Mal de Montano

fevereiro 22, 2007

Antonio Callado – política, arte e literatura…

Filed under: Mal de Antano — maldemontano @ 12:22 am

“Se eu tivesse nascido rico viveria exclusivamente para a literatura”

Antonio Callado

Veja aqui o videoclipe

Anúncios

fevereiro 7, 2007

O ato de escrever por Graciliano Ramos

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 8:05 pm

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso: a palavra foi feita para dizer.” 

 

 

 

 Fonte: http://www.graciliano.com.br

janeiro 7, 2007

A volta da adorável subversão de Nelson Rodrigues

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 11:11 pm

Único romance em que assinou com o próprio nome, O Casamento foi proibido quando lançado, em 1966

Por Ubiratan Brasil

Quando faz referência à versão que levou ao cinema do romance O Casamento, de Nelson Rodrigues, o cineasta e comentarista Arnaldo Jabor é enfático: ‘É um filme duro, violento e grotesco, esquisito, sexual, estomacal, intestinal, uma grande explosão.’ Também a adaptação teatral que João Fonseca e Antonio Abujamra fizeram nos anos 1990 arrancou gargalhadas e aplausos em cena aberta, quando encenada nos palcos cariocas. Mesmo nascido em 1966, o romance rodriguiano mantém uma assustadora atualidade por sua violência e dramaticidade ao revelar o brutal apodrecimento de uma família na véspera do casamento da filha. É o que se pode constatar com a leitura de O Casamento, recentemente relançado pela editora Agir que, felizmente, investe na publicação da obra em prosa de Nelson Rodrigues – o anterior foi A Vida como Ela É.

Único romance que o dramaturgo e cronista assinou com o próprio nome, sem recorrer a pseudônimos folhetinescos, O Casamento foi um extraordinário sucesso na época do lançamento, vendendo 8 mil exemplares nas duas primeiras semanas de setembro de 1966, equiparando-se a Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, lançado na mesma época. Escrito em apenas dois meses, foi uma encomenda de Carlos Lacerda, que queria um inédito de Nelson Rodrigues para inaugurar sua editora Nova Fronteira. Mas, ao ler os originais, Lacerda ficou chocado e não quis publicá-lo. Então armou um belo estratagema e repassou-o a um amigo comum de ambos, Alfredo Machado, da Guanabara, que o aceitou correndo.

Mesmo assim, Nelson não tinha motivos para comemorar: dias depois de a obra chegar às livrarias, ele foi surpreendido pela morte do irmão, Mário Filho. Com isso, noites de autógrafos, entrevistas, coquetéis, tudo foi cancelado. E, antes que pudesse recuperar-se do impacto, o escritor levou outro baque ao ser informado de que O Casamento fora proibido por Carlos Medeiros Silva, ministro da Justiça do então presidente, o marechal Castelo Branco. Motivo: ‘A torpeza das cenas descritas e a linguagem indecorosa em que está vazado.’ Segundo o documento, o romance era um ‘atentado’ contra a ‘organização da família’.

Na verdade, a cegueira cultural da censura militar era latente – o livro conta a história de uma família conservadora que revela o seu desmoronamentovenenos acobertado pela tradicional hipocrisia. Estão, em O Casamento, frases que se tornaram clássicas como ‘Só os profetas enxergam o óbvio’, ‘Não acredito que uma mulher possa amar o mesmo homem por mais de dois anos’, ‘Qualquer um pode ser obsceno, menos o ginecologista’ e, talvez, a mais conhecida, ‘Todo canalha é magro’.

A sociedade brasileira, porém, não parecia preparada para encarar um retrato tão detalhista. A proibição pela censura federal praticamente não repercutiu na imprensa, fruto da pesada mão que o governo militar impunha aos meios de comunicação. Pior: o jornal O Globo, no qual Nelson escrevia diariamente a coluna À Sombra das Chuteiras Imortais, publicou um artigo de primeira página defendendo a proibição. O jornal não citava diretamente o título da obra, mas elogiava a ‘corajosa’ atitude do ministro ao proibir um livro que atentava contra ‘os princípios basilares da nossa organização social, e entre esses o matrimônio’.

Nelson tentou se defender – em entrevista ao Jornal do Brasil, o escritor dizia que a medida era odiosa e analfabeta. ‘O livro é de um moralismo transparente, taxativo e ostensivo para quem sabe ler e para quem não é analfabeto nato ou hereditário’, protestou ele, conforme relata Ruy Castro na biografia O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras). ‘A esperança que tenho, apesar de tudo, é a de que não assistirei à queima pública do meu livro como numa cerimônia nazista.’

A condenação, de fato, não chegou a tal extremo, mas o silêncio de seus pares (apenas alguns amigos como Paulo Francis, Hélio Pellegrino e Franklin de Oliveira protestaram publicamente contra a proibição) decepcionou o escritor. Para completar, um de seus detratores se deu ao trabalho de contar os palavrões em O Casamento e computou 147. Curiosamente, ainda lembra Ruy Castro, as livrarias estavam abarrotadas de exemplares do livro Trópico de Câncer. ‘E o romance de Henry Miller continha essa mesma quantidade de palavrões – só que por capítulo’, aponta.

Seis meses depois, já em 1967, o Tribunal Federal de Recursos liberou o livro, considerando o ato do ministro da Justiça como de ‘ilegalidade máxima’. Mas o destino funéreo de O Casamento estava marcado: sem críticas publicadas na imprensa, o interesse do público desapareceu e a obra só voltou a despertar atenção em 1975, com o filme de Arnaldo Jabor, e, em 1993, com sua republicação pela Companhia das Letras.

A volta da obra às livrarias oferece ao leitor a oportunidade de ter um contato justamente com o inventário de obsessões mais caras a Nelson Rodrigues. Adultério, incesto, assassinato e um austero moralismo pontuam as páginas do livro, que volta a subverter a ordem mesmo no novo milênio. Autor de uma dramaturgia que foi um divisor de águas no teatro brasileiro, unindo elementos melodramáticos, naturalistas e expressionistas, Nelson tornou-se, com o correr dos anos, uma das poucas unanimidades dos palcos nacionais. E seus romances acompanham a mesma trajetória, apresentando sua própria perspectiva política de um estilo de vida familiar específico de um patriarcalismo muito local. Ruy Castro aponta O Casamento como um dos três ou quatro maiores romances brasileiros do século passado. Poucos desaprovam.

Fonte O Estado de São Paulo

___________________________________

O Casamento, Nelson Rodrigues, Editora Agir, 372 págs., R$ 40

dezembro 31, 2006

A Casa do Tempo Perdido

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 4:35 am

Por Carlos Drummond de Andrade

Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
Pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
Pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
Minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
No bater e bater.
O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

dezembro 26, 2006

Esperança

Filed under: Mal de Antano — maldemontano @ 9:50 pm

   Por Mario Quintana 
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
 

dezembro 24, 2006

Poemas de Dezembro

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 4:37 am

 

Por Carlos Drummond de Andrade

  

Em 1963 Lázaro Barreto, como muitos outros, mandou para Carlos Drummond de Andrade um exemplar de seu livro “Contos do Apocalipse Clube”, já que estava dando seus primeiros passos no mundo das letras. Tocado pela situação de Barreto, que à época residia em uma pequena cidade mineira, Marilândia, Drummond, bem a seu estilo, lhe escreve comentando a obra e começa uma troca de correspondências com o iniciante que durou mais de 20 anos. Os dois jamais se encontraram pessoalmente, mas o poeta nunca deixou de remeter suas opiniões sobre os escritos de seu conterrâneo e, principalmente, alguns poemas que permaneceram inéditos até há pouco. Sua gentileza chegou ao ponto de enviar um poema onde comemorava o nascimento da primeira filha de Barreto, mesmo errando seu nome (Ana Paula):

 
Lázaro e Inês
Agora três
Nada comum
Os três agora
Formam só um
A toda hora
Arte de amar
Lição de aula
Aberta
em flor
Maria Paula.
 

Abaixo, alguns dos “Poemas de Dezembro” agora revelados:

 

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
– flor do cotidiano –
é vôo de um pássaro
é uma canção.

 

(Dezembro de 1968)

 


Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança.

 

(Dezembro de 1973)

 


Fazer da areia, terra e água uma canção
Depois, moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre, neste mundo

 

(Dezembro de 1981)

 


Quem me acode à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.
 

(Dezembro de 1985)

 


Para encerrar, uma receita de Ano Novo dada pelo poeta:

 

Receita de Ano Novo

 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Fonte:  Releituras

dezembro 18, 2006

Entrevista com Guimarães Rosa

Filed under: Entrevistas,Mal de Antano — maldemontano @ 12:20 am

 

Diálogo com Guimarães Rosa

 Trechos da entrevista concedida a Günter Lorenz em 1965, em Gênova*

Por Günter Lorenz

  

(…) Lorenz: (…) Gostaria de falar com você sobre o escritor Guimarães Rosa, o romancista, o mágico do idioma, baseando-nos em seus livros que fazem parte, penso eu, do tema “o homem do sertão”.

 

Guimarães Rosa – Sim, acho que se quiséssemos dizer sobre estes três ou quatro pontos tudo o que temos de dizer, daqui a um ano ainda estaríamos conversando. E nem você nem eu temos tanto tempo. Suponho que esta enumeração das coisas que lhe interessam a meu respeito não tem uma seqüência estrita…

  

 

Lorenz: Apenas uma seqüência improvisada, intercambiável.

 

Guimarães Rosa – Precisamente. E por isso gostaria que começássemos pelo que você mencionou como tema final. Chamou-me “o homem do sertão”. Nada tenho em contrário, pois sou um sertanejo e acho maravilhoso que deduzisse isso lendo meus livros, porque significa que você os entendeu. Se você me chama de “o homem do sertão” (e eu realmente me considero como tal), e queremos conversar sobre esse homem, já estão tocados no fundo os outros pontos. É que eu sou, antes de mais nada, este “homem do sertão”; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também – e nisto pelo menos acredito tão firmemente como você – que ele, esse “homem do sertão”, esta presente como ponto de partida mais do que qualquer coisa.

  

 

Lorenz: Fixemos este ponto de partida; e para encaminhar nossa conversa, queria propor-lhe um início convencional: biográfico, embora ele já não seja tão convencional, se minhas conclusões sobre o que disse há pouco estiverem certas. Nasceu no sertão, aquela estepe quase mística do interior de seu país, encarnada como um mito de consciência brasileira…

 

Guimarães Rosa – Sim, mas para sermos exatos, devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim, sim, de muita importância. Além disso,
em Minas Gerais. Sou mineiro. E isto, sim, é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo. Cordisburgo. Não acha que soa como algo muito distante? Sabe também, que uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, mas na realidade é um sobrenome sueco que na época das migrações era Guimaranes (1), nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho. Você certamente conhece a história dos suevos. Foi um povo que, como os celtas, emigrou para todos os lugares sem poder lançar raízes
em nenhum. Este destino, que foi tão intensamente transmitido a Portugal, talvez tenha sido o culpado por meus antepassados se apegarem com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama o sertão. E eu também estou apegado a ele…

Lorenz: Você está se referindo a seu “caráter literário” que inclui no importante grupo de literatos brasileiros denominados regionalistas?

Guimarães Rosa – Sim e não. É necessário salientar pelo menos que entre nós o “regionalismo” tem um significado diferente do europeu, e por isso a referência que você fez a esse respeito em sua resenha de Grande Sertão é muito importante. Naturalmente não gostaria que na Alemanha me considerassem um Heimatschriftsteller (2). Seria horrível, uma vez que é para você o que corresponderia ao conceito de “regionalista”. Ah, a dualidade das palavras! Naturalmente, não se deve supor que quase toda a literatura brasileira esteja orientada para o “regionalismo”, ou seja, para o sertão ou para a Bahia. Portanto, estou plenamente de acordo, quando você me situa como representante da literatura regionalista; e aqui começa o que eu já havia dito antes: é impossível separar minha biografia de minha obra. Veja, sou regionalista porque o pequeno mundo do sertão…

  

 

Lorenz: Pequeno talvez para o Brasil, não para os europeus…

 

Guimarães Rosa – Para a Europa, é sem dúvida um mundo muito grande, para nós, apenas um mundo pequeno medido segundo nossos conceitos geográficos. E este pequeno mundo do sertão, este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o símbolo, diria mesmo modelo de meu universo. Assim, o Cordisburgo germânico, fundado por alemães, é o coração do meu império suevo-latino. Creio que esta genealogia haverá de lhe agradar.

 

 

 

Lorenz: O que importa é que, além disso, ela é exata. Mas voltemos à sua biografia…

 

Guimarães Rosa – Creio que minha biografia não é muito rica
em acontecimentos. Uma vida completamente normal.

 

 

 

Lorenz: Acho que não é bem assim. Em sua vida você passou por sua série de etapas muito interessantes, até mesmo instrutivas. Estudou medicina e foi médico, participou de uma guerra civil, chegou a ser oficial, depois diplomata. Deve haver ainda outros fatos, pois estou apenas citando de memória.

 

Guimarães Rosa – Chegamos novamente ao ponto que indica o momento em que o homem e sua biografia resultam em algo completamente novo. Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte…

 

 

 

Lorenz: Deve-se considerar isto como uma escala de valores?

 

Guimarães Rosa – Exato, é uma escala de valores.

 

 

 

Lorenz: E estes conhecimentos não constituíram, no fundo, a espinha dorsal de seu romance Grande Sertão?

  

Guimarães Rosa – E são. Mas devemos acrescentar alguns outros sobre os quais ainda temos de falar. Mas estas três experiências formaram até agora meu mundo interior; e, para que isto não pareça demasiadamente simples, queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas.

 

 

 

Lorenz: Parece uma sucessão e uma combinação um tanto quanto curiosas de motivos.

 

Guimarães Rosa – Bem, tudo isto é curioso, mas o que não é curioso na vida? Não devemos examinar a vida do mesmo modo que um colecionador de insetos contempla os seus escaravelhos.

 

 

 

(…) Lorenz: Atrevo-me a apostar que a maioria de seus leitores alemães, antes de ler seu livro, nem sequer sabia que o sertão existe. Provavelmente ainda o considera uma invenção sua.

 

Guimarães Rosa – Também acho. Recentemente, durante minha viagem à Alemanha, convenci-me disso. Um crítico que me foi apresentado como homem famoso – prefiro não dizer seu nome – felicitou-me por eu haver “inventado uma nova paisagem literária”, tão “magnífica”, assim entre aspas. Coisas semelhantes me aconteceram na Itália, na França e até na Espanha. Mas é preciso aceitar essas coisas, não se pode evitá-las. Quando escrevo, não posso estar constantemente acrescentando notas de rodapé para assinalar que se trata de realidade.

 

 

 

(…) Lorenz: E o seu Riobaldo? Acho que você ainda não acabou de caracterizá-lo.

 

Guimarães Rosa – Eu sei. Gostaria de acrescentar que Riobaldo é algo assim como Raskolnikov, mas um Raskolnikov sem culpa, e que, entretanto, deve expiá-la. Mas creio que Riobaldo também não é isso. Melhor, é apenas o Brasil.

 

 

 

(…) Lorenz: Novamente um paradoxo magnífico: “eu tento o impossível”. Entretanto, deveríamos ser ainda mais concretos. Temos essa questão do compromisso, que talvez pudéssemos utilizar nesse sentido. Como você definiria, por exemplo, sua concepção do dever de um autor, diferenciando-a de Astúrias ou, naturalmente, de Jorge Amado?

 

Guimarães Rosa – Gosto de Astúrias porque se parece tão pouco comigo. Este homem é um vulcão genial, uma exceção, segue suas próprias leis. Nós nos entendemos e nos admiramos, porque somos muito diferentes um do outro. Mas ele vive de um modo que gera perigo: ele pensa ideologicamente.

 

 

 

Lorenz: E Jorge Amado? Você não acha que este grandioso fabulista e amigo dos homens também pensa ideologicamente?

 

Guimarães Rosa – Sem dúvida, ele também é um ideólogo; mas sua ideologia me é mais simpática que Astúrias. Astúrias tem algo do distanciamento incorruptível de um sumo-sacerdote; sempre enuncia novos dez mandamentos. Isto é admirável, mas não encanta. As palavras de Astúrias são palavras de um pai, de um patriarca que emite sentenças no sentido do Antigo testamento. Amado é um sonhador, e sem dúvida alguma um ideólogo, mas adota a ideologia do conto de fadas com suas normas de justiça e expiação. Amado é um menino que ainda crê no Bem, na vitória do Bem; defende a ideologia menos ideológica e mais amável que já conheci. Astúrias é a poderosa voz do juízo final. Amado vai dando pinceladas a mais não poder, e certamente quer mandar ao diabo muitas coisas, mas o faz de forma tão encantadora que nos convence com maior razão. Astúrias se expressa com palavras de ferro.

 

 

 

(…) Lorenz: Ainda tenho uma última pergunta, a cuja resposta dou muita importância. Não ria, vou lhe perguntar em que está trabalhando agora. Sei que isso não levaria a nada. Mas gostaria que me dissesse o que pensa do futuro da América Latina.

 

Guimarães Rosa – Realmente, pensei que você estava querendo me comprometer agora e depois me perguntar todo ano quando ficaria pronto o livro anunciado. Prefiro que não tenha sido assim. Sou um homem que viu muitas coisas no mundo, que entende muito de literatura mundial. Não quero pecar por presunção, mas comparando quantitativamente o que se escreve, por exemplo, na Europa, com o que se escreve entre nós, sinto-me um tanto orgulhoso. É claro que também entre nós se imprime muita coisa medíocre que nada tem a ver com literatura. Mas isso existe sempre e em toda parte. Entre nós, não só no Brasil e não só entre os escritores velhos e os de minha geração, há muitos que justificam as maiores esperanças e permitem que encaremos tranqüilamente o futuro. A América Latina se tornou no terreno literário e artístico, digamos em alemão, Weltfähig (“apta para o mundo”). O mundo terá de contar. Olhe, Lorenz, não seria tão errado reduzir todas as ciências a uma lei básica, como fizeram os escolásticos e cientistas medievais. Não, eu não quis evocar a teologia. Mas quero pintar um panorama que, no fundo, delineia todos os problemas intelectuais da atualidade. Olhe, o futuro da Europa e de toda humanidade é como uma equação com várias incógnitas. A Europa é pequena, mas seus habitantes são ativos e, além disso, têm a seu favor uma grande tradição. E, entretanto, os europeus não têm qualquer influência sobre essas incógnitas que determinam o futuro de seu continente. O “x” e o “y” desta equação decidirão o amanhã, tanto assim que quase já se pode dizer hoje. A América Latina talvez não seja a incógnita principal, o “x”, mas provavelmente será o “y”, uma incógnita secundária muito importante. Pela matemática, sabe-se que uma equação não se resolve se uma segunda incógnita não for eliminada. Suponhamos agora que a América Latina seja a tal incógnita “y”. Com isso a Europa está em um ponto culminante para o seu futuro. E não estou falando apenas das necessidades e do potencial econômico de meu continente. Você sabe que nós, os latino-americanos, nos sentimos muito ligados à Europa. Para mim, Cordisburgo foi sempre uma Europa
em miniatura. Amamos a Europa como, por exemplo, se ama uma avó. Por isso espero que a Europa reconheça a equação e leve em conta o “y”. Isso não lhe traria nenhum prejuízo. Por nós e conosco talvez a Europa tenha um futuro não só no campo econômico, não só no campo político, mas também como fator de poder espiritual. No final das contas, somos parentes espirituais: avó e netos. A Europa é um pedaço de nós; somos sua neta adulta e pensamos com preocupação no destino, na enfermidade de nossa avó. Se a Europa morresse, com ela morreria um pedaço de nós. Seria triste, se em vez de vivermos juntos, tivéssemos de dizer uma oração fúnebre pela Europa. Estou firmemente convencido, e por isso estou aqui falando com você, de que em 2000 a literatura mundial estará orientada para a América Latina; o papel que um dia desempenharam Berlim, Paris, Madri ou Roma, também Petersburgo ou Viena, será desempenhado por Rio, Bahia, Buenos Aires e México. O século do colonialismo terminou definitivamente. A América Latina inicia agora seu futuro. Acredito que será um futuro muito interessante, e espero que seja um futuro humano.

 

 

Notas(1)              Esta cidade do norte de Portugal atualmente se chama Guimarães. Situa-se na província do Minho, perto de Braga, antiga cidade real e de peregrinação.(2)              Citado em alemão por Guimarães Rosa. 

 

 

Fonte aqui 

  

dezembro 9, 2006

Os melhores do universo?

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 7:06 pm

 A Folha de São Paulo fez a lista dos 100 melhores livros da literatura universal. Os cinco primeiros escolhidos você confere abaixo. Para ver a lista completa clique aqui.

Ulisses (1922) – James Joyce (1882-1941). Retomando parodicamente a obra fundamental do gênero épico -a “Odisséia”, de Homero-, “Ulisses” pretende ser uma súmula de todas as experiências possíveis do homem moderno. Ao narrar a vida de Leopold Bloom e Stephen Dedalus ao longo de um dia em Dublin (capital da Irlanda), o autor irlandês rompeu com todos as convenções formais do romance: criação e combinação inusitada de palavras, ruptura da sintaxe, fragmentação da narração, além de praticamente esgotar as possibilidades do monólogo interior. Para T.S. Eliot, o mito de Ulisses serve para Joyce dar sentido e forma ao panorama de “imensa futilidade e anarquia da história contemporânea”.


Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) – Marcel Proust (1871-1922). Ciclo de sete romances do escritor francês, inter-relacionados e com um só narrador, dos quais os três últimos são póstumos: “O Caminho de Swann”, “À Sombra das Raparigas em Flor”, “O Caminho de Guermantes”, “Sodoma e Gomorra”, “A Prisioneira”, “A Fugitiva” e “O Tempo Redescoberto”. Ampla reflexão sobre a memória e o poder dissolvente do tempo, o ciclo se apóia em fatos mínimos que induzem o narrador a resgatar seu passado, ao mesmo tempo em que realiza um painel da sociedade francesa no fim do século 19 e início do 20.


O Processo Franz Kafka (1883-1924). Na obra-prima do escritor tcheco de língua alemã, o bancário Josef K. é intimado a depor em um processo instaurado contra ele. Mas, enredado em uma situação cada vez mais absurda, Joseph K. ignora de que é acusado, quem o acusa e mesmo onde fica o tribunal.


 

Doutor Fausto (1947) – Thomas Mann. Biografia imaginária do compositor alemão Adrian Leverkühn, escrita por seu amigo Serenus Zeitblom durante o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. Nela, o autor, para recontar o pacto fáustico com o diabo, se vale de aspectos da vida de Nietzsche, da teoria dodecafônica de Shoenberg e do auxílio teórico do filósofo Adorno. O alemão Thomas Mann, filho de uma brasileira, recebeu o Prêmio Nobel em 1929.


Grande Sertão: Veredas (1956)- Guimarães Rosa
(1908-1967). No sertão do Norte de Minas, o jagunço Riobaldo conta para um interlocutor, cujo nome não é revelado, a história de sua vida de guerreiro e de seu amor pelo jagunço Diadorim -na verdade, uma mulher disfarçada de homem para vingar o pai morto em luta. A escrita de permanente invenção de Guimarães Rosa (feita de neologismos, arcaísmos, transfigurações da sintaxe) reelabora a expressão oral e os mitos do interior do país a fim de criar um quadro épico e metafísico do sertão.

novembro 29, 2006

Borges vem para o jantar

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 4:59 pm

16/10/2006  

 

Adolfo Bioy Casares relatou em um diário de 1.700 páginas os encontros com seu amigo 

 

Por J. Rodríguez Marcos

 

Em Madri

  

Numa tarde de 1931, um dos escritores jovens de maior renome na Argentina conheceu um rapaz intoxicado por literatura. Falaram de livros e tornaram-se inseparáveis. O jovem, de 32 anos, chamava-se Jorge Luis Borges. O rapaz, de 17, Adolfo Bioy Casares. Não haviam passado cinco anos quando conceberam sua primeira obra a quatro mãos, um extravagante folheto comercial sobre as virtudes de “um alimento mais ou menos búlgaro”: a coalhada. Longe de qualquer frivolidade, aquele legendário caderno teve para Bioy um caráter iniciático: “Depois de sua redação eu era outro escritor. Toda colaboração com Borges equivalia a anos de trabalho”.

  

Aquela primeira tentativa de literatura láctea desembocou no nascimento de Bustos Domecq, o nome com que os dois amigos assinaram várias coletâneas de contos policiais nos quais, segundo Borges, ele punha os argumentos e Bioy, “as frases”.

  

O mesmo se poderia dizer das notas que o próprio Bioy Casares dedicou em seus diários ao autor de “O Aleph”. De fato, aquele colocou os argumentos e este, as palavras ao longo de centenas de encontros registrados na maioria das vezes sob o mesmo cabeçalho: “Borges janta em casa”. Das 20 mil páginas de cadernos íntimos que Bioy escreveu ao longo da vida, sua relação com Borges ocupa 1.700.

  

São as que antes de morrer, em 1999, preparou para publicação com a ajuda de Daniel Martino, seu testamentário. O resultado é um tijolo vibrante, cheio de nomes mas sem índice onomástico, que, com o simples título de “Borges”, a editora Destino publicará em todo o mundo de língua espanhola no próximo dia 19.

  

Embora o livro se estenda de 1931 a 1989, a verdade é que Bioy resume os primeiros 15 anos em uma dezena de páginas. Brilhantes. São os tempos do primeiro encontro, da coalhada, da fundação de revistas e editoras efêmeras e do casamento, em 1940, de Adolfo Bioy Casares com a também escritora Silvina Ocampo. O padrinho foi, é claro, Borges.

  

Como era de se esperar, os diários borgeanos de Bioy estão cheios de literatura. Jantar após jantar, os dois escritores vão alimentando o que em uma entrevista o próprio Borges admitiu como uma profunda amizade “sem intimidade”, cuja pedra angular eram os livros. Assim, se Georgie ironicamente se considerava “um velho discípulo” de Adolfito, este reconhece desde o início de suas anotações que o amigo o fez compreender a inutilidade da liberdade total, “a liberdade idiota” que havia defendido literariamente até então. É claro, onde há literatura há literatos. Assim, por aquela mesa também passou a admiração pelos clássicos “queríveis” – Stevenson, Kafka, Cervantes, Montaigne – e o desdém por contemporâneos como Ortega, Baroja, Juan Ramón Jiménez (“os suecos do Nobel são melhores para inventar a dinamite do que para dar prêmios”), Alberti (“Marinero en Tierra” “é uma porcaria”), Sábato (“sua conversa é anedótica, sem pensamento”) ou Augusto Roa Bastos (“um subalterno”).

  

Em quase 2 mil páginas cabe muita literatura, mas também muita vida. Cabem os temores de Borges de não ser reconhecido pelos porteiros da Biblioteca Nacional de Buenos Aires quando foi nomeado diretor em 1955 e cabem os crescentes problemas de retina que terminariam
em cegueira. E cabe, a conta-gotas, a política, mais a internacional que a doméstica, apesar do peronismo e do golpe militar de 1976. Assim, durante a Guerra dos Seis Dias, o autor de “O Livro de Areia” arremete contra os que defendem a causa árabe contra Israel: “Fascina-os a baixeza (…) Se houvesse uma guerra entre suíços e lapões todos seriam partidários dos lapões (…) Os árabes de hoje não são os que levantaram a Alhambra”, dizia Borges.

  

Conhecido sedutor, Bioy relata menos suas próprias aventuras do que as tormentosas relações de seu amigo, que em 1967 se casa com Elsa Astete.

  

“Ponho meu destino nas mãos de uma desconhecida”, lembra que Borges disse.

  

Uma desconhecida que Bioy considera ignorante mas respeitosa, “em atitude de serva enamorada”. Quando chega a vez de María Kodama – com a qual Borges, divorciado de Astete, casou-se em Genebra pouco antes de morrer em 1986 -, o tom das anotações não poupa aspereza. No início Bioy evita incitar as animosidades levantadas contra Kodama, que alguns consideram responsável pelo fato de o escritor ter morrido longe de seus amigos argentinos: “Borges me disse que para morrer dá na mesma um lugar ou outro. E que luxo: ter um amor, e ainda mal de amores aos 80 e tantos anos”. Passado o tempo, mudam as formas: “María é uma mulher de estranha idiossincrasia; acusava Borges por qualquer motivo; castigava-o com silêncios – lembrem-se de que estava cego; vigiava-o – ficava furiosa diante da devoção dos admiradores. Ao lado dela, vivia com medo de aborrecê-la”. O diário termina com uma última lembrança.

  

Antes de morrer, alguém gravou Borges cantando tangos. E Bioy comenta: “Dizem que nessa gravação Borges ri com o riso de sempre”.

  

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 Visite o site do El País <http://www.elpais.es/>  

novembro 28, 2006

CORRESPONDÊNCIA DE FERNANDO SABINO PARA MÁRIO DE ANDRADE:

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 1:04 pm

  

Belo Horizonte, 30 de Dezembro de 1942 

“… Esta terra aqui é desgraçada, Mário. Ou o sujeito foge daqui (como fez o Carlos Drummond e recentemente o Oswaldo Alves), ou se perde mesmo. È o caminho de todos nós se aqui ficamos: casar, ter filhos, criar galinhas, um bom emprego, condição social – e literatura mesmo… horas vagas! É o cúmulo. E lá vou eu, Mário, lá vou eu. Nem queira saber que drama tem sido isso para mim. Estarei indo pelo mesmo caminho? Será que conseguirei reagir a tempo, ou me agüentar a-pesar de tudo? Estarei sujeito a ser artista nas horas vagas, por diletantismo? Isso para mim será pior do que a morte. Mas então é preciso mesmo mandar tudo à merda e tocar pra frente, romper com tudo e todos, abandonar tudo e todos, fugir daqui para poder se agüentar? Sinto perfeitamente que se continuar com o corpo mole acabarei pior do que eles, Mário. E isso não pode, não pode acontecer de maneira nenhuma. Coragem eu tenho, se for necessário…”  

Trecho tirado de “Cartas a um jovem escritor e suas respostas”

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.