Mal de Montano

dezembro 2, 2006

Debatendo: bloqueio na escrita?

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever?,Mal do dia — maldemontano @ 12:27 pm

O que acontece a um escritor que o impede de escrever? Como se dá essa “paralisia”? É comum, normal? Síndrome do papel em branco ou não? Esse foi o debate realizado pelo Mal de Montano no mês de novembro, com o tema “Quero escrever, mas…”.

 O resultado você confere nos textos das Montanas: Arbel Griner  , Selena Carvalho   e Solange Pereira

 Se você também quiser participar deste debate mande seu texto para nosso maldemontano@gmail.com

 Ah, aceitamos sugestões para o tema do mês de dezembro!

 Confira e opine!

 Beijos montanos! 

Inté! 

Anúncios

novembro 1, 2006

Ler ou escrever em debate…

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever?,Mal do dia — maldemontano @ 4:50 am

Encerramos o mês de outubro com o “debate” virtual das Montanas sobre o tema “Ler ou escrever qual é o mal pior, ou o gozo melhor?”.

Sem troca prévia de idéias cada uma produziu seu “mal”. O resultado você confere nos textos:”Escrever ou ler: qual o pior mal?” (Fernanda Benevides de Carvalho, “Ler ou escrever: o mal da literatose” (Valesca Monte), “Palavras ou sarvalap?(Solange Pereira Pinto) e “Ler e escrever: gozo e tormento” (Selena Carvalho).

Se você também quiser participar deste debate mande seu texto para nosso maldemontano@gmail.com

Ah, aceitamos sugestões para o tema do mês de novembro!

Confira e opine!

Beijos montanos! 

Ler ou escrever: o mal da literatose

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:37 am

 amaoealuva.jpg

 Por Valesca Monte 

 

 

– “Eu, eu não leio livros – diz Irnerio 

 

Li e não compreendi, talvez estivesse no lugar errado. Retomei a história voltando vinte páginas para reposicionamento estratégico. Até aquele dia considerava Irnerio apenas um homem interessado por Ludmila e pelas línguas ciméria e címbrica. Reli as tais vinte páginas. Era aquilo mesmo. Prossegui um pouco mais e, de repente, mais Irnerio: 

 

– “acostumei-me tão bem a não ler que não leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde criança, e pela vida afora a gente permanece escravo de toda escrita que nos jogam diante dos olhos”.   

 

Fechei o livro. Depois, os olhos. A voz do maldito Irnerio reverberava: “O segredo é não evitar olhar as palavras escritas. Pelo contrário: é preciso observá-las intensamente, até que desapareçam”. 

 

Ler ou escrever? Se sigo o conselho do malfadado Irnerio, e olho intensamente as palavras escritas até que elas desapareçam, o efeito é exatamente o inverso.  

 

 Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será”. Ludmila, a moça que arrebatou Irnerio, é quem parece ter razão. A boa leitura não proporciona apenas a imersão em um mundo à parte. Ela confere, isto sim, a possibilidade de questionar radicalmente a realidade, dando munição aos leitores incomuns que não se contentam com a vida tal como a vivem, construindo posturas em brasa, muito mais difíceis de manipular.  

 

Confesso que sequer sinto desconforto nas enormes prateleiras de livros não lidos. Até para os mais neuróticos é bastante claro que só leremos uma porção mínima dos livros existentes no mundo. A suprema angústia vem precisamente dos livros que leio e da incapacidade de construir, escrevendo, o que pretendo. 

 

Posso ler Se um viajante numa noite de inverno. Mas não consigo harmonizar conteúdo e forma como Calvino.  Xingo Irnerio e suas frases malfadadas, mas jamais criei um único personagem que propagasse inconformidades. Li quase toda a obra de Kafka, mas jamais converti um homem em inseto ou em culpado, muito menos na primeira linha.  

 

Não bastasse toda a tormenta que a boa leitura proporciona, há ainda a sua cruel e incontornável conseqüência. Quando fecho o livro e os olhos, não há nada que aplaque, sequer momentaneamente, a convicção de que para integrar completamente o único território livre da prisão do tempo e do espaço – a literatura –  é imperioso fechar a porta, sentar-se diante da tela em branco e posicionar os dedos nos teclados.

Palavras ou sarvalap?

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:33 am

mao1.jpg

 

Por Solange Pereira Pinto 

 

O desafio que o Mal de Montano propôs neste mês de outubro não está fácil. Lá vem a faca: ler ou escrever qual é o mal pior? Ou o gozo melhor? Correndo pelas finitas horas do dia, bem que tentei pensar sobre o assunto. Consegui pouco desvendar. No entanto, lá vai meu corte. Ou, melhor dizendo, pela superficialidade, meu arranho.  

 

Por duas semanas, comecei a observar meus atos para ver quem me atacava mais se os livros ou o teclado (pouco escrevo em papel atualmente). Percebi um círculo. Se eu lia algo interessante queria escrever sobre o lido, se ia escrever alguma coisa procurava ler mais, pesquisar. Notei que, nessa cadeia alimentar, a única fera devorada era eu mesma. Prisioneira. Dependente. Encarcerada entrelinhas entre as linhas. 

 

Sou do tipo que perco sono, atraso compromissos, adio responsabilidades, negocio prazos, deixo de resolver algumas urgências, não presto atenção ao que deveria, tropeço em afazeres, em nome do […]ler-escrever-ler-escrever-escrever-ler-escrever[…]; uma equação infinita na qual as variáveis ficam trocando de lugar o tempo todo. Num sem-fim estonteante que me apaixona. 

 

Elaborar um texto, escolher como dizer o que dizer é fascinante. Juntar as peças, criar, descobrir novas trilhas podem me levar aos mesmos orgasmos que ler um livro muito bom. Sou de fato uma pessoa conduzida pelas palavras a gozos. Seja por vê-las ou ouvi-las. Por vezes, também ao mastigá-las. Gosto de sentir cada uma, cheirar, tocar, experimentar a inteireza dos vocábulos e as tramas que eles produzem. Desnudar. (Nossa agora delirei!). 

 

Pensando bem, é um jogo de sedução. Construir uma frase, um texto, me deixa numa excitação semelhante a correr os dedos pelas páginas para o próximo capítulo. Gosto do desfecho. Do gozo?  

 

Aprecio também o percurso, as preliminares (tantas vezes tortuosas). Agora mesmo, tentando continuar este texto. Paro na interrogação do gozo acima e viajo pela net. Li um monte. De sites a blogs. Buscando exatamente o quê?  

 

Ler e escrever já viraram, para mim, promiscuidade. Perco-me na conta dos parceiros e na confusão se sou eu quem escrevo ou leio ou se sou compulsivamente guiada a interagir com a palavras sem meios-tons. Parece mais uma simbiose. Não consigo fazer um sem fazer o outro. Duvido até da minha própria autoria. Escrevo o que leio ou leio o que gostaria de escrever? 

 

Talvez, o mal seja a paixão. A doença viral das palavras que acomete mais uns que outros. E, nesse caso, sou quase terminal. Não me imagino sem elas. Eu sou palavra. Já o gozo, pode se traduzir, ainda que sem entendimento possível, creio, no encantamento da solidão vivida tanto pelo leitor quanto pelo escritor. Há nisso um silêncio compartilhado.  

 

Ou, ainda, por outro viés, o mal e o gozo da interação entre os sujeitos. Autor e leitor. Escritor e escritura. Leitor e divagação, reflexão. Leitor e leitor. Escritor e escritor…  

 

Perambular entre as incontáveis formas de registrar vidas (reais, imaginárias, percebidas, fantasiadas etc), existências, em palavras, viver histórias que não são minhas ou que até poderiam ser, constroem possibilidades que minha curiosidade não permitiria ignorar.  

 

Tudo bem que muitas vezes lemos chatices e escrevemos baboseiras. Ainda assim, dar-me conta que um texto ruim é ruim, é bom. Mas, ler ou escrever qual é o mal pior ou o gozo melhor? Não saberia dizer. São as duas faces da mesma moeda. Um vício. Uma prata que se lança ao vento. Numa hora é cara. Na outra coroa. Enquanto isso, rodopio inebriada nas voltas que ela dá até cair em minhas mãos novamente. Seja de que lado for. No avesso, do avesso, do avesso… 

 

Enquanto não me endireito vou reler este escrito, em seguida passearei por outros dedos para sejam lidos.

Ler e escrever: gozo e tormento

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:29 am

mao.jpg

 

Por Selena Carvalho 

 

O conto “A aventura de um leitor” de Italo Calvino, do livro “Os amores difíceis” retrata bem o prazer e a agonia que envolvem o leitor compulsivo. Nele, o protagonista Amadeo encontra uma mulher numa praia e meio sem querer (“A idéia de se aproximar e depois quem sabe ser levado por alguma circunstância imprevisível a puxar conversa e assim ter de interromper a leitura logo o faz preferir o lugar mais distante”) inicia um relacionamento com ela, ao mesmo tempo em que busca continuar o livro que está lendo. O texto tem passagens engraçadas, com ele abraçando-a, ao mesmo tempo em que tenta ter uma mão livre para pôr o marcador na página certa. 

 

Vejam bem: ele está de férias, muitos diriam: – Coisa boa encontrar alguém! Depois acabo de ler. Amadeo, não. Havia feito uma lista dos livros a levar para a viagem, e “Seu receio era de que não conseguisse terminar o romance: o início de uma relação balneária podia significar o fim de suas calmas horas de solidão…” Em um trecho chega a dizer: “Não adiantava, nada igualava o sabor de vida que está nos livros”. 

 

Também no meu conto “Todo dia”, a ser publicado em breve, aparece uma leitora voraz, que, observando a movimentação do marido em direção a ela, antecipa a iniciativa e pula em cima dele, pensando:  “Vamos, que ainda tenho um livro para terminar”. 

 

Doentes do Mal de Montano, como eu, vivem continuamente situações semelhantes.  Poucas atividades me causam tanto deleite quanto ler. Por outro lado, sigo atormentada com a falta de tempo e a enorme quantidade de livros a serem lidos. O frio na barriga que antecede a última página, quantas vezes ainda vou senti-lo? 

 

Fanática, por números e estatísticas, calculo por aproximação o número de livros que consigo ler por ano, depois, o de anos que tenho pela frente, levando em conta a expectativa de vida dos brasileiros, e concluo: Não vai dar para ler quase nada! E aumenta o meu suplício. 

 

Outro dia, no blog de Daniel Galera, vi algo sobre essa angústia. Diz ele ter agora por objetivo a “busca consciente de uma leitura concentrada e não apressada, tentando eliminar a ansiedade de ler tudo que está aí”. Assim, passou quatro meses lendo “Infinite Just” de David Foster Wallace, com bastante calma, se forçando todo dia a desbravar 10 ou 20 páginas, “indo e vindo entre notas de rodapé e saltos de tempo um tanto obscuros, ligando os fatos e personagens”. Que inveja senti do escritor sulista! Pensei em repetir a experiência, mas, antes, fui atrás de sua biografia. Fiz contas e desisti: Galera é bem mais novo, pode se dar a esses luxos. 

 

Igualmente tormentoso é o escrever. 

 

Nada mais apropriado para comprovar a assertiva do que o texto “Flaubert e a frase”, de Roland Barthes: “Bem antes de Flaubert, o escritor sentiu – e exprimiu – o duro trabalho do estilo, a fadiga das correções incessantes, a triste necessidade de horários desmedidos para chegar a um rendimento ínfimo”. 

 

Não quero chegar ao exagero do escritor francês, para quem a redação exige “irrevogável adeus à vida”, mas tenho que concordar que necessita enorme dose de dedicação. 

 

Claro que processos de escrita há os mais variados, mas, no meu caso, a coisa é lenta, lentíssima. Exige, antes de tudo, maturação quase completa ainda no campo das idéias. Depois, tentativas e mais tentativas, parodiando o grupo de rock, “à procura da frase perfeita”. Não fica pronto de cara, obviamente. É preciso colocá-lo na gaveta, dormir, ver que sensações provoca no outro dia. Procedimento que dura semanas seguidas, por vezes. Que felicidade quando de um dia para o outro se muda apenas uma pontuação, se troca uma palavra por seu sinônimo! Desesperador, quando não fica nada. (Diz Moacir Scliar, que a melhor amiga do escritor deve ser a tecla “delete”) Quando isso acontece, não há outra alternativa a não ser começar de novo, guardar na gaveta, dormir… 

 

Maravilhoso, no entanto, é ter o texto pronto, aquele que ficou tanto tempo na cabeça e que, acabado, pode dar lugar a outros. Quase não resisto ao clichê de afirmar que é como um orgasmo. Prazer que independe da opinião alheia e do fato de ser publicado ou, até mesmo, lido. 

 

Bem, chega de elucubrações. Tão difícil quanto inútil é definir o que traz mais satisfação e angústia: ler ou escrever. A essa altura, no que me diz respeito, como ficaria sem um ou outro?  

 

Vou agora ler um livro. Ou será que escrevo a história que ando matutando? Essa dúvida, sim, é de matar.

Escrever ou ler: qual o pior mal?

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:26 am

amaoealuva1.jpg

 

Por Fernanda Benevides de Carvalho

  

Seria como propor a questão: é melhor se apaixonar do que ser apenas objeto de amor? Dói mais o quê? Quem está numa posição mais confortável? Alguma posição traz conforto na vida amorosa? O ponto de convergência entre os males do escritor e do leitor é que, em ambos, as consciências desejantes só existem em função do mistério que se chama “outro”. Ler é escrever mentalmente o que está sendo lido do “outro”. Escrever é saber ler o “outro”, para revelá-lo. Até prova em contrário, ou de canalhice, são atos de amor.

 

O escritor e o leitor estão condenados a este círculo, ao mimetismo do pequinês correndo atrás do rabo (cãozinho feliz, sua linguagem não dá margem a confusões). O escritor e o leitor são o paradoxo de ouro de Tostines.

 

Leitor e escritor: carregam os males do mundo e sempre uma intenção fugaz de encontro diante do abismo da incomunicabilidade.  

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.