Mal de Montano

dezembro 2, 2006

Debatendo: bloqueio na escrita?

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever?,Mal do dia — maldemontano @ 12:27 pm

O que acontece a um escritor que o impede de escrever? Como se dá essa “paralisia”? É comum, normal? Síndrome do papel em branco ou não? Esse foi o debate realizado pelo Mal de Montano no mês de novembro, com o tema “Quero escrever, mas…”.

 O resultado você confere nos textos das Montanas: Arbel Griner  , Selena Carvalho   e Solange Pereira

 Se você também quiser participar deste debate mande seu texto para nosso maldemontano@gmail.com

 Ah, aceitamos sugestões para o tema do mês de dezembro!

 Confira e opine!

 Beijos montanos! 

Inté! 

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Debate: quero escrever, mas… (III)

Filed under: Debatendo,Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 12:16 pm

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Poemete para dias fracos

Por Solange Pereira Pinto

quero escrever, mas…
tenho preguiça
tenho vertigem
tenho limitação
incompetência mesmo.

 
quanto mais leio,

menor fica minha escrita.

  

as palavras dos outros crescem,
minha voz diminui.

 

fico procurando nos cantos das páginas
um buraco que me caiba,
mas não vejo.

 

é solidao.
há lotação.
desperdício.
imensidão.

 

e eu bem que tento escrever, mas…
os pensamentos se confudem,
enquanto os dedos se desesperam,
resultando num branco.

 

sobrando um invisível de mim mesma
sobre os papéis vazios.

 

fica ao lado a caneta.
da ansiedade.
do passivo.
da ausência.

 

eu quero escrever, mas…
tudo foi dito e eu preciso do silêncio

 

me deixando no rascunho.

 

Debate: quero escrever, mas… (II)

Filed under: Debatendo,Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 12:12 pm

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Por Selena Carvalho 

                           

         Uma espécie de feitiço se abateu sobre as Montanas.

 

         Desde que decidimos o tema de novembro: “Eu quero escrever, mas…”, ninguém escreve nada.

 

         Intrigante.

 

         E cá estamos, nos estertores do mês. Embora o Mal de Montano tenha por princípio a ampla liberdade, os debates mensais não são, obviamente, obrigatórios, é preciso entender o fenômeno e tentar vencer a afasia.

 

         Não sei quanto às outras, evitamos tocar no assunto, para que não ganhe maiores proporções, mas no meu caso, não se trata da propalada “angústia do papel em branco”, hodiernamente conhecida por “angústia da tela em branco”, mas de algo mais preocupante: “a angústia da cabeça em branco”.  Sim, porque uma coisa é não conseguir passar uma idéia para o papel/tela. Outra bem diferente é não ter nenhuma idéia.

 

         Acabo de escrever e percebo o descaramento da mentira. A verdade é que há muito tempo tiro histórias até de tampa de caneta. Com a prática, me acostumei a apreender tudo ao redor como matéria prima. Não, não é isso.

 

         Sinto a tentação de pôr a culpa na vida atribulada, no atropelo do dia a dia. Mais uma falácia. Como diz um amigo: “a gente sempre acha tempo para fazer o que gosta”. Nada mais certo. Se assim não fosse, como explicar que durma tarde, mate aula, negligencie tarefas domésticas e deveres maternais para acabar de ler um livro ou escrever alguma coisa? A questão é bem outra, eu sei.

 

         Affonso Romano de Sant’Anna conta em “A Sedução da Palavra” do dia em que recebeu um telefonema de Clarice Lispector dizendo que não sabia mais escrever. Queria conversar sobre o que estava acontecendo nas outras literaturas.

 

         Sinto alívio ao reler a crônica. Clarice também tinha suas crises! E eis a chave: estava relacionada com as outras literaturas.

 

         Ler faz parte do aprendizado para a escrita, mas o que escrever depois de ler Kafka, Borges, Cortázar? Depois de ter nas mãos um dos três, só penso que devo passar aos outros dois. E se nesse intervalo visito os contemporâneos e dou de cara com um Mia Couto, um Bernardo Carvalho, um Marçal Aquino, confirmo a teoria: melhor ficar só lendo o resto da vida. Isso sem falar que tem quem diga que desde Homero nada há mais a ser dito.

 

         Poderia sim, ficar para sempre apenas lendo.

 

           O único problema é que quero escrever.

 

         Na verdade, não é um “querer”. É mais, sendo bem prosaica, um comichão. Volto ao sobrenatural, correndo o risco de ser piegas e cair nos clichês, dos quais tenho tanta dificuldade em me afastar, e arrisco dizer que uma força, irrefreável, irresistível, indefectível, me impele à escrita.

 

         … Espera aí.

 

            Escrevi “comichão” e parece que começo a sentir um.

 

         Paro para observar melhor.

 

         É verdade!!! Estou sentindo!!!

 

         Olho para “Histórias de Cronópios e de Famas”, do Cortázar, mas resisto ao chamado. Tenho ganas, sim, é de correr para o computador.

 

         Eu quero escrever… dessa vez sem “mas”.

 

         Tudo bem não ter cumprido a tarefa do mês. Estou repleta de vontade e idéias. Já não me importam os bons autores, os clássicos, os contemporâneos, os renomados, os recém-lançados. Escreva quem também tiver “comichão”!

 

 Estou pronta, Montanas! Que venha o tema de dezembro!!!

 

 

Debate: quero escrever, mas… (I)

Filed under: Debatendo,Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 12:04 pm

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Por Arbel Griner

  

A pergunta era: o que me levaria a não escrever? O ato, mais que prazeroso para mim, é redentor e catártico. Sinto vontade de fazê-lo para desabafar, para compartilhar, para me analisar e, quiçá, entender. Tanta coisa conduz ao escrever, então, por que não?

 

Um motivo em que consigo pensar agora… Talvez seja o número um. Dá até vergonha de pronunciar ou de deixar registrado por escrito, apesar de ser muito comum. Sim. Seria ela a causa: a magnânima, a poderosa, estirada nas redes pendentes de todo o país, esquadrinhada pelos acadêmicos de grande notoriedade, comentada pelos filósofos e pelos críticos, recriminada por professores e pais, imortalizada pelas músicas de Vinícius de Morais. Muitas vezes…. Muitas vezes não escrevo pela mesma razão que me levaria a dormir sem escovar os dentes, a não ligar para uma grande amiga ou para a minha mãe, a não aguar a planta sedenta: tenho preguiça – e quem não tem é que inventa!

 

Talvez seja a primeira coisa a me afastar do bloco de notas ou das teclas do computador. Enquanto corre o dia, inúmeros temas que julgo dignos de uma reflexão por escrito me vêm à mente. Planejo o como, o onde, o quando. A forma da redação. Se será uma crônica, um conto, uma carta ao jornal cheia de indignação. Sim, sim, eu confesso: até um livro já planejei começar. Encontrei o tema, recebi a inspiração; então? O dia transcorreu: acordei, corri, andei, estudei, me preocupei, me indignei, ri! Mas não escrevi.

 

Como se não bastasse a preguiça, reprovável e sem explicação quando analisada sob a ótica da científica razão, não é que consigo enumerar mais uma barreira para o dedilhar de meus textos no computador? A fonte do segundo obstáculo, da pedra no caminho, são os outros textos. É você se achar incapaz de escrever tão bem e com tanta propriedade quanto um outro. É julgar que jamais articulará as palavras com a maestria de uns; que não tem competência para provocar nos outros o que provocam em você os textos de alguns. É, sejamos sinceros, pôr-se no devido lugar. Aos que não sabem como nem o quê dizer, resta o calar.

 

Podem falar que é besteira, que o importante é a expressão. Fácil falar! Já moraram alguma vez com o tio que trabalha numa casa de edição? Já estiveram rodeados por intelectuais que se expressam como poucos sobre os assuntos que apenas alguns discutem? Eu já! Quatro anos e meio de comentários (muitas vezes depreciativos) acerca do texto alheio; de desdém em relação a autores que eu julgava tão grandes; de condenação à burrice e à falta de preparo daqueles que nunca leram os clássicos, os neo-clássicos, os modernos, os malditos, os benditos, os cults, os vinte principais jornais do dia, os filósofos, os humanistas, os progressistas, os alquimistas, o Alcorão, a Bíblia! Como se qualificar – e não se diminuir, se amesquinhar – em meio ao tom tão opressor da onisciência da Academia e do intelectualismo? Como ousar se pronunciar – seja oralmente ou via escrita – na casa dos que já leram milhões e milhões de palavras? – e em várias línguas diferentes, vale dizer.

 

Podem comentar que sou fraca, sem orgulho, uma metralhadora de escusas sem estima. Ter um tio editor casado com uma tia intelectual, pai de três gênios e avô de três “primeiros lugares” no vestibular, sendo um defensor de tese de mestrado aos 21, para mim, é fogo. Já sentiram o chão que os sustenta trepidar ao se infiltrar pelos alto-falantes do computador a tenebrosa e poderosa voz de João Ubaldo Ribeiro? O que isso tem a ver? Vou reformular a pergunta: o tio editor de vocês é procurado no skype por João Ubaldo Ribeiro? Ah! Bom! Só para saber. Isso não é de intimidar?

 

Certa vez, até cheguei perto de me considerar “parte deles”. Quase me autorizei a escrever alguma coisa para compartilhar com eles – e com os demais. Foi quando redigi, ao fim dos quatro anos e meio de convívio sob o mesmo teto, uma carta de agradecimento aos tios intelectuais que me acolheram enquanto estudava longe de casa. Não é que as palavras agradaram o tio? Ele veio me perguntar se eu gostaria de escrever as memórias de uma pessoa que pretendia registrar seus quase oitenta anos de existência em forma de livro. “Eu? Claro!”. Quase me desmanchei de orgulho. “Ele acha que sou capaz! Ele acha que eu posso!” – não me continha. Até que, um ano mais tarde, o tal do livro ficou pronto. A auto-estima, que ainda conseguira esguichar mais um pouco após a revisão com reduzidas indicações de erros ortográficos e sugestões de reescrita, despencou. Foi justo quando tomei coragem para perguntar o que o tio havia achado do produto final. Guardei a resposta na lembrança e também na pasta de itens recebidos da caixa postal: “Achei o resultado final bastante bom, dentro dos limites que entendemos juntos desde o início: um depoimento transformado em relato, e não um romance, uma obra literária etc. Mas a verdadeira opinião tem de ser de quem encomendou o livro: se a história e a maneira com que foi contada refletem a visão que tem da história vivida e de como gostaria que ela fosse percebida. É um texto ‘de encomenda’ e quem encomenda é quem julga. Como texto, no contexto acima, tudo bem”.

 

Você voltaria a escrever depois de uma dessas? Quem disse que eu pretendi escrever um romance? Por que a isenção, a saída pela culatra que dribla o que perguntei? Se há tanta dificuldade em dizer o que achou a ponto de transferir a responsabilidade de julgar o texto a outros – àqueles que o encomendaram mas que não entendem nada de mercado editorial –, provavelmente é porque não gostou ou porque não me considera à altura do que já editou. Lembremos: ele tem o João Ubaldo na lista de contatos do skype, e isso já o torna tão poderoso quanto a voz chacoalhante do autor baiano. Um homem de círculo de amizades tão seleto e afim com a literatura de autores distancia os que apreciam também as letras “menores”.

 

Eu havia pensado em outro empecilho à escrita, do qual agora não consigo me lembrar. Tudo bem, ele perdeu a vez, mas acaba de ceder o lugar. Um quarto motivo inibidor vem me ocorrer, mas se torna terceiro na presente listagem por assumir o posto do outro motivo, aquele que minha memória pôs a perder. Muitas vezes, ao finalmente chegarmos ao papel ou ao computador, já não mais nos lembramos do que queríamos escrever. Do que outrora parecia tão certo e certeiro. É assim que mais algumas redações nos escapam, e deixar de escrever se torna costumeiro.

 

Ah!, voltou-me o terceiro obstáculo – agora transmutado, dadas as circunstâncias, em quarto colocado. O aperfeiçoamento, a lapidação, a busca pelas palavras e pelas conexões perfeitas, geralmente, implicam sofrimento – isso não é um pretexto. Não precisa ser bom, basta ser perfeccionista (ou realista) para se deixar exaurir pelo processo de redação. Pelo menos assim eu costumava pensar, até consultar um grande ídolo, formador de opinião. Um distintíssimo colunista de um grande jornal: “Sofrer ao escrever?”, disse ele em tom blasé, “Não. Não. Nunca. Por quê?”. Mais um que deve ter João Ubaldo na lista de contatos do skype. Foi a partir daí que comecei a pensar se não haveria aqueles predestinados a escrever e aqueles que ralam para sê-lo. Como os gênios. Não lêem mais do que nós porque se esforçam mais. Simplesmente nasceram com o poder de absorção infinitamente maior do que o dos “reles mortais”. O que eles vêem, absorvem. É isso. É ser naturalmente demais.

 

Apesar da figura despretensiosa que antes tentei construir, me pego em uma falha. Será que sou tão humilde assim? Se o fosse, por que cargas d’água acharia que escrever consiste em conseguir vomitar um texto perfeito? Por que acharia que, para executar a escrita, tudo tem de vir como um sopro, assim, direto? Chegar, se registrar, e se apresentar como obra prima, sem nada a retocar – isso não existe, garota, vá aprimorar essa rima!

 

Mais um motivo, o derradeiro: quem não sabe produzir uma boa redação com concisão, não deveria escrever. Se o caso se aplica a mim? Já estou na quarta página do Word. O que mais preciso dizer?

 Convenci? Motivos suficientes listei, para o ato de escrever abolir? Perda de tempo! Coisa para poucos! – é isso que é escrever. Então, por que continuo a me meter? Por que insisto em fazer? Por que ainda admiro tanto aqueles que podem ouvir ecoar, em seus alto-falantes pessoais, a voz triunfal de João Ubaldo e de outros imortais?

novembro 1, 2006

Ler ou escrever em debate…

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever?,Mal do dia — maldemontano @ 4:50 am

Encerramos o mês de outubro com o “debate” virtual das Montanas sobre o tema “Ler ou escrever qual é o mal pior, ou o gozo melhor?”.

Sem troca prévia de idéias cada uma produziu seu “mal”. O resultado você confere nos textos:”Escrever ou ler: qual o pior mal?” (Fernanda Benevides de Carvalho, “Ler ou escrever: o mal da literatose” (Valesca Monte), “Palavras ou sarvalap?(Solange Pereira Pinto) e “Ler e escrever: gozo e tormento” (Selena Carvalho).

Se você também quiser participar deste debate mande seu texto para nosso maldemontano@gmail.com

Ah, aceitamos sugestões para o tema do mês de novembro!

Confira e opine!

Beijos montanos! 

Ler ou escrever: o mal da literatose

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:37 am

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 Por Valesca Monte 

 

 

– “Eu, eu não leio livros – diz Irnerio 

 

Li e não compreendi, talvez estivesse no lugar errado. Retomei a história voltando vinte páginas para reposicionamento estratégico. Até aquele dia considerava Irnerio apenas um homem interessado por Ludmila e pelas línguas ciméria e címbrica. Reli as tais vinte páginas. Era aquilo mesmo. Prossegui um pouco mais e, de repente, mais Irnerio: 

 

– “acostumei-me tão bem a não ler que não leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde criança, e pela vida afora a gente permanece escravo de toda escrita que nos jogam diante dos olhos”.   

 

Fechei o livro. Depois, os olhos. A voz do maldito Irnerio reverberava: “O segredo é não evitar olhar as palavras escritas. Pelo contrário: é preciso observá-las intensamente, até que desapareçam”. 

 

Ler ou escrever? Se sigo o conselho do malfadado Irnerio, e olho intensamente as palavras escritas até que elas desapareçam, o efeito é exatamente o inverso.  

 

 Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será”. Ludmila, a moça que arrebatou Irnerio, é quem parece ter razão. A boa leitura não proporciona apenas a imersão em um mundo à parte. Ela confere, isto sim, a possibilidade de questionar radicalmente a realidade, dando munição aos leitores incomuns que não se contentam com a vida tal como a vivem, construindo posturas em brasa, muito mais difíceis de manipular.  

 

Confesso que sequer sinto desconforto nas enormes prateleiras de livros não lidos. Até para os mais neuróticos é bastante claro que só leremos uma porção mínima dos livros existentes no mundo. A suprema angústia vem precisamente dos livros que leio e da incapacidade de construir, escrevendo, o que pretendo. 

 

Posso ler Se um viajante numa noite de inverno. Mas não consigo harmonizar conteúdo e forma como Calvino.  Xingo Irnerio e suas frases malfadadas, mas jamais criei um único personagem que propagasse inconformidades. Li quase toda a obra de Kafka, mas jamais converti um homem em inseto ou em culpado, muito menos na primeira linha.  

 

Não bastasse toda a tormenta que a boa leitura proporciona, há ainda a sua cruel e incontornável conseqüência. Quando fecho o livro e os olhos, não há nada que aplaque, sequer momentaneamente, a convicção de que para integrar completamente o único território livre da prisão do tempo e do espaço – a literatura –  é imperioso fechar a porta, sentar-se diante da tela em branco e posicionar os dedos nos teclados.

Palavras ou sarvalap?

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:33 am

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Por Solange Pereira Pinto 

 

O desafio que o Mal de Montano propôs neste mês de outubro não está fácil. Lá vem a faca: ler ou escrever qual é o mal pior? Ou o gozo melhor? Correndo pelas finitas horas do dia, bem que tentei pensar sobre o assunto. Consegui pouco desvendar. No entanto, lá vai meu corte. Ou, melhor dizendo, pela superficialidade, meu arranho.  

 

Por duas semanas, comecei a observar meus atos para ver quem me atacava mais se os livros ou o teclado (pouco escrevo em papel atualmente). Percebi um círculo. Se eu lia algo interessante queria escrever sobre o lido, se ia escrever alguma coisa procurava ler mais, pesquisar. Notei que, nessa cadeia alimentar, a única fera devorada era eu mesma. Prisioneira. Dependente. Encarcerada entrelinhas entre as linhas. 

 

Sou do tipo que perco sono, atraso compromissos, adio responsabilidades, negocio prazos, deixo de resolver algumas urgências, não presto atenção ao que deveria, tropeço em afazeres, em nome do […]ler-escrever-ler-escrever-escrever-ler-escrever[…]; uma equação infinita na qual as variáveis ficam trocando de lugar o tempo todo. Num sem-fim estonteante que me apaixona. 

 

Elaborar um texto, escolher como dizer o que dizer é fascinante. Juntar as peças, criar, descobrir novas trilhas podem me levar aos mesmos orgasmos que ler um livro muito bom. Sou de fato uma pessoa conduzida pelas palavras a gozos. Seja por vê-las ou ouvi-las. Por vezes, também ao mastigá-las. Gosto de sentir cada uma, cheirar, tocar, experimentar a inteireza dos vocábulos e as tramas que eles produzem. Desnudar. (Nossa agora delirei!). 

 

Pensando bem, é um jogo de sedução. Construir uma frase, um texto, me deixa numa excitação semelhante a correr os dedos pelas páginas para o próximo capítulo. Gosto do desfecho. Do gozo?  

 

Aprecio também o percurso, as preliminares (tantas vezes tortuosas). Agora mesmo, tentando continuar este texto. Paro na interrogação do gozo acima e viajo pela net. Li um monte. De sites a blogs. Buscando exatamente o quê?  

 

Ler e escrever já viraram, para mim, promiscuidade. Perco-me na conta dos parceiros e na confusão se sou eu quem escrevo ou leio ou se sou compulsivamente guiada a interagir com a palavras sem meios-tons. Parece mais uma simbiose. Não consigo fazer um sem fazer o outro. Duvido até da minha própria autoria. Escrevo o que leio ou leio o que gostaria de escrever? 

 

Talvez, o mal seja a paixão. A doença viral das palavras que acomete mais uns que outros. E, nesse caso, sou quase terminal. Não me imagino sem elas. Eu sou palavra. Já o gozo, pode se traduzir, ainda que sem entendimento possível, creio, no encantamento da solidão vivida tanto pelo leitor quanto pelo escritor. Há nisso um silêncio compartilhado.  

 

Ou, ainda, por outro viés, o mal e o gozo da interação entre os sujeitos. Autor e leitor. Escritor e escritura. Leitor e divagação, reflexão. Leitor e leitor. Escritor e escritor…  

 

Perambular entre as incontáveis formas de registrar vidas (reais, imaginárias, percebidas, fantasiadas etc), existências, em palavras, viver histórias que não são minhas ou que até poderiam ser, constroem possibilidades que minha curiosidade não permitiria ignorar.  

 

Tudo bem que muitas vezes lemos chatices e escrevemos baboseiras. Ainda assim, dar-me conta que um texto ruim é ruim, é bom. Mas, ler ou escrever qual é o mal pior ou o gozo melhor? Não saberia dizer. São as duas faces da mesma moeda. Um vício. Uma prata que se lança ao vento. Numa hora é cara. Na outra coroa. Enquanto isso, rodopio inebriada nas voltas que ela dá até cair em minhas mãos novamente. Seja de que lado for. No avesso, do avesso, do avesso… 

 

Enquanto não me endireito vou reler este escrito, em seguida passearei por outros dedos para sejam lidos.

Ler e escrever: gozo e tormento

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:29 am

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Por Selena Carvalho 

 

O conto “A aventura de um leitor” de Italo Calvino, do livro “Os amores difíceis” retrata bem o prazer e a agonia que envolvem o leitor compulsivo. Nele, o protagonista Amadeo encontra uma mulher numa praia e meio sem querer (“A idéia de se aproximar e depois quem sabe ser levado por alguma circunstância imprevisível a puxar conversa e assim ter de interromper a leitura logo o faz preferir o lugar mais distante”) inicia um relacionamento com ela, ao mesmo tempo em que busca continuar o livro que está lendo. O texto tem passagens engraçadas, com ele abraçando-a, ao mesmo tempo em que tenta ter uma mão livre para pôr o marcador na página certa. 

 

Vejam bem: ele está de férias, muitos diriam: – Coisa boa encontrar alguém! Depois acabo de ler. Amadeo, não. Havia feito uma lista dos livros a levar para a viagem, e “Seu receio era de que não conseguisse terminar o romance: o início de uma relação balneária podia significar o fim de suas calmas horas de solidão…” Em um trecho chega a dizer: “Não adiantava, nada igualava o sabor de vida que está nos livros”. 

 

Também no meu conto “Todo dia”, a ser publicado em breve, aparece uma leitora voraz, que, observando a movimentação do marido em direção a ela, antecipa a iniciativa e pula em cima dele, pensando:  “Vamos, que ainda tenho um livro para terminar”. 

 

Doentes do Mal de Montano, como eu, vivem continuamente situações semelhantes.  Poucas atividades me causam tanto deleite quanto ler. Por outro lado, sigo atormentada com a falta de tempo e a enorme quantidade de livros a serem lidos. O frio na barriga que antecede a última página, quantas vezes ainda vou senti-lo? 

 

Fanática, por números e estatísticas, calculo por aproximação o número de livros que consigo ler por ano, depois, o de anos que tenho pela frente, levando em conta a expectativa de vida dos brasileiros, e concluo: Não vai dar para ler quase nada! E aumenta o meu suplício. 

 

Outro dia, no blog de Daniel Galera, vi algo sobre essa angústia. Diz ele ter agora por objetivo a “busca consciente de uma leitura concentrada e não apressada, tentando eliminar a ansiedade de ler tudo que está aí”. Assim, passou quatro meses lendo “Infinite Just” de David Foster Wallace, com bastante calma, se forçando todo dia a desbravar 10 ou 20 páginas, “indo e vindo entre notas de rodapé e saltos de tempo um tanto obscuros, ligando os fatos e personagens”. Que inveja senti do escritor sulista! Pensei em repetir a experiência, mas, antes, fui atrás de sua biografia. Fiz contas e desisti: Galera é bem mais novo, pode se dar a esses luxos. 

 

Igualmente tormentoso é o escrever. 

 

Nada mais apropriado para comprovar a assertiva do que o texto “Flaubert e a frase”, de Roland Barthes: “Bem antes de Flaubert, o escritor sentiu – e exprimiu – o duro trabalho do estilo, a fadiga das correções incessantes, a triste necessidade de horários desmedidos para chegar a um rendimento ínfimo”. 

 

Não quero chegar ao exagero do escritor francês, para quem a redação exige “irrevogável adeus à vida”, mas tenho que concordar que necessita enorme dose de dedicação. 

 

Claro que processos de escrita há os mais variados, mas, no meu caso, a coisa é lenta, lentíssima. Exige, antes de tudo, maturação quase completa ainda no campo das idéias. Depois, tentativas e mais tentativas, parodiando o grupo de rock, “à procura da frase perfeita”. Não fica pronto de cara, obviamente. É preciso colocá-lo na gaveta, dormir, ver que sensações provoca no outro dia. Procedimento que dura semanas seguidas, por vezes. Que felicidade quando de um dia para o outro se muda apenas uma pontuação, se troca uma palavra por seu sinônimo! Desesperador, quando não fica nada. (Diz Moacir Scliar, que a melhor amiga do escritor deve ser a tecla “delete”) Quando isso acontece, não há outra alternativa a não ser começar de novo, guardar na gaveta, dormir… 

 

Maravilhoso, no entanto, é ter o texto pronto, aquele que ficou tanto tempo na cabeça e que, acabado, pode dar lugar a outros. Quase não resisto ao clichê de afirmar que é como um orgasmo. Prazer que independe da opinião alheia e do fato de ser publicado ou, até mesmo, lido. 

 

Bem, chega de elucubrações. Tão difícil quanto inútil é definir o que traz mais satisfação e angústia: ler ou escrever. A essa altura, no que me diz respeito, como ficaria sem um ou outro?  

 

Vou agora ler um livro. Ou será que escrevo a história que ando matutando? Essa dúvida, sim, é de matar.

Escrever ou ler: qual o pior mal?

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:26 am

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Por Fernanda Benevides de Carvalho

  

Seria como propor a questão: é melhor se apaixonar do que ser apenas objeto de amor? Dói mais o quê? Quem está numa posição mais confortável? Alguma posição traz conforto na vida amorosa? O ponto de convergência entre os males do escritor e do leitor é que, em ambos, as consciências desejantes só existem em função do mistério que se chama “outro”. Ler é escrever mentalmente o que está sendo lido do “outro”. Escrever é saber ler o “outro”, para revelá-lo. Até prova em contrário, ou de canalhice, são atos de amor.

 

O escritor e o leitor estão condenados a este círculo, ao mimetismo do pequinês correndo atrás do rabo (cãozinho feliz, sua linguagem não dá margem a confusões). O escritor e o leitor são o paradoxo de ouro de Tostines.

 

Leitor e escritor: carregam os males do mundo e sempre uma intenção fugaz de encontro diante do abismo da incomunicabilidade.  

setembro 21, 2006

Títulos em debate

Filed under: Debatendo,Mal do dia,Sobre Títulos... — maldemontano @ 2:43 pm

Neste mês de setembro o blog Mal de Montano traz o debate sobre “Títulos”. Sim. Aqueles textos, palavras ou expressões que estampam as capas dos livros. Confira nossas idéias na categoria “Sobre títulos”.

E você, o que pensa sobre os títulos?

 Que tal arriscar um título para a imagem abaixo?

Qual é o tôulo?

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