Mal de Montano

julho 31, 2010

enquete com 60 escritores

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O incerto caminho até a publicação

Em enquete com 60 escritores, levantamos os dilemas enfrentados por autores em busca de editoras

31 de julho de 2010 | 

Anos atrás, o editor Paulo Roberto Pires presenciou uma inflamada discussão acerca do excesso de autores estreantes que as grandes editoras andariam colocando no mercado. Ele sabia que, a qualquer momento, um dos críticos poderia apontá-lo entre os culpados pelo que seria “falta de parcimônia” editorial. Como jornalista cultural, depois um dos organizadores da primeira Flip (2003) e, por fim, editor em duas das maiores casas publicadoras do País, a Planeta e a Ediouro, ele apresentou a um público mais abrangente alguns dos principais nomes da Geração 00, como João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron e Santiago Nazarian.

JF/Diório

JF/Diório

Pires não considera isso negativo. “Se um escritor é bom ou ruim, o tempo é quem diz. Era preciso sacudir o mercado naquele momento em que era enorme a diferença entre o que se editava e o que se via de interessante na internet.” O fato é que atitudes como a dele ajudaram a estimular a aceitação a novos autores. “A internet alterou o perfil do lançamento de um estreante”, avalia Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco. “Está mais fácil ser autor agora do que quando quem badalava sua obra era visto com desconfiança, como se não tivesse a pátina correta de eruditismo. Hoje, ninguém vai criticar quem quer estar onde os leitores estão. As feiras literárias estão aí para provar.”

A exposição só não alterou o fato de que a publicação por uma grande editora marca, em geral, o momento em que tudo muda na trajetória de quem quer viver de literatura – ou se tornar uma pessoa jurídica, como diz Cristovão Tezza, que pôde parar de dar aulas e viver apenas em razão de seus livros desde que O Filho Eterno, publicado pela Record, abocanhou quase todos os prêmios literários de 2008. “É importante a recepção que o livro tem quando vem de uma grande. As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo”, diz Antonio Prata, que ingressou nesse olimpo literário em 2003, com As Pernas da Tia Coralina, publicado pela Objetiva.

O Sabático resolveu saber dos próprios autores qual o impacto de uma grande editora em sua carreira, como foi o caminho até ela e como se sentem a respeito numa época em que, cada vez mais, surgem boas casas de pequeno ou médio porte no País – como a 34, a Iluminuras e a Ateliê Editorial, só para ficar em três exemplos. Numa espécie de pesquisa informal, enviamos pequenos questionários a quase 70 escritores de todas as idades, dos quais 60 aceitaram participar. As questões foram feitas em cima do primeiro título lançado com distribuição nacional e grande alcance de divulgação. E que, na maior parte dos casos, não foi o primeiro que tiveram editado – Lya Luft, por exemplo, escreveu o primeiro livro 13 anos antes de chegar à Record, onde virou best-seller com As Parceiras, em 1980; Ana Miranda escreveu dois de poesias por editoras pequenas e ficou 10 anos retrabalhando o mesmo romance até enviar os originais de Boca do Inferno para a Companhia das Letras – foram mais de 200 mil exemplares desde 1989.

É claro, o caminho é bem mais rápido para quem não se dedica a outros trabalhos antes, como Lya, ou não se debruça tanto tempo sobre a mesma obra, como Ana. As duas, que estrearam em grande editora com 40 e 37 anos, respectivamente, estão acima da média de idade que os participantes da enquete tinham quando chegaram lá, 34 anos. Quase um quarto dos escritores (23%) conseguiu fechar um contrato no mesmo ano em que terminou de escrever o primeiro livro – apostas em iniciantes, como no caso dos autores editados por Paulo Pires, ajudam a engrossar esse número; prêmios literários e publicações anteriores de contos em periódicos e antologias também.

Mas um número parecido (20%) esperou mais de uma década desde as primeiras tentativas literárias até receber um convite de uma grande editora. Caso de gente como Affonso Romano de Sant’Anna (que esperou 22 anos até, aos 38, ter Poesia sobre Poesia publicado pela Imago), Cristovão Tezza (17 anos tendo obras recusadas até Traposair pela Brasiliense) e Marcelo Mirisola (15 anos escrevendo livros até ser convidado pela Record a lançar Joana a Contragosto).

Mas Mirisola, assim como Marcelino Freire e outros escritores, já era conhecido quando teve o romance editado pela maior editora do País. O reconhecimento chegou com Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, que a Estação Editorial, uma editora de médio porte, publicou em 1998. “No meu caso, não mudou nada”, diz o paulistano sobre o título que saiu pela Record. Tanto que, depois disso, voltou para uma editora média, a 34, e em breve terá um infantil (a quatro mãos com Furio Lonza) pela Barcarolla.

Indicações

Só quatro dos 60 autores (Mirisola, Ana Miranda, João Almino e Tiago Melo Andrade) disseram que recomendações feitas por outros escritores ou pessoas próximas não facilitam o caminho para um iniciante. Tirando um ou outro que preferiu não emitir opinião a respeito, a grande maioria respondeu ao Sabático que a indicação abre portas, sim – mas todos ressalvaram que apenas permite aos manuscritos uma mãozinha para chegar logo ao topo da pilha de originais. Vinte e um dos autores disseram que escreveram a convite – está certo que boa parte deles já era algo conhecida por textos em antologias, periódicos ou editoras pequenas. Outros 38 afirmaram que enviaram originais; desses, 24 conheciam o editor ou tiveram a tal recomendação, e os 14 restantes afirmaram só ter oferecido os originais nas editoras. E uma única, dentre os 60, recorreu a um agente – Ana Maria Machado, publicada pela Francisco Alves, uma das grandes em 1983. “Nos EUA, é mais comum iniciantes contratarem agentes. Por aqui é raro o autor se arriscar a pagar um agente sem a certeza da publicação; isso só costuma acontecer quando eles já estão com carreira mais estabelecida”, diz a editora Izabel Aleixo.

Por curiosidade, metade dos 38 autores que foram bem-sucedidos após enviar originais preferiram fazê-lo para uma só editora – uma espécie de ética que as casas publicadoras não exigem e que pode acabar sendo um problema para quem aspira ser editado. Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record, por exemplo, diz que não vê mais originais em papel não solicitados. “Não há como. Se vem um e-mail, a gente até se situa. Se achar que a carta está bem feita e que existe um mínimo de potencial, vai para leitura. Recebo uns 25 emails por mês, sem falar nos que recebem todos os outros editores, e uma quantidade absurda de papel que não serve para nada.”

Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco, diz que passam de 150 os originais que chegam por mês à editora. A Rocco não veta os que chegam em papel, mas exige que todos venham gravados em CD – se o autor quiser mandar a impressão em anexo, fica por conta dele. “E, vou te dizer uma coisa, 98% dos livros. logo nas primeiras páginas, senão na carta de apresentação, você vê que não é um livro de verdade. Não falo nem de regras gramaticais, e sim de um mínimo de estilo, de consciência literária”, diz Izabel Aleixo, ex-diretora editorial da Nova Fronteira, que acaba de assumir cargo na Paz e Terra. Isso faz com que bons livros se percam na montanha de aspirações literárias. E é aí que entra a recomendação. Não porque vá privilegiar alguém, mas porque permite a triagem.

Mas nem todos são adeptos da fidelidade. Elvira Vigna, ao terminar O Assassinato de Bebê Martê, abriu um catálogo do Snel (sindicato dos editores) e mandou uma cópia do romance a cada editora cujos nome reconheceu. Em menos de um mês, recebeu a resposta de uma das melhores do País, a Companhia das Letras. Nelson de Oliveira também mandou seus contos de estreia para cerca de 20 editoras, mas precisou esperar oito anos, ganhar um prêmio, o Casa de Las Americas, e ser recomendado por um dos jurados, Rubem Fonseca, para publicar pela mesma casa Naquela Época Tínhamos um Gato>. Hoje, voltou a publicar por pequenas editoras: “Não há mais muita diferença. Em geral, as pequenas se profissionalizaram.” Ignácio de Loyola Brandão, que mandou cópias de seu Depois do Sol para 13 editoras, recebeu cartas padrões de quase todas e uma que não esqueceu, da Civilização Brasileira: “O autor escreve como quem mija.” “Achei até que era elogio, mijar é um ato natural”, conta. Acabou sendo publicado logo pela Brasiliense – e o editor Caio Graco, lembra Ignácio, aceitou a obra sem nem fazer reparos de edição.

Autores falam sobre o primeiro livro

“Já na Ateliê (de médio porte), com o Angu de Sangue, em 2000, minha vida literária mudou. Fui bastante resenhado, divulgado. Não sou desses que ficam com a bunda na cadeira, reclamando de editor”

Marcelino Freire

“As pessoas olham diferente para um livro da Companhia das Letras, por exemplo. Se fica mais fácil? Creio que sim. Mas não acho que no Brasil publicar seja problema. Isso é fácil. Difícil é vender”

Antonio Prata

“Aprendi que as pessoas não querem palpite nem sugestões, querem endosso e apadrinhamento. Qualquer restrição ou dica, por mínima que seja, é vista como ofensa e se ganha um desafeto”

Ana Maria Machado

“A passagem da Revan (de pequeno porte) para a Nova Fronteira não significou nada. Meu desempenho de público até piorou. Tanto que a Nova Fronteira não quis um segundo livro meu”

Alberto Mussa

“Aquele era o meu livro, era o livro possível, e se o editor fosse mais invasivo a obra não seria tão autêntica. Prefiro caminhar com as minhas próprias pernas e aprender com os meus próprios erros”

Adriana Lisboa

“A gente também passa a fazer outros trabalhos: textos de prosa e ficção para jornais, orelhas de livros, palestras. Para isso, é imprescindível ser publicado por uma grande editora, é evidente”

Cintia Moscovich

“Editoras grandes ajudam sobretudo em distribuição e divulgação, mas é precipitado dizer que necessariamente trazem mais público. Nada impede que isso seja alcançado em publicação independente”

Daniel Galera

“Quem leu (o primeiro livro que escrevi) achou péssimo e tive de concordar antes de enviar a qualquer editora. Mas todo livro é o primeiro. Já tive livros recusados depois de publicar o primeiro”

Bernardo Carvalho

“(A indicação) facilita o acesso à editora, mas não garante a publicação. É lenda achar que, por conhecer o autor ou ser amigo de alguém de seu círculo, o editor vai publicar o livro”

Cristovão Tezza

abril 4, 2010

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10/12/2008 – 08h20

Morto há cinco anos, Roberto Bolaño vira best-seller nos EUA

SYLVIA COLOMBO

da Folha de S.Paulo

“Os Estados Unidos vivem hoje duas manias. A Obama-mania e a Bolaño-mania.” A frase é de ninguém menos que Andrew Wylie, um dos mais importantes agentes literários do mundo.

O representante de autores como Philip Roth, Saul Bellow e Norman Mailer declarou à Folha que, em 30 anos de atuação no mercado editorial, jamais havia observado um fenômeno de vendas como o que está sendo alcançado pelo chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

Nos EUA, atualmente, menos de 4% dos livros de ficção são traduzidos de outras línguas. Neste cenário, um estrangeiro que atinge a marca de mais de 75 mil cópias vendidas com um só título (“2666”) é um verdadeiro recorde.

Em novembro, a revista britânica “The Economist” dedicou ao fenômeno uma matéria com o título de “Bolaño-mania”, enquanto o “New York Times” acaba de festejar o mesmo livro colocando-o em sua lista dos dez melhores de 2008.

O legado de Bolaño passou recentemente, a pedido de sua viúva, às mãos do escritório de Wylie. Na última Feira de Frankfurt, em outubro, o agente apresentou um livro inédito, “The Third Reich” (o terceiro reich), e anunciou o começo dos trabalhos de edição de outros escritos do chileno que ainda não vieram à luz.

“Quem me apresentou a seu trabalho foi Susan Sontag, que era uma grande fã. Ao lê-lo, fui percebendo que possuía uma voz muito diferenciada do que se encontra na literatura contemporânea. Tem um olhar que viaja do naturalismo para uma paisagem de sonho, alucinatória. Ele era uma espécie de Rimbaud”, avalia o agente.

Lorin Stein, da Farrar, Straus & Giroux, atual responsável pela publicação de seus livros no país, diz que trata-se do “único novo autor em quem podemos realmente acreditar. Sua atitude diante da ficção, da posteridade, do significado da criação artística, é realista de um modo que não vemos em nenhum outro escritor nos dias de hoje”, disse, em entrevista por e-mail.

E acrescenta, sobre a sensação que teve ao deparar-se pela primeira vez com seu universo: “Se um gigante como esse estivesse diante de nossos olhos e não conseguíssemos enxergá-lo, nós, das grandes editoras, teríamos de reconhecer que temos muito o que melhorar”.

O sucesso deste homem de trajetória trágica, que morreu prematuramente aos 50 anos, de uma doença de fígado, está longe de ser novidade abaixo da linha do Equador.

Porém, enquanto no restante da América Latina seu talento é reconhecido pela crítica e tornou-se referência para toda uma nova geração, no Brasil seu prestígio ainda é relativamente pequeno.

Já lançados aqui, “Detetives Selvagens” (considerado seu principal livro), “Noturno do Chile”, “Pista de Gelo” e “Putas Assassinas”, venderam, cada um, uma média de 3.000 exemplares, o que é bom para os padrões locais, mas não chega a ser um êxito considerável.

A Companhia das Letras lança agora “Amuleto” e, em 2010, entregará às prateleiras o já mencionado “2666”.

Juventude trotskista

Bolaño cresceu no México e voltou ao Chile natal no começo dos anos 70, entusiasmado com o governo do presidente socialista Salvador Allende. Derrubado o regime, em 1973, o jovem trotskista foi perseguido e passou alguns dias na prisão. Depois, partiu para a Espanha e, na Costa Brava catalã, acabou fincando raízes.

Seus livros tratam de modo original o gênero policial, mas também falam de política e drogas, além de refletir sobre a própria literatura, tendo usualmente escritores –e a si mesmo– como personagens.

Há colagens de histórias aparentemente independentes e personagens que transitam entre uma e outra. Seu estilo leva críticos mais apaixonados a compará-lo a Julio Cortázar.

Para o argentino Alan Pauls (“O Passado”), a originalidade de Bolaño está no cruzamento eficaz de “tradições que nunca tiveram muita simpatia uma pela outra: a aventureira e espontânea beatnik com a erudita e sofisticada ficção mais “letrada”.” E resume: “É como se misturássemos Jack Kerouac com Jorge Luis Borges”.

Já Stein faz outra comparação. Pelo fato de ter se tornado uma moda rápida, por criar histórias que mesclam thriller e questões existenciais, e por atingir um grande público com livros imensos, ela designa o chileno como “uma espécie de Harry Potter intelectual”.

abril 3, 2010

poesia é trabalho…

Filed under: Aqui o mal geral,Mal do dia,Poesias — maldemontano @ 6:08 pm

Poesia é trabalho

Manoel de Barros não se cansa quando fala de sua paixão pela palavra

Por Caco de Paula – Revista Vida Simples – 06/2008

Há quase 30 anos, quando li pela primeira vez Manoel de Barros, ele já não cabia na definição de “poeta do Pantanal”. É poeta e ponto. Um dos maiores do Brasil. Confunde-se às vezes com a grande planície por onde a água flui e transforma a paisagem, feito as palavras escorrendo por sua poesia, como nos versos em que as garças pantaneiras “enchem de entardecer os campos e os homens”. Manoel é quase sinônimo do Pantanal, pois, grande poeta, é quem mais bem sabe cantar a terra – a água, o lodo e o cisco – em que vive.

Embora o Pantanal seja ambiência freqüente de sua poesia, seu tema central é o nada, o desimportante, os trastes esquecidos e jogados fora. “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para a poesia.” Não se pode passar régua no Pantanal, ou no poeta. Penso nisso, agora, chegando a Campo Grande, para novo encontro com Manoel, quase 20 anos depois da primeira vez que nos vimos. Falo com ele na véspera de viajar a uma paradisíaca reserva de proteção da natureza no Pantanal, mantida pelo Sesc, em Porto Cercado, onde borboletas se passam por folhas e aves se fazem de galhos.

O próprio Manoel me recebe quando chego à sua casa. Aos 91 anos, continua com olhos brilhantes de moleque curioso que se encanta ao contar histórias. Discreto, um caramujo, Manoel tem andado ainda mais recluso. “Desde que João, filho mais novo, morreu no ano passado, não vou mais à fazenda.” Não ouve direito de um ouvido e não quer usar aparelho. Pede que o interlocutor fique à sua direita. Acolhedora, Stella, sua mulher, se despede para ir ao dentista. Pedro, filho mais velho, vez em quando espia na sala. Cuida para que o pai não se canse.

Manoel não se cansa quando fala de sua paixão pela palavra ou do sentimento de pureza infantil que inaugurou seu amor à poesia. Conta-me dos andarilhos com quem conversava na infância e de como influenciaram sua linguagem. Diz que conselhos não servem a artistas, que precisam é ter dom. Lembra a importância de educar os sentidos, ler, ver arte, ouvir música, encantar-se pelas coisas.

Não acredita em inspiração, mas sim em vontade. “Poesia é trabalho, em cima de harmonia, ritmo, rima. Sou prático pela palavra. Se me vem um desejo de fazer um poema e, depois de algumas linhas, me falta uma palavra, é à noite que ela me vem. Aí, acordo e anoto num caderninho. Stella, minha mulher, fica incomodada. Já veio a palavra, Manoel? Então dorme. Poesia é assim. O poeta é um visionário.” Conta-me que não relê sua poesia, que tem tédio dela, por já ter sangrado e sofrido a cada verso. Que agora não está escrevendo, pois se sente oco. Que sua poesia é perseguida pela natureza e pelas percepções infantis. Que ainda quando criança aprendeu a distinguir o canto do gorjeio. Manoel me diz, principalmente, que a poesia é para ele uma espécie de encantamento – e que, se sua arte de fazer versos for uma espécie de loucura, não quer ser curado dela não.

Caco de Paula não sabe direito a diferença entre canto e gorjeio, mas espera aprender relendo Compêndio para Uso dos Pássaros e outros livros de Manoel. homemdebem@abril.com.br

Geração Beat – Como esquecer…

Filed under: Mal do dia,Outros Escritos — maldemontano @ 3:46 pm

por Lendo.org

Para mim, falar de livros, além de ser sempre um prazer, me remete à cultura, ao tempo e espaço onde o escritor se inspirou para escrever seu livro. Eles são eternos, porém datados política e socialmente. Quando um escritor tem sua inspiração para desenvolver sua obra, ele está cercado pelo espaço e pelo tempo e, assim, não tem como não catalogarem seu livro, questões sociais, comportamentais e filosóficas. Respeito, mais que tudo nesta vida, aquele que emprega seu tempo e seu coração no ato de escrever. São deuses os escribas e devem ser sim reverenciados como disse-o bem nosso querido amigoChristian Gurtner.

Hoje vou falar de Jack Kerouac, para mim um dos maiores e mais sensíveis escritores de seu tempo. Vou falar de revolução cultural. Revolução! Uma revolução cultural que ficou conhecida como a Geração Beat.

On The Road - Jack KerouacOn The RoadCompare preços e economize dinheiro

Em 1957, Jack Kerouac publicava On The Road e iniciava uma revolução cultural nos Estados Unidos. Este livro tornou-se o manifesto da geração beat, que rompia com o compromisso doamerican Way of life e pregava a busca de experiências autênticas, um compromisso selvagem e espontâneo com a vida até seus mais perigosos limites. Diante de uma sociedade que aniquilava o indivíduo, os beatniks queriam uma consciência nova, libertada de padrões, escolhiam a marginalidade. (Trecho O Autor e sua Obra)

Não queriam continuar numa sociedade morna, desprovida de vida, de ação e liberdade de pensar e viver.

Apesar das experiências com o êxtase através das drogas, na minha opinião é apenas um detalhe dada a importância desta revolução, a geração beat marcou nova era no mundo cultural. O homem tem direitos de indivíduo e o mais sagrado é, possivelmente o de mudar o Status Quo. Perceber que pode repensar as coisas e, diga-se de passagem, estamos falando de uma revolução artística – Literatura essencialmente…

Os Beatniks

Por intermédio de Burroughs, Kerouac tomou contato com escritores como Kafka, Céline, Spengler e Wilhelm Reich. Os três amigos passaram a conviver com as barras pesadas do Times Square.

Descendente de uma família de franco-canadenses,Jack Kerouac recebeu uma educação católica e graças às suas aptidões de atleta foi estudar na Universidade de Colúmbia. Lá no Campus, conheceu Allen Ginsberg, também estudante eWilliam Burroughs, formado em Harvard. Os três iriam se tornar os principais representantes da geração beat.

Em 1947 Kerouac resolveu sair viajando pelo mundo e pegou a estrada. Associou-se com vagabundos, caroneiros, e bebeu muito por aí. Terminou o On The Road em 1951. Seu estilo é notável e inconfundível, com suas longas frases, onde descartava o uso da pontuação.

Mas sempre foi um individualista. Terminou dividindo um apartamento com sua mãe, onde pintava quadros com Cristos tristes, ficava horas a fio diante da televisão. Ou seja, era, no fundo um espírito conservador e não entendia como influenciara pessoas como Allen Ginsberg (poeta)!

Considerado um rebelde existencial, quedou-se ao budismo mas foi sempre um inadaptado ao mundo em que vivemos.

Escreveu vários romances, como “O Subterrâneo”, Desolate Angels”, “The town and the city”, entre outros.

Se alguém estiver se perguntando o que a geração beatnik tem a ver com os dias de hoje, eu poderia responder, de pronto, que tudo que somos e fomos depois desta revolução, tem a ver com a abertura literária no campo das experiências, da pós modernidade, da noção de liberdade de pensamento e principalmente, tem a ver com a felicidade de fazermos parte de uma cadeia de pensadores e escritores que nos deixaram um legado inestimável.

Trechos de On The Road

Casualmente, uma gostosíssima garota do Colorado bateu aquele shake pra mim; ela era toda sorrisos também; eu me senti gratificado, aquilo me refez dos excessos da noite passada. Disse a mim mesmo: Uau! Denver deve ser ótima. Retornei à estrada calorenta e zarpei num carro novo em folha, dirigido por um jovem executivo de Denver, um cara de uns trinta e cinco anos. Ele ia a cento e vinte por hora. Eu formigava inteiro; contava os minutos e subtraía os quilômetros. Bem em frente, por trás dos trigais esvoaçantes, que reluziam sob as neves distantes do Estes, eu finalmente veria Denver. Imaginei-me num bar qualquer da cidade, naquela noite, com a turma inteira; aos olhos deles, eu pareceria misterioso e maltrapilho, como um profeta que cruzasse a terra inteira para trazer a palavra enigmática, e a única palavra que eu teria a dizer era: “Uau!”…

maio 16, 2009

O homem que foi um século

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ENSAIOS

29/5/2006

Hugo Estenssoro

Um escritor “engajado” é um escritor que, descrente do valor perene da sua arte ou seu talento (e por convicção, por moda, ou simples decisão comercial) escolhe apoiar-se numa ideologia que acredita ser a corrente vitoriosa da História. O caráter dúbio da literatura engajada, que no mínimo é uma fraqueza ou traição estética ao submeter-se de maneira decisiva a critérios extra-literários, fica em evidência quando se trata de um escritor de gênio.

O caso clássico é o de André Malraux. A condição humana (1933) ainda é lida com fervor por jovens catecúmenos revolucionários que costumam ignorar que o romance é uma fantasia política sem relação alguma com a realidade chinesa da época ou as verdadeiras lutas revolucionárias do período. Ninguém menos do que Trotski o assinalou com sua costumeira brutalidade. Malraux respondeu, com rara honestidade numa vida de mentiras, que ele era um romancista e não um historiador.

Daí que um dos maiores paradoxos da história moderna, da era das revoluções, seja o fato irrefutável de que a grande literatura política é quase toda reacionária. Engels, famosamente, preferia o monarquista e carola Balzac ao subversivo Stendhal ou o progressista Victor Hugo, e Luckacs, o crítico marxista, achava o liberal Thomas Mann superior ao irmão esquerdista Heinrich. Mais ainda, com a perspectiva do tempo e o declínio dos aparelhos propagandísticos, fica cada vez mais claro que os clássicos da literatura política do “século das ideologias” são quase sem exceção contra-revolucionários: Orwell e Huxley, Pasternak e Vasily Grossman, Valle-Inclán e Pío Baroja, e muitos etcéteras.

Ninguém os promove (como os obrigatórios engajados nos currículos escolares e universitários), são os que vão ficando, filtrados pela insubornável preferência do leitor anônimo. As razões são óbvias mas não simples, e um exemplo pode ser mais claro do que uma explicação.

Nas cenas finais d’A condição humana, o herói enfrenta a morte pensando que “havia lutado por aquilo que nos seus tempos estava carregado com o mais profundo sentido e a maior esperança”, portanto “é fácil morrer quando não se morre só”.

Já em O zero e o infinito (1941), de Arthur Koestler, o herói do romance “não via senão um deserto e a escuridão da noite”, pois o “sentimento oceânico” do enfrentamento com a morte tinha lhe revelado a própria individualidade, que havia perdido no processo revolucionário. Na sua autobiografia, Koestler explica: “Na equação social, o valor de uma vida é zero; na equação côsmica é infinito”.

Ora, Malraux é melhor escritor que Koestler, mas nunca esteve em Xangai nem foi condenado a morte; fala bem, mas literalmente não sabia do que estava a falar. Koestler, pelo contrário, sentiu ele mesmo um “sentimento oceânico” e recuperou sua individualidade eterna enquanto esperava a morte, dia a dia durante meses, num cárcere franquista. Mas o romance de Koestler não é meramente mais “realista”, o que em literatura não tem importância. O livro de Koestler é superior porque é mais honesto e porque sua probidade se encarna no rigor estético. Lemos Malraux por prazer, mas lemos Koestler para saber quem somos.

É difícil acreditar que Koestler escreveu O zero e o infinito com apenas 35 anos, porque ao contrário do romance de Malraux, sintoma de um momento cultural europeu, o de Koestler é emblemático das grandes convulsões históricas do século 20. Todavia, a explicação é evidente: a vida vertiginosa de Arthur Koestler entre o ano de seu nascimento, 1905, e o período em que escreveu seu romance, 1938-1940, coincide com a voragem homicida que culmina com a Segunda Guerra Mundial.

Alguém já comparou a trajetória biográfica de Koestler com as frenéticas correrias dos primeiros filmes cômicos: a douceur de vivre do império austro-húngaro (na versão bucólica húngara e na versão cosmopolita vienense), o anti-semitismo e a Grande Guerra, a queda do império e a euforia do episódio comunista de Béla Kun em Budapeste, o ativismo sionista pan-europeu e uma prematura emigração à Palestina, o estudo apaixonado das ciências e a aventura do jornalismo, a vida de janota na República de Weimar, a opção pelo comunismo e um non-sequitur como espião, a peregrinação à União Soviética, a profissionalização como agente comunista internacional, a exaltada campanha anti-fascista, as misérias do refugiado político, a premonição dos Processos de Moscou, a experiência épica da Guerra Civil espanhola, o momento metafísico do condenado a morte, o final desencanto com a ilusão socialista depois do pacto nazi-comunista, o conhecimento dos campos de concentração (onde termina de escrever O zero e o infinito). Não surpreende que Koestler tenha escrito uma das grandes autobiografias do século 20: ao fazê-lo escrevia também a história do século.

Koestler, porém, dava por conhecidos os grandes panoramas e detalhes dessa história. Quase todos seus leitores adultos compartilhavam sua experiência quando publica Arrow in the Blue (1952) e The Invisible Writing (1954). Hoje em dia isso tudo é para muitos história antiga, quando não lhes é completamente sonegada pelo monopólio educacional meia-oito. É para subsidiar essas novas gerações que Michel Laval escolheu uma organização algo didática e bastante canhestra na sua nova biografia, explicitando que trata de “Arthur Koestler e seu século”. A alternância quase mecânica entre resumos históricos ou perfís de figuras importantes e a narrativa propriamente biográfica pode ser irritante por vezes, mas fica compensada pelo talento de Laval para aquilo que os ingleses chamam potted history, breves ensaios de bolso inseridos no momento necessário. Suas fontes são sempre secundárias, mas sua bibliografia é imensa, inteligente e bem aproveitada. Não apreendemos muito de novo, mas recuperamos muita informação esquecida ou descuidada. O livro é como um retrato de Koestler tamanho natural apoiado contra um gigantesco e enciclopédico mural revolucionário mexicano.

Em comparação com o último esforço biográfico anglo-saxão, Arthur Koestler: The Homeless Mind (Heinemann, Londres, 1998), de David Cesarani, o livro de Laval é quase folcloricamente francês. Cesarani, cujo livro ainda está nas livrarias, pratica a impecável e implacável técnica biográfica britânica, com amplo uso de fontes originais, muitas vezes inéditas, e com obsessiva preocupação pelos detalhes íntimos, especialmente os sexuais. Seu maldoso sucesso de escândalo conseguiu modificar a imagem koestleriana de ”Casanova de causas”, pela de Casanova tout court, apimentada com acusações de ter “violado” esposas de amigos não chegou a banalizar a vida de Koestler, mas mudou radicalmente a perspectiva dos leitores menos informados.

Não espanta que Laval sempre o cite com uma errata freudiana, italianizando-o como “Cesarini”. Demais, Cesarani, como especialista em temas judaicos, enfoca suas pesquisas em volta da “identidade judia” de Koestler, distorcionando gravemente o teor mental e espiritual de Koestler, bem menos judaico do que o próprio Marx.

Não há a menor dúvida de que a obra de Koestler superará esta nova tentativa de reducionismo. Que, aliás, não é a primeira, nem de longe a mais grave: a tentativa de classificá-lo maliciosamente como mero “anti-comunista profissional” foi tarefa de pelo menos duas gerações. Não que Koestler não o fosse, como foi anteriormente comunista profissional. De fato, a importância capital de sua vida e obra consiste em encarnar essa transição como uma questão decisiva do nosso tempo. No belíssimo ensaio que lhe dedica George Orwell, seu grande amigo e companheiro de lutas, o autor de 1984 diz de maneira definitiva: “O pecado de todos os esquerdistas desde 1933 em diante consiste em ter querido ser anti-fascistas sem ser anti-totalitários”.

Koestler ficou famoso como um dos mais corajosos e eficazes publicistas anti-fascistas do período incluindo a primeira denúncia na imprensa ocidental da “solução final” sofrendo persecuções e com freqüente risco de vida. Mas teve também a coragem intelectual e moral de aceitar, sobretudo no seu foro interno, que a esquerda era a outra face do totalitarismo.

O que para tantos foi uma trajetória política ou literária foi para Koestler uma aventura espiritual que reflete um momento crucial da modernidade com total honestidade e sinceridade. Seu anti-comunismo, depois de ser comunista, foi igualmente desinteressado e valente: como Raymond Aron foi isolado e caluniado por uma intelectualidade ocidental em cujas mãos estavam os instrumentos da glória e da influência. Ao contrário deles soube “desprofissionalizar-se” a tempo, salvando-se da ignomínia. Sua década de anti-comunista equivale à sua década de anti-fascista. Em 1955, quando voltou a sua primeira paixão, a ciência, escreveu no prefácio de Trail of the Dinosaur (1955): “Disse tudo o que tinha a dizer sobre essas questões que me obsessionaram, de várias maneiras, durante a maior parte de um quarto de século. Agora paguei pelos meus pecados, a amarga paixão extinguiu-se, Cassandra ficou rouca”. Nisso errou. Sua voz continuará a ecoar, clara e sonora, na consciência humana enquanto tivermos de decidir entre a verdade e a mentira, entre os fins e os meios, entre o zero e o infinito.

dezembro 31, 2008

Minhas histórias vêm da voz’, diz Alessandro Baricco

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por André Miranda

Entre goles de cerveja e baforadas de cigarro, um simpático Alessandro Baricco (na foto de Michel Filho) conversou com O GLOBO num bar de Paraty. O autor italiano está na cidade fluminense para participar, neste sábado, às 15h, da mesa “Fábulas italianas”, com Contardo Calligaris. Autor de “City”, “Seda” e “Esta história”, Baricco é considerado um dos mais importantes escritores contemporâneos da Itália, e alcançou fama na Europa com seus livros, suas participações em programas de TV, sua parceria com a banda francesa Air e a adaptação de suas histórias para o cinema — como foi o caso da peça “Novecentos”, transformada no filme “A lenda do pianista do mar” por Giuseppe Tornatore. Dele, a Companhia das Letras acaba de lançar o romance “Sem sangue”, em que a personagem Nina parte para uma vingança depois que sua família é vítima de uma guerra cruel. O resultado é uma obra bem ao estilo do autor: guiada por música e útil para o leitor.

Você foi um dos fundadores de uma escola de escrita criativa na Itália, nos anos 1990. Mas é possível ensinar alguém a escrever com criatividade?

ALESSANDRO BARICCO: Na verdade, não é exatamente uma escola de escrita criativa. Nós costumamos dizer que é uma escola de narrativa. Os alunos ficam dois anos com a gente e alguns escrevem livros, mas muitos outros escrevem para televisão, para o cinema, para publicidade, para quadrinhos… Não é uma escola para se aprender a escrever livros, mas uma escola para você aprender a contar histórias.

Da mesma forma, esta edição da Flip tem um sentido mais amplo do que é considerado literatura. E você, também, é um autor acostumado a trabalhar com outras formas de narrativa, como cinema e teatro. Partindo da experiência da escola, no fundo, tudo isso se trata do mesmo assunto, contar uma história?

BARICCO: É o mesmo ato, o ato da escrita. Se você quer ter isso como profissão, escrever é uma coisa bem natural, como correr. Não é necessário ir para uma escola aprender a correr. Mas se você quiser viver de correr, se quiser ir para os Jogos Olímpicos, aí é diferente, você também precisa estudar. Além disso, há muitos talentos que vivem distantes do mundo cultural, e a escola os coloca próximos a esse mundo cultural. A escola os coloca mais perto do mundo que eles querem habitar. Nossa escola ajuda os alunos a entender muito mais seu próprio talento.

O nome da escola é Scuola Holden, numa homenagem ao personagem de J.D. Salinger. A influência de Salinger é grande assim?

BARICCO: Quando eu e outros quatro amigos a fundamos, nós queríamos fazer uma escola diferente. Então pensamos numa escola em que Holden Caulfield pudesse aprender alguma coisa. Escolher o nome de Holden foi um desafio de fazer uma escola que ele iria amar. Salinger se mantinha na superfície dos temas e, assim, conseguia alcançar resultados muito profundos.

Você apresentou um programa de TV sobre ópera na Itália e, anos depois, gravou o CD “City reading” com a banda francesa Air, de música eletrônica. Como nas várias formas de escrita, os diferentes estilos musicais também têm o mesmo valor?

BARICCO: A música está dentro da escrita. Não em todas. Nos textos de Kafka, por exemplo, quase não há música. Mas para mim é muito importante, é meu jeito de escrever. Minhas histórias vêm da voz, na minha forma de escrever é possível reconhecer a voz. Na minha vida, eu trabalhei de muitas formas diferentes para cruzar música com palavras, histórias e ficção. Minha paixão pela ópera nasceu daí. Eu via as óperas como grandes histórias e, depois, havia a música. Eram as palavras dentro do ritmo. O cruzamento foi muito forte, muito bem-sucedido. E o mesmo ocorre hoje. Eu pedi ao Air para fazer uma performance comigo em Roma, com música ao vivo. Eles aceitaram e nós fizemos uma espécie de leitura de algumas páginas de “City”. Aí eles pediram que gravássemos um CD. É um CD estranho, um tipo de música que não existe. Mas eu gosto.

Você também apresentou um programa de TV sobre livros. Televisão e literatura são artes consideradas quase antagônicas: uma está mais ligada à alta cultura, enquanto a outra é mais associada à cultura popular. É possível juntas as duas?
BARICCO: É possível. Você tem que pensar que um programa de TV quer dizer, pelo menos, um milhão de pessoas. É um público pequeno em comparação com outros programas de TV, mas é muito grande para a literatura. Então, se essas pessoas param e te ouvem, elas demonstram curiosidade, mostram que podem entender o que você está falando. O que funciona na TV é alguém contando alguma coisa com paixão. Isso pode ser com beisebol, com política, com outros temas. É exatamente o que eu fazia. De uma forma bem simples, eu ia lá e falava dos meus livros favoritos. E funcionava. Eu conseguia botar um livro na lista dos mais vendidos no fim de semana, depois de falar dele no programa. Fiz isso com o Salinger, por exemplo.

O seu romance “Sem sangue”, que está sendo lançado aqui agora, foi publicado originalmente em 2002, um ano depois do 11 de Setembro, numa época em que todo o mundo só falava de guerra. Isso de certa forma o influenciou?

BARICCO: Escrever sobre guerra era uma coisa que eu já tinha na minha cabeça muito tempo antes. Mas eu tinha um certo medo de tratar disso. Aí, comecei a fazer o “Sem sangue”, escrevi um trabalho sobre a “Ilíada”, que para mim é uma ótima reflexão sobre a guerra, e uma parte do “Esta história”, meu último romance, é sobre guerra. Acho que precisei escrever de formas diferentes sobre esse tópico. Talvez o 11 de Setembro tenha, de certa forma, me empurrado para o tema.

E como você enxerga a personagem Nina? Ela é uma vítima?

BARICCO: Ela é motivada pela vingança. No livro, até o fim, você não consegue saber se ela é mesmo uma assassina ou não. Você sempre tem duas versões. Tradicionalmente, as personagens femininas são a voz da paz. Os homens agem como animais e as mulheres ficam em casa com as crianças, esperando os homens voltarem da guerra. É assim na “Ilíada”, por exemplo. Em “Sem sangue”, trabalhei com uma personagem feminina e eu mesmo não sei dizer se a Nina é uma assassina ou não.

Você é um dos mais respeitados autores contemporâneos da Itália e também um dos mais vendidos. Ao criar uma história, você pensa no leitor?

BARICCO: Não em termos de mercado. Eu acho que é como fazer uma mesa. Eu quero fazer alguma coisa que funcione. Uma coisa sólida onde as pessoas podem apoiar seus copos e beber. Os livros, para mim, são coisas úteis, de que as pessoas precisam, como precisam de pão. Eu penso no leitor porque quero que ele se sente e use a mesa. E quero que ele ache que é uma mesa confortável, bonita. Esse é o meu trabalho.

Você já conhecia o Brasil, não? Quais suas impressões sobre o país?

BARICCO: Eu já havia estado no Brasil duas vezes. Na última, houve um grande problema em São Paulo, um ataque a vários pontos comandado por criminosos de dentro da prisão. Achei aquilo assustador. Não consigo imaginar como é conviver com esse tipo de situação. Como vocês conseguem?

(entrevista publicada no caderno especial do Globo na Flip)

dezembro 29, 2008

O outro – Neil Gaiman

Filed under: Contos,Mal do dia — maldemontano @ 12:25 am

dezembro 26, 2008

Não existe pote de ouro no arco-íris do escritor

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 4:09 pm

Sexta-feira, 29/7/2005

Julio Daio Borges

Eu já ia usar esse título, mas eu ia escrever sobre a Geração 90. Eu ia escrever sobre a história que eu ouvi de um dono de sebo, que conheceu todo esse pessoal. De como eles estão na mídia toda hora (tema de Coluna anterior) e de como eles estão felizes por receber um adiantamento (para escrever um livro em, sei lá, um ano) de 500 reais mensais. 500 reais. Tem base? Para ser escritor. Escritor de editora grande. Escritor com distribuição nacional, tal e coisa, coisa e tal. Escritor.

Mas o assunto do Movimento Literatura Urgente me atropelou. Na verdade, por conta de uma matéria sobre isso na Veja, os próprios escritores já entraram na conversa que eu ia começar. Entraram de sola. E eu vou tentar provar por que esse Movimento está errado e por que quase todos eles – dentro desse Movimento – também estão. Não provar pelas mesmas razões que eles evocam, mas por outras, e por experiência própria. Vocês estão livres para concordar ou discordar, tá?

Eu não sei o que aconteceu dos anos 90 pra cá, mas um montão de escrevinhadores – na minha geração (e eu me incluo) – resolveu achar que podia viver de publicar. Será que foi o surgimento (e a consolidação) da editora do Luiz Schwarcz? Será que foi a revolução (editorial) que a Companhia das Letras provocou? Será que foi a modernização do setor que as outras editoras (velhas e novas) se viram obrigadas a implementar? Será que foi o êxito do Rubem Fonseca? Será que foi o João Ubaldo Ribeiro na Nova Fronteira? Será que foi o Luis Fernando Verissimo na Objetiva? Será que foi o Paulo Coelho – sinal-da-cruz agora – na Rocco?

Eu sei lá. Eu sei que um monte de gente, na aurora dos seus vinte anos, dos anos 90 pra cá, resolveu achar que dava.

Não dá. Nunca deu e nem digo que nunca dará, mas dificilmente daria – em qualquer lugar. Não é um problema do Brasil. Não é um problema estrutural nosso, mas é a realidade do escritor. Vocês – escritores da Geração 90, que estão agora reclamando – já pensaram que Kafka, um dos pais da modernidade, morreu antes de se consagrar? Lembram que ele pediu a Max Brod, seu testamenteiro, para queimar a maior parte do seu espólio? Não, vocês não se lembram, vocês não conseguem se lembrar. Lembram provavelmente de Thomas Mann, outro dos pais da modernidade, que não amargou falta de reconhecimento mas que já se estabeleceu logo no primeiro romance. Mas vocês se esqueceram de que Thomas Mann é um caso à parte.

Vamos voltar pra cá. Vocês – escritores da Geração 90 – esqueceram que, no Brasil, quase ninguém viveu de ser escritor? Eram funcionários públicos; tinham outros cargos, tinham outras profissões. Ninguém era escritor full time. Só o Jorge Amado – que tinha a militância por trás. O Drummond foi trabalhar com Gustavo Capanema, ministro do Getúlio. O Guimarães Rosa foi ser médico; depois, diplomata. O Euclides da Cunha era engenheiro; construía pontes (nem jornalista era). O Rubem Fonseca trabalhou um tempão na Light (foi também delegado de polícia, como todo mundo sabe). O Ferreira Gullar foi escrever roteiro e dramaturgia na Globo. O Mário de Andrade não foi ao casamento do Fernando Sabino por falta de grana. O Oswald de Andrade era dono do bairro inteiro de Cerqueira César (vulgo “Jardins”), em São Paulo, e torrou toda a sua fortuna com esse negócio de ser escritor. O Álvares de Azevedo morreu aos 22 anos; o Castro Alves, aos 24. O Luis Fernando Verissimo – o bem-amado da capa da Veja, que vende milhões de exemplares todos os anos – mora até hoje na mesma casa que foi de seu pai (Érico Verissimo, também escritor). O Paulo Coelho ficou milionário, tá, mas só. E alguém aqui quer imitá-lo?

Agora, vocês, com vinte, trinta anos, que querem viver de literatura (ou viver de escrever), acham que dá. Não é por que vocês querem que vai dar. Sinto lhes informar.

O problema de escrever é um só. É gostoso; é terapêutico; alivia que nossa… Mas não resolve os nossos problemas, de escritores. O escritor geralmente começa na adolescência, com um diário (eu disse “diário”, não disse “blog”). Tem um problema qualquer – de carência, de insegurança, de auto-afirmação – e dá-lhe diário pra extravasar. Como eu disse, é terapêutico, funciona. O problema continua lá (escrever não resolve), mas parece que – depois de escrever – fica mais fácil lidar. Esse é o problema, na verdade. A maioria dos escritores carrega essa muleta para a vida inteira (“Os escritores – ao contrário de todas as outras pessoas – não conseguiram se livrar do diário”, Martin Amis na Flip 2004), e quando a coisa aperta, mais lá na frente, dá-lhe diário ou o que estiver no lugar (agora pode colocar “blog”). Como os problemas não se resolvem escrevendo, o escritor começa a colocar a culpa nos que estão em volta: pais, professores, namorada, esposa, chefe, sociedade, governo, essas coisas. A escrita vira uma fuga e ele desiste de resolver os problemas que – porque o mundo está contra ele – não se resolvem mais. Então procura uma solução mágica.

Esse Movimento Literatura Urgente é mais uma solução mágica para resolver o problema do escritor. Uma mesada, um subsídio, uma parte dos impostos, sei lá, não importa. Os escritores não se convenceram até agora de que não vão viver apenas de publicar. Ainda mais no começo da carreira…

Se eu, pela minha experiência, tivesse um conselho para quem pensa em ser escritor – e deixar tudo pra trás para se dedicar –, meu conselho seria: não largue, não deixe tudo pra trás. Se você tem um emprego, não deixe seu emprego. Se você tem uma profissão, não largue sua profissão. Porque ser escritor não é emprego, não é profissão, não é cargo. Ainda não descobriram uma maneira de se viver só de publicar. E não é só no Brasil – em nenhum lugar.

O problema – da Geração 90, agora – é que eles acreditaram que dava pra viver de publicar. Eles viram a miragem – largaram tudo –, caminharam até lá e depois descobriram que não havia nada. Percorreram o arco-íris inteiro mas o pote de ouro não estava lá no final. Saíram na Folha, falaram na televisão, tocaram no rádio, embarcaram para feiras (ou festas ou jornadas) literárias, bienais, fundaram editoras, foram contratados por “editora grande”, montaram blogs, o escambau – mas, enfim, descobriram que não adiantava nada. Porque não existe mercado editorial no Brasil. O mercado editorial daqui é uma ficção! Não temos leitores, as tiragens são simbólicas, os livros são considerados caros, proporcionalmente quase ninguém compra, e a porcentagem que o escritor recebe é aquela que vocês já sabem: 10% ou menor, muito menor. Vamos fazer uma conta rápida: as tiragens máximas são de 3 mil exemplares; vender mil (um mil) no Brasil (estou falando de escritor relativamente novo) é um estrondo; um livro de R$ 50 (preço de capa – livro caro), mil exemplares, 10% para o escritor; dá 5 mil reais. Cinco mil reais para viver um, dois anos – dá menos do que os 500 reais mensais (de adiantamento) que eu citei no primeiro parágrafo.

E como é que vocês foram achar que dava?

Então o escritor – da Geração 90, da Geração 2000, sei lá – acabou de concluir que não dá. Tenta outras formas de remuneração (afinal, já largou tudo: amigos, família, profissão – às vezes, nem tem pra largar): jornalismo, cinema, etc. Jornalismo também não dá. Escritores e jornalistas precisam conversar. O escritor – que não é jornalista – não é, portanto, contratado do jornal (da revista, sei lá). Colabora mas quase nunca recebe (é colaborador, não é do staff). Ou recebe, mas recebe mal (de novo, nem aqueles 500 reais). A mídia está quebrada, cara, não te contaram? Cinema. Ele ouviu falar que o Marçal Aquino ganha uma grana para roteirizar. Mas é o Marçal. O Marçal tem quantos anos nas costas de sua carreira de escritor? E a indústria cinematográfica brasileira vive – ainda – uma situação de instabilidade periclitante. As leis de incentivo podem mudar. O cinema brasileiro pode acabar, como acabou – de uma hora pra outra – na era Collor, porque acabaram os subsídios, a isenção de impostos, blablablá. E quem ganha com cinema é profissional de imagem. R$ 8 mil, por semana, para um diretor de arte. Escritor não é diretor de arte.

“E, agora? Devo me jogar da ponte?” Não, não deve; mas deve olhar os dois lados da questão. Por causa da internet (eu não disse “por culpa”), temos cada vez mais escrevinhadores. Inflacionou o mercado. É natural que escrever – que já não valia nada – agora valha menos do que nada. Os escritores vão ter de pagar pra publicar. Aliás, já está acontecendo. Vocês são escritores da Geração 90, vocês sabem. Quantos não tiveram de editar com dinheiro do próprio bolso para poder começar? Eu acho que – tirando quem tirou a sorte grande – todos tiveram de se (auto-)editar. Agora olhem para os empregadores de escrevinhadores como nós. Se você não aceitar colaborar a troco de nada (ou a troco de uma remuneração aviltante), numa revista ou num jornal, alguém vai aceitar. A oferta é enorme. Cinema, mesma coisa. O resto, mesma coisa (tradução, mesma coisa). E quanto mais blogs, e quanto mais ferramentas de publicação, pior. Mais escrevinhadores passando fome. É uma tendência que não dá pra mudar.

Aí os escritores que já partiram pro tudo ou nada (independentemente da sua qualidade literária) chegam a essas mesmas conclusões e começam a se desesperar. Apelam então. Exigem desvio de impostos, ou alíquotas, para um Movimento que vai – em princípio – lhes garantir maneiras de se sustentar. Ou seja: mais uma vez, eles não querem resolver seus problemas próprios, mas querem que o governo – ou o mercado editorial, mediante uma taxa – resolva (ou facilite o seu lado). Nada contra palestras e circuitos literários, e oficinas, e colóquios, e o escambau, mas isso não resolve. É que nem acreditar que o Fome Zero resolve o problema da fome. Não resolve. É artificial. Amanhã, o governo muda, as taxas mudam, baixam uma portaria, e voltamos à aridez do cinema da era Collor. Não adianta se pendurar no estado, não adianta querer impor – à força – um número crescente de escritores, ao mercado (e ao público), que o Brasil (ou qualquer país) não comporta.

As soluções – se é que elas existem – são as mesmas e não são de agora. Educação, leitura, livros baratos, poder aquisitivo, cultura, hábito, bons escritores. O melhor que o escritor pode fazer agora é escrever o melhor que pode, e esperar. Que venha uma nova geração. Que venham novos leitores. (A geração internet, quem sabe?) Que o Brasil avance. Que o mercado editorial se desenvolva… O caminho é o mesmo em todo lugar.

E, óbvio, a maioria dos “escritores” que estamos vendo aí hoje vai “rodar”. É a lei da selva. É a seleção natural. Sobram os melhores. Não adianta impor cotas, não adianta querer sustentar uma casta se a mesma sociedade – em que se circunscreve essa casta – não parece, naturalmente, inclinada a sustentá-la. Sem mencionar um simples fato: que critérios vamos adotar? Os fundadores do Movimento Literatura Urgente têm prerrogativa na hora de administrar (e de ministrar) as verbas? É triste, mas, mais uma vez, os escritores brasileiros estão deixando de se envolver com literatura para se envolver com política. Não podem querer transmitir, para a sociedade, o ônus de uma escolha pessoal. Uma escolha problemática.

Julio Daio Borges

São Paulo, 29/7/2005

Por que não estudo literatura?

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 3:26 pm

A principal função da Literatura – a educação sentimental, digamos assim – desaparece quando a dedicação aos livros se torna obrigatória e mecânica.

Eduardo Carvalho

Por que não ler os clássicos

Filed under: Aqui o mal geral,Mal do dia — maldemontano @ 3:08 pm

Terça-feira, 3/6/2008
Não gostar de MachadoDaniel Lopes

Não gostar de Machado de Assis, no Brasil, é arriscado. Quero dizer, se você sair por aí dizendo que não gosta. Mesmo se lhe foi pedida uma opinião. Você não corre o risco de ser surrado (não sei se essa garantia serve caso você esteja nos corredores da ABL), mas com certeza receberá aquele olhar de piedade que apenas os seres superiores sabem produzir.

Você é criticado por não gostar de Machado mesmo por quem nunca o leu, ou, ainda pior, por quem o leu e também não gostou, mas ainda assim… patrimônio nacional é patrimônio nacional. Mexer com Machado é quase como mexer com a Amazônia. Quase, nada, é pior, muito pior. Se Al Gore quer saber o que é realmente bom pra tosse, que experimente, em vez de dizer que a Amazônia é do mundo, declarar que Machado é “um escritor de segunda”, como já opinou Millôr Fernandes.

Há pouco tempo, um leitor do Digestivo, comentando no meu perfil, se revoltou contra o fato de eu ter escrito que “ainda no colégio, nunca consegui gostar de Machado de Assis, e apenas quando já havia entrado na universidade pude compreender que não perdera nada”. Também concorreu para aumentar a indignação do leitor o fato de eu ocupar espaço no Digestivo com textos sobre livros de autores estrangeiros, insignificâncias como J. M. Coetzee e Nathaniel Hawthorne: “Não gostar do Machado e gostar de escritores estrangeiros bem traduz esta juventude de hoje influenciada pela cultura americana e outras, que entram nos nossos ouvidos diariamente pela mídia e também por livros”.

O autor da mensagem assinou como Delton. Eu lhe enviei uma resposta, mas esta voltou, acusando e-mail inválido.

Seja como for, assim que li seu comentário lembrei de algo que me ocorreu logo que entrei no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí. Foi em 2003. Certo dia, entre uma aula e outra, estou a folhear no corredor um livro de George Orwell, quando um rapaz mais ou menos da minha idade pára sua caminhada simplesmente para dizer que eu sou um alienado. Eu levanto os olhos e o vejo erguendo um livro de José de Alencar. “Já leu isso?”, perguntou. Sou um sujeito muito tímido, não gosto de discutir nem com gente inteligente. Disse apenas que “já, é um livro muito ruim”. Nem vi direito o título, mas se era José de Alencar só podia ser algo chato, e eu queria me livrar do rapaz o mais rápido possível. Ele resmungou e foi embora.

Hoje penso que ele devia ser um desses membros do movimento estudantil que gastam mais tempo se movimentando do que estudando. Não sei se ele viu que o livro do Orwell era em inglês, pois eu estava começando a estudar inglês. Acho que não viu. Se tivesse visto, a bronca poderia ter sido maior. Com certeza, ele não sabia da história de vida de George Orwell. Tomara que, de 2003 para cá, a militância do jovem fã de Alencar em um partido político ou outro lhe tenha deixado algum tempo de sobra para aprender sobre a participação de Orwell na Guerra Civil espanhola, do lado dos republicanos e contra os fascistas ― experiência que gerou o livro Homage to Catalonia.

Nacionalismo literário
“Triste do povo que precisa de heróis”. O que diria então Bertolt Brecht da carolice de uma intelectualidade nacional que precisa de heróis para se sustentar?

Sempre duvidei que alguém em sã consciência, se lhe fosse dado dois livros, um de George Orwell e um de José de Alencar, ao cabo das leituras preferisse Alencar. Se preferir, não discriminarei. Juro. Mas duvido que prefira.

É verdade que Machado de Assis não é tão ruim quanto José de Alencar. Se, conforme disse em recente entrevista ao jornal Rascunho o professor e escritor sergipano Antonio Carlos Viana, “dar Machado de Assis para um menino de 15 anos é querer que ele não goste de literatura, nunca mais”, o que dizer do trauma gerado em um jovem que é forçado a ler coisas como Senhora? Viana diz ter acabado de escrever um livro em que indica 45 autores indispensáveis para que alunos do segundo grau tomem gosto pela leitura ― entre os quais, Franz Kafka e John Fante. Estou com ele.

Aliás, por que mesmo nossas crianças e jovens são torturados com obras monstruosas da literatura brasileira e portuguesa, ao mesmo tempo em que são privados dos grandes clássicos da literatura universal? É claro que existem excelentes obras brasileiras ― é difícil, por exemplo, imaginar um estudante não se divertindo e se comovendo com Memórias de um sargento de milícias ou Triste fim de Policarpo Quaresma. Mas por que, em vez de incluir estorvos do período romântico brasileiro, nossas grades curriculares não permitem aos mestres trabalhar novelas de Herman Melville, Gogol e Tolstoi, contos de Jack London e por aí vai? É para “valorizar o que é nosso”?

Mas enquanto a função principal dos nossos professores de literatura for fazer os alunos detestarem a literatura, o tipo de produto literário nacional que os estudantes irão comprar em sua vida adulta será, no máximo, as obras completas de Paulo Coelho, empilhadas estrategicamente na estante da sala, unicamente para fins de enfeite.

De cada 100 jovens que entram na universidade (tendo feito belos pontos nas provas de literatura), quantos se tornarão adultos apreciadores da literatura relevante, nacional e internacional? Sejamos benevolentes, suponhamos que esse número seja de 10. Desses 10, quantos devem à escola essa dádiva? 1. Podem sair pesquisando por aí. Os outros 9 se comportaram de forma rebelde na juventude, fingindo que liam poesia parnasiana, apenas para fazer a média na prova, enquanto que, na surdina, encontravam em sebos e bibliotecas o que realmente lhes dava prazer e o que de fato os transformou em leitores maduros ― alguns, até, apreciadores de Machado de Assis.

E para constar. O que respondi ao leitor Delton no e-mail que não foi entregue, em resumo, foi que

― é verdade, não gosto de Machado de Assis. E não é porque nunca o li, ou não entendi as estórias. Sim, li algumas e as compreendi, mesmo as que abandonei pela metade. O que não quer dizer que no futuro, em novas leituras, não possa vir a gostar dele. Mas não sinto a menor obrigação de fazê-lo;

― é uma besteira achar que se alguém não gosta de Machado ou qualquer outro escritor é porque tem que crescer mais “literaturalmente”. Claro, eu tenho muito que evoluir, e espero evoluir sempre. Mas quem garante que, lá pelos 140 anos, tendo evoluído continuamente, ainda assim eu não vá gostar de Machado? Ou será que se o sujeito tem 100 anos e não gosta de Machado é porque ele não evoluiu o suficiente? E quem gosta de Machado aos 15 anos já atingiu o ápice de sua vida “literatural”? Que bobagem, não é mesmo?

― eu lhe asseguro que é muito bom ser influenciado por culturas de fora, dos EUA, da Europa, Oriente, África, Marte… Tão bom quanto ser influenciado pela cultura local. Acredite, há porcaria escrita em todo lugar, e em todo lugar há coisa boa à nossa espera. Pergunte a Machado, que era fã de carteirinha de Montaigne e Laurence Sterne.

Daniel Lopes
Teresina, 3/6/2008

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