Mal de Montano

abril 3, 2010

poesia é trabalho…

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Poesia é trabalho

Manoel de Barros não se cansa quando fala de sua paixão pela palavra

Por Caco de Paula – Revista Vida Simples – 06/2008

Há quase 30 anos, quando li pela primeira vez Manoel de Barros, ele já não cabia na definição de “poeta do Pantanal”. É poeta e ponto. Um dos maiores do Brasil. Confunde-se às vezes com a grande planície por onde a água flui e transforma a paisagem, feito as palavras escorrendo por sua poesia, como nos versos em que as garças pantaneiras “enchem de entardecer os campos e os homens”. Manoel é quase sinônimo do Pantanal, pois, grande poeta, é quem mais bem sabe cantar a terra – a água, o lodo e o cisco – em que vive.

Embora o Pantanal seja ambiência freqüente de sua poesia, seu tema central é o nada, o desimportante, os trastes esquecidos e jogados fora. “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para a poesia.” Não se pode passar régua no Pantanal, ou no poeta. Penso nisso, agora, chegando a Campo Grande, para novo encontro com Manoel, quase 20 anos depois da primeira vez que nos vimos. Falo com ele na véspera de viajar a uma paradisíaca reserva de proteção da natureza no Pantanal, mantida pelo Sesc, em Porto Cercado, onde borboletas se passam por folhas e aves se fazem de galhos.

O próprio Manoel me recebe quando chego à sua casa. Aos 91 anos, continua com olhos brilhantes de moleque curioso que se encanta ao contar histórias. Discreto, um caramujo, Manoel tem andado ainda mais recluso. “Desde que João, filho mais novo, morreu no ano passado, não vou mais à fazenda.” Não ouve direito de um ouvido e não quer usar aparelho. Pede que o interlocutor fique à sua direita. Acolhedora, Stella, sua mulher, se despede para ir ao dentista. Pedro, filho mais velho, vez em quando espia na sala. Cuida para que o pai não se canse.

Manoel não se cansa quando fala de sua paixão pela palavra ou do sentimento de pureza infantil que inaugurou seu amor à poesia. Conta-me dos andarilhos com quem conversava na infância e de como influenciaram sua linguagem. Diz que conselhos não servem a artistas, que precisam é ter dom. Lembra a importância de educar os sentidos, ler, ver arte, ouvir música, encantar-se pelas coisas.

Não acredita em inspiração, mas sim em vontade. “Poesia é trabalho, em cima de harmonia, ritmo, rima. Sou prático pela palavra. Se me vem um desejo de fazer um poema e, depois de algumas linhas, me falta uma palavra, é à noite que ela me vem. Aí, acordo e anoto num caderninho. Stella, minha mulher, fica incomodada. Já veio a palavra, Manoel? Então dorme. Poesia é assim. O poeta é um visionário.” Conta-me que não relê sua poesia, que tem tédio dela, por já ter sangrado e sofrido a cada verso. Que agora não está escrevendo, pois se sente oco. Que sua poesia é perseguida pela natureza e pelas percepções infantis. Que ainda quando criança aprendeu a distinguir o canto do gorjeio. Manoel me diz, principalmente, que a poesia é para ele uma espécie de encantamento – e que, se sua arte de fazer versos for uma espécie de loucura, não quer ser curado dela não.

Caco de Paula não sabe direito a diferença entre canto e gorjeio, mas espera aprender relendo Compêndio para Uso dos Pássaros e outros livros de Manoel. homemdebem@abril.com.br

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