Mal de Montano

dezembro 8, 2010

Amor é tema de ‘O Acidente’, de Ismail Kadaré

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Escritor aborda assunto raro em seu trabalho, o amor, sem deixar de explorar seus temas preferidos

26 de junho de 2010 | 6h 00
Andrei Netto, correspondente em Paris
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Ismail Kadaré em Oviedo, por ocasião da cerimônia de entrega do Prêmio Príncipe de Astúrias

PARIS – Não seria exagero descrever O Acidente, último romance de Ismail Kadaré, que acaba de ser lançado no Brasil, como singular. Trata-se, para ser mais preciso, da exceção da exceção. A primeira, é seu tema: o amor. Poucos, ou talvez nenhum dos 45 romances escritos por Kadaré ao longo de quase 50 anos de carreira, explorou de forma tão desvelada, tão direta, os mistérios e alternativas da relação entre um homem, Bessfort, e uma mulher, Rovena. Sua história, claro, não prescinde da hipervigilância do Estado, da ideia de conspiração, da paranoia oficial que sequestra a verdade, temas que servem como fio condutor na literatura do mestre albanês. Mas é o amor, ou melhor, um beijo, o seu ponto de partida.

linkLeia trecho do romance ‘O Acidente’, de Ismail Kadaré

A segunda exceção, é, claro, sua grife. Ismail Kadaré é apontado por críticos de todo o mundo como um dos injustiçados pelo Prêmio Nobel. Diante da perspectiva de encontrar um dos ficcionistas mais respeitados do globo, não há outra alternativa além de devorar seus livros mais essenciais, informar-se sobre sua vida, suas influências estéticas e suas tendências artísticas mais recentes.

Entretanto, ao ser recebido por Kadaré em sua residência no Boulevard Saint-Michel, em Paris, dogmas jornalísticos ficam à porta. Aos 74 anos, o escritor mostra-se falante e descontraído. Com esse espírito, toma a dianteira e faz a primeira pergunta. Fica tácito, então: esta será uma conversa, não uma entrevista.

“Quais são os meus livros que saíram no Brasil?”, indaga ele, interessado. Não tenho certeza de quantos sejam, mas sei que alguns dos seus maiores sucessos saíram. Respondo que Dossiê H, Crônica na Pedra, Os Tambores da Chuva, Abril Despedaçado fazem parte da coleção. “Agora sai O Acidente”, lembro, sem ainda saber que me referia a uma de suas obras “irretocáveis”. Kadaré não tarda em informar que não quer falar sobre seus livros em particular. Por quê? “Isso me aborrece”, argumenta. Mas faz uma ressalva: aceita conversar sobre literatura.

Imagino que o senhor não consiga acompanhar o volume de novas publicações de seus livros, já que há títulos em mais de 40 línguas.

Não, é difícil. São mais de 40 línguas, e além disso há títulos demais. Há em média um novo livro por semana em todo o mundo. Se cada país publica um livro por ano, mais edições de bolso… Suponhamos que sejam 15 ou 20 as obras que são traduzidas – há muito mais, mas suponhamos que sejam 15 ou 20. Dá em média um livro por semana ou a cada 10 dias. É um volume enorme.

E o que esse sucesso mundial quer dizer?

Um prazer. Todos os escritores amam o sucesso. Afinal, o que é a literatura? É algo que fazemos para os outros, e não para nós mesmos. A qualidade número 1 deste tesouro espiritual da humanidade é que escritores de cada povo, de cada país, fazem isso por si mesmos, mas ao mesmo tempo pelos outros. O sucesso é global, e é extraordinário. Às vezes, publicar é mais importante pelos outros do que por você mesmo. E quando se publica no exterior, o prazer é imenso, porque as traduções são sempre frescas e contemporâneas.

Por favor, fale mais sobre isso.

William Shakespeare, o maior de todos, por exemplo. Lê-lo é mais cômodo para os outros do que para os ingleses. Por quê? Porque quatro séculos se passaram, e a língua inglesa mudou. Os outros países fazem traduções contemporâneas, frescas, novas, e fruem de uma forma perfeita. Enquanto o país que engendrou o escritor é obrigado a ler em uma língua antiga. É o mesmo caso de Dom Quixote. Todos os outros países leem traduções atualizadas. Os espanhóis leem como há séculos atrás.

O senhor tem uma obsessão pela atualidade de uma obra? É por isso que atualiza alguns de seus livros?

Não, de maneira nenhuma. Retocá-los é um processo natural dos escritores. Sempre que têm ocasião de aperfeiçoar as coisas, eles o fazem. Claro, depende do livro e do escritor, mas a maioria o faz. Sobre mim, houve um mal-entendido enorme: diziam que eu mudava os livros após a queda do comunismo. É uma mentira absoluta. A maior parte das mudanças que fiz, em diferentes edições, foi durante o regime comunista. O livro que eu mais fiz retoques, O General do Exército Morto (1963), publiquei cinco vezes, sempre durante o mesmo regime. Não mudei por motivos políticos. Na Albânia, o regime continuava a ler meus textos com lupa. Mas as mudanças que fiz, os retoques, sempre foram artísticos, e não políticos.

Mas o que lhe move a retocar seus livros, que alcançam sucesso mundial?

Eu sou perfeccionista. Há livros que não acho que devam ser modificados. Outros em que vejo imperfeições, algo a mais, coisas não bem explicadas. Mas é normal. Balzac, por exemplo, é uma história de montagem interminável. O dia todo ele adicionava algo, cortava algo. Todos os escritores fazem isso, ou a maior parte. Alguns morrem muito jovens e não têm o tempo. Dante Alighieri trabalhou 20 anos para escrever a Divina Comédia. São 20 anos para um poema! Mas, nessa época, não existia a imprensa. Para os escritores, era mais fácil mudar os manuscritos.

O que lhe incomoda mais em um livro que o senhor tenha escrito: o texto, o estilo, a história?

Tudo. É algo inexplicável. É um tema de estudo para os professores de universidades. Para os autores, é algo ridículo. É uma mistura secreta, que mesmo um escritor não consegue explicar.

Isso faz de seu trabalho uma obra em movimento?

Não, de maneira alguma. Cada obra literária é algo estável. Mas, quando o escritor é vivo, é normal que ele revise sua obra. Claro, isso depende de seu destino, de sua vida, de sua idade, de vários fatores.

Cite um exemplo de seus livros que o senhor gosta de reler.

O General do Exército Morto, meu primeiro livro, que teve sucesso. Sua composição pitoresca, que descrevia a viagem de um general, um personagem que muda o tempo todo, que está em movimento. Neste caso, você fica tentado a retocar algumas coisas de tempos em tempos. Outros romances são inertes. Quando escrevi O General… eu era muito jovem, tinha 25, 26 anos. Me faltava o domínio da escrita. Tinha acabado meus estudos superiores em Moscou, retornado à Albânia e escrito. Logo após a publicação, foi muito mais fácil constatar seus defeitos.

Por quê?

Porque quando a obra é um manuscrito você tem uma relação íntima com ela. É sua escrita, mesmo que seja datilografada. Quando ela é editada, quando ganha a forma em que o público vai ler, ela perde imediatamente a intimidade com seu autor. Você é um estrangeiro. Os caracteres, os papéis, as capas são iguais aos de todos os livros. E você constata que não tem mais privilégios em relação a sua obra. Você vê seus defeitos. É muito fácil. Mas há uma fase ainda mais interessante: a tradução do livro em uma língua estrangeira.

Em que sentido é mais interessante?

Por exemplo, após a publicação de O General…, eu o reli e disse a mim mesmo: “Meu Deus, está cheio de defeitos!” Fiz marcações por tudo, sinais para adicionar algumas coisas, para retirar outras, para reescrever. Massacrei uma cópia com mudanças. Dois anos depois, ela foi reeditada com retoques importantes. A seguir, essa edição foi traduzida na França. Nessa época, eu já lia em francês. Peguei uma cópia e fiquei horrorizado! Ele não me agradou nada de novo, apesar de seu sucesso. Porque, em uma língua estrangeira, o livro se torna duas vezes mais estrangeiro para o escritor. Não é mais sua língua, e você vê os defeitos. Fiz a mesma coisa: recomecei a fazer retoques. Meus amigos me diziam: “Ou você é louco, ou é egocêntrico, ou talvez paranoico.” Eu não estava contente. Fiz os retoques. Enviei-os a todos os editores que tinham contratos para meus livros, dizendo: “Eu sou o autor deste romance. Após a publicação de sua versão francesa, constatei muitos defeitos e fiz alguns retoques.” Era meio ridículo. Nessa época, a metade da Europa tinha contratos para publicar meus livros, mas eu os orientei a traduzirem a partir da versão francesa. As respostas voltaram: “Os retoques são maravilhosos”, diziam. Fiquei realmente feliz. É sempre possível aperfeiçoar um romance. Com Crônica na Pedra (1970), foi a mesma história. Já O Palácio dos Sonhos (Le Palais des Rêves, 1981) quase não retoquei. Estava contente.

Os romances que o senhor não retocou foram os que tiveram melhor acolhida da crítica?

Não, não houve nenhuma relação entre uma coisa e outra. Por exemplo, Le Palais des Rêves foi proibido pela crítica na Albânia. Depois, eu não o mudei em nada. Não foi papel da crítica oficial, de maneira nenhuma. Outro exemplo: o pior dos meus romances, La Noce (1967), foi a única coisa que escrevi que se parecia com o realismo socialista. Não havia o desespero. Tinha uma atmosfera otimista. A crítica albanesa se entusiasmou. Então compreendi que havia cometido um erro.

Incomoda-lhe a afirmação de que tenha feito mudanças de acordo com a evolução do regime político, certo?

Sim, muito. Como eu poderia mudar o conteúdo político de uma obra? Tenho um romance que se chama L’Hiver de la Grande Solitude (1973). É a história da ruptura entre a Albânia e a União Soviética, um dos mais conhecidos romances do mundo. E é uma obra com cenas políticas muito fortes. Não posso mudar nada nesse livro. Há personagens, chefes políticos russos e albaneses, que travam o debate. Como poderia mudar algo? Seria uma loucura se o retocasse.

E em O Acidente, o que o senhor retocaria?

Nada. Quanto mais o tempo passa, menos tenho vontade de fazer retoques. As obras que publiquei nos últimos 10 ou 15 anos não foram retocadas.

O que isso quer dizer: que o senhor as aprecia como estão, ou o contrário?

Não sei. É difícil falar de meus livros.

Eu soube que o senhor de fato não gosta de falar de seus livros. Por quê?

Não sei, não gosto. É uma espécie de aborrecimento. O que falaria por um livro? Vivi sobre ele durante um ano. Está encerrado. É algo do passado. Voltar a ele para explicá-lo é um sofrimento. Posso falar de episódios grotescos, como os retoques em O General…, porque é algo de sua existência, algo anedótico, inabitual. Mas explicar o livro… não… Não gosto disso. Alguns escritores gostam. Eu não.

Falemos dos temas de seus livros, então. O senhor mencionou desespero, ou uma espécie de tristeza intrínseca…

… Desespero não é a boa palavra. Diria tristeza mesmo. Eu vivia em um país noir, triste. Uma das críticas que me eram feitas sempre, um clichê no Ocidente, era questionar porque sempre chove em meus romances, como em O General… Ora, essa é uma questão muito delicada. Para mim, era desagradável respondê-la. Diziam que a Albânia era um país muito ensolarado, luminoso, com um clima ótimo. O que eu deveria responder? Que a atmosfera de meus livros não era apenas relacionada ao clima, mas à ambiência, ao que se passava em meu país? Não posso dizer isso. A pergunta não era uma provocação, mas tomava os ares de uma, porque nós vivíamos em uma situação difícil na Albânia.

E o otimismo era uma das características da literatura socialista que o senhor quase nada praticou, certo? Apenas em La Noce.

Exatamente. O partido, a ideologia, pedia aos escritores: “Sejam otimistas, escrevam para o futuro, pela saúde psíquica do povo. Não façam como a literatura burguesa, decadente, na qual os personagens são tristes, desesperados.” A atmosfera primaveril, alegre, era uma das características da literatura socialista. Na minha literatura, eu tentava fazer o contrário, marcando-a por uma ambiência pesada. O único romance em que eu não respeitei minhas convicções foi La Noce.

A escolha desta atmosfera noir foi intuitiva ou racional?

Primeiramente foi intuitiva. Eu compreendia que vivia em um país anormal. Mas a atmosfera estava em harmonia intuitiva com o sujeito, com o meu espírito, com o da metade da população. Em uma ditadura, a metade é a favor, outra metade é contra, porque sofreu as consequências. Sempre fui criticado pela melancolia, pela falta do herói positivo. Uma das orientações era de que o herói positivo deveria ser dominador na literatura. Mas o herói positivo, o modelo, é uma peste. Para a literatura, eles são muito negativos, mortais mesmo. Diga uma obra em que o herói positivo foi positivo na literatura ou no teatro grego? É muito raro. Mesmo os mais conhecidos, como Fausto, de Goethe, eram metade a metade. Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, era o herói positivo por excelência, mas a população, a mentalidade não o via dessa forma. Vale o mesmo para os atos positivos. Eles não são interessantes para a literatura. Eis a contradição inerente da literatura: ela funciona pelo negativo.

Nesse sentido, a atmosfera autoritária de seu país favoreceu a sua escrita?

Não creio que seja necessário viver o negativo para escrever sobre ele. O planeta é muito pequeno. Mesmo se não vivemos coisas negativas, nós, escritores, sabemos muito bem o que é o negativo. O mal no mundo está sempre próximo, mesmo em um país livre – ou relativamente livre, porque não existem países livres. Os escritores sabem bem da realidade, mesmo que por intuição. Mesmo em um país livre você é obrigado a saber o que é o mal. E o contrário: mesmo em um país em que se vive o autoritarismo, você é obrigado a saber o que é a liberdade. Não há álibis.

Como ser universal em uma realidade fechada ao mundo exterior?

É possível. Depende de sua relação com a literatura. A relação de um escritor com a literatura em um país difícil é parecida com a de um religioso com a religião: é preciso crer. Se você crê, está salvo. Se você não crê, está morto. Se você crê na literatura, é como crer na vida eterna; você está feliz, tem uma segunda consciência. Daí a comparação com a religião, na qual se pode relativizar tudo. Na literatura, como na religião, somos nós mesmos, temos uma espécie de paz interior. O fundo é o mesmo: a crença. Cremos em algo quase divino, eterno, mesmo se não o aceitamos de forma racional. Ser escritor é sua profissão, é do que você é feito, é sua segunda natureza. Tudo lhe dá universalidade. Não é megalomania, é apenas você. Sobre mim, eu vivia em um país sem liberdade, mas me sentia obrigado a expor um quadro da vida, como cidadão do mundo. Era difícil, claro, mas era preciso tentar fazê-lo. É difícil viver em um país anormal e fazer literatura normal. Aliás, é a chave do problema: tentar escrever de maneira normal, quando a realidade é terrível.

Mas o escritor livre não agrada aos autoritários.

Os comunistas diziam: “Você, como escritor, deve ser igual a todo mundo. Deve manter a cabeça baixa. Deve aprender com o povo.” Mas o que eu devo aprender com o povo? Mesmo que seja um bilhão de pessoas, na literatura eu estou sozinho. Não escrevo com a ajuda do povo, nem de ninguém. Faço com a ajuda da literatura. Me interesso pelas pessoas por mil motivos. Mas não para aprender sobre literatura. O recado era uma idiotia total. Era um meio de cercear o escritor, privá-lo de liberdade, de individualidade, um meio de dizer que você não é nada. Em uma ditadura, são os dirigentes que devem ter o poder político e espiritual. O poder é ciumento em uma ditadura. Ele não pode aceitar a partilha, muito menos com escritores. O poder e o escritor são duas forças contraditórias, incompatíveis.

Em O Acidente, vemos a presença do Estado, uma certa vigilância, uma paranoia que é frequente em outros de seus livros. Mas ele tem o amor como tema, algo raro em sua obra. Por que falar sobre o amor?

De tempos em tempos, há motivos de amor e de relações em meus livros. Não é porque vivi em um país tirânico que não escrevi mais sobre o amor. Não é uma razão política. É a natureza da minha escrita, da minha literatura. Tomemos Dom Quixote como exemplo de uma obra-prima universal: o amor é uma pequeníssima parte, e mesmo assim um tanto caricatural, grotesca. Nos poemas homéricos há muito pouco sobre o amor, apenas algumas linhas. Às vezes, a literatura fala muito sobre o amor. Outras vezes, ela se retira. Não posso explicar por quê. Não participo desse debate. Não escrevo muito sobre o amor, mas não sinto um impedimento.

O senhor se sentia livre para falar sobre o amor na Albânia comunista?

Em um regime como o albanês, o que era aceito era uma expressão esquemática, clichê do amor. Em primeiro lugar, o erotismo estava excluído, porque era visto como pornografia, como a decadência ocidental. Na realidade, era uma forma de reduzir o desejo de escrever literatura. O amor deveria ser apresentado como uma lição de moral. Não era possível colocar em sua obra uma mulher “imoral”, instigante para a literatura. Uma heroína positiva deveria ser apaixonada pelo comunismo, pelo mundo futuro, pela sociedade, militante. Os escritores não têm vontade de escrever, tamanhas são as limitações. Seria deformado, pouco natural.

 

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abril 4, 2010

Entrevista – Maria Alzira Brum Lemos

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Conversas no Sótão com Maria Alzira Brum Lemos

Foto de Eder Chiodetto

Minha entrevistada da vez é a escritora Maria Alzira Brum Lemos, que estará lançando no próximo dia 16 o livro: A ORDEM SECRETA DOS ORNITORRINCOS, pela Amauta Editorial. E Assim se deu a nossa conversa:
1. Qual é o seu “lugar imaginário” favorito dentro da literatura?
R.
Dentro da literatura, nenhum. Qualquer lugar determinado e fechado, “real” ou “imaginário”, me mataria de tédio. Prefiro os trânsitos, as passagens, os buracos de minhoca entre que chamamos de realidade e ficção, viver várias dimensões e personagens, explorá-los, piratear histórias, co-construí-las.
2. Se você entrasse no labirinto de Creta e deparasse com o Minotauro, o que você faria ou diria para ele?
R.
Bem devagar, por favor.
3. Se você pudesse escolher ser um personagem da história da literatura, qual seria?
R.
Um mutante do Mario Bellatin. Assim poderia viver vários personagens, incluindo o de autor. Um cientista viajante do século XIX que se transforma em Mata Hari, depois num duplo do Jorge Luís Borges e numa santa que, num êxtase místico, encontra um cientista viajante do século XIX…

4. Qual é a importância da imaginação, da memória e da observação em seu processo criativo?
R.
Observação, memória e imaginação são partes interagentes do processo criativo. Não há uma coisa sem a outra, tudo está conectado e se retroalimenta. O que faço-fazemos é pensamento, conhecimento, descoberta, design de relações, modo de vida. Não penso em termos de gênero de escritura ou disciplinas. A vida é um processo criativo, me interessa explorar suas dimensões, e os textos são parte desta exploração.
5. Qual foi o autor ou livro que, na sua infância ou adolescência, te fez gostar de ler, ter o prazer da leitura?
R.
Meu prazer pela leitura não vem da narrativa, da literatura ou de algum autor em especial, e sim do fascínio pela palavra escrita. Quando eu tinha uns 4, 5 anos, minha mãe encerava a casa e espalhava jornais pelo chão. Eu ficava horas olhando maravilhada para as letras e imagens. Pedi à minha mãe que me ensinasse a ler. Ela me ensinou, e logo comecei a ler notícias, anúncios, horóscopos, quadrinhos, rótulos de embalagens, créditos dos programas de televisão. Depois vieram as revistas e as enciclopédias em fascículos. Meus pais me incentivavam. Um dia o meu pai trouxe um catálogo do Círculo do Livro. Eu me lembro desta leitura como uma experiência incrível em si mesma. Não sei por que, escolhi O retrato de Dorian Gray, que acabou sendo a primeira obra de literatura que eu li. Eu tinha uns 9 anos. Na adolescência, descobri Cortázar e me apaixonei. Literalmente. Eu me sentia percorrendo com ele as ruas de Paris. Era toda uma experiência. Não ter tido uma educação literária tradicional me ajudou. Minha curiosidade não foi dirigida, pude contar com o acaso, com a intuição. As leituras são parte da minha vida. Li e leio história, filosofia, ciência, religião, política, economia, textos pupulares, poesia. Minha “formação como leitora de literatura” é atípica e anárquica, e agradeço por isto.
6. Se você tivesse uma máquina do tempo, que escritor(a) ou poeta do passado você desejaria encontrar?
R.
Eu tenho uma máquina do tempo! Posso encontrar qualquer escritor ou poeta do passado. Já no caso dos contemporâneos, usamos outras estratégias, por exemplo, trazê-los para a Balada Literária, as atividades do Instituto Cervantes, o Escrituras Invisíveis…

Contatos:
E-mail: malzira.brum@gmail.com

POSTADO POR MARCELO MALUF 

Entrevista com Enrique Vila-Mata

Filed under: Aqui o mal geral,Entrevistas — maldemontano @ 12:11 am

Enrique Vila-Matas é um dos mais proeminentes escritores da atual literatura hispânica, nasceu em Barcelona em 1948 e já lançou 28 títulos em mais de 20 países. Seis de seus livros foram traduzidos para o Brasil: A viagem verticalBartleby e companhiaO mal de MontanoParis não tem fimSuicídios exemplares e acaba de sair do prelo Doutor Pasavento. Consagrado em 2006 com o prêmio da Real Academia Espanhola, uma de suas características é misturar sem medo ensaio e ficção, isso levou o crítico José Castello a dizer que sua obra “exige o aparecimento de um novo tipo de leitor, nem passivo nem ativo, mas desarmado e disposto a se deixar perturbar pelo que lê”, e a jornalista Bia Abramo a assinalar: “É um escritor singular, tão singular quanto os personagens que habitam seus livros”. Ao retratar, em três novelas, algumas das patologias que abalam grandes escritores, criou uma espécie informal de trilogia nomeada Catedral metaliterária, usando a literatura como marco de reflexão e ponto de fuga. Por essas e outras, a narrativa de Vila-Matas é leitura instigante e intrigante. A seguir, o autor com a palavra, numa pequena entrevista feita por e-mail e, surpreendentemente, respondida quase no mesmo instante.

Qual o papel da literatura no mundo de hoje?
Non olet (não cheira), foi a expressão que utilizou o imperador romano Vespasiano em relação ao dinheiro, em resposta a seu filho Tito Lívio quando este o recriminava quanto à cobrança de impostos pelo uso dos mictórios públicos. Hoje em dia, quando tudo gira em torno do dinheiro, é impossível que o pensamento e a arte literária ocupem lugar central. O máximo que temos é uma “cultura do ócio”. Nessas complicadas circunstâncias, os verdadeiros escritores fazem o que podem.

Pode-se dizer que um dos temas centrais de Doutor Pasavento é a necessidade
Aparentemente, o livro gira em torno do tema do desaparecimento. Um escritor consagrado deseja deixar de ser visto (quer se ocultar, à maneira de Salinger), decide que não quer escrever para logo ter de ser entrevistado e fotografado. Ao tentar desaparecer, descobre que ninguém se preocupa que tenha sumido. Isso o faz sentir-se ainda mais só do que acreditava estar.

A experiência literária existe sem a experiência de vida?
Vida e literatura seguem unidas em franca camaradagem. Nesse mundo, não há nada que não esteja ligado.

Como surgiu a ideia para sua Catedral metaliterária? O que existe por trás disso?
Sem que eu tenha planejado previamente, Bartleby e companhiaO mal de MontanoDoutor Pasavento pertencem a um mesmo impulso criativo. Analisam três patologias dos escritores. O silêncio (Bartleby), a literatura como droga (Montano) e a necessidade de não ser visto, de escrever na sombra (Pasavento).

Ensaio e ficção se misturam em Doutor Pasavento. Qual a importância e o objetivo disso?
A forma literária que emprego une ficção e ensaio sem permitir que se note o salto de um gênero ao outro. Na minha cabeça, não existem compartimentos fixos, não coloco fronteiras entre os gêneros. Pensamento e ficção caminham juntos.

“Pensar que somos o que cremos ser”, no dizer de Pasavento, é uma viagem transformadora ou uma armadilha nefasta?
Eu sou outro. Se isso fosse verdade, seria um consolo. “Não sou desenraizado: simplesmente não tenho raízes”, diz. Qualquer simulacro de enraizamento que não seja metafísico, metabiológico ou metatemporal, o rechaço, o vômito… A única verdade que me ilumina, que me dá esperança é o “eu sou outro”.

Quais são os escritores e as obras fundamentais em sua vida?
Digamos que, no século passado, não havia nada superior à profunda e profética obra de Kafka.

O que você está lendo agora?
William Gaddis, Flann O’Brien, Roberto Bolaño, Maria Alzira Brum Lemos.

Em que trabalha neste momento?
Publico na França e na Espanha minha nova novela Dublinesca e o breve ensaio narrativo Perder teorias. E estou escrevendo meu novo livroDoctor Finnegans y monsieur Hire

abril 13, 2009

É do espanto que nasce o poema…

Filed under: Entrevistas — maldemontano @ 1:26 am

De repente, quando se ergue da cadeira, o poeta percebe que o fêmur de uma perna resvala no osso da bacia. Aquilo o intriga. “É desse tipo de surpresa que nasce um poema”, diz Ferreira Gullar

Por Armando Antenore (Revista Bravo!)

Certa manhã, enquanto fazia recortes para novas colagens, notou que umas tiras miúdas de papel salpicavam o piso da sala. Mal se abaixou com a intenção de recolhê-las, viu que formavam um desenho abstrato. A figura inusitada e bela surgira de modo espontâneo, à revelia de qualquer pretensão estética. O escritor, hipnotizado, apanhou os pedacinhos de papel e os fixou em uma cartolina amarronzada exatamente da maneira como caíram no chão. Batizou o trabalho de Por Acaso, Puro Acaso. Quem percorre o apartamento carioca logo avista a composição pendurada numa nesga de parede e um tanto oprimida pelas dezenas de outros quadros e gravuras que decoram o imóvel — a maioria de artistas tão míticos quanto Iberê Camargo, Rubem Valentim, Oscar Niemeyer e Marcelo Grassmann. “Todos bons amigos”, comenta o dono da casa, com um híbrido de displicência e orgulho.

O episódio dos papéis revela muito sobre o jeito de o poeta enxergar a vida e o ato criativo. Para o autor do célebre Poema Sujo, viver (ou criar) é o resultado de um diálogo contínuo entre o arbítrio e o inesperado, a ordem e a desordem, a necessidade e o acaso. O assunto veio à tona numa tarde abafada de fevereiro, ao longo da conversa de três horas que Gullar manteve com BRAVO!. O apartamento de Copacabana, silencioso àquela altura do dia, serviu de cenário.

Viúvo, o maranhense namora a poetisa gaúcha Cláudia Ahimsa. Ele a conheceu durante a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994. Pouco tempo antes, amargara a morte da mulher, Thereza Aragão, e de um dos três filhos, o caçula Marcos. Inspirado pela atual companheira, escreveu os versos “Olho a árvore e já/ não pergunto ‘para quê?’/ A estranheza do mundo/ se dissipa em você”.

BRAVO!: O senso comum costuma apregoar que poetas nascem poetas. Poesia é destino?

Ferreira Gullar: Prefiro dizer que é vocação. O poeta traz do berço um modo próprio de lidar com a palavra. Não se trata, porém, de um presente dos deuses, de uma concessão divina, como se pregava em outras épocas. Trata-se de um fenômeno genético, biológico, sei lá. Há quem nasça com talento para pintar, jogar futebol ou roubar. E há quem nasça com talento para fazer poemas. Sem a vocação, o sujeito não vai longe. Pode virar um excelente leitor ou crítico de poesia, mas nunca se transformará num poeta respeitável. Quando um jovem me mostra originais, percebo de cara se é ou não do ramo. Leio dois ou três poemas e concluo de imediato. Por outro lado, caso o sujeito tenha a vocação e não trabalhe duro, dificilmente produzirá um verso que preste. Se não estudar, se não batalhar pelo domínio da linguagem, acabará desperdiçando o talento. “Nasci poeta, vou ser poeta.” Não, não funciona assim. Converter a vocação em expressão demanda um esforço imenso. Tudo vai depender do equilíbrio entre o acaso e a necessidade. A vocação é acaso. A expressão é necessidade. Compreende a diferença? No fundo, a vida não passa de uma constante tensão entre acaso e necessidade.

Nada escapa desse binômio?

Nada. O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.

Você não crê que Ele exista?

Gostaria de acreditar, mas não acredito. Uma pena… Poucas crenças podem ser mais reconfortantes do que a fé em Deus. Ele enche de sentido as nossas vidas sem sentido. “Eu não sou cachorro, não!”, cantava o Waldick Soriano, lembra? Uma frase sugestiva, já que os homens realmente não se veem como cachorros. Os homens anseiam uma condição sublime. Não à toa, inventaram Deus: para que Deus os criasse. Se você pensar direito, todas as coisas abstratas ou concretas que a humanidade constrói têm a intenção de dar significado à vida — e, não raro, um significado especial. Nós, que frequentemente praticamos atos injustos, inventamos a justiça. Por quê? Porque desejamos ser melhores do que somos e tornar menos insolúvel o mistério de viver. A arte surge pelo mesmo motivo.

Conclui-se, então, que o poema também almeja dar significado à vida.

O poema nasce do espanto, e o espanto decorre do incompreensível. Vou contar uma história: um dia, estava vendo televisão e o telefone tocou. Mal me ergui para atendê-lo, o fêmur de uma das minhas pernas bateu no osso da bacia. Algo do tipo já acontecera antes? Com certeza. Entretanto, naquela ocasião, o atrito dos ossos me espantou. Uma ocorrência explicável de súbito ganhou contornos inexplicáveis. Quer dizer que sou osso?, refleti, surpreso. Eu sou osso? Osso pergunta? A parte que em mim pergunta é igualmente osso? Na tentativa de elucidar os questionamentos despertados pelo espanto, eclode um poema. Entende agora por que demoro 10, 12 anos para lançar um novo livro de poesia? Porque preciso do espanto. Não determino o instante de escrever: “Hoje vou sentar e redigir um poema”. A poesia está além de minha vontade. Por isso, quando me indagam se sou Ferreira Gullar, respondo: “Às vezes”.

A falta de controle sobre o ato de escrever o angustia?

Não, em absoluto. A experiência de criar um poema é maravilhosa. Mas, como não depende inteiramente de mim, sei que corro o risco de nunca mais vivenciá-la. Se parar de fazer poesia, vou lamentar — só que não a ponto de disparar um tiro na cabeça. Nenhum poema, de nenhum poeta, me parece imprescindível. Dante Alighieri poderia não ter escrito A Divina Comédia. Ou poderia tê-la escrito de outro jeito. Novamente: tudo se subordina à lei do acaso e da necessidade.

Um poema deve sempre emocionar?

Sim, deve emocionar primeiro o poeta e depois o leitor.

O pernambucano João Cabral de Melo Neto, com quem você conviveu, pensava diferente, não? Ele preconizava uma poesia menos emotiva.

João Cabral gostava de mentir! (risos) Pegue o poema O Ovo de Galinha e veja se aquilo não comove o leitor. Você acha que o João também não se comoveu ao escrevê-lo? Lógico que se comoveu! Na verdade, João recusava a ideia de o poeta transformar a poesia em confessionário, em objeto do sentimentalismo. Daí proclamar que o poema tinha de ser uma construção intelectual. A razão lhe serviu de bússola. No entanto, paradoxalmente, inúmeros de seus versos não resultaram tão frios. À medida que o tempo passa, o João se revela cada vez mais complexo, uma soma de contradições — o que, no fim das contas, só aumenta a grandeza dele.

Você concorda quando os críticos apontam o Poema Sujo, de 1975, como sua obra máxima?

Difícil responder. Não me debrucei profundamente sobre o assunto… O Poema Sujo é, de fato, o que reúne o maior número de interrogações e descobertas — em parte, pela extensão (os versos se espalham por quase 60 páginas); em parte, pela febre criativa que me assaltou enquanto o redigia. Entre maio e outubro de 1975, fiquei imerso no que classifico de “estado poético”. Nada me tirava daquele clima. Eu comentava, brincando, que me tornara uma espécie de rei Midas. Tudo em que botava a mão virava ouro, tudo virava poesia. Foi uma fase excepcional. Para mim, porém, trabalhos mais recentes podem ter importância idêntica à do Poema Sujo, por exprimirem reflexões novas, algo que não me ocorrera dizer antes.

Uma parcela da crítica sustenta que você é o maior poeta brasileiro vivo. É mesmo?

Imagine! E como se mede o tamanho de um poeta?, já perguntava Carlos Drummond de Andrade. Que régua consegue dimensionar um negócio desses? Claro que, quando escuto uma avaliação do gênero, me envaideço. Mas não me iludo. Cada poeta, vivo ou morto, é inigualável. O João Cabral, o próprio Drummond, o Vinicius de Moraes, o Mário Quintana nos transmitiram um legado riquíssimo. São inventores de um universo muito pessoal e insubstituível. Sem mencionar o Murilo Mendes, autor de pérolas tão lindas quanto “A mulher do fim do mundo/ Chama a luz com um assobio”.

Poeticamente, você jamais permaneceu num único lugar e sempre procurou a renovação. Em contrapartida, como crítico, acabou recebendo a pecha de conservador, por rejeitar diversas manifestações da arte contemporânea. O rótulo o incomoda?

Não, não me incomoda. Nesta altura do campeonato, quando o vale-tudo se apoderou das artes plásticas, a qualificação de “conservador” perdeu sentido. Conservador por quê? Por diferenciar expressão e arte? No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música. O filósofo francês Jacques Maritain, católico, afirmava que a arte é “o Céu da razão operativa”. Ou melhor: é o ápice do trabalho humano. Arte, portanto, pressupõe o “saber fazer”. Saber pintar, saber dançar, saber esculpir, saber fotografar, saber tocar, saber compor. Tal critério prevaleceu durante milhares de anos, desde as cavernas até o advento das vanguardas, no final do século 19, período em que se questionou o “saber fazer”. Pois bem: sob a minha ótica, a preocupação vanguardista é um fenômeno que se esgotou. Por milhares de anos, a arte seguiu adiante sem ligar para o conceito de vanguarda. Ninguém me convencerá de que, em pleno século 21, crucificar-se na traseira de um Fusca, deixar-se filmar cortando a vagina ou masturbar-se numa galeria equivale a um gesto artístico. Segundo o norte-americano John Canaday, historiador da arte, os críticos de hoje temem repetir o erro cometido pelos críticos do século 19, que não compreenderam os impressionistas. Em consequência, assinam embaixo de qualquer bobagem que levante a bandeira do “novo”. Percebe a armadilha? Caso três ou quatro artistas resolvam espremer uma bisnaga de tinta no nariz de um crítico, ouvirão dele que praticaram um ato inovador. Definitivamente, não penso desse modo.

Nos tempos de militância comunista, você usou a poesia com fins políticos. O engajamento dos poetas ainda se justifica?

Não, de jeito nenhum. Os poetas, agora, irão se engajar em quê? No socialismo ridículo do Hugo Chávez? Foi um engano imaginar que versos contribuiriam para a revolução social. Admito que um poema consiga iluminar o leitor, consiga lhe abrir a cabeça. Mas daí a mudar a sociedade… Muito complicado! Abandonei todos os mitos daquela época. Não creio mais em luta de classes. Já aprendi que o capitalismo é como a natureza: invencível.

E a crise econômica que o mundo enfrenta atualmente? Não põe o capitalismo em xeque?

Sem dúvida atravessamos um momento delicadíssimo. Mesmo assim, estou convicto de que o capitalismo resistirá. Trata-se apenas de mais uma crise num sistema que vive de crises. Repito: o capitalismo vai imperar porque segue a lógica da natureza. É brutal, é feroz, é amoral. Não demonstra piedade por nada nem por ninguém. Em compensação, nos oferece uma série de benefícios. O capitalismo, à semelhança da natureza, se desenvolve espontaneamente. Não precisa que meia dúzia de burocratas dite o rumo das coisas, como acontecia nos regimes socialistas. Em qualquer canto, há um cara inventando uma empresinha. De repente, no meio deles, aparece um Bill Gates. São multidões em busca de dinheiro! Impossível deter uma engrenagem tão eficiente. Podemos, no máximo, brigar para que as desigualdades geradas pelo capitalismo diminuam. Aliás, convém que briguemos. Não devemos abdicar de um mundo mais justo, ainda que capitalista.

Como você avalia o governo Lula?

Avalio mal. O Lula é um grande pelego. Sabe aquele indivíduo que se infiltra nos sindicatos para amortecer os conflitos entre trabalhadores e patrões? O Lula age exatamente assim. Por um lado, agrada os banqueiros e os empresários. Por outro, corrompe o povão com programas assistencialistas. Posa de líder popular, e a massa o aplaude. Viva o pai dos pobres! Resultado: todo mundo confia no Lula, o rico e o miserável. Em decorrência, as tensões sociais se diluem. Que maravilha, não? Um país de carneirinhos…

Em setembro de 2010, você completa 80 anos. Sente-se realizado?

Olha, a vida é uma cesta em que, quanto mais se põe, mais se deseja colocar. Estamos sempre partindo do zero. Hoje pinto um quadro ou termino de ler um livro. Fico satisfeito. Mas, amanhã, me pergunto: e agora?

dezembro 31, 2008

Minhas histórias vêm da voz’, diz Alessandro Baricco

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 3:35 pm

por André Miranda

Entre goles de cerveja e baforadas de cigarro, um simpático Alessandro Baricco (na foto de Michel Filho) conversou com O GLOBO num bar de Paraty. O autor italiano está na cidade fluminense para participar, neste sábado, às 15h, da mesa “Fábulas italianas”, com Contardo Calligaris. Autor de “City”, “Seda” e “Esta história”, Baricco é considerado um dos mais importantes escritores contemporâneos da Itália, e alcançou fama na Europa com seus livros, suas participações em programas de TV, sua parceria com a banda francesa Air e a adaptação de suas histórias para o cinema — como foi o caso da peça “Novecentos”, transformada no filme “A lenda do pianista do mar” por Giuseppe Tornatore. Dele, a Companhia das Letras acaba de lançar o romance “Sem sangue”, em que a personagem Nina parte para uma vingança depois que sua família é vítima de uma guerra cruel. O resultado é uma obra bem ao estilo do autor: guiada por música e útil para o leitor.

Você foi um dos fundadores de uma escola de escrita criativa na Itália, nos anos 1990. Mas é possível ensinar alguém a escrever com criatividade?

ALESSANDRO BARICCO: Na verdade, não é exatamente uma escola de escrita criativa. Nós costumamos dizer que é uma escola de narrativa. Os alunos ficam dois anos com a gente e alguns escrevem livros, mas muitos outros escrevem para televisão, para o cinema, para publicidade, para quadrinhos… Não é uma escola para se aprender a escrever livros, mas uma escola para você aprender a contar histórias.

Da mesma forma, esta edição da Flip tem um sentido mais amplo do que é considerado literatura. E você, também, é um autor acostumado a trabalhar com outras formas de narrativa, como cinema e teatro. Partindo da experiência da escola, no fundo, tudo isso se trata do mesmo assunto, contar uma história?

BARICCO: É o mesmo ato, o ato da escrita. Se você quer ter isso como profissão, escrever é uma coisa bem natural, como correr. Não é necessário ir para uma escola aprender a correr. Mas se você quiser viver de correr, se quiser ir para os Jogos Olímpicos, aí é diferente, você também precisa estudar. Além disso, há muitos talentos que vivem distantes do mundo cultural, e a escola os coloca próximos a esse mundo cultural. A escola os coloca mais perto do mundo que eles querem habitar. Nossa escola ajuda os alunos a entender muito mais seu próprio talento.

O nome da escola é Scuola Holden, numa homenagem ao personagem de J.D. Salinger. A influência de Salinger é grande assim?

BARICCO: Quando eu e outros quatro amigos a fundamos, nós queríamos fazer uma escola diferente. Então pensamos numa escola em que Holden Caulfield pudesse aprender alguma coisa. Escolher o nome de Holden foi um desafio de fazer uma escola que ele iria amar. Salinger se mantinha na superfície dos temas e, assim, conseguia alcançar resultados muito profundos.

Você apresentou um programa de TV sobre ópera na Itália e, anos depois, gravou o CD “City reading” com a banda francesa Air, de música eletrônica. Como nas várias formas de escrita, os diferentes estilos musicais também têm o mesmo valor?

BARICCO: A música está dentro da escrita. Não em todas. Nos textos de Kafka, por exemplo, quase não há música. Mas para mim é muito importante, é meu jeito de escrever. Minhas histórias vêm da voz, na minha forma de escrever é possível reconhecer a voz. Na minha vida, eu trabalhei de muitas formas diferentes para cruzar música com palavras, histórias e ficção. Minha paixão pela ópera nasceu daí. Eu via as óperas como grandes histórias e, depois, havia a música. Eram as palavras dentro do ritmo. O cruzamento foi muito forte, muito bem-sucedido. E o mesmo ocorre hoje. Eu pedi ao Air para fazer uma performance comigo em Roma, com música ao vivo. Eles aceitaram e nós fizemos uma espécie de leitura de algumas páginas de “City”. Aí eles pediram que gravássemos um CD. É um CD estranho, um tipo de música que não existe. Mas eu gosto.

Você também apresentou um programa de TV sobre livros. Televisão e literatura são artes consideradas quase antagônicas: uma está mais ligada à alta cultura, enquanto a outra é mais associada à cultura popular. É possível juntas as duas?
BARICCO: É possível. Você tem que pensar que um programa de TV quer dizer, pelo menos, um milhão de pessoas. É um público pequeno em comparação com outros programas de TV, mas é muito grande para a literatura. Então, se essas pessoas param e te ouvem, elas demonstram curiosidade, mostram que podem entender o que você está falando. O que funciona na TV é alguém contando alguma coisa com paixão. Isso pode ser com beisebol, com política, com outros temas. É exatamente o que eu fazia. De uma forma bem simples, eu ia lá e falava dos meus livros favoritos. E funcionava. Eu conseguia botar um livro na lista dos mais vendidos no fim de semana, depois de falar dele no programa. Fiz isso com o Salinger, por exemplo.

O seu romance “Sem sangue”, que está sendo lançado aqui agora, foi publicado originalmente em 2002, um ano depois do 11 de Setembro, numa época em que todo o mundo só falava de guerra. Isso de certa forma o influenciou?

BARICCO: Escrever sobre guerra era uma coisa que eu já tinha na minha cabeça muito tempo antes. Mas eu tinha um certo medo de tratar disso. Aí, comecei a fazer o “Sem sangue”, escrevi um trabalho sobre a “Ilíada”, que para mim é uma ótima reflexão sobre a guerra, e uma parte do “Esta história”, meu último romance, é sobre guerra. Acho que precisei escrever de formas diferentes sobre esse tópico. Talvez o 11 de Setembro tenha, de certa forma, me empurrado para o tema.

E como você enxerga a personagem Nina? Ela é uma vítima?

BARICCO: Ela é motivada pela vingança. No livro, até o fim, você não consegue saber se ela é mesmo uma assassina ou não. Você sempre tem duas versões. Tradicionalmente, as personagens femininas são a voz da paz. Os homens agem como animais e as mulheres ficam em casa com as crianças, esperando os homens voltarem da guerra. É assim na “Ilíada”, por exemplo. Em “Sem sangue”, trabalhei com uma personagem feminina e eu mesmo não sei dizer se a Nina é uma assassina ou não.

Você é um dos mais respeitados autores contemporâneos da Itália e também um dos mais vendidos. Ao criar uma história, você pensa no leitor?

BARICCO: Não em termos de mercado. Eu acho que é como fazer uma mesa. Eu quero fazer alguma coisa que funcione. Uma coisa sólida onde as pessoas podem apoiar seus copos e beber. Os livros, para mim, são coisas úteis, de que as pessoas precisam, como precisam de pão. Eu penso no leitor porque quero que ele se sente e use a mesa. E quero que ele ache que é uma mesa confortável, bonita. Esse é o meu trabalho.

Você já conhecia o Brasil, não? Quais suas impressões sobre o país?

BARICCO: Eu já havia estado no Brasil duas vezes. Na última, houve um grande problema em São Paulo, um ataque a vários pontos comandado por criminosos de dentro da prisão. Achei aquilo assustador. Não consigo imaginar como é conviver com esse tipo de situação. Como vocês conseguem?

(entrevista publicada no caderno especial do Globo na Flip)

novembro 9, 2008

Fernando Bonassi, escrever também pode ser profissão!

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 2:43 am

A surpresa divertida do mês foi encontrar no Jornal Plástico Bolha a entrevista com o escritor Fernando Bonassi (edição 24, outubro/2008).
Na minha ignorância não me lembrava dele e nem de seus livros. Mas depois vi que tem uma obra diversificada, para vários públicos, e premiada.
O que mais gostei em Bonassi foi do seu pensamento agudo e certeiro. Por isso, colo aqui algumas passagens que é para eu não me esquecer…
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“A literatura brasileira é pouco ousada e covarde porque os escritores têm relações promíscuas com o Estado, a maior parte deles”.
“Eu escrevo sob encomenda. Estou acostumado a escrever um conto para a Folha, com prazos, tamanhos, verbas. Esse tipo de relação é de negociação. Sou eu contratado para escrever roteiros de cinema que eu não quero escrever, sou pago para desenvovler idéias de outros. A única coisa que eu não sei fazer é o que o ator faz”.
“Eu acho que sou formado moralmente por Henry Miller. Ele dizia que para escrever você tem que se conhecer primeiro. Se você é um covarde, escreva sobre sua covardia”.
“Minha família precisou ser extinta para funcionar. Como extintos, somos muito felizes – não nos vemos, não nos falamos…”.

setembro 23, 2008

‘Literatura brasileira presta desserviço à leitura’

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 5:11 pm

 

Professor da pós-graduação em Comunicação da UFF, ex-subreitor da Estácio de Sá, o jornalista Felipe Pena estréia na ficção criticando o ambiente em que tem transcorrido sua vida profissional: a universidade brasileira. “O analfabeto que passou no vestibular” (7 Letras) é anunciado como um romance-denúncia sobre o ensino superior em nosso país, e nesta entrevista Pena critica tanto a mercantilização do saber nas instituições privadas quanto a obscuridade da linguagem usada em cursos prestigiados. Um hermetismo, diz, que se faz presente também na literatura brasileira contemporânea, segundo ele chata e besta.

Esse livro, para você, é basicamente um meio de levantar uma discussão sobre o ensino universitário brasileiro, ou você tem também ambições literárias, espera ser reconhecido como escritor?


Não tenho pretensões literárias com este livro nem com o próximo, que está quase pronto. Não faço literatura, faço ficção. A literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.


Após fazer mestrado e doutorado em Literatura Brasileira, não tenho dúvidas de que são os mestres e doutores que prejudicam a formação de um público leitor no país. A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores universitários se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. As teses e dissertações seguem regras rígidas justamente para garantir essa perpetuação de poder. E isso se reflete na literatura.

Enfim, tento seguir na direção contrária. Escrevo para ser lido, o que parece ser um pecado mortal no sacro universo de nossa literatura. E, como conseqüência da leitura, é que proponho algumas discussões. Em “O analfabeto que passou no vestibular”, não é só a qualidade do ensino superior que pretendo colocar em pauta, mas o próprio papel da universidade e dos professores universitários. Entretanto, talvez a questão mais importante esteja na própria linguagem. Acredito que precisamos de livros de ficção que sejam acessíveis a uma parcela maior da população. E isso não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. Escrever fácil é muito difícil.

Seu livro é anunciado como um romance-denúncia sobre a decadência do ensino universitário no Brasil. Por que você quis fazer um romance e não a denúncia, simplesmente?

A ficção fala mais sobre a realidade do que a própria realidade. Ela é perene, não serve para embrulhar o peixe no dia seguinte. Regularmente, diversas pessoas denunciam a decadência do ensino universitário no Brasil. São alunos, professores, pais e até congressistas. Basta abrir os jornais e ver os indicadores do MEC, os resultados das provas da OAB e as avaliações do INEP. O que adianta? As discussões duram no máximo alguns dias e depois se perdem. Esse é o tempo da mídia. A imprensa esgota o assunto rapidamente, pois outras pautas se impõem. É da sua natureza.

Com o livro é diferente. Daqui a dez anos alguém ainda poderá levantar a discussão. Além disso, a ficção fornece pistas sobre comportamentos, levanta discussões sobre detalhes que passam despercebidos e aguça a imaginação, o que é sua característica mais importante. Por exemplo: a reforma universitária está em tramitação no Congresso Nacional. Se um deputado em Brasília tiver interesse em ler ficções sobre universidades pode encontrar um material incomum para criar soluções imaginativas e não apenas burocráticas ou paliativas. Como diria o Manoel de Barros, noventa por cento do escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira.

Sua experiência em universidades privadas te deixou pessimista quanto à expansão do ensino superior no país? Que episódios te levaram a constatar essa decadência?

Os episódios estão descritos no próprio livro e foram retirados de jornais. Eu ficcionalizo fatos que saíram na mídia. Invento enredos a partir de outros que já foram veiculados na imprensa. O problema é que nossa realidade é inverossímil mesmo. Como explicar para um estrangeiro que um analfabeto passou no vestibular? Ou como explicar o próprio vestibular, um concurso que dá aos ricos acesso ao ensino universitário gratuito, deixando para os pobres a opção de pagar ou não estudar?

Quero que fique bem claro que não sou contrário à expansão universitária nem ao ensino privado. O que me incomoda é a mercantilização, que se intensificou absurdamente nos últimos anos com a abertura de capitais das universidades, que agora lançam ações na Bolsa de Valores. Eu esperava que a entrada de dinheiro melhoraria as condições de ensino, mas não foi o que aconteceu. Em vez disso, prevalece a lógica do corte de custos para aumentar os lucros. Isso significa turmas com mais alunos, demissões de professores e quebra de pré-requisitos para otimizar as salas de aula. Imagine um aluno de engenharia que cursa Cálculo II antes de fazer Cálculo I. Que tipo de ponte ele vai construir? E o pior é que nós é que vamos atravessar essa ponte.

No Brasil, as universidades particulares baseiam suas receitas exclusivamente nas mensalidades, o que é um erro fatal e principal causa dessa distorção. A solução seria investir na pesquisa, fazer parceria com grandes empresas e receber royalties. Isso iniciaria um ciclo vicioso positivo. Mais pesquisas, melhores pesquisadores, melhores, professores, melhores alunos. E, conseqüentemente, mais investimentos. Infelizmente, os acionistas querem o caminho mais rápido, não pensam a longo prazo.

Mas eu sou um otimista. Acho que essa realidade ainda pode mudar. Assim como também pode mudar aquilo que nossos doutores chamam de Literatura.

 

Fonte aqui

outubro 12, 2007

“NÃO TEM COMO SE SENTIR SOLITÁRIO COM O BLOG”

Filed under: Entrevistas — maldemontano @ 11:49 am

Entrevista: Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista


Para o poeta Fabrício Carpinejar, o blog é um espaço para exercer a literatura em estado bruto e também a sua permanente atualização, sendo ele seu próprio editor
Foto(s): Adriana Franciosi

O poeta e jornalista Fabrício Carpinejar criou o seu blog em 2003 como uma forma de exercício público.

– Eu queria perder aquela arrogância da gaveta. A arrogância da gaveta é eu pensar que estou pronto.

Para ele, o blog lhe oferece a liberdade da atualização e é também uma necessidade de decifrar o leitor.

DC – Como é o retorno dos leitores?

Carpinejar – É uma convivência saborosa. Tem leitores que me acompanham desde 2003 pelo blog, com seus nomes e codinomes, que eu chego a imaginar eles, como eles são. É fascinante porque eles estão fazendo um blog dentro do meu blog. Pelos comentários que eles deixam eu percebo o temperamento, o caráter, a carência, a necessidade, o que eles pensam, o que eles desejam. Não tem como se sentir solitário com o blog. Você está povoando a sua solidão, abrindo sua solidão. O blog não é uma ferramenta. É mais do que isso. É um espaço para exercer a literatura em estado bruto. E também atualização. Vai que eu escreva um texto e pense “ah não tá tão bom assim” e vá lá mudar. Eu sempre tive um sonho, como jornalista, de ser meu próprio editor. No blog, que é um espaço mais de crônica, eu faço minhas reuniões de pauta comigo mesmo.

DC – Em que momentos você costuma escrever no blog?

Carpinejar– Sempre de manhã. Chega a ser doentio. Eu faço a lista daqueles lugares comuns que podem ser desfeitos, ou seja, aquela agulhada própria da crônica. A crônica vai desfazer um condicionamento. A crônica acorda assuntos dorminhocos. Eu tenho uns quatro ou cinco temas e discuto comigo mesmo qual vai ser a crônica do momento. Hoje (terça-feira) estou pensando em escrever uma crônica sobre aquela mentira de que quem volta das férias fica mais disposto. Toda vez que eu volto de férias, eu não volto disposto. Eu volto com raiva do trabalho, eu volto com vontade de pedir demissão. Você percebe que tudo que você faz é meio inútil. Eu demoro muito tempo pra ficar disposto.

DC – Você também reproduz material que sai na imprensa.

Carpinejar – Eu sou um provador de roupas, sou vários personagens. Sempre tento chamar a atenção para aspectos que podem ser trabalhador por outras pessoas e agentes culturais nas suas cidades. E também tem a questão do “persona”. Quanto mais eu me mostro mais eu me guardo. Eu sempre digo que se você quer guardar um segredo, conta. Porque, aí, você não vai ser prisioneiro dos segredos. Eu conto meus segredos e muitas vezes os misturo com a ficção.

DC – E a idéia do consultório poético?

Carpinejar – Eu parto do princípio que onde você não espera encontrar um poeta, eu vou estar. Eu sou um terrorista. Você imagina que um poeta vai responder dúvidas amorosas? Não! Mas lá estou eu. A poesia tem capacidade de dar humor. Eu recebo mais de 50 e-mails por semana de pessoas que pedem um norte, e evidentemente como um poeta eu dou o sul. As pessoas estão procurando mais atenção, audição, elas querem ser ouvidas. Acho muito importante esse consultório poético pela aproximação, pela empatia. O blog foi meu auditório. Agora eu falo sem parar.

Publicado no jornal Diário Catarinense, caderno Variedades
Florianópolis (SC), 11/10/07, Edição nº. 7853
Leia a matéria na íntegra de KARINE RUY no caderno Variedades.

Fonte blog do Carpinejar

setembro 25, 2007

Não à reforma ortográfica – Entrevista com Mia Couto

Filed under: Entrevistas — maldemontano @ 1:29 pm

Um dos grandes autores da língua portuguesa, o moçambicano critica a uniformização do português e, ex-militante marxista, diz que não sabe mais o que é ser de esquerda

Por JONAS FURTADO

Fonte IstoÉ
KARIME XAVIER/AG. ISTOÉSócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras, o moçambicano Mia Couto é um dos maiores escritores contemporâneos africanos e da literatura de língua portuguesa. É o autor de seu país mais traduzido no mundo e, só em Portugal, seus livros somam quase meio milhão de exemplares vendidos. No final de agosto, ele veio ao Brasil para a 12ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo (RS). Sua mais recente obra, O outro pé da sereia, ganhou o 5º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, pelo melhor romance publicado em língua portuguesa nos últimos dois anos. A vitória valeu um prêmio de R$ 100 mil. Couto também é biólogo e dirige uma empresa de estudos de impacto ambiental em Moçambique, um dos 20 países mais pobres do mundo, onde metade da população é analfabeta.

Filho de portugueses, Couto era militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e lutou pela independência do país contra Portugal (1964-74). Foi um dos compositores do hino nacional de sua pátria e trabalhou para o governo durante a guerra civil (1976-92). Embora um pouco desapontado com os rumos tomados pela Frelimo, que abandonou o marxismo em 1990, ele ainda se diz simpático ao agora partido político, que continua no poder em Moçambique. Couto é um escritor acostumado aos prêmios. Neste ano, tornou-se o primeiro africano a vencer o União Latina das Literaturas Românticas, entregue em Roma, e seu primeiro romance, Terra sonâmbula, foi eleito um dos 12 melhores livros de toda a África no século XX. Fã dos escritores brasileiros, ele é, assim como Guimarães Rosa, um inventor de palavras – que, quando vêm à cabeça, anota em papéis e guarda no bolso para não esquecer.

ISTOÉ – Muitos grandes escritores esnobam os prêmios de literatura. O sr. gosta de ganhá- los?
Mia Couto – Gosto (risos). Todos gostam. Os que dizem que não estão representando. Mas uma coisa é gostar e outra é a importância que damos para isso. Evidentemente quem escreve não o faz para ganhar prêmios. Pobre do escritor que escreve em função disso. Dessa maneira, não se faz um bom livro nem se ganham prêmios.

ISTOÉ – Quando e por que começou a inventar palavras?
Couto – É uma coisa que me acontece, meus pais sempre lembram disso, desde menino – uma certa desobediência em relação àquilo que era norma. Começa pelo meu próprio nome. Nasci António e, quando tinha dois anos e meio, decidi que queria me chamar Mia, pela relação de afeto que tinha com os gatos. Eu pensava que era um deles (risos). Mais tarde, a poesia foi uma escola de desobediência, de transgressão. E havia uma outra condição: o português de Moçambique, sendo o mesmo do de Portugal, não fala àquela cultura. Senti desde sempre a necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana. A descoberta dos escritores brasileiros foi uma felicidade imensa para mim, pois eles já estavam fazendo isso: usando a língua portuguesa, mas com uma outra marca cultural.

ISTOÉ – Há um interesse crescente por literatura africana. Existe uma nova safra de talentos ou o mundo abriu os olhos para os escritores da África?
Couto – Acho que os escritores africanos têm ganho espaço da maneira certa, não por solidariedade política ou alguma outra condescendência. Estão entrando por seu valor literário. No princípio, acho que foi uma questão de moda. Em um primeiro momento, os africanos querem se afirmar pelo lado exótico, folclórico – se apegam nessa alma que lhes foi entregue pelos europeus e assumem um olhar emprestado da Europa. Esse momento passou, os escritores africanos hoje estão mais libertos, já não precisam mais fazer afirmações contra o colonizador nem proclamar sua africanidade. O escritor africano está fazendo alguma coisa que é profundamente universal. Ele está fazendo literatura, ponto final.

ISTOÉ – Moçambique é um dos cinco países que ainda não assinaram a proposta de reforma ortográfica para a língua portuguesa. O sr. é a favor da reforma?
Couto – Não. Não faço guerra contra a reforma, mas acho absolutamente absurdo o fundamento da necessidade de fazê-la. Evidente que é uma coisa convencional, não vai mudar a fundo as coisas, mas as implicações que isso tem do ponto de vista econômico acabam sempre por sobrar para os países mais pobres. Com esse dinheiro pode se fazer coisas mais importantes como, por exemplo, ampliar o conhecimento que temos uns dos outros. Circulo por São Paulo e grande parte das pessoas nem sabe o que é Moçambique. Nunca tive dificuldade em ler livros escritos na grafia brasileira; muito pelo contrário, me satisfaz muito haver essa diferença. No fundo, há uma familiaridade e uma estranheza que são importantes de estar registradas. Acho que a reforma não faz sentido, não subscrevo.

BRUNO VEIGA
“Chico Buarque como escritor atingiu a mesma excelência como músico, sobretudo em Budapeste. Chico me marcou muito como poeta”

ISTOÉ – O escritor Lobo Antunes disse, em uma entrevista recente, que no futuro o português será um dialeto e todos falarão inglês. O sr. concorda?
Couto – Não sou tão pessimista assim (risos). Vivo num país em que o bilingüismo, e até o trilingüismo, é patente. A capacidade humana está aberta para isso. Noventa por cento dos moçambicanos falam duas línguas: a materna e o português. Línguas não são apenas coisas técnicas, remetem a outras lógicas. Nós, humanos, sobrevivemos porque fomos criadores de diversidade. Essa característica terá que sobreviver ou nós não sobreviveremos.

ISTOÉ – Na mesma entrevista, Antunes ironizou José Saramago. Há outros casos notórios, como o de Vargas Llosa e García Márquez, que não se suportam. Por que há rivalidade entre grandes escritores?
Couto – Alguns casos que conheço são ódios verdadeiros – foram alimentados e não têm solução. Mas isso é uma coisa profundamente humana, esse sentimento de ciúme, inveja, sentir-se malamado. Essas rivalidades são um bocado induzidas pelo contexto em que vivemos, que apregoa a competição. Há um céu suficientemente grande para todas as estrelas. Além do que, o escritor só vence a si próprio: ele é um vencedor quando, perante a página em branco, é capaz de superar essa solidão.

ISTOÉ – Como estimular o gosto pela leitura?
Couto – É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida. Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto. Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta. Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história. Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.

ISTOÉ – O que do Brasil faz sucesso em Moçambique?
Couto – As novelas, em primeiro lugar. Têm uma capacidade de penetração e de assimilação enorme. Isso produz efeitos claros no campo lingüístico. Logo após a independência, amigos meus, refugiados da ditadura brasileira, queriam dar aulas de português em Moçambique e não eram bem vistos, por não falarem o português autêntico. Isso mudou completamente: hoje um professor brasileiro que dê aulas de português em Moçambique é bem-vindo, é algo charmoso. Isso se deve muito às novelas. Há também algo da música mais popular brasileira que faz sucesso, como Roberto Carlos, Roberta Miranda, aquelas duplas sertanejas. Mas também algo mais, digamos, sofisticado, como Chico Buarque e Caetano Veloso, tem uma grande aceitação.

ISTOÉ – A obra de Chico Buarque como escritor já atingiu a mesma excelência do que como músico?
Couto – Sim, sobretudo em Budapeste. Chico me marcou muito como poeta. Gosto tanto dele que não sou imparcial para julgar uma pessoa como Chico.

ISTOÉ – A paz em Moçambique é de fato duradoura? A democracia não corre riscos?
Couto – Acho que se vive em paz e que um certo tipo de democracia está estabelecida. O que não se resolveram foram as questões básicas, como a fome, porque ainda há tensões sociais profundas em Moçambique – e diria também no Brasil e em outros países. E essas tensões podem em algum momento ser aproveitadas politicamente por alguém com grande ambição de poder e que faça esse jogo de manipulação para alcançá-lo.  

ISTOÉ – O sr. lutou pela independência de seu país contra a pátria de seus pais. Houve dúvida, da sua parte, em algum momento?
Couto – Sim, havia dúvida, mas meus pais tiveram uma grande generosidade nesse aspecto: mesmo sendo portugueses, eles me criaram como sendo parte de Moçambique. E perceberam que eu estava sacudindo o pilar de um edifício que, um dia, ia cair também em cima deles. Reconheço isso como uma grande dádiva dos meus pais. Minhas dúvidas já estavam resolvidas quando era adolescente.

ISTOÉ – Chegou a pegar em armas?
Couto – Não me deixavam. A Frelimo era uma frente, portanto havia também um componente racista muito forte. Diziam que os brancos moçambicanos podiam lutar, mas que não podiam confiar tanto neles a ponto de dar-lhes uma arma. Os brancos, indianos e mestiços não podiam pegar em armas: podiam combater, como fiz, na área política, do ensino.

ISTOÉ – As minas terrestres ainda amedrontam a população no interior do país?
Couto – Circulo pelas zonas rurais e esse terror de algum dia pisar em uma mina está presente de maneira intensa. Sei o que é ter esse medo. Nós não sabemos exatamente quantas minas terrestres ainda temos. Mas o número oficial provavelmente é maquiado, porque a desminagem é um negócio. Muitas vezes as próprias empresas produtoras de minas fazem a desminagem, e ela custa mais caro ao país do que comprar minas. Mas mesmo que não sejam dois milhões de minas, que sejam mil: essas mil já são suficientemente graves. Estranho é os países que falam em nome dos direitos humanos, e que se arvoram como grandes defensores de uma certa humanidade contra o terrorismo, se recusarem a assinar os protocolos contra a fabricação de minas.

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“Imagino que Fidel não gostaria de saber que deu vestidos a um homem. Mas estou acostumado. Esperam uma negra e se espantam quando apareço”

ISTOÉ – No Brasil, militantes de esquerda estão desapontados com o governo Lula. O poder realmente transforma as pessoas?
Couto – Não quero falar do Brasil, mas há todo um discurso político que mudou – provavelmente ele não era tão verdadeiro quanto se pensava, era assumido como um discurso da boca para fora. Há um verso de um poeta moçambicano da Frelimo que ilustra isso muito bem. “Não basta que seja pura e justa a nossa causa; é preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” Faltou isso em muitos dirigentes políticos. Por outro lado, também é verdade que quem está no poder tem que entrar numa lógica de gestão, na qual é muito difícil perceber onde está o limite entre a traição do princípio e o momento de adaptação ao mundo real. Isso é muito difícil de gerir. Vivi esse processo porque eu era da Frelimo, da oposição, e pensava que a conquista do poder seria o fim do poder – no sentido que todos teriam o poder.

ISTOÉ – Concorda com a afirmação de Lula que ser de esquerda é apropriado apenas para os jovens?
Couto – Seria triste pensar que é uma questão etária estar disposto e desejoso para mudar o mundo. Hoje já não sei o que é ser de esquerda, e provavelmente a própria esquerda não saiba o que ela é. Mas essa disposição, essa vontade de mudar o que está errado no mundo têm que ser permanentes.

ISTOÉ – Como divide seu tempo entre a biologia e a literatura?
Couto – Ser escritor é viver a escrita como uma forma de olhar o mundo. Portanto, sou sempre escritor, mesmo quando trabalho como biólogo. Para mim, a biologia é uma porta, uma janela que me permite falar com as pessoas, ir para o campo e receber histórias. Nunca sou simplesmente só uma coisa.

ISTOÉ – Durante uma visita diplomática a Cuba, os assessores de Fidel Castro presentearam- no com artigos femininos, já que, pelo seu nome, esperavam uma mulher. Algum dia Fidel se desculpou?
Couto – Acho que o próprio Fidel nunca soube. Imagino que ele não gostaria de saber, na cultura de machos que prevalece em Cuba, que deu vestidos a um homem (risos). Mas já estou acostumado. Muitas vezes esperam uma mulher negra e se espantam quando apareço.

junho 4, 2007

Ler é uma forma de conhecer a vida

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 5:01 pm

oucos conseguem imprimir seu universo particular de maneira tão apaixonada e fiel quanto o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, aclamado por críticos e leitores como um dos mais expressivos autores da literatura do Rio Grande do Sul. “O que mais caracteriza meus romances é o fato de os temas estarem ligados ao Sul”, reconhece o escritor. “Não ao Sul épico ou ao Sul-clichê, mas o Sul que nada mais é do que uma fração da Humanidade, em que estão representadas todas as modalidades e contingências da vida. O porquê dessa fixação? Porque sou do Sul. É o meu espaço existencial.”

Nascido em 1945 na cidade de Porto Alegre, onde se doutorou em Letras pela PUC-RS, Assis Brasil comenta que, desde criança, sempre foi um leitor ávido. “Acho que isso decorreu, em parte, de minha infância algo ‘protegida’ por meus pais. O livro, para mim, era fonte de liberdade e imaginação. E o que foi determinante: tive uma excelente formação secundária no colégio Anchieta, com os padres jesuítas, que estimulavam a leitura e os debates calorosos a respeito dos temas. Esse universo me fascinou – a descoberta dos clássicos (o primeiro foi Eça de Queirós; o segundo, Flaubert), o estudo de Homero, Cervantes, Shakespeare, Victor Hugo…”

A trajetória profissional do escritor teve início em 1974, quando se recuperava de um sério problema de saúde. O primeiro livro, Um quarto de légua em quadro, planejado inicialmente para ser uma obra histórica sobre o povoamento açoriano do Rio Grande do Sul (ele é descendente de açorianos por parte de pai e mãe), acabou virando um romance. Atualmente com 18 livros publicados, o autor constata que seu estilo passou por uma sensível evolução nos últimos cinco anos. O pintor de retratos (que, junto com Luiz Ruffato, recebeu o prêmio Machado de Assis em 2001), A margem imóvel do rio (premiado em 2004, em diversas posições, com o Jabuti, Portugal Telecom e como livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores) e Música perdida (lançado em 2006) refletem esse novo momento, com uma prosa mais concisa e grande força literária.

“O tempo e a prática ajudam a encontrar os caminhos”, diz. “Depois de escrever vários livros utilizando uma linguagem extensa, de longos períodos gramaticais, senti que aquilo já não satisfazia minha expectativa de produção literária. A partir de O pintor de retratos meu processo criativo tomou novos rumos. Foi uma mudança não apenas estética, mas também de conteúdo, que teve origem quando abri, ao acaso, Cantares del mio Cid. Descobri, nesse texto medieval, a maior economia verbal que já havia encontrado. Por quais caminhos andou a literatura, que esqueceu essa lição?”

A essencialidade, a seu ver, é o que define uma boa obra. “Eis aí a melhor virtude de um texto narrativo ou poético. Escreve-se demais, elaboram-se excessivos monólogos interiores, fluxos de consciência, diálogos circulares, descrições supérfluas, que só aborrecem o leitor. Além disso, há outros fatores que contribuem para a qualidade, como a busca da palavra certa, fugir dos lugares-comuns que não levam a parte alguma, o cuidado com a sonoridade e o conteúdo da frase.”

Coordenador da Oficina de Criação Literária na Pós-Graduação em Letras da PUC-RS, na qual já estiveram grandes nomes da literatura gaúcha, como Daniel Galera, Amilcar Bettega, Clarah Averbuck, Letícia Wierzchowski, Michel Laub e Cíntia Moscovich, Assis Brasil considera que, para ser proveitosa, a leitura deve ser verdadeira. Ou seja, ela não deve ser confundida com mera ilustração ou passatempo. A literatura, conforme ressalta, deve exigir do leitor um esforço para ir além do texto e mergulhar nas intenções subterrâneas do autor, o que é bastante recompensador.

“A literatura oferece a possibilidade de criar universos imaginários, dando-lhes uma roupagem verossímil. Surpreende-me, sempre, como uma ficção pode nos ensinar algo sobre o mundo, mais até do que os livros científicos”, observa. “Literatura é uma arte, mas é também uma forma de conhecer a vida. É a possibilidade de aumentar os horizontes e de buscar respostas para as grandes questões do homem. Todo leitor é alguém que deseja ser diferente. Não apenas é mais sensível, como também mais sábio. E a sabedoria é um grande conforto.”

Entre as obras contemporâneas (ou quase-contemporâneas) que considera mais interessantes, o escritor recomenda:

O náufrago, de Thomas Bernhard. É o exemplo perfeito de uma história bem contada, que nos remete à eterna luta entre o talento, o desejo e tudo o que existe para contrapor-se. Mostra o imaginário de um músico obcecado por uma certa música, no caso, as As variações Goldberg, de Bach.

O perdido, de Hans-Ulrich Treichel. Belíssima história situada na Alemanha atual, mas que busca nas perdas da Grande Guerra uma forma de absolver-se do passado (e do presente).

A senhora Beate e seu filho, de Arthur Schnitzler. Uma narrativa extraordinária de uma relação afetiva entre mãe e filho, uma relação destruidora e patética.

Cidade de vidro, de Paul Auster, autor que me surpreende cada vez mais. Embora seja dos mais antigos, este livro contém, num estado mais puro, toda a temática que depois ele desenvolveria.

Freud, de René Major e Chantal Talagrand. Mais que apenas uma biografia, este é um instigante estudo da personalidade múltipla do criador da psicanálise, em sintonia com sua obra. Raramente se consegue ler algo tão completo e tão pensado como uma integralidade.

Finalmente, o recém-‘relançado’ A fera na selva, de Henry James, sobre o amor e a impossibilidade de amar, com tradução impecável de Fernando Sabino. Quando a personagem percebe que o amor, ‘essa fera na selva’, ataca a pessoa amada, já é tarde… De tudo o que li, esta é a novela que mais impressionou.

Fonte: Livraria Cultura News

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