Mal de Montano

agosto 1, 2010

Resenha – Os suicidas – Antonio Di Benedetto

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 5:37 pm
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01 Agosto, 2010

Entendidos, mal entendidos, desentendidos e tolos

Para Fernanda de Aragão e Ramirez

por Solange Pereira Pinto

Cerrado gelado, julho/2010.

sollpp@gmail.com

“A única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior” (Laing)

 

 

 

Mês qualquer de 2007. A pilha de notícias recortadas amiúde, como diria o Zé Ramalho, me olhava naquele sábado. Vontade louca de ler. Daquelas que somente os fins de semana me permitem realizar em compulsão. Do jeito que eu gosto. Uma possível página amarelada de jornal, daquelas que a gente obsessivamente guarda para ler depois (provavelmente do caderno Dois ou da Ilustrada), me deu piniqueira. Uma comichão de desejo de ler. Titulo ponta de lança. Direto ao assunto. Lancei na lista.

No Brasil a partir de 2005, vagava pela Argentina desde 1967. Ano em que nasci. A fórceps. Na epígrafe a sentença de Albert Camus que eu viria a conhecer somente em 2010: “Todos os homens sãos pensaram em suicídio alguma vez”. Li 42 anos depois por terceiras mãos. “O meu pai pôs fim à sua vida numa tarde de sexta-feira. Tinha 33 anos. Na quarta sexta-feira do próximo mês eu terei a mesma idade”, ele me contou, o jornalista medíocre. Começava a sina. Dele. Minha. Nossa.

Por três anos. Em duas mudanças de apartamento ele não se perdeu. Mas precisou de uma preciosa visita jogar Antonio Di Benedetto novamente em meus braços. Ele, que sempre esteve ali, mirando na altura do meu queixo, diariamente, mais se fez notar esmagado entre a poeira dos tablóides do que em sua postura entrosadamente deitada. Tranqüilo. Alaranjado em meio a José Luis Peixoto e Luiz Antonio de Assis Brasil. “Ver claro é muito difícil”;

Sua conversa sem aspas, ou outros sinais, e direta me atraiu rapidamente. Como nos momentos fáticos dos pontos de ônibus ou elevadores nos quais nos vemos monossilábicos e atamancando as palavras. Entre um respiro e outro. “Tem razão. Trabalhe com Marcela. Por que a Marcela? Lembra, a reportagem do avião caído na cordilheira. Sabe se arriscar. Neste assunto não haverá riscos, vamos lidar com mortos. Não haverá? Assim espero. Quem sabe”. Sem travessões.

Fernanda queria um livro para passar o tempo enquanto eu trabalhava ou dormia. Rotina de visitante, de feriado. Uma semana entremeando 164 páginas. Por que Tiflis e Pizarro não suportaram viver? Qual é o mistério daqueles que se matam? Haveria sete dias para ela conhecer os rumos de Júlia, Mercedes, Bibi, Paolo, Maurício e outros. Tempos depois Fernanda me disse a literatura lhe ajudava a esperar meu alerta. As horas acabarem. Desentendi. “Justamente, ontem à noite sonhei de novo que estava andando nu”. Por muitas vezes isso se repetiria. Conosco.

O encontro do novo grupo de literatura viria acontecer somente quatro meses depois que a Fer tinha voltado para São Paulo. Eu e alguns amigos tínhamos inaugurado o bate-papo com “A Trégua”, do quase homônimo, o uruguaio, Benedetti. E, no mesmo dia, procurávamos por uma obra a ser debatida. Lembrei dos comentários da Fernanda dizendo o quanto a parte que ela lera de “Os suicidas” era divertida e engraçada. Leve. Sugeri. Tolas.

“Pergunto-lhe se seria capaz de fotografar um tremor. […] Insisto: ‘O tremor em si mesmo, não os efeitos e conseqüências: nem pessoas que correm nem uma parede rachada nem a torre caída de uma igreja’”. Era o argumento do personagem para se pensar o significado dos olhos estáticos e abertos de um morto naquele último instante; diante da morte sentiu algo. O que? É possível captar, interpretar? Do mesmo jeito Benedetto ia me guiando pelas impossibilidades de uma leitura só. Além dos entendimentos. Comuns.

Vieram os conceitos de morte. A pesquisa do autor na voz dos personagens. Os fragmentos de textos. Reportagens. Explicações filosóficas. Estatísticas e manipulações. Casadas ficção e realidade. Interpretação. A linguagem pós-moderna tomava as páginas daquele livro do século passado. “Viver é bom, às vezes. […] Ele ficou, no retrato, para sempre, jovem. Nunca será velho. Ninguém poderá humilhá-lo. Se não se vive, não é preciso agüentar que nos deixem viver. Os demais nos deixam viver, mas determinam como”.

Eu tinha apenas uma noite para decifrar a escrita entrecortada e fascinante; para mim – novidade. O grupo literário já revelava, virtualmente, o desapontamento e a nota desfavorável. A pontuação da turma beirava de zero a menos da metade. Muito longe da nove; eu lhe daria. “Prescindo do café-da-manhã, tomo um café preto, na cozinha, onde permanece com seu vinho tinto o copo que servi à Mae West”. Deliro – “Nascemos com morte dentro de nós […] Os corpos já se encontram nas padiolas, mas estas permanecem no chão. Panos ásperos os cobrem. Quero ver o rosto.” – sob edredons que vestem a noite gelada do cerrado. É julho em Brasília.

“Acho que é um pacto. É um pressentimento meu”. A trama vai envolvendo desentendimentos familiares. Traição. Ciúme. Competição. Melancolia. “O meu irmão se suicidou aos 60 anos. Eu nunca havia me preocupado seriamente com isso, mas, quando cheguei aos 50, a lembrança adquiriu vivacidade para o meu espírito, e agora eu a tenho presente”.

A narrativa é atraentemente descompassada, feito peito em arritmia frente ao medo ou à excitação. Ela coloca em plano secundário os nomes dos personagens e o fio da investigação sobre a motivação dos suicidas; apresentados como cadáveres nas primeiras páginas do enredo. Não importa. O mote é outro. O foco, o que se pretende instigar, está do outro lado do miolo impresso pela editora Globo. O livro é a arma que o leitor aponta para si. Para os próprios miolos.

Interessante, além da polêmica que o livro gerou no debate literário sobre a sua qualidade, é o preconceito que o título evidencia. “Os suicidas”. Colado ao lado do nome de seu autor. Logo abaixo da mancha alaranjada que escorre do topo para ilustrar sua capa. Aquarela? Sangue? Quem enxerga o que? A escolha em ler a obra, tardiamente traduzida no Brasil, gerou suspeitas. Um amigo disse: ela (eu) deve estar muito desiludida, deprimida e melancólica para sugerir essa leitura. “Doze, doze suicidas já houve entre os nossos. Eram fantasias de glória, revanches de quem vinha de uma existência de humilhada adversidade? Ele sonhava isso ou eu sonhei que ele sonhava?”. Mal entendidos. Desentendidos.

“Senti um tremor e indaguei na minha alma se era medo e eu não soube me responder, mas descobri que também podia ser a irrupção de um vivo gozo. Nesse momento, me acometeu algo inesperado, uma espécie de forte ataque de vaidade: enrolei o papel…”. Tive a chance de saber mais da morte por outras mentes e viventes. Durkheim. Cleópatra. Hamlet. Kierkegaard. Kant. Camus. Platão. Pitágoras. Camus. Balmes. Buda. Confúcio. Voltaire. Hegel. Nietzsche. Schopenhauer. Hume. Napoleão. Em complemento às religiões. “A tarde flui lentamente para o ocaso”.

“De fato, a questão não é por que eu me matarei, mas por que não me matar”. Às 17 horas, quatro antes do encontro, fechei a última capa entre: entendidos, mal entendidos, desentendidos e tolos. “São 11 horas. Terei de avisar, o que será embaraçoso. Devo me vestir porque estou nu. Completamente nu. Assim se nasce”. Vesti uma calça preta, uma blusa azul. Passei batom. Cheguei atrasada no Café com Letras. Pedi um chopp. Entre seis, o debate começou. “O vento continua, faz uuh, enfia-se por entre os edifícios”. Eu sonho também que vou descalça para o trabalho. “Sobra-me noite”. Ela chega.

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setembro 20, 2008

O casulo de nós mesmos (Resenha – Seda, de Alessandro Baricco)

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 9:43 pm


Por Solange Pereira Pinto

O livro “Seda”, de Alessandro Baricco, escrito em 1996, é inexplicavelmente lindo. A alegoria, construída com maestria, nos faz sentir como os bichos da seda a tentar virar mariposas. O texto, tramado como as voltas das mãos de um ilusionista, surpreende. “Uma vez tivera entre os dedos um véu tecido com fio de seda japonesa. Era como ter entre os dedos o nada”.

Narrativa breve. Concisa. Não sobra e nem falta. Encanta. Tal qual a borboleta para nascer, Hervé Joncour, protagonista, segue seu destino com uma naturalidade que pode beirar ao nada. Como o cair de uma tempestade… “Era, além disso, um daqueles homens que amam observar a própria vida, julgando imprópria qualquer ambição de vivê-la”.

Baricco empresta à obra uma composição melodiosa do ritmo da prosa à escolha dos nomes de lugares, das personagens, dos detalhes; aspecto talvez influenciado por sua formação musical.

O recurso da repetição de trechos ampliados e sutilmente modificados dá no leitor a impressão de rotina, de “mundo que gira em torno de si mesmo”, de bicho a se revirar dentro do casulo para confeccionar o fio da seda.

A pacata Lavilledieu, o visionário-idealista Baldabiou, o instigado Hervé Joncour, o misterioso Japão e Hara Kei, e o contraponto feminino de Hélène, a menina dos olhos sem corte oriental, Mme. Blanche fazem as imagens sensoriais de Baricco correrem no sangue do leitor. São pequenos e certeiros picos na veia embriagando, inebriando… até o fim do mundo.

A seda. Os segredos. A sedução. “Esperou longamente, no silêncio, sem mover. Depois, lentamente, retirou o pano molhado dos olhos. Já não havia quase luz, no cômodo. Não havia ninguém, ao redor. Levantou-se, apanhou a túnica que jazia dobrada no chão, colocou-a sobre os ombros, saiu do cômodo, atravessou a casa, chegou diante de sua esteira e se deitou. Pôs-se a observar a chama que tremia, diminuta, na lanterna. E, com cuidado, parou o Tempo, por o todo o tempo que desejou. Foi um nada, depois, abrir a mão e ver aquele papel. Pequeno. Poucos ideogramas desenhados um embaixo do outro. Tinta preta.”

Disse Walter Benjamin que “toda ordem é precisamente uma situação oscilante à beira do precipício”. Lá estava Joncour. Dedilhando a seda. “Tinha atrás de si uma longa estrada de oito mil quilômetros. E diante de si o nada. De repente viu aquilo que julgava invisível. O fim do mundo”.

A rotina caminha, se repete trecho a trecho. Num átimo algo que muda… Para iludir uma rotina que insiste em se repetir… Assim como nós nos insistimos. Uma dor estranha. Tentar sair do casulo de nós mesmos… para chegar ao fim do mundo.

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Brasília, chuva fina sobre o cerrado, 20 de setembro de 2008.

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setembro 13, 2008

Abaixo o hábito de ler

Filed under: Mal do dia,Montanas,Outros Escritos — maldemontano @ 2:16 pm
Por Solange Pereira Pinto (escritora, professora e arte-educadora)

A escola da minha filha tem um programa de leitura chamado ciranda do livro. O objetivo é que cada criança pegue uma obra para ler no fim de semana e faça, na apostila encadernada em espiral, uma atividade pré-determinada (desenhar uma passagem, escolher um personagem favorito, ilustrar a idéia principal, fazer um breve resumo etc.).

Imagino que nem todos os alunos façam a tarefa de bom grado. No início a escola tentou uma competição: a criança que pegasse mais livros na biblioteca ganharia um prêmio ao término do período X. Minha filha logo chiou: “mamãe, assim não vale. Tá muito chata essa história de quem lê mais. Tem gente que só pega livrinho fininho e com muita figura pra ler rápido e pegar outro. Eu que escolhi pelo título, por que achei interessante a história, vou perder. O meu livro é muito mais grosso que os outros!”, choramingou.

Tinha ela razão. Vencer a competição era o objetivo das crianças sob o pretexto da escola de formar o hábito da leitura e quiçá cidadãos do futuro. Nesse meio tempo, crítica daqui, chororô acolá, ficou difícil para a professora lidar com a manobra “pedagógica”, deslindada pela pequena estudante.


O projeto competitivo saiu de cena e a apostila em espiral continuou seu trajeto, às sextas-feiras, mochila adentro; só que agora sem a pressão de se ser o primeiro lugar no ranking de “leituras lidas”. Algumas crianças ficaram aliviadas. Alguns pais também. Ufa!

Chegado o dia de mais uma escolha, minha menina, que se chama Ana (Luísa) optou por pegar um livro chamado Ana e Ana, segundo as palavras dela “achei pela capa que podia ser interessante”. E era. Aliás, é!

O livro de Célia Godoy, ilustrado divinamente por Fé, narra a história das gêmeas Ana Carolina e Ana Beatriz, que idênticas na aparência tentavam se distinguir por cores, roupas, adereços, ainda que “por dentro” fossem bem diferentes nos gostos e afinidades com o mundo. Cresceram e cada uma tomou um rumo, até que…

Até que eu parei para pensar se a leitura é um “hábito-ato” possível de se formar em alguém. Sendo professora há algum tempo e exatamente na área de produção de textos, leitura e interpretação, recordei das principais dificuldades e justificativas dos meus alunos quando perguntados sobre o tal, difundido, alardeado: hábito de ler!

Em geral, se apontam desconcentração, sono, preguiça, falta de exemplos familiares, ausência de livros em casa, dificuldade de entendimento, cansaço, visão embaralhada, e, principalmente, falta de tempo! Questionados sobre este último item, respondem: “ah, professora tem muita coisa melhor a fazer do que ler, como ver TV, praticar esportes, sexo, passear, navegar pela internet…”.

“– Mas céus! Vocês não gostam de ler nada?”, re-interrogo.
“– Também não é assim. A gente lê sobre o que gosta ou sobre o que precisa”.

Se tempo é uma questão de prioridade, e nele a gente ocupa primeiro o que dá prazer ou necessita, aonde entra o esforço pedagógico de formar o hábito de ler? Creio que na vala comum.

Diz o companheiro Houaiss que hábito é “maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente; costume, regra, modo, maneira permanente ou freqüente, regular ou esperada de agir, sentir, comportar-se; mania”.

Ora, formar o hábito de ler para quê?

Em certa medida, quem tem uma formação escolar considerada razoável (sei lá o que isso significa) lê o que lhe atrai. Jornais, almanaques, cadernos de esporte, revistas semanais, publicações de fofocas etc, estão pelas esquinas e bem amassadas, indicando que mãos e olhos passaram por ali.

E daí?

Nada!

O hábito de ler, melhor formulando, a prática de ler não significa em essência nada. O costume de ler pode ser um desábito de adquirir conhecimento. Entrar no piloto automático da leitura não traz por si só transformação.

Se ler é um dos caminhos para se chegar ao conhecimento de determinado fenômeno, idéia, verdade, ler por ler é no máximo chegar à aquisição de dados brutos e informações superficiais, massificadas, deglutidas por seus autores para todos.

Hoje deveríamos por em pauta, conclamar, não o desgastado hábito de ler, mas sim o hábito de pensar, o hábito de querer saber, o hábito de ser curioso. Se os próprios considerados – pelos professores – não-leitores admitem ler o que lhes interessa, óbvio seria despertar antes a vontade de conhecer. Ler, por hábito, deveria deixar de ser regra de conduta apregoada pelas escolas. Transformar o pensamento e ampliá-lo por desejo, deveria ser a etiqueta.

Ler é mera conseqüência. A causa é querer sair do lugar-comum, voar sem tirar o pé do chão, pensar para existir… Meu hábito maior é “Ser” e por isso eu leio muito. Dessa forma, vou me desabituando de mim para me habituar às minhas releituras…

maio 13, 2008

O chinês e os pratinhos

Filed under: crônica,Montanas,Outros Escritos — maldemontano @ 1:30 pm
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Outro dia ouvi a confissão de uma amiga: não quero mais ser pratinho. Quero é ser o chinês.

Não entendi, tive vergonha de perguntar. Pensei ser gíria de gente nova e é nessas e outras que a gente entrega a idade. Não resisti, no entanto, a curiosidade a corroer.

Ela, então, explicou.

Tem homens (e ela estava falando em termos do gênero masculino, mas acho que vale para os dois) que mantém várias paqueras/relacionamentos/casos como os pratinhos que o chinês roda com varetas. Ele fica ali, rodando um pratinho, até que sente que outro está caindo. Ele então corre para este outro e agita a vareta. O pratinho começa a girar de novo, no ritmo do chinês. Até que ele vê outro que está quase caindo e se dirige para lá. E assim por diante, de modo que nenhum cai.

Achei a metáfora sensacional e me perguntei quantas vezes já fui pratinho na vida. Muitas, concluí. Chinês mesmo acho que nunca.

Minha amiga diz que quer ser um, mas eu duvido. Sei disso porque quando arruma um pratinho, fica satisfeita só com ele, rodando-o sem interrupção, com cuidado para que não caia jamais. E o pratinho, por sua vez, sendo o único, gira seguro, sem o menor medo de cair.

A metáfora é maravilhosa porque é verdadeira, retrata bem os relacionamentos atuais. Ao mesmo tempo é triste justamente porque é verdadeira e retrata muito bem os relacionamentos atuais.

Ando me imiscuindo na filosofia. O porquê disso não vem ao caso. Cada um recorre ao que lhe parece mais interessante para tentar ser mais feliz. A propósito, o livro do Alain de Botton chamado “As consolações da filosofia”, que mostra os motivos pelos quais grandes filósofos enveredaram por este caminho, que vão desde a falta de dinheiro, até desilusão amorosa, passando pela inadequação social.

Pois bem. Andei lendo André Comte-Sponville.

No delicioso livro “A felicidade, desesperadamente” explica ele, citando o pensamento de alguns filósofos da antiguidade: a pessoa só é feliz quando tem o que deseja. Acontece que desejo é falta; só desejamos o que não temos. Quando obtemos o que desejamos, continuamos sem ser felizes porque a felicidade é ter o que se deseja e não o que se desejava.

Complicado. Claro que ele propõe algo contra o círculo vicioso e aí vamos ao livro. Muito melhor lê-lo do que se contentar com parcas linhas de resumo.

Só sei que pensando nisso e relacionando com a história do chinês e seus pratinhos, vejo que os homens, e isso falo no sentido lato, só têm vontade de rodar o pratinho quando ele está caindo. Só deseja, portanto, o que falta, ou no caso, o que está quase faltando. O mais difícil, no entanto, é desejar o que se tem e, conseqüentemente, ser feliz com isso. Voltando ao nosso exemplo: rodar “o” pratinho (e não “um” pratinho), com dedicação e eficiência e sentir prazer nisso, mesmo ele estando lá firme, sem perigo de cair.

É isso o que eu quero: uma interação tal, que não importe ser o chinês ou o prato.

Queria aconselhar minha amiga a tentar também, mas não sei se me escutará, tão obcecada está com o objetivo de passar de pratinho a chinês.

Fica a torcida para que ela acesse o blog e leia a crônica.

por Selena Carvalho

abril 16, 2008

Escrever dá trabalho, trabalhar não dá

Filed under: Montanas,Outros Escritos — maldemontano @ 11:29 pm
Por Solange Pereira Pinto
Minha necessidade de escrever me atabalhoa. É que preciso (do verbo necessitar para sobreviver) de fazer outras coisas e me pego pesquisando pra escrever um texto novo ,cujo tema me entope veias e entala a garganta.
Escrever é como ar para mim. Se o tema vem à baila, tem que bailar. Melhor dizendo, tem que bailar lindamente, de salto alto, traje a rigor, um bom perfume, um brinco adequado, para rodopiar no salão sem tropeço e receber aplausos no final (ainda que seja o auto-reconhecimento).
Por isso, fico parecendo madame em dia de festa. Corre daqui. Ajeita dali. Sua acolá. Uma trabalheira que só! Praticamente um sofrimento. Aliás, um masoquismo, por que no meio de tudo isso há prazer.
Escrever dá trabalho! É fundamental pesquisar o tema. É essencial usar o dicionário. É recomendado olhar a gramática. É aconselhável pedir alguém que leia para ver se o dito está de fato dito como deve ser dito (traduzindo: se a mensagem está do jeito que você quer). É indispensável revisar, revisar, revisar.
Nessa ida e vinda de dedos saltitantes pelos teclados, idéias pululantes na cabeça e ponteiros agitados numa pressa que não compreendo o motivo (hahahaah), vou me perdendo do senso de realidade (?) e obrigações (!).
Obviamente, a dona responsabilidade fica se metendo entre cada parágrafo, obrigando-me a correr com o texto, pois é hora de outros afazeres mais importantes (?).
Dou uma driblada nela. Peço um minutinho a mais, emendo mais um parágrafo. Mas o alarme está ali “bléimmmmmmmmm, pára! Chega! Tá passando da hora!”. Estou quase na conclusão do texto quando se faz urgente me levantar e sair para mais um compromisso remunerado (ainda que insuficiente).
Nessa toada vou me frustrando e tentando compreender por que escrever dá trabalho e não é reconhecidamente um trabalho, e por que trabalhar nem dá tanto trabalho, na maioria das vezes mais aporrinhação. Ou por que não pode ser este o meu trabalho diário remunerado (já que o faço diariamente). Ou por que tenho a incontrolável necessidade de me ocupar com algo que não me sustenta o corpo, porém indescritivelmente me alimenta o ser.
Enquanto não entendo esse mundo vou me perdendo entre as linhas de mais um pensamento para alinhavar outro argumento. Se a existência é mesmo incompreensível, gastar mais uns minutos traçar novos períodos não deve ser crime ou objeto de castigo.
Assumo as penalidades e vou para o grande final, pois o baile já vai começar…

abril 12, 2008

As Isabellas que alimentam nossas sensibilidades e crueldades

Filed under: Mal do dia,Montanas,Outros Escritos — maldemontano @ 6:29 pm

Por Solange Pereira Pinto

Euzinha, como jornalista que sou, e ferrenha questionadora das mídias, suas manipulações e sensacionalismos, poderia neste caso da Isabella Nardoni esculhambar a imprensa que divulga há mais de uma semana – com incrível veemência – a queda da menina de cinco anos e mais do que subjetivamente induz a sociedade contra o pai e/ou a madrasta da menina.

Em contraposição, poderia também dizer que a opinião pública, que aparentemente clama por “justiça” gosta de comer cadáveres frescos. Ou quem sabe, poderia dizer que a morte do menino João Hélio, também largamente especulada e veiculada com orgulho pelos meios de comunicação de massa, já estava gelada demais.

De outra forma, posso relembrar o caso da outra Isabela, a Tainara, que desapareceu em maio do ano passado em Brasília e foi encontrada decapitada, chocando a capital federal e todo o Brasil, cujas investigações foram transmitidas quase em tempo real (sendo manchete de capa por dias) e o tio era um suspeito em potencial. Só que quase um ano depois, houve a prisão de um vizinho (da avó da vítima) que confessou o crime. Porém, as causas permanecem ignoradas. Que pena, queria tanto saber os detalhes…

Recapitular, quem sabe, a morte do índio Galdino que chocou o país por ter filhos da classe média envolvidos num crime tão bárbara e covardemente montado pelo Correio Braziliense e similares ajuda a esclarecer o título deste texto. Ou o ícone Guilherme de Pádua (assassino da filha da novelista global) que muita gente ainda crê ser absurdo o fato de ele estar livre e recompondo a própria vida, já que a nossa sociedade quer mais do que justiça e grita, sim, por vingança.

É que um pouco de tudo praticamente cai no esquecimento (principalmente a autocrítica). Tem gente que anda dizendo que o caso da Nardoni pode se assemelhar ao da Escola Base, cujos donos foram amplamente “acusados” de pedófilos, indo a bancarrota, para depois em notinhas serem admitidos como inocentes.

A nossa gente, nossa espécie, se alimenta como urubu da carniça. Somos feitos de clichês e maracangalhas. Enquanto esses crimes podem reascender a sensibilidade humana do “ohhhhhhhhh como isso pode acontecer!”, ressalta também a crueldade do “queremos justiça até queimar no fogo do inferno!”. Entre a sensação de pena e de vingança vamos comprando jornais, vendo TV, comentando nos botecos e repartições públicas nossos vereditos fundamentados em superficialidades e especulações.

“Lembra-se da mulher de Belo Horizonte que jogou o bebê na Lagoa da Pampulha? Dizem que não tinha problema psiquiátrico e tampouco depressão pós-parto… Vai saber por que alguém joga um ser indefeso ao léu! Só pode ser uma monstra”. “Ah, mas monstra maior é aquela empresária de Goiânia que torturava a adolescente, um horror!”. “Que nada, monstros são os jovens que agrediam prostitutas nos pontos de ônibus”…

Sim. Monstros fazem nossa cabeça. Ligar a TV ou ler o jornal para saber monstruosidade da hora é café da manhã melhor que pão e leite, como bem retratou o filme Hotel Ruanda durante o massacre dos Tútsis pelos Hutus.

Ocupar do comezinho nos torna “melhores”. “Ele faz e eu não!”. Aliás, eu não faço como ele faz, eu bato devagarzinho…

Porém, entre uns e outros casos divulgados há centenas de abusos, absurdos, despropósitos, maus-tratos, mortes acontecendo no anonimato. O que tem feito um caso ser notícia e outro não? O tempo que se demora para cortar as redes de uma janela? Como se dá a seletiva para as quartas de final para o horário nobre? Quem dá mais? Ibope…

A mídia cumpre seu papel capitalista: vender. A gente cumpre o nosso papel: acusar ou acolher dependendo do lobo a alimentar. Desse jeito está tudo certo. Uma sociedade que não quer sair da bóia precisa de Judas para malhar. Uma imprensa que não precisa elevar o nível (ao contrário vende mais quando abaixa) distribui defuntos pelo controle remoto. O senhor fulano que levou bronca do chefe precisa esculhambar alguém. A dona cicrana que é tida como a mais bem-informada do reduto precisa de novidades por minuto. E a espécie humana, que se acha muito civilizada, peida cheiroso e acha que a bosta do outro é a que fede.

Mas me diga ai: quem são as Isabellas que alimentam as SUAS sensibilidades e crueldades?

fevereiro 19, 2008

Inventário – Um outro eu descartável (parte II)

Filed under: Montanas — maldemontano @ 2:23 pm

Para Fernanda Ramirez

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s seres humanos são miméticos ou camaleônicos? Vêm do pó ou do lamaçal? Limbo. É. Era sim, um outro eu. Um outro nosso. Um outro coletivo. Um outro libertador. Um outro eu mesmo. Desses pós-eu-antigo-ou-antes-eu-amanhã. Um eu atual mesmo. Do formato do imediatamente. Lucidamente insano. “Você é fodona! Um beijo do caralho pra vc”. Poderia soar agressivo. Por vez, grotesco? A um fodão, não. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando. Conhecia bem o gosto de nicotina. Reconhecia álcool com suor. Interpretava a rosa dos ventos. Via constelações de bêbados cruzando escadas. Conhecia Efeméride. O barman lhe sabia o apelido. Quem mandava, o dinheiro ou a loucura? O status ou a beleza? O adjetivo de dois gêneros alertava: “que pode ou deve ser descartado; que não se destina a conservar nem a consertar; que se deita fora após uma ou mais utilizações”. A força física ou a moral? A inteligência ou a esperteza? Para aonde se erguia o poder? O colete salva-vidas daquela noite era seduzir. Não perecer. Insensatez benigna das madrugadas entediadas. Do formato do imediatamente. Vestiu os olhos de doidice e largou tiros pela pista de dança. Um. Dois. Cinco. Nove. Mulheres atônitas. Homens pasmados. A criptonímia nos lábios. Treze. Quinze. Dezoito. Outra rajada de piscadelas inominadas. O cara lhe veio em direção. Tirou-lhe um sarro. Tascou-lhe na boca. HAHAHAH. Sem medo. Ali estava o poder. No anonimato. Na convicção. Na intensidade. Na dúvida do outro. Do outro outrem. É. Era sim, um outro eu. Do formato do imediatamente. Ninguém ousou interromper. Um. Dois. Cinco. Nove. Quem mandava era a coragem e a loucura. Com doideira não se mexe. “Não ultrapasse”. Ela estava lá. A maluquice encarnada de azul, dançando na boate. Poderosa. Diabólica. Feiticeira. A extravagância entre dentes: “tá tudo dominado”. A platéia do bom-senso e dos bons-costumes repetia em coro: “tá, tá, tatá, tatá, tá!”. É. Era sim, um outro eu. Do formato do imediatamente. Na pequenez do suficiente. O poder. Na mão. No corpo. No anjo caído. No copo. É. Era sim, um outro eu. Na ousadia. Lançando o peso da obediência ao surpreendido. Dotando o curioso. O sagaz. Uma alegria esbanjada. Era um outro eu descartável. Um outro nosso. Um outro coletivo. Um outro libertador. Um outro eu mesmo. Do formato do imediatamente. No ângulo do oblíquo. No tom do paradoxo. À volta, tudo aparentemente igual. Se não fossem os dias atabalhoados passando… Bebeu a terceira garrafa de água. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal… Do formato do rotineiramente. Ele surgia mudo. Impetuosamente descartável noutro. Um beijo do caralho.

Por Solange Pereira Pinto

janeiro 29, 2008

Inventário – Um outro eu descartável (parte I)

Filed under: 1,Montanas — maldemontano @ 6:04 pm

grafitedigital.jpgPara Celso Murilo

Não. Melhor dizendo: balanço. Não, não. Talvez, devaneio. A troca do dia já fazia há alguns dias. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal. O de si, também. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando. Ir à festinha, nem pensar. Usar o próprio tempo com alguém estava raro. Melhor assim. Quer dizer, possível. Não tardaria o dia em que todos reclamariam de tão estranha criatura e manias. Hábitos nada saudáveis: trocar o dia pela noite. Tempos modernos para velhos corpos e cabeças. Afinal, nada havia mudado tanto. Em dois mil anos, aliás em milhões de milênios, deixa prá lá. Coisa tola era querer fazer do seu dia o seu inferno, pois tanta cobrança para quem quer paz, não se fazia boa idéia. Era tolice, porém era o que lhe restava, supunha. Continuava a chatice. “Oi, vamos sair?”. “Ei, se anima!”. “Ah, que preguiça é essa?!”. “Vamo lá”. “Não pode continuar desse jeito!”. Tanta cantilena aos ouvidos rendeu uma saída. Daquelas. Redenção. Começou no papo besta e na cerveja. Uma. Duas. Cinco. Nove. Engata papo meio-cabeça-meio-pileque. Doze. Senta gente. Some gente. Desce copo. Baixa santo. Sobe espuma. Levanta as idéias. Queima o fogo. Incendeia o diabo. Muda de boteco. Uma. Duas. Cinco. Chega a hora do tum-tum-tam-tam-tec-tec. Bate-estaca. Bate-punheta. Bate-zorra. Bate-piração. A pista de dança semi-cheia. A idéia lotada. zummm. zoom. zomp. zump. Rebola. Abaixa. Sobe. Rebaixa. Beija. Esfrega. Lambe. Arregaça. Inferniza. Ataca. Come. Vira. Pega. Larga. Beija. Beija. Beija. Some. Ri. Disfarça. Escancara. Surta. Pega carona. Apaga… Não. Melhor dizendo: balanço. Não, não. Talvez, devaneio. A troca do dia já fazia há alguns dias. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal. O de si, também. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando… Conta a história ao amigo de décadas. Ele sorri e arremata: “que nada, não esquenta. Era um outro eu descartável”. É. Era sim, um outro eu. Um outro nosso. Um outro coletivo. Um outro libertador. Um outro eu mesmo. A gente tem vários desses. Ou daqueles. Usa. Tira. Descarta. Levanta a tampa do vaso e vomita. Dá descarga e a ressaca moral escorrega para o bueiro. Lá se vai você pelo ralo. Aliás, pelo ralo já se tinha ido no dia anterior… ou quando?

 Por Solange Pereira Pinto

novembro 8, 2007

Livro: O Bispo – A história revelada de Edir Macedo

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 11:18 am

Primeira edição de 700 mil exemplares esgotada

É fácil julgar ao invejar

 

Domingo, dia de culto, dia de missa, dia de Faustão, eu estava passeando pelo Café com Letras e encontrei ‘O bispo’ em primeiro plano no balcão do caixa. Confesso que sempre tive preconceito relacionado à Universal, aos evangélicos, aos carolas, aos fanáticos religiosos de qualquer espécie. Aliás, fazendo a famosa mea-culpa: aversão a qualquer fanatismo que não fosse o meu.

Contudo, no caso Edir, eu não sabia a outra versão. Nos dias de hoje é muito fácil se formar uma opinião apenas por um lado da história. Vence a mídia que você mais acessa, mais participa, mais lhe atinge.

Quero dizer com isso que a interferência dos grandes meios de comunicação de massa (MCM) “pautam” nossas idéias, nossos pensamentos e até nossas atitudes (ou principalmente, o que é pior). TV, rádio, internet, jornais…

Porém, minha curiosidade é bem maior do que o meu preconceito e sempre será. Eu boto a cara e quero chafurdar na realidade vista diretamente pelos meus olhos. Comprei o livro (estava ansiosa pelo lançamento). Especular a vida do Edir Macedo, em sua biografia autorizada, foi um prazer. Nem tanto pela leitura, que, apesar da escrita fluente, da excelente diagramação e tipologia, peca por repetir demais. Eu li, eu gostei.

Levei um susto! Embora se tenha em mão um exemplar do “olhar do outro” (no caso o dos autores da obra) dá para se refazer conceitos. A notícias que todos temos, pela mídia “global” (imperial e católica de carteirinha) é que o bispo é, em resumo, charlatão e estelionatário.

Vejamos: qual igreja, religião, não é chartalã e estelionatária? Simples: aquela em que acreditamos! Para os ateus o ateísmo, para os budistas o budismo, para os católicos o catolicismo. Daí a César o que é de César…

Todas as cristãs, praticamente, prometem milagres, cura, um pedaço do céu, a salvação do inferno, realização de promessas etc. Todas pedem uma “oferta”, “oferenda”, “dízimo”, “contribuição” etc.

É o câmbio da salvação: pague e (um dia) terás!

Óbvio que há quem “pague” com dinheiro! A maioria decerto. Há quem pague com doações patrimoniais, alimentos, trabalho voluntário. Uma “ajudinha” daqui e outra dali.

Questionar os “pagamentos” feitos à igreja católica, por exemplo, não entra em cena. Por quê? Estamos acostumados! Simples assim.

Nossa cultura tem base católica e seus dogmas estão profundamente arraigados em nossas atitudes “cristãs”. Mas ela prega o sacrifício, o voto de pobreza, o celibato.

O catolicismo prega a miséria, eu diria.

Eu que fui batizada, fiz primeira comunhão e crisma, aprendi, em síntese, a me sentir culpada. Sentir culpa de transar. Sentir culpa de ganhar dinheiro. Sentir culpa de ambicionar conforto. Sentir culpa de viver com os prazeres “da carne e da grana”.

Lucrei frustrações e culpas que até hoje estão impregnadas no “automático” de minhas ações (claro que quando percebo mudo o rumo imediatamente). Ser “humilde”, dar a outra face e carregar a cruz me foi ensinado. Vida de “penitências”, de “pai-nosso” automático, de 230 aves-maria!

Sim. Nas outras também existem dogmas, submissões e blablabla. É por isso que jogar as pedras no Edir Macedo se torna um pouco ridículo. O papa é pobre? Come pão velho e água? Veste roupa de feira? Não, o papa é nobre! E o Edir é o papa da Universal.

Não, eu não me tornei evangélica. Continuo sem religião, entretanto não aprecio injustiças midiáticas advindas de visões rasas.

Acontece que os neo-evangélicos invadiram a praia e tomaram o terreno monopolizado da Igreja Católica. Isso sacudiu. Abalou. “Almas” foram “perdidas” para a concorrência. Lembremo-nos que estamos no capitalismo globalizado. Perder fiéis significa perder poder, que significa perder dinheiro, bens etc.

Acusam o Edir de atentar contra a “fé pública”. Nada diferente, na minha opinião, do que faz a publicidade de celulares e os noticiários da TV que miram a camêra e editam precisamente as imagens que “devemos” ver… Ah, e o Congresso Nacional, o Executivo, o Judiciário, os padres pedófilos, as freiras autoritárias, as religiosas que usam Gucci… de uma lista sem-fim não escapam às distorções.

A Folha On-line acusa o jornalista Douglas Tavolaro (autor do livro) de ser “parcial”, pois foi pago por seu patrão Edir para escrever…

Digam-me, então, sobre a mídia. Diariamente ela atenta contra o público ao selecionar as “matérias” que vão ao ar e mais, todos jornalistas são pagos por seus patrões para escrever e por isso parciais, não é mesmo? Ou neste caso há dois pesos e duas medidas? (adoro usar clichês em assuntos clichês).

Voltando ao livro “O Bispo”. A obra mostra o que pensa Edir. Sim, o que Edir quer mostrar sobre ele. Sim, o que Edir assume como sendo “ele”. Sabe, vi um Edir sincero. Autêntico. Posso dar meu testemunho: ele prega e dá exemplo! Ele quebra o paradigma da massa pobre, coitada, carente, sem eira, sem auto-estima, penitente, dócil.

Edir sacode a massa e chama, clama, à ação!

Ontem fui em um culto evangélico, como o São Tomé – ver pra crer -, percebi que o que lá acontece é uma verdadeira terapia popular e o dízimo é o seu pagamento. Fundadores de terapias, de religiões, de seitas é que ditam as regras, né! Muitas vezes o que se muda é apenas o nome das coisas, vamos usando sinônimos e criando palavras novas. Roupagem diferente para antigas ações.

Lembrando de outros métodos, quem conhece a psicanálise sabe o quanto é importante o investimento do paciente em sua cura e isso, necessariamente, passa pelo metal. Em psicanálise o dinheiro (o valor da consulta paga ao psicanalista) faz parte da terapia. Se investe tempo e grana!

Se temos, hoje, consultas terapêuticas custando em média R$ 120,00 (por uma hora), em se tratando de dízimo equivaleria a um salário mensal de R$ 4.800,00. Então, quem ganha um salário mínimo poderia pagar cerca de R$ 40,00. Essa é a conta! Um “culto-terapêutico” fica na ordem de R$ 10,00 para quem ganha R$ 400,00. E, ainda, com direito a duas horas e meia de tempo, com direito a música (lembram do couvert de bar? mínimo R$ 3,00 por pessoa), interação grupal… E, mais, elevação da auto-estima pela fé! “Tudo pode quem nele crê”.

Eu li num comentário que: “crente” é quem “crê” mas não se diz em “quê”.

Crer é crer e dar o dízimo é crer e dar a oferta é crer. Jogar flores e champanhe para Iemanjá é crer (e poluir o meio-ambiente). Comer hóstia é crer. Rezar terço é crer. Ser voluntário (mão-de-obra grátis) é crer. Fazemos o que acreditamos que irá ajudar em nossa crença. Ler Saramago é crer. Ler boa literatura é crer nas possibilidades da arte e do intelecto.

Crer é crer. Dar crédito.

Edir Macedo crê no que diz. Seus fiéis também. O problema dele é ser claro. Ele é a favor do aborto e diz que é. Ele apóia o uso de camisinha, o controle da natalidade, o conforto, a riqueza material e espiritual. Ele é contra um monte de coisas também. Quem não é…

Os templos da Universal são requintados, confortáveis, suntuosos. O dinheiro dos fiéis é reinvestido em cadeiras macias, em piso nobre, em ar-condicionado, em pagamento de “salários”. Algums padre trabalha de graça? Algum profissional quer trabalhar de graça?

Edir mostra que o que é bom, é bom, e deve ser para todos e não para poucos. Todavia não é parado que se conquista! Edir é movimento. É modelo.

Por fim, prefiro um Edir Macedo que conscientiza milhões de pessoas da “massa” (que deixam de ver TV apenas) para por a mão na massa e mudar de atitude. Ele prega que não se tenha filhos, pois o mundo já está lotado. Ele prega a adoção. Ele prega o não uso de drogas. Ele prega a união da família. Ele prega valores cristãos e capitalistas.

Ele é atual e prega para uma sociedade atual.

E, no final, como qualquer profissional, como qualquer terapeuta, ele ganha por isso. É injusto?

Por Solange Pereira Pinto

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A guerra da TV Globo Católica com a TV Record Evangélica está no começo. Talvez, a sociedade se equilibre mais.

Se a TV Record foi comprada com dinheiro “ilegal”, a TV Globo também e outras tantas mídias, rádios, afiliadas bláblábla…

outubro 2, 2007

Morre o poeta Bruno Tolentino

Filed under: Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 7:01 pm
O poeta-polêmico Bruno Tolentino se vai.  Vivedor confesso. Sofredor também. Um poeta angustiado que a vida o desafiava e ele às pessoas. Assim como polemizava o outro se punha no fogo diariamente. Se foi Tolentino, o menino mimado que punha a ampulheta em suas mãos. Brincava com os dias, com o pulsar do sangue. Vaidoso não mais que todos, corajoso em dobro. Bruno não tinha nada a perder, pois já havia perdido de si o otimismo de acreditar em “felicidade humana”, besta, medíocre. Bebia das horas os momentos, para sover as alegrias passageiras (só essas existem de fato). Afiava a fala para derrubar rotinas. Era um Simão Bacamarte procurando seus pares. Neste país de analfabetos ficou marcado pela personalidade auto-falante; e  era também isso, pois sabia que o Brasil precisava de pessoas como ele. Certa vez disse (referindo-se à obra O mundo como Idéia) “houve sempre em mim esse problema entre aceitar o real, verificar a realidade tal como ela é, o mundo como tal e essa atração pelo mundo como idéia. Este é um livro auto-antídoto. É a história de uma diagnose e cura”. 

Se foi Tolentino, o homem erudito que mal encontrava interlocutores por aqui.  Mais um solitário. Menos um poeta literalmente vivo. Você fará falta!

Por Pandora Montana 

“Em meio a um tão animado bundalelê, meus amigos, eu não prefiro esta ou aquela universidade, prefiro ler Dante e aguardar a Paurosia, afinal, que os mutantes se divirtam, eu creio no Divino Espírito Santo, na Santa Igreja Católica Apostólica, na remissão dos pecados, na comunhão dos santos, na ressurreição da carne e na vida eterna, Amém”. Bruno Tolentino

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Morre o poeta Bruno Tolentino

Agência JBRIO – O poeta Bruno Tolentino, vencedor de dois prêmios Jabuti (“As horas de Katharina” e “O mundo como idéia”) e eleito intelectual do ano de 2003 pela Academia Brasileira de Letras (Prêmio José Ermírio de Moraes), faleceu hoje aos 66 anos. A causa da morte foi falência múltipla de órgãos, segundo o atestado de óbito emitido pelo hospital Emílio Ribas, de São Paulo, onde Tolentino estava internado há um mês.

Apesar de ser conhecido por sua poesia, Tolentino também foi jornalista, professor e polemista. Nascido em 12 de novembro de 1940, em uma tradicional família carioca, desde criança conviveu com intelectuais e escritores, aprendendo a falar inglês e francês com fluência. Em 1964, com o golpe militar, foi viver na Europa. Na Inglaterra, Bruno ocupou o cargo de professor nas Universidades de Oxford e Essex. Em 1987, sob a acusação de tráfico de drogas, foi condenado a 11 anos de prisão. Durante 22 meses cumpriu sentença em Dartmoor. Retornou ao Brasil em 1993, causando grande barulho com ataques tanto ao concretismo – em especial, os irmãos Campos, Haroldo e Augusto – como a letristas da MPB como Chico Buarque e Caetano Veloso.

[ 13:33 ]   27/06/2007
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