Mal de Montano

outubro 4, 2006

O teste

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 12:54 am

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Por Valesca Monte                                                                              

 Saltei. 

Depois disparei a correr com outros já atrás de mim, a poeira cegando no caminho circular de areia, o elástico da blusa apertando o ombro que levantava o braço para cima e para baixo, para frente e para trás, senti falta dele, e eu ali tonta com o elástico da blusa apertando, apertando.  

Continuei a correr sempre com outros atrás, pulei por cima do primeiro arco ao lado de leões, senti-me ridícula, com a visão turva de tanta poeira desferi um tríplice mortal salteado que fez a alça da blusa arrebentar. 

O ar entrou rápido na boca que abriu e continuei correndo com pose até sentir vergonha, soltei os cabelos para encobrir o peito que saltava nu, adiante pulei por entre rodas de fogo, e corre que corre, como se o mundo fosse me tragar.  

Suava frio só em pensar no que eles poderiam pensar, você não precisa disso, diria ele, tomei impulso forte e voei alto, alto, rumo ao arco  suspenso que me puxou súbito pelas pernas até o teto multicolor.   

Muito silêncio.  

Agora às avessas, pendurada em círculo de cobre que atraía e soltava, atraía e soltava, fui capaz de avistar o diretor de óculos briluz lá embaixo nos lugares vazios.  

A respiração acelerada e o suor que descia do queixo, nariz, testa lembraram os dias da infância; o rufar dos taróis trazia ressonância que tornava familiar a música e muitos aquele homem que iria dizer ao final o resultado do teste. Lá de cima avistava barbas nos olhos e buracos na boca, a areia parecia rio sobre o qual os bichos flanavam.  

Meu amor, alguém disse. 

Sem poder distinguir ao certo de onde partiam aquelas palavras, tentei permanecer inerte com os  longos  tules verdes da saia encostando em rosto de sangue. 

Meu amor, salte, estou aqui. 

Devagar, olhei em torno. Ao lado, outros corpos rijos sobreviviam em arcos que subiam e desciam, cheguei a sentir pena daquela ao lado que sorria e segurava o corpo pelo pé trêmulo. Olhei para cima com os olhos cheios d’água. Apenas areia como um rio e arcos que eram sóis. Agora para baixo, para o teto que parecia tornar infinita a rota a percorrer, quase pude escutar novamente meu amor, salte, agora estou aqui. 

E eis que senti um formigamento nos joelhos que sustentavam o corpo. Demorei um pouco para levantar a cabeça e agarrar com as mãos o arco que me lançaria noutro e, depois, noutro que já deveria estar em movimento descendente para lançar-me em retângulo de plumas. 

Levantei a cabeça, então, agarrei firme o arco, nem percebi que a saia longa ficou presa nos pés descalços, os outros  estupefatos porque ainda não havia pulado, prejudiquei a seqüência de saltos carpados. Os olhos todos miravam os tules presos aos pés, o colo nu escondido entre panos que insistiam em enroscar o corpo suado, fui capaz de ouvir gemidos vindos das bocas fechadas dos atores suspensos. 

Fechei os olhos. As palavras tinham perdido ressonância e pela cabeça imaginava a vida sem mim.  Estendi os braços em direção ao chão, abria e fechava as mãos, rosto encoberto, tudo verde ao redor, novamente salte, meu amor, agora estou aqui.  

Esbugalhei os olhos e vi todos lá embaixo levantados, fique calma, não se apavore, era o que diziam e eu não escutava. 

A anestesia das pernas era idêntica ao dia em que entrei no poço. Sei que a lembrança me veio à tona porque estava em desalinho, mas isso não importa. Saltar seria provar o tempero do inferno, como ele adorava repetir.  

O suor descia em gotas de filetes que atingiam as pessoas no picadeiro, ferindo-as. Lá de cima enxerguei a barba molhada do diretor que gesticulava como se estivesse querendo me alcançar, achei até que dava pulos no ar, tudo enquanto gritava suspiros que se perdiam no caminho.  

Só o joelho esquerdo agora segurava meu corpo ao arco, boa a sensação de dormência no direito que ora ficava parado, ora empurrava o ar para frente e para trás, embalando-me. 

 Estava pronta. Agora os olhos bem abertos. Segurei com as mãos os tules da saia para não perder um só detalhe da hora em que meu corpo abriria o chão. Algo em mim ainda insistia
em lembrar. E foi assim que percorri o caminho, lembrando, o peito esquerdo livre pela alça arrebentada, o cabelo embaraçando-se para um lado e para o outro, os pés descalços unidos, como se fossem um só. 
 

Enquanto girava achei ter visto alguém conversando  nos ouvidos do diretor, escutei risadas de escárnio enquanto voava com movimentos de braços cadenciados e a boca em silêncio, reparei que macacos e avestruzes pulavam animados, soltando pêlos e penas na arena, até sentirem o estrondo final, bem em cima deles. 

Quando imaginei finda a tormenta, já com todos ao meu redor, enxotei com o olhar parado os gritos que invadiram o picadeiro. Pena que os óculos agora vermelhos do diretor impediram a proclamação solene do resultado.

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setembro 27, 2006

Percurso

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 6:03 pm

                  

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Por Selena Carvalho

 

Wellington adota sempre o mesmo percurso para ir trabalhar: pega a via sem retorno que traz ao Plano, depois o Monumental, após a Catedral, a primeira à direita. Quando há manifestação atravancando o caminho, os policiais desviam o trânsito, sempre no mesmo ponto. Nesse dia, os cones estavam bem acima, nenhuma passeata, mobilização, portanto. Antes de entrar na transversal indicada, avista a sirene do carro de bombeiros.  – Bombom, bala, chiclete!

Nos sinais costuma permanecer de janelas fechadas. “Se aceito todas as filipetas, no fim de uma semana dirijo caminhão de lixo”. Tampouco tem paciência para malabaristas, engolidores de fogo, palhaços. Uma vez viu um rapazola tentando fazer bananeira. O menino não conseguia ficar nem um segundo com as pernas para cima, acabou, veio pedir dinheiro. Teve vontade de bater nele: “Pensa que a gente é o quê?”   – Bombom, bala, chiclete! – a voz o faz virar a cabeça. 

O homem em quase todos os carros entrega um pacote, conversa com os clientes, apanha o dinheiro, corre para outro. Wellington não desgruda os olhos, força a memória, de familiar só a voz. Tira a carteira às pressas, balança a nota, ele volta para atender. 

No dia seguinte, a foto de capa do jornal é o moto-boy no chão, a aglomeração. Por isso o trânsito desviado. Pelo estado da motocicleta, é impossível não fique com seqüelas. “Talvez puxe a perna como o pai e o velho no sinal”. O pai também se acidentou trabalhando, caiu de um andaime numa construção, naquele tempo ainda não em moda a preocupação com equipamentos de segurança. A indenização acabou em poucos meses, a aposentadoria insuficiente para sustentar os quatro filhos, não conseguiu mais ocupação.  

 Sem perceber, dobra na mesma rua, apesar do caminho liberado. De novo o velho, na correria entre os veículos.  De longe já o vê. Desacelera para dar tempo ao vermelho do semáforo.  

   – Bombom, bala, chiclete! 

Que fim levou o pai, se perguntou durante muitos anos. Uma madrugada ouviu o choro da mãe no quarto ao lado, entrou e a encontrou deitada, o rosto enfiado no travesseiro. Seu pai foi embora, ela conseguiu dizer. Não tocou mais no nome dele.  Aponta um pacote qualquer dentro da cesta, pergunta quanto é, entrega algumas moedas. Finge abri-lo enquanto pelo retrovisor acompanha o homem se arrastando em direção a outro motorista. Surpreso, percebe as mesmas ancas da família, sobressaltadas pela idade. Ri ao lembrar dos irmãos puxando ferro, correndo, nadando e as malditas ali.  

A irmã falava nele nos primeiros meses, mas como a mãe se aborrecesse, parou. Os outros dois, pequenos à época, pareciam não guardar recordação. D. Maria, nem passado um ano, trouxe Seu João para morar com eles. Só mesmo Wellington ainda pensava no pai. Até há pouco conversava com ele: Seu Milton acompanhou as angústias da adolescência, deu palpites sobre namoradas, aconselhou sobre mudanças de emprego. Quando teve os próprios filhos, por vergonha ou vontade de enterrar de vez a história, guardou o pai imaginário. 

Um mês inteiro, ainda a transversal. “Tão fácil perguntar o nome!” O velho já o reconhece, puxa assunto, o pacote na mão. Wellington vem devagar, às vezes não dá certo, o verde exigindo movimento, passa acenando, ouve o grito: 

– Vai com Deus, filho. Tenha um bom dia!!! 

No trabalho, dificuldade para se concentrar. Maldiz o acidente, o moto-boy, o desvio e o novo percurso que não consegue largar. 

Em um almoço de família, aproveita a mãe na cozinha para falar dele aos irmãos: cara boa, chuva ou sol, vendendo bala. Manca da perna direita, poderia viver de esmola, pose de coitado, mas não, ri o tempo todo, as pessoas têm vontade de comprar dele. De repente: – Por onde andará o pai, hein? – Desenterrando defunto é? – Ei, olha o respeito! D. Maria chega bem na hora. – Estão falando de quem? – Wellington encanou com um cara que vende bala num sinal. Vai lá, maninho, explica para ele que você não teve pai, quem sabe ele não te adota? A mãe joga a travessa com a comida em cima da mesa e sai para o quarto. – Credo, o que deu nela? – Vocês bem sabem que esse assunto é proibido. 

A semana inteira, cada vez que o vê a reação da mãe lhe vem à cabeça. Não pensa em outra coisa, procura fotos, faz contas, rememora datas.  – O senhor tem família? – o medo da resposta.  

 – Tenho, não, filho. Já tive, faz muito tempo…         

 – O que aconteceu?          

 Sinal aberto, buzinas atrás, sai arrancando.  

– Vai com Deus, filho. 

A mãe não quer tocar no assunto. – Por que a senhora se trancou no quarto aquele dia? – Não gosto que vocês discutam, só isso, ainda mais na hora da comida. Prefere não insistir. “Será que estou mesmo desenterrando defunto?” O almoço é servido. O irmão mais novo faz troça com os sobrinhos, Walkíria conta para a cunhada sobre o novo namorado, todos falam ao mesmo tempo, D. Maria ri, apertando a mão de Seu João. A lembrança do pai imaginário se insinua para Wellington. – Gente, ninguém me ouve! Passa o macarrão! 

No outro dia, pega o antigo caminho para o trabalho. Anda tranqüilo. Na rua, nenhum rosto conhecido.            

Três Segundos

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 5:52 pm

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Por Solange Pereira Pinto 

Rapidamente o círculo se abriu. Escapa o ar das cores sumidas. A transparência morta. Eis que surge. Sem cor. Sem vento. Sem altitude. O guri olhava. A terra. Os paus. A margem. Sem riacho. Navegado de sol.  O sertão da alma açoitava o menino. Sem nome.  Lia figuras. Desconhecia junção de letras. Via sereias. Ouvia ferrugem. Para lá. Pros sentidos, galopes. Pra língua, rapadura. Por dentro ocre. Seca. Cavidade. Encarde. Sob o céu cárdeo. Sede. O garoto empilhava. Polígono de lenha. No galho a roupa dança. No balanço pendura o futuro. Sobre tábua, entre cordas, pendula. Vinícius pés de escuridão. Para cá. As janelas.  Sem vidraças. Molduras que miram costas, que circundam olhos. Passa mugido. Range roda. Grita engrenagem. O chicote deserda canavial. Escorre o caldo doce. Sofre o bagaço. No sacolejo das bochechas, assenta o miúdo. A poeira. Os bois rodopiam. Saliva estiada. Você conhece Ventura? Não conheço lugar nenhum. Vascolejam as idéias. As malas de horizonte marrom. Moribundo azul. E tu? Nasceu vivo ou morto? O arco-íris redonda a bolha. Num pipoco evapora. O moleque estampido. Do ar solto respinga o nariz. Sem luz, sem sabão. Eis que some.

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