder o irmão e ter de separar-se da mãe, ela vê cair na neve do ce­mitério o que viria a ser seu primeiro livro roubado – o ‘Ma­nual do coveiro’. Nessa épo­ca, a alemãzinha, filha de pais comunistas perseguidos pelo hitlerismo, não pudera freqüentar direito a escola e mal conseguia juntar sílabas. Não pôde, portanto, sequer come­çar a decifrar seu bizarro livro. Cinco anos mais tarde, na hora em que as bombas arrasarem a rua de seu lar adotivo, pode­remos constatar o surpreen­dente progresso de Liesel. Em meio à Alemanha nazista, pessoas compassivas ‘A menina que roubava li­vros’, primeira obra de Zusak lançada no Brasil – a quinta de sua carreira – celebra, antes de mais nada, a crença no po­der das palavras de salvar e manter vivos os que perderam muito ou quase tudo. É um hino à literatura como meio de ex­pressão, capaz de amenizar até os mais terríveis pesadelos. E de irmanar pessoas, mesmo que elas aparentemente só tenham a compartilhar medo, an­gústia e desespero. É também uma aposta na Humanidade ­ou pelo menos em 10% dela. O autor explica – ‘Em 1933, noventa por cento dos ale­mães manifestavam um apoio resoluto a Adolf HitIer. Isso deixa dez por cento que não o manifestavam’. Nascem nesse universo minoritário seus principais personagens, pes­soas comuns, compassivas e independentes. Como o pintor de paredes Franz Hubermann, pai adotivo de Liesel, disposto a cumprir uma promessa de ajuda feita há 20 anos – mes­mo que isso signifique o risco de acolher um jovem judeu, Max Vandenburg, no porão de sua pequena casa. Mais uma vez o escritor exalta a palavra, desta vez não a escrita, mas a empenhada. O amor pelos livros conduz e sustenta a engenhosa estrutura do romance. As histórias lidas por Liesel no período de 1939 a 1943 – roubadas, oferecidas e escritas para ela são usadas para organizar a obra em nove partes parcialmente lineares. São livros dentro do livro. A dé­cima e última parte chama-se ‘A menina que roubava livros’, exatamente o título que está em nossas mãos. Ao lê-lo, encon­traremos fragmentos dos vá­rios outros livros de Liesel, além de duas histórias comple­tas – ‘O vigiador’ e ‘A sacudido­ra de palavras’. Há um ano na lista de mais vendidos no NYT Escritos e ilustrados por Max, que se torna grande ami­go de Liesel, esses dois textos nascem sobre as páginas ar­rancadas e pintadas de branco de ‘Mein Kampf’, a bíblia na­zista assinada pelo próprio führer. Para completar, somos ainda brindados com os tex­tos curtos e precisos do ‘Diá­rio da Morte’, porta-voz especial em tempos de guerra. E é também a Morte quem resgata para a posteridade algo pre­cioso que se perderia na ‘cor­dilheira de escombros’ dos bombardeios. É nesta sofisticada monta­gem – e não no simples fato de escolher a Morte como nar­radora – que podemos me­lhor admirar a capacidade criativa de Zusak. Curioso a ponto de facilitar o marketing em torno da obra, o artifício de usar a Morte pouco acrescenta à narrativa – podemos imaginar outros personagens em seu lugar -, e tem o efeito duvidoso de infantilizá-la. Uma opção talvez deliberada, já que o público-alvo do escri­tor, hoje em franca expansão, tem sido o juvenil. Aos 32 anos, Zusak viu seu sucesso consolidar-se em seu país e al­cançar o Reino Unido e os Estados Unidos. ‘A menina que roubava livros’ mantém-se há quase um ano na lista do ‘New York Times’ dos títulos infan­to-juvenis mais vendidos. Por fim, nos perguntamos por que um jovem escritor, morador da ensolarada Sidney, resolveu dedicar-se, 60 anos depois, ao período mais sombrio do ‘continente cin­za’. Primeiro – porque o tema é parte de suas origens. Seus pais, aos quais dedica o livro, viveram quando crianças os efeitos do nazismo e da guerra na Alemanha e na Áustria. Em sua obra, os episódios da me­mória familiar transcorrem na pequena Molching – uma alusão a Olching, cidade cortada pelo rio Amper, próxima a Mu­nique e a Dachau, onde foi er­guido o primeiro campo de concentração de Hitler. Pode­mos imaginar uma segunda ra­zão – porque a Morte continua a ter de trabalhar sem parar, acossada por ‘aquele novo chefe que pede o impossível e quer sempre mais’. Que nós chamamos de guerra.

março 5, 2007

Resenha – O paraíso na outra esquina – Llosa

Filed under: Resenhas — maldemontano @ 11:35 pm

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O sonhador pragmático

 

Em O Paraíso na Outra Esquina, Mario Vargas Llosa volta a prestar homenagens aos idealistas que rejeita na vida real

 

Por José Castello

  

O peruano Mario Vargas Llosa sempre defendeu uma cisão profunda entre a literatura, domínio do arbítrio e da mentira, e a vida, regida pelo bom senso e pelo realismo. “No campo político, é preciso sempre manter a lucidez, mesmo que isso pareça loucura”, disse ele certa vez. “Já no campo literário, atuam livremente a loucura, os fantasmas, os mitos.” Aplicando essa fórmula à sua própria vida, Llosa sempre se declarou um inimigo das utopias, como a comunista, e defendeu, em contrapartida, o liberalismo e o pragmatismo na política. Foi com esse ponto de vista que, em 1990, chegou a se candidatar à Presidência da República do Peru, e quase venceu, terminando derrotado por Alberto Fujimori — fato surpreendente que talvez demonstre que, na verdade, a realidade é muito mais complexa e sinuosa do que Llosa supunha.  

Mas, quando escreve seus romances, Llosa é um admirador entusiasmado de personagens desviantes, rebeldes e marginais. Tido por muitos como seu melhor romance, Conversa na Catedral (1969) narra um longo diálogo entre dois personagens melancólicos, Santiago Zavalita e Ambrosio, num botequim de quinta categoria dos subúrbios de Lima. Um de seus romances mais elogiados, A Guerra do Fim do Mundo, tem como personagem central o rebelde Antônio Conselheiro e sua aventura
em Canudos. Com O Paraíso na Outra Esquina, Llosa se dedica, mais uma vez, a trabalhar com personagens movidos pela revolta e pela utopia. O título do romance, um tanto irônico, não macula o fascínio que ele demonstra por Flora Tristán e Paul Gauguin, os dois protagonistas do livro.
 

Na epígrafe do romance, tomada de empréstimo do poeta e crítico francês Paul Valéry, o escritor peruano já denuncia o sentimento que o move: “Que seria, pois, de nós, sem a ajuda do que não existe?” Esse inexistente, que sua literatura tem como objeto apaixonado, é justamente o que Llosa repudia na vida real — e, por causa de seu pragmatismo, ele sempre foi um admirador de Margaret Thatcher e um inimigo de Fidel Castro, chegou a sugerir ao presidente Lula que se espelhe no premiê britânico Tony Blair, e não no presidente venezuelano Hugo Chávez, e, sempre que tem uma chance, defende a eficácia do realismo contra as utopias. “As utopias podem levar ao inferno, como aconteceu no nazismo”, afirma. 

Contudo, a feminista Flora Tristán e seu neto, o pintor Paul Gauguin, foram, cada um a seu modo, personagens históricos geridos, justamente, pelo desejo de mudança radical. Sem conseguir livrar-se inteiramente de seu estilo realista, Llosa começou a escrever seu romance, como de costume, debruçando-se sobre uma ampla pesquisa histórica, sobre a qual se permitiu depois, como sempre também, exercitar muitíssimas liberdades. O Paraíso na Outra Esquina retrata, justamente, a luta de Flora e de Gauguin para se desvencilharem de suas vidas rotineiras e deploráveis e de seu empenho em alcançar, em vida, algo parecido com o paraíso. O livro os apanha, contudo, já no fim de suas vidas, Flora abatida pelos sofrimentos que a realidade lhe impôs, Gauguin atormentado pelos sintomas brutais da sífilis. Como se Llosa quisesse dizer ao leitor que a utopia, apesar da beleza que descortina, é incapaz de excluir a dor.  

Em seu famoso ensaio Cartas a um Jovem Novelista, de 1997, Llosa já descrevia, com frieza, seu método literário: “A ficção é uma mentira que encobre uma profunda verdade: ela é a vida que não foi, a que os homens e mulheres de uma época quiseram ter e não tiveram e por isso tiveram que inventá-la”. Llosa argumenta, então, que a rebeldia dos escritores “é muito relativa”, já que grande parte deles, em sua vida pública, não se considera, em absoluto, um “dinamitador secreto”. Ele está, sem dúvida, falando também de si. Para Llosa, a matéria da literatura é uma forte intranqüilidade diante do mundo real — mas isso não significa dizer que os escritores sejam sujeitos intranqüilos e rebeldes; ao contrário, indica apenas que é na literatura que eles vêm desafogar aquilo que, de fato, não chegam a ser, ou não se permitem ser.  

Agora, ao se entregar à vida de Flora Tristán e de Paul Gauguin, Llosa leva essa tese ao limite. Para Flora Tristán, nascida na França em 1803, o paraíso estaria numa sociedade em que as mulheres não se sentissem diminuídas, ou manipuladas. Filha de um coronel nascido em Arequipa, Peru — a mesma cidade
em que Llosa nasceu —, Flora começou a trabalhar como operária numa tipografia. Casou-se, separou-se, foi perseguida pelo marido (que tentou matá-la) e precisou se refugiar na Inglaterra, até viajar ao Peru, em 1835, disposta a reclamar uma herança que nunca conseguiria receber. Leitora apaixonada de Saint-Simon, Fourier e Robert Owen, tornou-se não só escritora, mas uma ativista revolucionária, passando a lutar contra o obscurantismo, a escravidão, a pena de morte e, sobretudo, a favor da emancipação feminina. Há quem afirme que Flora Tristán inventou a classe operária antes de Marx, o que não está longe da verdade. Seus mais famosos ensaios foram publicados na década de 1840, pouco antes de sua morte, em 44. Foi ela quem lançou a idéia de uma União Universal de Operários e Operárias, espécie de rascunho da 1ª Internacional Comunista.
 

Seu neto, Paul Gauguin, filho de sua filha Aline, foi também, como a avó, um eterno descontente com a realidade que lhe coube viver. E também com as regras, tanto as acadêmicas como as impressionistas que vigoravam na pintura de seu tempo. Como a avó Flora, ele foi um rebelde, sempre atraído pelo desejo de aventura, sempre insatisfeito com os fatos que a vida lhe oferecia. Já aos 17 anos, tornou-se cadete da Marinha e, a bordo do Luzitane, chegou a visitar o Brasil, estando em Salvador e no Rio. Sua amizade com o pintor francês Camille Pissarro, nascido nas Antilhas, o arrastou de vez para a pintura. Mais tarde, também foi grande amigo, numa relação conturbada, de Van Gogh, com quem chegou a morar, em Arles, na França. No início de sua carreira, sofreu duras críticas, vindas de nomes como Renoir e Monet. Depois de uma temporada na Dinamarca, em 1887, decidiu mudar-se para a América Central, em busca de uma vida antiburguesa e tipicamente selvagem, mas a aventura não chegou a durar um ano. Em 1891, sempre em busca da utopia primitiva, partiu novamente, dessa vez rumo ao Taiti. Morreu na miséria, em 1903, e deixou seu sonho por completar. E não se pode dizer, no entanto, que tenha sido um sonho fracassado, na medida em que ele se perpetuou em suas telas.  

Mas, admite Mario Vargas Llosa no mesmo ensaio já citado, “o romancista que não escreve sobre aquilo que em seu íntimo o estimula e mobiliza não é autêntico e o mais provável é que seja também mau novelista”. No entanto, esse predomínio do desejo pessoal deve estar necessariamente associado, e até submetido, Llosa entende, a um “fator realista”. A literatura toma o real para vesti-lo com suas fantasias; como indivíduo, porém, o escritor, ao contrário, o agarra para despi-lo de suas ilusões. E assim autor e personagens se distinguem e se completam. A fórmula cindida de Llosa o transformou num escritor que, se milita como um pragmático, escreve como um sonhador. Ele parte sempre de personagens históricos não para retratá-los, mas para neles fisgar aquela centelha de insatisfação e até de delírio que os tornou especiais. Como somos feitos não só de fatos, mas também de sonhos, Llosa termina por ser muito mais preciso e abrangente que os historiadores. E esse é o ponto em que sua literatura se engrandece: ela desvela o real para cavar, sob ele, o magma da imaginação. E, assim, celebrar a força das palavras pois, como ele já disse, quando se trata de histórias, “são as palavras que as contam”.  

Fonte Bravo on-line

 

 

dezembro 6, 2006

O velho Mal… por anos… Parte I – Gustave Flaubert

Filed under: Mal do dia,Montanas,Outros Escritos,Resenhas — maldemontano @ 12:00 am

  Por Solange Pereira Pinto 

Não sei que nome dar a este texto. Nem o título eu consegui conceber muito bem. O fato é que estou encantada (ou viciada?) pelos “desabafos” de Gustave Flaubert. Por isso, resolvi fazer uma escavação e apresentar aqui no Mal de Montano pedaços de trilhas.

A vontade mesmo era dizer a todos: LEIAM. Então, eu digo: LEIAM.

No entanto, para quem sabe despertar um desejo, não me contenho e vou divulgar uns sublinhados. (É. Eu tenho o péssimo hábito de marcar os livros que me marcam. Talvez, uma doce vingança. Além de fazer meus comentários nos mínimos espaços brancos que circundam as palavras impressas, sejam agradáveis ou não).

Não quis “interpretar”, pois como, apropriadamente, disse Kierkegaard cada um que leia (de preferência o original, que não é aqui o caso) e tire suas próprias conclusões. Apesar de que “selecionar” já é uma maneira de induzir o outro a um olhar “prévio”. Tatarará! Vamos nessa!

  

Gustave Flaubert (1821-1880) começou a escrever “Madame Bovary” em 1851 (aos 30 anos) e finalizou a obra em 1856. Isso é o que diz “Cartas Exemplares” (Ed. Imago, 2005, tradução de Carlos Eduardo Lima Machado). Mas, a verdade é que Flaubert inicia sua devoção pela escrita ainda menino, por volta dos dez anos.

  

As correspondências estão “divididas” em três partes. Infância. Os anos de aprendizado (1821-1851). Os anos de Madame Bovary (1851-1856). De Salammbô a Bouvard et Pécuchet (1856-1880).

  

Na primeira parte do livro, as correspondências enviadas a Ernest Chevalier, Gougaud-Dugazon, Louis de Cormenin, Alfred Le Poittevin, Maxime du Camp, Louise Colet, Louis Bouilhet, Mme. Anne-Justine-Caroline Flaubert (sua mãe) revelam a ansiedade, os obstáculos, a obsessão e as dúvidas do futuro autor de Bovary em relação à arte de escrever.

  

Em muitos trechos ficam claros os conflitos vividos tão jovem. Ele que, por assim dizer, já “sofria do Mal de Montano”, a “doença diagnosticada” na obra de Enrique Vila-Matas. Então, nessa brincadeira do “Mal”, vamos a algumas passagens.

  

Diz para Ernest Chevalier, aos 18 anos: “[…] se eu vier a tomar alguma parte ativa no mundo será como pensador e desmoralizador. Eu serei obrigado a dizer a verdade, mas ela será horrível, crua e nua.” (p. 18).

  

Aos 21 anos escreve à Gougaud-Dugazon: “[…] Mas o que me freqüenta a cada minuto, o que me tira a pena das mãos quando estou tomando notas, o que me faz deixar o livro quando leio, é meu velho amor, é a mesma idéia fixa: escrever! É por isso que não faço nada, embora me levante bem cedo e saia muito pouco” (p. 19).

  

À Alfred Le Poittevin revela: “[…] A única maneira de não ser infeliz é encerrar-se na Arte e contar como nada todo o resto; o orgulho substitui tudo, quando está assentado sobre uma base firme. Quanto a mim, estou de fato muito bem, depois que aceitei estar sempre mal”. (p. 21).

  

“[…] Estou me tornando artista com uma dificuldade que me desola; vou acabar sem escrever uma só linha. Creio que poderei fazer coisas boas; mas me pergunto sempre, para quê?”. Trecho da carta enviada à Máxime du Camp em 1846. (p.24).

  

Já Louise Colet, poetisa, amante e confidente de Flaubert, recebe a maioria das correspondências disponíveis na primeira parte do livro. É para ela que ele descreve mais profundamente a si mesmo, das contradições, paradoxos, aos  “piores e melhores” sentimentos quanto à vida, aos críticos, e ao ato da escrita. A angústia, decepção, instabilidade, euforia e persistência acompanham suas linhas. Alguns fragmentos a seguir:

   “[…] A deplorável mania de análise me esgota. Eu duvido de tudo, e até mesmo de minha dúvida.” (p. 25).  

“[…] Eu sempre evitei colocar algo de mim em minhas obras, e no entanto coloquei muito.” (p. 27).

  

“[…] Eu escrevo para mim, só para mim, como eu fumo e como eu durmo. É uma função quase animal, de tão pessoal e íntima”. (p. 34).

  

“[…] Há dias em que fico doente e em que, à noite, tenho febre. Mais eu avanço e mais eu me acho incapaz de alcançar a Idéia. Que mania esquisita essa de passar sua vida a trabalhar sobre as palavras e a suar todo dia para arredondar períodos! Há momentos, é verdade, em que se goza, desmedidamente; mas em troca de quantos desencorajamentos e amarguras não se compra este prazer!”. (p. 35).

  

“[…] Me vejo tentado a abandonar tudo e fazer coisas mais fáceis”. (p. 36)

  

“[…] Não é um negocio fácil ser simples. Eu tenho medo de cair em Paul de Kock ou fazer Balzac ao modo de Chateaubriand.” (p. 43). Parte final da carta escrita à Louise Colet, em 1951, quando começa o romance Madame Bovary.

  

Em seguida, “Cartas Exemplares” traz o escritor atormentado com a elaboração do seu mais famoso romance. Contudo, essa parte eu ficarei devendo (nem vou prometer fazê-la tão breve! Às vezes me falta o ânimo tão bem descrito por Gustave).

   Posso adiantar que as correspondências desse segundo período são fascinantes. Mostra um escritor refletindo profundamente sobre sua atividade. Um Flaubert mais maduro, e ainda assim com todos dilemas e inseguranças que parecem jamais abandonar quem decide viver para e pelas palavras. A terceira parte lerei amanhã. 

É ler para ver além do que eu vi. Combinado?

novembro 27, 2006

Budapeste – Chico Buarque

Filed under: Resenhas — maldemontano @ 10:53 am

  

Por Solange Pereira Pinto 

em 23.10.2003

  

Visitar “Budapeste” pelos olhos verdes de Chico Buarque, que lá mesmo dizem nunca esteve, mais que uma viagem por sua fantasia é um encontro com o princípio de vida de um escritor; não somente do escritor autor ou do protagonista ghost writer, ora José Costa, ora Zsoze Kósta, mas com a necessidade de um princípio de unificação de qualquer escritor com sua escritura.

  

Debruçar nas 174 páginas, envolvidas por uma capa ocre de letras espelhadas, faz o relógio parar, o tempo repetir. A linguagem fluida, e muito bem construída, como é a marca do poeta-músico-trovador, conduz pela aparência simples aos intricados pensamentos e labirintos de aspirações. 

 

Num rompente diria que a trama de Budapeste, que não intenciona mostrar a capital húngara, tão somente a aura de um cenário estrangeiro que se alterna com a conhecida paisagem carioca, para abrigar as incertezas de José Costa em ficar no Brasil, divertindo-se na própria língua, ou de partir para conhecer o magiar o transformará
em Zsoze Kósta, revela o sentimento solitário de um escritor que ao narrar acontecimentos de vidas alheias descreve a própria existência; que ao emprestar suas palavras ao desejo e vaidade de um interlocutor que lhe contrata – para possuir uma voz que não lhe pertence – transforma-o em si mesmo  e vice-versa. A mistura de identidades, a falta destas.

  

Entre passagens de um amor a o outro, de uma necessidade a outra, mostra a resignação, do escritor fantasma, pela fama do anonimato que lhe dá sustento e pela libertação que contém uma inquietação, embora dita por um autor inventado, que prefere o renome, comum a quem se esconde, a quem se promove e a quem só a escuta. A história revela que há um fio costurando todos a uma mesma vida que sobrevive de uma mixagem de palavras, fantasias e linguagens.

  

Aponta um fruto que é suculento de mastigar em qualquer tempo e que o sabor não se esvai por já ter sido mastigado, e nem importa por quem, mas porque o gosto continua a se perpertuar da fonte, para quem colhe ou cria, do ser humano que não se esgota em produzir palavras, inventar linguagens, em se comunicar para se distinguir, e em acreditar na sua natureza crescente, progressiva, que leva à evolução da espécie; fazendo-se imortal em páginas, páginas e páginas, não interessando muito quem seja o autor, pois, sempre, na essência será ele mesmo – o Homem – e sua complexidade – razão, inteligência, sentimento e emoção humana – o que finalmente iguala ilustres e desconhecidos que buscam a si mesmos em suas histórias de vidas inventadas, assim como é.

novembro 12, 2006

Resenha: A Identidade (Milan Kundera)

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 3:04 pm

 

A fronteira entre o precipício e a terra firme existe? 

Por Solange Pereira Pinto 

 

Fui digladiada nesta madrugada. É tão difícil confessar uma violência! Eu bem sei. Foi ontem que minha cunhada me disse: “expor as feridas é para poucos, pois ao divulgar nossas fragilidades mostramos aos outros que eles também as têm, ou poderão tê-las”. É? Perguntei. “Não somos o que somos e vivemos o que procuramos?” Crua ela rebateu: “não!”. Não compreendi a sua negativa, essa possibilidade de não existência ou de existir pelo não. Afinal, ser era ainda “absoluto”, uma identidade imutável. Naquele momento me preparei para o tombo. Ensangüentada, horas depois, senti o soco que levei muito antes. Cai de quatro. Múltipla. Inocente. Perdida. 

 

Cinco horas, o sol estava por nascer. Confusa. Reflexiva. Atormentada. Passava meus olhos em pisca-alerta ao redor. Tentando reconhecer. Procurando fixar-me em algum ponto seguro. Não havia. Estava cara a cara com um outro eu possível. Assustador. Gostaria de ter outra identidade? Seria outro alguém desconhecido até por mim mesma? Teria prazer na sordidez? Fazia-me de vítima em lugar de algoz? Mataria? Fugiria? Tentaria morrer? Onde estava meu eu, ou melhor, onde eu me colocava?   

 

Foi no momento do pânico que me identifique com Chantal e Jean-Marc. Lembrei-me agora que não foi só diante da agonia, mas também do prazer, que me fiz multiplicar
em faces. Camaleoa de mim mesma. Pela sobrevivência. Pela conveniência. Pela vontade. Assim como Chantal produzi sonhos esquisitos e memoráveis. Da mesma forma que Jean-Marc esqueci-me de ditos passados, atos juvenis. Milan não me poupava. Lançava as palavras, os tabefes, e eu consentia. Por quê?
 

 

Muitas vezes o pesadelo se transpunha para o sonho, e vice-versa. Quantas vezes o grito virava silêncio, e este me ensurdecia? Eu também fugi da minha vida para tentar viver outra. Não como Chantal. Ela, sim, botou tarjas no passado. Evitando olhares. Por outro lado, Jean, seu marido, sabia da própria condição marginal e aceitava viver outros enquadramentos. Coisa difícil para mim aos 40. 

 

Certo momento ele disse: “a única razão de ser da amizade é fornecer ao outro um espelho em que ele possa contemplar sua imagem de antigamente, a que, sem o eterno blábláblá das lembranças entre colegas, estaria apagada há muito tempo”. De fato. As rodas de reencontros eram círculos de memórias. Como brincadeira de tiro ao alvo em que não se pode mais retornar após marcado o centro ou feito o desacerto. Todos viram e anotaram. Ele contava com certa frieza. O que de certa forma não me incomodava. Eu também desamava pessoas e amigos como ele fizera. “O olhar do amor é o olhar do isolamento”.  

 

Eu estava numa posição desconfortável (eterna sensação) e mesmo assim não saía de cena. Queria o desfecho. Por mais cruel, duro, espantoso que fosse, não largaria a angústia daquela hora. Precisava sentir a pulsão daquele incômodo para me livrar dele.  

 

Chantal foi implacável. Em um ato misto de doçura, auto-complacência, dignidade, lucidez ou loucura, narrou o dia em que foi ao cemitério e parou diante do túmulo do filho que morrera aos cinco anos: “Meu querido, meu querido, não pense que não te amo ou que não te amei, é precisamente porque te amei que não poderia ter me tornado aquela que sou se você ainda estivesse aqui. É impossível ter um filho e desprezar o mundo como ele é, pois foi a este mundo que o destinamos. É por causa do filho que nos prendemos ao mundo, pensamos no seu futuro, participamos de bom grado de seus ruídos, de suas agitações, levamos a sério sua estupidez incurável. Com a sua morte, você me privou de prazer de estar com você, mas ao mesmo tempo me tornou livre. Livre diante do mundo que não amo. E, se posso me permitir não amá-lo, é porque você não está mais aqui. Meus pensamentos sombrios já não podem lhe trazer nenhuma maldição. Quero lhe dizer agora, tantos anos depois que você me deixou, que compreendi sua morte como um presente e que acabei aceitando esse terrível presente […]”.  

 

Eu não tinha palavras depois disso. Mas, eu guardava comigo a certeza de que jamais teria a ousadia e a coragem de Chantal, em fazer tal declaração, sem me sentir perpetuamente culpada e apedrejada pelos coros invisíveis. Ou teria? Já havia aqui embaralhado completamente a minha identidade. Eu infelizmente entendia perfeitamente a confissão de Chantal. O que me aguardava depois dessa compreensão? Não sabia.  

 

A vontade de chorar e correr dali para um bosque imaginário, perfeito, paradisíaco, se entrelaçava com minha curiosidade de continuar a provar daquela trama pérfida que meus olhos testemunhavam. Meu fôlego se alternava entre afoito e paciente. A carne ardia. Milan continuava demolindo as estreitezas da razão e da lógica. Batia com mais força. Meu peito rasgava. Certamente eu não seria a mesma após compartilhar as histórias de Chantal e Jean-Marc. Também não, antes? 

 

Fosse o que fosse. Por amor. Por morte. Por tédio. A vida dos dois se consumando para mim.
Em mim. Eu neles. Entranhados naquela madrugada de quinta-feira. “Os homens não se viram mais para olhar para mim”, ela disparou. Enrubesceu. Entre o ciúme e a compaixão ele avaliou sua mulher. Estaria o envelhecimento ardendo, queimando, a ponto de destruir quem eram antes do espelho ou da consciência que paira como raio, feito clarão num instante, quando a juventude nos parece eterna? A mutação da identidade? Talvez fosse uma pista.
 

 

Abatia a auto-qualquer-coisa (traição, engano, verdade, ilusão). Em Chantal, Jean-Marc, em mim, provavelmente
em Milan. Ou em você. “A palavra vida é a rainha das palavras. A palavra-rainha rodeada de outras grandes palavras […] contra o futuro defendia um passado”. A totalidade permeada pela imaginação,  guia dos viventes no túnel do real e das irrealidades. Tateando a existência, qual venda usar?
 

 

“Se, antes desse único encontro a sós, ele a tivesse encontrado muitas vezes tal como ela era com os outros, teria reconhecido nela o ser amado?”. Os “ses” sem respostas atravessando nossas vistas para desespero ou conforto. A necessidade de uma inundação de olhares. Sedução, aventura, erotismo, transgressões, fugas, segredos desafiando outros quereres, digamos, mais “sólidos”. Vida de ambigüidades. De identidades. Eu perscrutava.  

 

Enquanto as páginas mudavam de lado, eu derretia quadradinhos de chocolate no céu da boca. Um após outro. Os olhos atentos. A alma
em dúvida. As pálpebras lubrificando as idéias. “Cada um de nós está imerso num mar de salivas que se misturam fazendo de nós uma única comunidade de salivas, uma única humanidade úmida e unida”, dizia Leroy. Ri dissolvendo mais um tabletinho na língua.
 

 

Os andarilhos exaustos da existência entrando e saindo da obscuridade. Assim somos? O passar ilógico do tempo, dos atos e suas confrontações. Assim vivemos? O sentido da vida que não se sabe imaginária, ficcional ou real nos expondo a explicações indisponíveis, desagradáveis ou não. “Por mais desprezível que seja o mundo, precisamos dele para poder conversar”. Ainda não era o fim, mas fazia pensar sobre os elos que nos unem à humanidade. As convenções. As provocações. A liberdade de escolha. A identidade.  

 

Tornando eu, alma, corpo, consciência, esquecimento, destino, excitação, indiferença … encontrei o narrador, no final, questionando o que havia vivido até ali. “Qual é o momento preciso em que o real se transformou em irreal, a realidade em sonho? Onde era a fronteira? Onde é a fronteira?”.  

 

É assim que Milan Kundera, em “A Identidade” (1998, Companhia das Letras), lança o leitor ao calabouço e ao mesmo tempo lhe entrega as chaves da cela. Paradoxo. Encantamento. “Tenho medo quando pisco o olho”. E você? Quem é antes e depois de piscar?

outubro 26, 2006

Um domingo com Marçal Aquino

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 7:34 pm

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Por Solange Pereira Pinto 

O domingo acordou preguiçoso, como sempre. O sol numa alegria incontida entrava por toda a casa gritando a urgência de sair um pouco da poeira do desânimo habitual. O telefone tocou. Tomei um café, fiz uma careta (algumas coisas cheiram melhor que o próprio gosto). Rendi-me. Calcei o tênis, vesti o short e a camiseta, peguei o boné, nessa espantada ordem e chamei o paulista Marçal Aquino para uma volta no parque.

  

Sabe como é, domingo de sol no parque da cidade, lugar perfeito para famílias, crianças, patins, bolas, bicicletas, pipas, casais, pais, mães, tias, avós, desocupados, ambulantes, churrascos, piqueniques e duchas… Lá fomos nós ao encontro das Famílias terrivelmente felizes.

  Cada raio ia se alongando sobre o corpo e Aquino me contando a primeira de muitas histórias do dia. Logo diz “meu tio morreu em um hospício numa tarde de segunda. Conversando com seus fantasmas, a única coisa que aprendeu na vida”. E, num ato contínuo, foi relatando tudo o que ele poderia ter sido.

  

A cada passo dado, minha atenção redobrava, e novos cotidianos iam surgindo. Os onze jantares, o escritor saxofonista, a mulher com ar de quem é absolutamente íntima de incêndios, e ressaltou “o homem é uma criatura solitária. Muito embora viva procurando se amparar nas mais diversas coisas. Até mesmo numa página em branco”.

  

Fiquei pensativa. Quantas escoras fabricamos! Como um traçado de vida pode se complicar a cada parágrafo vivido? Foi quando ele me contou sobre a família no espelho da sala, “é, não tem jeito, viver não permite escolhas. Não se esqueça. Antes de sair, olho a redação: todos envolvidos na tarefa febril do fechamento. As pequenas tragédias pessoais – e, por que não, as grandes também -, adiadas por algumas horas. Para recomeçar tudo amanhã”. (Marçal é também jornalista e sabe bem o que é inventariar as causas alheias, esquecendo das próprias em nome do ofício).

  Ora leve, ora intenso, o tempo vai caminhando entre traduções de silêncios e verdades. São expostos os cacos, as colagens. Numa pausa me fixo nessa fala “…Mas hoje eu sei que a vida trapaceou com eles. Lembrando um relance aqui e um flagrante ali…”.

  

Suas histórias vão me fascinando sob a paisagem dominical de crianças saltitantes e de casais enamorados debaixo de copas verdes. No mesmo instante, vem ele contar de um dia de casamento, para em seguida narrar noites, acontecimentos em casas, em bares, falar das conspirações, dos casos, dos amantes, dos desejos urbanos, das emoções rurais. “Mortos não respondem por jogos perdidos em vida”. Entre risadas e tamanha curiosidade me torno voyeur daqueles seres de papel.

  

Algumas nuvens se unem cobrindo a tarde. A água de coco chega ao fim. Eu me apresso em ouvir a última história que meu novo amigo tem a contar “Miss Danúbio”. Em meio às diversas finitudes possíveis de mais um dia, despedi-me de Marçal, que com seu jeito enigmático, surpreendente e simples, passou o domingo a mostrar os entrelaces do dia-a-dia de pessoas comuns. Famílias terrivelmente felizes. Vários contos numa teia de vida. “Até mesmo os cheiros envelhecem…”, ele disse em algum momento. Alguém duvida?

outubro 15, 2006

Resenha – A Árvore das Palavras – Parte 3

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 11:51 pm

Por Fernanda Benevides Carvalho

A Árvore das Palavras, de Teolinda Gersão, 3ª Parte. Advertências ao amigo e leitor Mineo: Número 1: Esta também não é uma resenha. Consegui sair pela tangente? Número 2: a última sessão hebdomadária que deveria ter acontecido na quinta, ora, ora, ficou para hoje (graças ao dia folgazão das crianças).

Tinha começado pela experiência partilhada com você, Mineo, de ler e reler um livro, único jeito de brecar o seu término, prolongando a leitura, e, ao mesmo tempo, apurando nossa contemplativa natureza vadia  ao menos, falo da minha, já que Mineo faz questão de espalhar que o bronzeado de urucum que ele desfila é o do trabalhador no ponto de ônibus.
Há o tempo do trabalho, o do repouso, o do sono, o da alegria, o da contemplação. O do espanto, diante do risco da beleza. Porque a prosa de Teolinda é narrativa de risco. Durante tais leituras e releituras contemplativas, logo mostrou-se impactante o dom raro de Teolinda em recriar a vida. A vida com sua desordem, sua indecisão em vez de resolução, sua sede em vez de contentamento perene. Lembro-me de um artigo recente do Ferreira Gullar, publicado na Ilustrada, em que o poeta dos poetas dizia que busca no poema um risco. Uma pena não ter recuperado o texto, acho que era exatamente sobre o fenômeno poético de lançar alicerces para o poema ir se construindo de forma viva.

No risco assumido por Teolinda, a vida reverbera, acompanhamos a protagonista Gita, na primeira parte, e, por seus olhos, a família de brancos pobres em Lourenço Marques (Maputo). Num segundo momento, a voz narrativa em terceira pessoa descreve os vaticínios da mãe Amélia que partiu de Lisboa à África, guiada por sonhos entrevistos no anúncio de jornal. No terceiro, o desfecho, Gita retoma a voz na condução musical, narrando o painel histórico de Moçambique às vésperas da independência, relato que se imbrica à sua vida particular e à sensibilidade à flor da pele que testemunha o mundo velho, arruinado, onde as pessoas gostavam de pisar umas nas outras: “Até na missa de domingo esse modo de estar era visível. Sobretudo na Catedral, ou na igreja de Santo Antônio da Polana: os que podiam e mandavam iam lá para serem vistos, para cumprimentar e serem cumprimentados à saída, e era bem vestirem-se com toilettes caras, embora conviesse terem ao mesmo tempo um ar simples, por vezes quase desportivo, e se não fosse hipocrisia seria até bonito de ver. (…) Apesar do ar compuncto, concentrado e quase humilde que punham na altura da confissão e da comunhão. Mas era tudo impostura e fingimento, iam lá não para se sentirem iguais aos outros, mas para afirmarem a sua posição de privilégio, e saíam de lá para continuarem a viver da mesma forma, para que haviam de mudar alguma coisa se tudo estava tão bem organizado assim, eles reinando e os outros servindo, agora e para sempre amém. No entanto o padre voltava-se para todos e dizia abrindo os braços: Caríssimos irmãos. (…) Porque logo a seguir eles comem com talher de prata o caril dominical de camarão ou de lagosta, servido por criados negros de luva branca, diz Roberto. Enquanto nas palhotas os negros comem caril de gafanhotos e ratazanas gordas assadas no espeto, e de noite os ratos roem as crianças adormecidas”.

Porque Gita pertencia à África, vê com lucidez a decadência. Mas neste reino caduco uma época luminosa se insinua, Gita está prestes a tomar parte na ruptura da história: “Então, de repente, rebentou a guerra. Como um terreno minado explodindo. Não foi para ninguém uma surpresa (…)”.
Salazar tinha a cara do avô de Gita: “O Velho tinha na infância a cara do meu avô, digo a Roberto. Mas caiu do telhado e morreu quando perseguia Laureano com o pau de marmeleiro e o cinto. Os ditadores caem sempre, concluo, porque essa história me parece exemplar. De um telhado, uma janela, de uma cadeira ou de um banco – caem sempre no fim, de qualquer coisa que já nem sequer é alta, pode até ser de rasteira ao chão”.

Gita na manhã de sol dos seus vinte e tantos anos presencia a atmosfera tensa e elétrica do ar daqueles anos, participa, foge dos estampidos da polícia à porta do liceu, está lá, na agitação chamada história. Refundará suas raízes em Portugal, levará sua semente de árvore de palavras para dar frutos. Para não matar o enredo, não vou entrar nos detalhes do que acontece a quem – a Laureano, a Lóia, a Orquídea, a Amélia, a Gita, a Rodrigo e a Roberto, esses últimos, entram apenas na terceira parte.

Retomo as questões formais. Constato que nesse percurso fragmentado de narrativa é possível encontrar algumas características que fazem as partes do jogo tão bem azeitadas. Resultaram em força, em pegada certa. Um destaque merecido é o modo de construir o caminho da personagem principal. Parece-me imprescindível uma personagem que tenha origem e destino, caminhe para um objetivo, inicie uma ação dramática. É por meio da ação que se propicia a mudança qualitativa na narração, conferindo densidade, patamares psicológicos, socioculturais e geográficos diferenciados, contrastantes. O jogo de narrar tem a ver com uma viagem.

Começa-se de um jeito, mas as forças operantes em meio ao percurso são transformadoras. Penso que deste ponto de vista, o efeito para o leitor, convocado a assumir também o seu papel nesse jogo, será de cumplicidade à essa transformação.

Grande é todo livro que a gente abre de um jeito, e quando fecha, a gente também se transformou. Meu espanto vai convergindo para esse ponto: como é que pode acontecer de certos elementos funcionarem, mesmo nas narrativas fragmentadas, experimentais, do mesmo jeito que funcionaram e funcionam num jogo de contar histórias ao pé da fogueira, tendo ao centro da roda o contador da fábula apenas fazendo o uso da palavra nua, com começo meio fim, e nenhum recurso a mais?

O livro de Teolinda não menciona fogueiras, mas me parece que se refere a uma árvore de palavras ancestrais.

Talvez a chave da radicalidade para romper de verdade as convenções esteja na reunião dos extremos: da sabedoria milenar de manter a chama da fogueira acesa daquele contador antigo, quase mítico, que tem a história e os ouvintes, e as experimentações. Hoje mais que nunca é necessário ir até o caroço, voltar às velhas perguntas sobre quem é a personagem que pede empréstimo de voz ao autor, sem que esse processo caia na ridicularização, pelos mais afoitos… que vão logo fazer piada sobre o método, chamar de espírita essa coisa de voz de empréstimo… ou dizer que quem tem projeto é engenheiro, não a personagem. Mesmo personagens sem projeto marcam a posição do não.

Saber prender. Saber contar uma história por ir lhe construindo um sentido que não elimina o risco diferencia um autor transformador daquele que é mero repetidor de fórmulas, ainda que sejam elas experiências pós-pós-tudo e dêem ao seu autor uma aura de sacador, de criativo, fazendo-o circular com a vinheta de artista do momento.

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