Mal de Montano

dezembro 29, 2008

O outro – Neil Gaiman

Filed under: Contos,Mal do dia — maldemontano @ 12:25 am
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dezembro 20, 2006

Antes de o sol nascer

Filed under: Contos,Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 2:25 pm

Por Solange Pereira Pinto

 

Foi na topada da calçada. Havia sim bebido demais, ou talvez o suficiente para tropeçar na razão e deixar seu corpo cair. Suzana pagou a conta sozinha. Entrou no Audi prata. Acenou loira um tchau embriagado. No alto volume lançou o CD novamente. O volante seguia ao retumbe da bossa. Velho dia nova. Seguia, ensurdecida de desejo. Havia o pensamento. O refrão da despedida “não posso ficar” que se misturava ao estribilho “garçom nessa mesa de bar”. Detestava rima pobre. Ora, porra! Todos vão embora, enfim. Para ela, afinal, apenas quatro horas da madrugada. As ruas largas da cidade entreabriam a sofregidão. Maldita segunda-feira. Cruzou as sinaleiras. Os viadutos. Os bares de becos. Os pubs da moda. Nada. Vazio. Ninguém. Desligou o som. Cantou sozinha acompanhada pelos amortecedores. Pelo retrovisor avistou vultos. Dois homens. Um agachado. Outro não. Descia o viaduto. Logo em frente três adolescentes cheirando cola. Diria sim, sabia. Não eles, talvez. Ela. Reduziu a marcha. Rodopiou o balão. Era o retorno do possível. De um lado seguir para casa. De outro seguir para o insólito. Preferia conduzir. Acelerou. Buscou na bolsa o batom. Pegou o chiclete. Nem faróis opostos. Que saco! Suzana decidiu estourando nos lábios da bola de borracha. Ainda açucarada. Parou o carro. Psiu! Ei, você! O rapaz que limpava a frente do bar olhou para trás. Ei! Venha cá! Voz doce, mascando hortelã. O que é? Precisa de ajuda? Venha… Eu? Onde tem uma cerveja? Olha madame, não sei não. Onde você vai dormir? Eu? Detestava esses monossílabos educados. Sim, você não está trabalhando? Sim, estou. Numa hora dessas vai embora, não vai? Sim, vou. Então, onde você mora? É…é que hoje durmo aqui mesmo depois de dar um trato na fachada. Era um moço alto, sorriso tímido. Boca lasciva. Mãos fortes. Quando você termina isso ai? Eu? Ai, ai, ai… ela pensou. Ué, agora. Ele entendeu. Os quadris mudaram de banco. A vassoura ficou encostada sob o letreiro. Ela ajeitou o olhar no espelho carona. O rapaz entrou. Ligou a ignição. Acendeu o último cigarro. Para onde quer ir? Qualquer lugar em que o ponteiro não amanheça antes de o sol nascer.

 

 

 

dezembro 11, 2006

O/MAR

Filed under: Contos,Montano por um dia — maldemontano @ 12:41 pm

Por Edelson Nagues

  

         O/mar vê: [a] pres(s)a (de) entrar. No horizonte, [a]riscos[,] (de carvão ba)lançam-se(: b)arcos. En/canto de ser/[eia]. (A)trai[,] O/mar.

         A onda anda a onda anda a onda anda a onda. Ao longe, [a]riscos (de carvão): corpos ao s[o](a)l, b(and)eira do cais.

         A mãe (se des)espera. Nada. Grita: “O!mar!”

         A onda anda a onda anda a onda anda a onda anda. Aonde? “O!mar!” Nada. “Salvem!”

         Sal vem. Nos olhos de/la. Na garganta de cá.

[A]braço(s) forte(s). Luta de(s)/igua(l)/ais.

         A mã[e](o): a[!]deus.

         Omar: o mar.

novembro 19, 2006

Firmino

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 4:19 pm

  Por Selena Carvalho 

        

O menino olha desanimado para o galo que o pai acaba de lhe entregar.

Àquela hora do dia, o sol incide na parte frontal do quintal da casa, projetando sombras retorcidas dos galhos sem folhas. A poucos passos dali, a mãe, olhos inchados, esfrega com vigor a camisa manchada de sangue do filho mais velho. 

Pedro morreu há uma semana. Dona Maria pressentiu a tragédia ao ver, da soleira da porta, o cortejo de homens levantando poeira no chão de terra batida. Já mais perto, reconheceu Seu Anacleto liderando o grupo, com uma camisa branca na mão. Atrás, dois homens carregavam a rede com o corpo do filho dentro. 

Deve ter sido nesse mesmo dia que o galo desapareceu. 

Só se deu pela falta dele três dias depois, mas já naquele amanhecer não se ouvia mais o canto. O pai não disse nada, mas o menino sabia que outro viria. 

No começo da outra semana, enquanto do outro lado da cidade a família de Seu Ananias chorava a mesma dor, Seu Anacleto chega em casa com o galo novo. Passa-o às mãos do filho caçula em silêncio. O menino, que não decifrava escritos, sabia ler olhos, e lê no pai toda a expectativa que derrama sobre ele, a responsabilidade herdada: sua vez e seu dever.  

– Ele é muito novo! – a mãe argumenta. O pai não dá ouvidos. O menino não quer cuidar do galo, não tem jeito para aquilo. O que ele gosta mesmo é de brincar com carrinhos feitos de plásticos, ler o livro de imagens, ficar na beira da estrada puxando conversa com viajantes. Sabe, entretanto, que não adianta reclamar.  

Olha desanimado para o bicho. 

Resolve chamá-lo Firmino. O pai concorda, embora tivesse preferido um nome mais viril. 

 Tenta lembrar de como Pedro treinava o dele. Enquanto D. Maria o olha de viés, dirige-se ao cubículo de madeira atrás do banheiro no quintal, onde o galo deve ficar trancafiado dias antes da briga, para ficar raivoso. Dentro encontra a vara, as esporas e o bico de metal.  

O pai ajuda no treino. Todo dia, depois do trabalho, antes que o sol se esconda, chama o filho. Estimulado, aos poucos, o galo deixa de ser pacífico. Seu Anacleto acredita nele: anuncia a briga aos quatro ventos, desafia o adversário, propõe apostas. A mãe acompanha de longe. Um peso no coração quase a impede de respirar, mas não se atreve a enfrentar o marido.         

No dia da rinha a cidade amanhece agitada. O galo branco contra o galo preto. Seu Anacleto disfarça o nervosismo; D. Maria, a tristeza; o menino, o medo. Na arena, os homens incitam os animais. Cristas arrepiadas. Só um sairá vivo.

A briga dura cerca de uma hora. Mal o galo preto cai estendido no terreiro, Seu Anacleto levanta Firmino com ar vitorioso. Não vê ou não se importa com o corpo ensangüentado. O menino atrás, aos berros, pedindo ao pai cuidado com as feridas.  

Antes do nascer do sol, acorda. A mãe em frente à cama, em vigília a noite inteira, a trouxa com poucas peças de roupa no colo. Dá um beijo nela, olha o pai que finge dormir e sai. D. Maria, da soleira da porta, acompanha os passos do filho até onde consegue enxergar. Maldiz o dia em que conheceu Seu Anacleto.  

– Por que você me deu filhos para depois tirar? 

O marido não se mexe, continua fingindo. Também queria ter tido outra vida, mas naquele lugar não havia outra possível. Agora viriam solidão, remorso, raiva e a mágoa da mulher que os acompanharia.  

No fim da semana, da soleira da porta, D. Maria vê o cortejo de homens levantando poeira no chão de terra batida. Já mais perto, reconhece Seu Anacleto liderando o grupo com uma camisa branca na mão. Atrás, dois homens carregam a rede com o corpo do menino dentro. No amanhecer, enquanto ele é velado, o silêncio preenche os espaços da casa.  

Já naquele dia não se ouve mais o canto de Firmino. 

novembro 7, 2006

Ventre

Filed under: Contos,Montano por um dia — maldemontano @ 1:56 am

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Por Liduina B. de Oliveira 

 

 

Estavam sempre em pares, a definir o almoço, o passar, os varais, debruçar neles roupas vazias, almas. E de volta aos quantos, às camas estendidas. Vassouradas. Ambas espelhadas, avessos. A dona, nova, enxovalhada, a consumir-se em entre dias, em entre quartos e corredores, a dona, bonita ainda, remodelada por acontecidos. Ela tão silêncio. Sorriso surrado, sempre, e olhar no nunca. Eram quase uma. A negra roliça, no vai-e-vem, a atinar na outra, e repetir os gestos, a amá-la e apiedar-se. Que a dona sabia dos solavancos do dono, nela, a derrubá-la, bicho bruto, ela mansa, de cara virada, acuada, permitia, cumpria o não ato, o nojo, o não. Fitavam-se, ela sabia. Queria fugir. Pra onde. 

 

Silêncio no percorrer a casa, vazia, vazios os anos, os ventres. A negra buscava, com flores, nos vasos, perfumar alegria na dona, com doces, nos potes, adoçar a vida da dona, com gestos, infinitamente. No lapso da noite ele chegava. O banho esquentado, jantar, café e rede no avarandado. No terreiro, cigarro fumado. O cheiro dele a castigar o ar. A apartá-las. 

 

O que a fazia silenciar, se não que pelo silêncio fora reduzida. Com silêncio e perdão acariciava a outra, no depois das horas, acertando a imagem na dela e atinar que era dia, a percorrer. 

 

Tempos seguidos, o ventre da negra crescia. Fitavam juntas o silêncio do a ver. O não saber, se amor ou ódio. Ambas, imagens. E quando, no anoitecer em que a chuva vinha revirar os varais, a negra em carreira e balaio, sacudindo-os. Por força largou-os e foi de emboscada para longe, no não ser. Homens contados arrancaram do ventre o choro escuro, desconhecido. Ela gritou e emudeceu. Voltou, que não havia de deixar a dona. Aquela, encostada. Chegou por de trás, na porta pequena, cão acuado. A dona banhada em desespero abraçou-a, tratou-a em lençóis novos. Não choraram mais. E os dias, e os varais cicatrizavam aqueles. 

 

Juntavam ambas o ódio, pendurando-o nos punhos da rede, no prego das chaves, nas réstias de alho, nas calças dele secas ao sol. 

 

A dona dormia. Sua ausência tranqüilizava-as. Horas se adiantando. A porta aberta e ele aos solavancos, aos berros, exigiu-a. A negra foi. Achava que nunca, depois daquilo. Foi. Não piedade, amor, nada. O álcool fedendo nele, na boca, no cuspe. Venefício no dentro, no nunca mais. Largou-a. Sobejada, em meio à sala, nua em chão de pedra. Ao canto, no alto da escada, a dona, encolhida, firme no não chorar, fitava-a, refletia-se. Ele, olhos nela, pigarreou, cobriu suas partes, esperou o jantar. Serviu-se, fartou-se. Acendeu o cigarro sobre o café, na rede. 

 

A dona, sorriso surrado, bonita ainda, balançava a rede,
em punho. A negra refletida, no outro punho, balançando, e o vai-e-vem a derramar, lento, sangue no terreiro, no avarandado. Não piedade, amor, nada…
 

 

outubro 24, 2006

À espera de um agosto

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 5:06 pm

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por Aurora Galiléia

  

Tinha seis anos quando seus pais saíram foragidos da Polônia. Eram judeus e temiam a perseguição nazista. Da hostilidade polaca, vieram diretamente para o calor de Madureira. Eram cinco irmãos ao todo. Uma irmã mais velha e quatro meninos. Sempre foram muito unidos. Ele era o segundo na escala. A irmã casou logo cedo; tinha dezesseis anos. Os meninos viveram intensamente o Rio de Janeiro dos anos 40, 50 e 60. 

Durante a infância, arrancavam vitórias-régias do Campo de Santana. Na adolescência, jogavam futebol no descampado perto de sua casa. Mais tarde, deixaram o bigode crescer e incorporaram todos o típico malandro da Lapa e passavam o dia jogando pôquer.  

Cada um dos rapazes tinha suas características peculiares, mas o segundo era conhecido por ser o mais azarado. Certa vez, passou uma semana procurando seu cachorro que havia desaparecido. Quando encontrado, o cão, que estava raivoso, o mordeu. Passou 25 dias tomando injeções na barriga. Nunca era escolhido para as partidas mais importantes do futebol do bairro. No dia em que foi, o zagueiro do outro time quebrou sua tíbia e seu perônio. Foi inacreditável. Outra vez, ao tentar pagar sua conta no bar vizinho à sua casa, presenciou uma briga e foi acertado por uma bala de revólver destinada a outra pessoa. 

Todas essas estórias preocupam ao extremo quando acontecem. Mas, convenhamos, provocam risos quando passam e são ótimas para contar para os filhos e netos. Ele, no entanto, nunca os teve. Tinha muitos sobrinhos, e era muito querido por todos. Fritava batatas para eles aos domingos. Como nunca se casou, morou com sua mãe até o falecimento dela. Depois disso, passou a morar com a irmã, já viúva, na Tijuca.  

Tinha 67 anos, 25 injeções anti-raiva, uma tíbia e um perônio quebrados, uma bala – que podia sentir nos dias mais frios – alojada na coxa e um derrame. O último acidente mudou um pouco o seu jeito. Ele passou a ser mais calado, mais sério e olhava sempre para frente. Parecia que não ouvia as pessoas quando falavam com ele. Mas isto era apenas uma impressão. Na verdade, apesar de aparentar ser um pouco demente e robótico, percebia tudo, absolutamente tudo que se passava a sua volta. Ia com os irmãos para a joalheria que tinham juntos, em Copacabana. Ficava o pé do morro. Ele sempre estava alerta a tudo que acontecia e a tudo o que se dizia, o que podia ser percebido quando jogava ao vento um de seus comentários certeiros em meio a uma conversa dos outros.  

O derrame não foi, infelizmente, o último caso desagradável que contabilizaria. Aos 69 anos se internou para a extração de um tumor e, de repente, já tinha um rim a menos. Essa estória ele não poderia revelar aos seus filhos – caso os tivesse tido –, pois seus irmãos não lhe contaram sobre a retirada do órgão. Mesmo com o tamanho imenso do corte que fora feito nele, não desconfiou. Evidente que os irmãos tinham ocultado o fato, no intuito de não entristecer ou preocupá-lo. Eles acreditavam piamente na célebre frase popular que diz: “o que os olhos não vêem, o coração não sente” e a utilizaram como inspiração para criar uma outra: “o que os ouvidos não ouvem o corpo não percebe”. Pena. Estavam enganados. Cada dia ele ficava mais fraco e mais triste. 

Continuava vivendo sua vida como sempre o havia feito. Ia à loja, ajudar os irmãos e ficar a par de tudo o que lá acontecia. Pegava dois ônibus para comprar galinha caipira (o único tipo que comia) em Marechal Hermes, mesmo depois de desesperadas súplicas dramáticas, regadas a lágrimas, de sua irmã. Certa vez, inventou de ir ao Centro da Cidade, só para conseguir aquilo que tinha por “melhor creme de leite da região”. Foi escondido dos irmãos. Encheu dois sacos inteiros de latas de creme de leite e desmaiou com o peso deles e com os quarenta graus que fazia, nas escadas do metrô. Por sorte, um homem que subia as escadas logo atrás dele conseguiu ampará-lo. Sempre que via os sobrihos em festas e almoços de finais de semana, lágrimas enchiam-lhe os olhos. Estava visivelmente deprimido.  

Uma idéia, no entanto, o mantinha motivado. Era abril e ele já tinha toda a sua festa de aniversário de setenta anos planejada. Seria em agosto – seu mês de nascimento. Todo mês retirava sua aposentadoria e a repartia em três. Uma parte ia para a moça que havia sido sua empregada na outra casa. Já fazia mais de um ano que havia se mudado, mas ainda a ajudava. Outra parcela reservava para comprar uma geladeira de última geração para um sobrinho seu, que ele acreditava estava prestes a se casar. O terço final, era posto de lado, para o grande evento de agosto. 

Só falava da festa. Planejava fechar, como todos os anos, a rua de Madureira em que morou. Nenhum carro atrapalharia a alegria e o conforto dos convidados. Todos os moradores dali viriam. Um dos sobrinhos organizaria o pagode. Outro, que era bem alto e parecia impor respeito, tomaria conta das bebidas no bar, para que os vagabundos não conseguissem tirar proveito da boca-livre. Seus ex-vizinhos seriam, como de costume, os churrasqueiros. De tanto repeti-lo, todos os que mantinham contato com ele já sabiam de cor o cardápio: 25 quilos de carne; doze quilos de camarão; duzentos bolinhos de bacalhau; seis quilos de asinha de frango nascido, criado e morto em Madureira; seis quilos de lingüiça. Bebida também já não era problema. Deixaria um cheque de setecentos reais com o dono do bar. Se faltasse, ele completaria depois da festa. Se sobrasse, o dono do bar, que era seu amigo de anos, lhe devolveria a diferença. 

Seus olhos brilhavam sempre, agora. Afinal, ou estava chorando emocionado ao encontrar um dos sobrinhos; ou estava empolgado por falar – sempre as mesmas coisas – sobre seu churrasco. Setenta anos é uma data especial. Sua irmã mais velha, entretanto, não estava muito feliz com a idéia da comemoração. Achava que seu irmão estava sendo explorado e roubado. Não lhe agradava nem um pouco o pensamento daqueles oportunistas todos se debruçando em cima da bebida, da comida, enfim, da aposentadoria de seu irmão. Ela era tão dramática. Chorava sempre. Chorava ao falar dos filhos. Chorava aos falar dos netos. Chorava ao contar sobre o passado e ao planejar o futuro. Chorava nas alegrias, chorava nas tristezas. Chorava, implorando para que seu irmão desistisse da celebração. 

No início, seus filhos pediram para que ela parasse de intervir. Que deixasse o irmão quieto com seu plano. Que aquilo era a sua única fonte de alegria e empolgação. Que tudo ia ficar bem e que o importante era fazer o azarado feliz. Cada um, afinal, se alegra de maneira diferente. Ela então decidiu que não diria mais nada. Também não iria à festa, porém. Isso machucou mais ainda o irmão. Ficou tentando convencê-la, em vão. Era impossível concluir qual dos dois era mais teimoso. 

Os sobrinhos mais velhos intervieram novamente. Desta vez, tentaram convencer o tio a comemorar em um restaurante bacana. Eles pagariam o almoço. Assim seu tio não gastaria mais sua preciosa aposentadoria, e eles ficariam livres – tanto dos oportunistas da rua quanto do choro da mãe. Também não adiantou. Será que ninguém entendia? O que ele mais queria era fazer aquela festa, daquele jeito, com aquele cardápio e com todos os famintos roubando sua carne de primeira e seu camarão para garantir o rango da semana. 

Já era junho. Tinha 69 anos, quase setenta, 25 injeções anti-rábicas, uma tíbia e um perônio quebrados, uma bala – que podia sentir nos dias mais frios – alojada na coxa, um derrame e apenas um rim. Dois mil reais a menos de aposentadoria, reservados para uma festa que sua irmã querida condenava. Mesmo assim, seguia vivendo. Ainda bem que agosto estava por vir.

  

outubro 20, 2006

Joyce in Sampa

Filed under: Contos,Montano por um dia — maldemontano @ 12:19 pm

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Por Edelson Nagues

  

Acordo ced[o](ento). O corpo [de] amar(elado) arfa, nu(lo). Gira a cabeça gira o quarto gira o mundo gira. Maldito gim! (Era r[um]?!) ou outro r[u]im (dói). 1 co[r]po d’á(gua): 1 porto. A mulher púbia em pêlo me ignoja. Dor/me. Eu [a] quero (ir) embora. Meu desespelho se reflete no banheiro. Vasomito silente, (des)/ca(r)go. Saio pé-antipétala. Ela so(zi)nha/ndo (comi[go]?). Tropeço na sã/Dália. Sã/dice: Talvez não nos vejamos mais… Talvez volte a ti[e]te(r). Rio de nós. Tal vez em que nos encontramos: des/tino.

  

Saio à rua: rot[o]/(a). In Sampa. Carros carram, velhozes. Nuvens nuvem: limites. Nu vem e vai. Personas pessoam: pés/sonham. E/difíci[l](os)? Muito(s). Verbos (re)verbam na mente, in-signos. A (c)idade não pára. Eu si[m]/g(n)o. Preciso (de) ir lá.

  Anda.  

outubro 18, 2006

Oi, há quanto tempo eu não lhe vejo?

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 1:43 am

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por Solange Pereira Pinto 

De repente outro convite. O quinto do ano. Quando foi isso mesmo? A festa de 15 anos de Roberta foi há duas décadas. Troca de olhares com Aldo. Cara brava por causa do vestido amarelo. Porre de leite de onça. Ontem Vanessa fez 40 anos. Daniela lembrou do último début. Salão lotado dançando discoteca. A balada estrangeira esquentava. A timidez ia embora. Velhos tempos. Anos 80 cheio de rock pop. Até suar. Olhava mais uma vez aquele piso colorido de idades. Um xadrez de luzes com dezenas de gente desconhecida. Antes nem era bem assim. Havia um nome certo para cada rosto. Adolescência registrada. Logo, logo, comemorariam a carteira de motorista. Os aniversários iam se modificando. A expectativa do vestibular. Sorria e dizia um oi para quem passava. Maneava a cabeça. Talvez já estivesse desmemoriada. Melhor não arriscar. Apertos mãos e beijinhos na face. Sorriso grudado. Mais um uísque. Era diferente. A vida se formalizando aos poucos. Porém, depressa. Estranho. Trezentos convidados. Banda ao vivo. Vinha o flash. As festas de 30. Independência. Sexo. Casamento. Oi, há quanto tempo eu não lhe vejo? Bordão da madrugada. E não via mesmo. Mais gordos. O sábado se encerraria. Mais míope. Como todos. Ou a maioria. Menos cabelos. Àquela hora pouca gente por ali. Recontou sua história. Sem conta! Quase ao amanhecer. Várias doses “on the rocks”. Uma leve dor nas costas. Dani levaria os pais do anfitrião. Tirou a bota. Faltavam ainda 442 dias. Calculou. Cabelo praticamente grisalho. Acompanhou no último verão duas tias. Três comemorações de bodas de ouro. Teria que levantar cedo. Praticamente após o almoço. A festinha dos Rebeldes esperava. A mais antiga amiga de Lili. Cantaria parabéns. É big. Com quem será. Bolas coloridas na parede. Feito o xadrez no chão. Não conhecia as crianças. Já não identificava ninguém? Talvez três. Faria festa? Comemoraria também os 40? Oi, como sua filha cresceu! A tarde passava. Os brigadeiros sumiam. Ou faria dos 50? Chamaria as colegas da faculdade, do segundo grau, do primário. Será? Caiu fanta uva no colo de dona Margarida. Corre e pega o pano. Quem sabe 60? Pela oitava vez a mesma música. A meninada pulando. Bolo com velinhas? 70? Faltariam muitos amigos. Certamente. Duda apagou as seis num sopro só. 80? Não chegaria até lá. Cada vez mais ouviria “oi, há quanto tempo eu não lhe vejo?” Pegou a lembrancinha da filha. Dez da noite. Exausta. Subitamente os convites mudaram. Pessoas mais envelopadas. Encontros em volta de caixas. Bolo embrulhado em papel laminado. Não foi a nenhum de 90. Tirou a maquiagem. Passou o creme anti-rugas. Lili adormecida. Dani abriu o álbum. Viu Danilo. Não lhe vejo há mais de dez anos, disse à fotografia. Deitou-se sozinha. Começou a lista mental. Dormiu calculando a antiga agenda. Oi, há quanto tempo eu não lhe vejo? Daniela nunca mais respondeu. 

outubro 12, 2006

Solostrix

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 12:11 am

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Por Solange Pereira Pinto 

Foi bem assim, sim. É… É… Né… A porta entreaberta. As pupilas regateando as frestas. Os recantos. Duas da tarde, não lembro. Ouvia ao longe “Ó sole mio… Meu Sol na minha solidão…” As janelas acolhiam mais sóis que o possível. Um vento gmail balançou minha camisola. Acabava de levantar de uma gripe. Vem falar comigo? Voz forte, máscula. Ousada, sobretudo. Assim assim, vou. Ainda tonteada. Entre, por favor. Um chá? Monossílabos enfrentando monossílabos. Acariciados por interjeições, fomos nos grudando em palavras. Os risos tímidos. Os dedos soltos. As linhas em volúpia escorregando a tela. Ansiedade. Uma alegria daqui. Uma interrogação acolá. Muitas exclamações. Aos poucos, os sotaques beijando sotaques. As línguas em compasso. As mãos buscando os hiatos. Acariciando cada reticência. O tempo úmido passando pelos corpos, a secura pelas horas. Ponteiros acelerados. Frases entrelaçadas. Olhos enamorando identidade, humor. As roupas caindo em afinidades. As taças deitadas. As gargalhadas. Os goles em sofreguidão. A Pele febril. A nudez esperada em páginas roladas. Desfilando o tesão com galhardia. Penetrando cada ponto. Conhecendo cada vírgula. O cheiro do desejo. A mordida espaçada. Os abraços em colchetes. Os sinais. As incógnitas únicas de nós dois. Deitamos nos travessões. Tesos. Chupando cada aspas. Desejosos. Num gozo único. Onomatopéico…ahh hummm ohhhhh É…É.. Né…  

outubro 9, 2006

ROLETA RUSSA

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 12:03 pm

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Por Selena Carvalho

  

 

A primeira coisa que disse, logo após se apresentar, é que não tolera celular tocando no meio da aula. Na mesma hora, barulho de cadeiras se arrastando, bolsas se abrindo, bips prolongados. Não se levou tão a sério, no entanto, soou como proibição estampada em cinemas, teatros, hospitais, a ser ou não observada, dependendo. Um tempo depois, se ouve o toque de um deles. A menina se levanta apressada e sai atendendo no caminho. – Qual o seu nome, por favor? – assim que voltou. – A senhora está perdendo um ponto. Apenas isso dessa vez, porque acho que não fui bem claro. Da próxima, ouçam todos, com quem quer seja e por qual motivo for, será zero no semestre.- Continuou com a explanação da metodologia a ser aplicada, predominância de trabalhos em grupos, seminários, apresentações.

  

Principiou, desde esse dia, o meu suplício.

  

Vou à secretaria averiguar a possibilidade de trancamento de matrícula. Lá sou informado de que posso trancar, claro, mas aquele professor acaba de ser efetivado; pela performance no concurso, muito superior à dos demais, assumiu a coordenação do curso. A menos que alguma tragédia aconteça, não há como chegar ao fim, sem passar por ele.

  

Que seja logo, então. Volto na aula seguinte resignado.

  

Escolho uma cadeira bem no centro, artifício que aprendi na tentativa de permanecer desapercebido. Abro o caderno, anoto toda palavra dita, parecer ocupado, sempre, muito ocupado! Evito cruzar o olhar com o dele; quando alguém faz alguma pergunta, imediatamente viro a cabeça na direção do interlocutor. Sei que deveria também eu, fazer alguma pergunta, qualquer que fosse, mas não consigo. Ficar quieto para não chamar a atenção e acabar chamando justamente por isso; estou cansado de saber. Ainda na memória o semestre passado: em uma das matérias, a professora avisou que dispensaria de prova quem tivesse participação
em classe. A partir daí, ela mal falava, tal a sanha de intervenção dos alunos. Fui o único a não abrir a boca, tive, por isso, que ler um livro inteiro, fazer prova sozinho e ainda agüentar a contrariedade de quem teve que elaborá-la só para mim.

  

Na segunda semana ele percebe que existo, não tem mais jeito.

  

– Ei, doutor, o senhor, como se chama?- Faz uma pergunta, nem é difícil, tinha estudado o assunto na véspera em casa, tenho a mania de sempre dar uma adiantada no que vai ser dado. Respondo alto, uma colega balança a mão, como a dizer que eu diminua, passo a falar baixo demais – Não estou escutando, doutor. – Ouço risos à minha volta, olho para o professor, que me analisa sarcástico, começo a gaguejar. O raciocínio parece se perder, fico alguns segundos calado entre uma frase e outra, até que, não sei que rompante de bondade o faz dizer: – Está certo, doutor, estou satisfeito.

  

 

Mal acaba a aula, pulo da cadeira, corro em direção à porta. Penso que não terei coragem de voltar mais, mesmo sabendo que terei que fazê-lo. Reconheço ter sido um milagre chegar à metade do curso sem ter passado por isso; deveria estar agradecido, mas sofro com a perspectiva de que aconteça com freqüência daqui para frente. No caminho para casa, flashs da minha infância, dois especialmente marcantes, nunca os contei a ninguém: o primeiro dia de natação na escola, devia ter uns seis, sete anos. Tinha levado sunga, touca, toalha, dentro de uma sacola. A professora não viu quem a havia trazido; na hora da natação perguntou quem iria fazer a aula, eu não respondia, depois começou a indagar de quem era a bolsa, eu não respondia, saiu de sala em sala à procura do dono e, como não o descobrisse, acabou deixando-a na secretaria. Até hoje não consigo explicar por que não tive coragem de dizer que era minha. O outro, muito pior: voltávamos, eu e minha irmã, de transporte escolar. Um dia, no meio do caminho, percebi que ela não estava no ônibus. Fiquei o resto da viagem quieto, preocupado, mas não me animei a comunicar o fato. Quando chegamos em casa, confusão, mãe chorando, pai brigando com motorista, eu, afundado na culpa. Estávamos ainda no meio da rua, quando, para meu alívio, a vimos chegar, nos ombros da professora.

  

Ele me faz perguntas todo dia.

  

Não entendo. Várias outras pessoas não foram interpeladas uma única vez. Esgotei o número de faltas a que tinha direito, passei semanas seguidas sem aparecer, ele não me esqueceu. Com certeza já percebeu o meu pânico e se compraz em me espezinhar. Meu analista acha que talvez queira ajudar, pressões assim, às vezes, transformam a vida das pessoas. Não creio nisso. Vejo nitidamente a expressão de satisfação quando começo a titubear. É certo que agora gaguejo menos, mas mesmo assim. Se ele não é sádico, como defende meu analista, nem quer me ajudar, hipótese em que não acredito absolutamente, talvez sinta um grande despeito. Observo a barriga proeminente, os cabelos ralos, calculo sua idade e penso ser impossível não ficar abalado com a juventude jogada à cara. Descarto logo o pensamento: carreira sólida, vasto conhecimento, sobretudo isso, vasto conhecimento sobre inúmeras coisas, uma mulher desejável, filhos perfeitos. Pouco provável que tenha inveja de quem quer seja. Se fosse esse o caso, inclusive, teria outros, com mais atributos, para perseguir.

  

Roleta russa, a última novidade.

  

Explica: ele escolhe um tema, coloca os nomes de todos os alunos em uma urna, trouxe-a para demonstração, sorteia um deles. O sorteado deverá fazer longa explanação sobre o assunto; os demais, perguntas. Cismo que deveria ter sido formada uma comissão para assegurar a lisura do procedimento, mas claro que não digo nada. Quem garante que haverá um só papel para cada nome? Sem supervisão, ele pode fazer o que quiser, até mesmo escrever cinqüenta papéis com o nome que quer que seja escolhido.

  

O meu. Essa idéia não me sai da cabeça: só eu posso ser sorteado porque só o meu nome está ali. Não sei por que fui eleito para Cristo.

  

Dia do sorteio.

  

Dormi de madrugada, estudando o tema, já quase decorado. Fiz anotações, ensaiei seguidas vezes frente ao espelho, minha irmã me tomou os pontos. Chego à sala bem mais cedo do que o costume, ele, quase no mesmo minuto em que toca o sinal. Faz brincadeira com um e outro, a simpatia que conquistou entre os alunos é algo que me deixa perplexo. Estão mancomunados. Todos sabem que serei eu o sorteado.

  

Dá início ao processo, maestro do meu tormento. Noto que trocou a caixa destinada aos nomes. Essa, hermeticamente fechada. Por quê?  Ele a balança, meio sorriso forjado. Tenho impulso de avançar sobre ele e desmascarar a farsa. Pega um papel. Difícil controlar os espasmos do corpo, o suor teima em escorrer da testa e fazer rodas na camisa, debaixo dos braços. Se ao menos ele consentisse em que eu fizesse a explanação sentado! Antes de ler, detalha o que espera do palestrante. Abre o papel devagar. A cabeça doendo, a garganta seca, a barriga revirada, cogito em sair correndo.

  

Olho ao lado, procurando cumplicidade, mas não vejo a aflição em mais nenhum rosto.

  

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