Mal de Montano

dezembro 26, 2008

Não existe pote de ouro no arco-íris do escritor

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 4:09 pm

Sexta-feira, 29/7/2005

Julio Daio Borges

Eu já ia usar esse título, mas eu ia escrever sobre a Geração 90. Eu ia escrever sobre a história que eu ouvi de um dono de sebo, que conheceu todo esse pessoal. De como eles estão na mídia toda hora (tema de Coluna anterior) e de como eles estão felizes por receber um adiantamento (para escrever um livro em, sei lá, um ano) de 500 reais mensais. 500 reais. Tem base? Para ser escritor. Escritor de editora grande. Escritor com distribuição nacional, tal e coisa, coisa e tal. Escritor.

Mas o assunto do Movimento Literatura Urgente me atropelou. Na verdade, por conta de uma matéria sobre isso na Veja, os próprios escritores já entraram na conversa que eu ia começar. Entraram de sola. E eu vou tentar provar por que esse Movimento está errado e por que quase todos eles – dentro desse Movimento – também estão. Não provar pelas mesmas razões que eles evocam, mas por outras, e por experiência própria. Vocês estão livres para concordar ou discordar, tá?

Eu não sei o que aconteceu dos anos 90 pra cá, mas um montão de escrevinhadores – na minha geração (e eu me incluo) – resolveu achar que podia viver de publicar. Será que foi o surgimento (e a consolidação) da editora do Luiz Schwarcz? Será que foi a revolução (editorial) que a Companhia das Letras provocou? Será que foi a modernização do setor que as outras editoras (velhas e novas) se viram obrigadas a implementar? Será que foi o êxito do Rubem Fonseca? Será que foi o João Ubaldo Ribeiro na Nova Fronteira? Será que foi o Luis Fernando Verissimo na Objetiva? Será que foi o Paulo Coelho – sinal-da-cruz agora – na Rocco?

Eu sei lá. Eu sei que um monte de gente, na aurora dos seus vinte anos, dos anos 90 pra cá, resolveu achar que dava.

Não dá. Nunca deu e nem digo que nunca dará, mas dificilmente daria – em qualquer lugar. Não é um problema do Brasil. Não é um problema estrutural nosso, mas é a realidade do escritor. Vocês – escritores da Geração 90, que estão agora reclamando – já pensaram que Kafka, um dos pais da modernidade, morreu antes de se consagrar? Lembram que ele pediu a Max Brod, seu testamenteiro, para queimar a maior parte do seu espólio? Não, vocês não se lembram, vocês não conseguem se lembrar. Lembram provavelmente de Thomas Mann, outro dos pais da modernidade, que não amargou falta de reconhecimento mas que já se estabeleceu logo no primeiro romance. Mas vocês se esqueceram de que Thomas Mann é um caso à parte.

Vamos voltar pra cá. Vocês – escritores da Geração 90 – esqueceram que, no Brasil, quase ninguém viveu de ser escritor? Eram funcionários públicos; tinham outros cargos, tinham outras profissões. Ninguém era escritor full time. Só o Jorge Amado – que tinha a militância por trás. O Drummond foi trabalhar com Gustavo Capanema, ministro do Getúlio. O Guimarães Rosa foi ser médico; depois, diplomata. O Euclides da Cunha era engenheiro; construía pontes (nem jornalista era). O Rubem Fonseca trabalhou um tempão na Light (foi também delegado de polícia, como todo mundo sabe). O Ferreira Gullar foi escrever roteiro e dramaturgia na Globo. O Mário de Andrade não foi ao casamento do Fernando Sabino por falta de grana. O Oswald de Andrade era dono do bairro inteiro de Cerqueira César (vulgo “Jardins”), em São Paulo, e torrou toda a sua fortuna com esse negócio de ser escritor. O Álvares de Azevedo morreu aos 22 anos; o Castro Alves, aos 24. O Luis Fernando Verissimo – o bem-amado da capa da Veja, que vende milhões de exemplares todos os anos – mora até hoje na mesma casa que foi de seu pai (Érico Verissimo, também escritor). O Paulo Coelho ficou milionário, tá, mas só. E alguém aqui quer imitá-lo?

Agora, vocês, com vinte, trinta anos, que querem viver de literatura (ou viver de escrever), acham que dá. Não é por que vocês querem que vai dar. Sinto lhes informar.

O problema de escrever é um só. É gostoso; é terapêutico; alivia que nossa… Mas não resolve os nossos problemas, de escritores. O escritor geralmente começa na adolescência, com um diário (eu disse “diário”, não disse “blog”). Tem um problema qualquer – de carência, de insegurança, de auto-afirmação – e dá-lhe diário pra extravasar. Como eu disse, é terapêutico, funciona. O problema continua lá (escrever não resolve), mas parece que – depois de escrever – fica mais fácil lidar. Esse é o problema, na verdade. A maioria dos escritores carrega essa muleta para a vida inteira (“Os escritores – ao contrário de todas as outras pessoas – não conseguiram se livrar do diário”, Martin Amis na Flip 2004), e quando a coisa aperta, mais lá na frente, dá-lhe diário ou o que estiver no lugar (agora pode colocar “blog”). Como os problemas não se resolvem escrevendo, o escritor começa a colocar a culpa nos que estão em volta: pais, professores, namorada, esposa, chefe, sociedade, governo, essas coisas. A escrita vira uma fuga e ele desiste de resolver os problemas que – porque o mundo está contra ele – não se resolvem mais. Então procura uma solução mágica.

Esse Movimento Literatura Urgente é mais uma solução mágica para resolver o problema do escritor. Uma mesada, um subsídio, uma parte dos impostos, sei lá, não importa. Os escritores não se convenceram até agora de que não vão viver apenas de publicar. Ainda mais no começo da carreira…

Se eu, pela minha experiência, tivesse um conselho para quem pensa em ser escritor – e deixar tudo pra trás para se dedicar –, meu conselho seria: não largue, não deixe tudo pra trás. Se você tem um emprego, não deixe seu emprego. Se você tem uma profissão, não largue sua profissão. Porque ser escritor não é emprego, não é profissão, não é cargo. Ainda não descobriram uma maneira de se viver só de publicar. E não é só no Brasil – em nenhum lugar.

O problema – da Geração 90, agora – é que eles acreditaram que dava pra viver de publicar. Eles viram a miragem – largaram tudo –, caminharam até lá e depois descobriram que não havia nada. Percorreram o arco-íris inteiro mas o pote de ouro não estava lá no final. Saíram na Folha, falaram na televisão, tocaram no rádio, embarcaram para feiras (ou festas ou jornadas) literárias, bienais, fundaram editoras, foram contratados por “editora grande”, montaram blogs, o escambau – mas, enfim, descobriram que não adiantava nada. Porque não existe mercado editorial no Brasil. O mercado editorial daqui é uma ficção! Não temos leitores, as tiragens são simbólicas, os livros são considerados caros, proporcionalmente quase ninguém compra, e a porcentagem que o escritor recebe é aquela que vocês já sabem: 10% ou menor, muito menor. Vamos fazer uma conta rápida: as tiragens máximas são de 3 mil exemplares; vender mil (um mil) no Brasil (estou falando de escritor relativamente novo) é um estrondo; um livro de R$ 50 (preço de capa – livro caro), mil exemplares, 10% para o escritor; dá 5 mil reais. Cinco mil reais para viver um, dois anos – dá menos do que os 500 reais mensais (de adiantamento) que eu citei no primeiro parágrafo.

E como é que vocês foram achar que dava?

Então o escritor – da Geração 90, da Geração 2000, sei lá – acabou de concluir que não dá. Tenta outras formas de remuneração (afinal, já largou tudo: amigos, família, profissão – às vezes, nem tem pra largar): jornalismo, cinema, etc. Jornalismo também não dá. Escritores e jornalistas precisam conversar. O escritor – que não é jornalista – não é, portanto, contratado do jornal (da revista, sei lá). Colabora mas quase nunca recebe (é colaborador, não é do staff). Ou recebe, mas recebe mal (de novo, nem aqueles 500 reais). A mídia está quebrada, cara, não te contaram? Cinema. Ele ouviu falar que o Marçal Aquino ganha uma grana para roteirizar. Mas é o Marçal. O Marçal tem quantos anos nas costas de sua carreira de escritor? E a indústria cinematográfica brasileira vive – ainda – uma situação de instabilidade periclitante. As leis de incentivo podem mudar. O cinema brasileiro pode acabar, como acabou – de uma hora pra outra – na era Collor, porque acabaram os subsídios, a isenção de impostos, blablablá. E quem ganha com cinema é profissional de imagem. R$ 8 mil, por semana, para um diretor de arte. Escritor não é diretor de arte.

“E, agora? Devo me jogar da ponte?” Não, não deve; mas deve olhar os dois lados da questão. Por causa da internet (eu não disse “por culpa”), temos cada vez mais escrevinhadores. Inflacionou o mercado. É natural que escrever – que já não valia nada – agora valha menos do que nada. Os escritores vão ter de pagar pra publicar. Aliás, já está acontecendo. Vocês são escritores da Geração 90, vocês sabem. Quantos não tiveram de editar com dinheiro do próprio bolso para poder começar? Eu acho que – tirando quem tirou a sorte grande – todos tiveram de se (auto-)editar. Agora olhem para os empregadores de escrevinhadores como nós. Se você não aceitar colaborar a troco de nada (ou a troco de uma remuneração aviltante), numa revista ou num jornal, alguém vai aceitar. A oferta é enorme. Cinema, mesma coisa. O resto, mesma coisa (tradução, mesma coisa). E quanto mais blogs, e quanto mais ferramentas de publicação, pior. Mais escrevinhadores passando fome. É uma tendência que não dá pra mudar.

Aí os escritores que já partiram pro tudo ou nada (independentemente da sua qualidade literária) chegam a essas mesmas conclusões e começam a se desesperar. Apelam então. Exigem desvio de impostos, ou alíquotas, para um Movimento que vai – em princípio – lhes garantir maneiras de se sustentar. Ou seja: mais uma vez, eles não querem resolver seus problemas próprios, mas querem que o governo – ou o mercado editorial, mediante uma taxa – resolva (ou facilite o seu lado). Nada contra palestras e circuitos literários, e oficinas, e colóquios, e o escambau, mas isso não resolve. É que nem acreditar que o Fome Zero resolve o problema da fome. Não resolve. É artificial. Amanhã, o governo muda, as taxas mudam, baixam uma portaria, e voltamos à aridez do cinema da era Collor. Não adianta se pendurar no estado, não adianta querer impor – à força – um número crescente de escritores, ao mercado (e ao público), que o Brasil (ou qualquer país) não comporta.

As soluções – se é que elas existem – são as mesmas e não são de agora. Educação, leitura, livros baratos, poder aquisitivo, cultura, hábito, bons escritores. O melhor que o escritor pode fazer agora é escrever o melhor que pode, e esperar. Que venha uma nova geração. Que venham novos leitores. (A geração internet, quem sabe?) Que o Brasil avance. Que o mercado editorial se desenvolva… O caminho é o mesmo em todo lugar.

E, óbvio, a maioria dos “escritores” que estamos vendo aí hoje vai “rodar”. É a lei da selva. É a seleção natural. Sobram os melhores. Não adianta impor cotas, não adianta querer sustentar uma casta se a mesma sociedade – em que se circunscreve essa casta – não parece, naturalmente, inclinada a sustentá-la. Sem mencionar um simples fato: que critérios vamos adotar? Os fundadores do Movimento Literatura Urgente têm prerrogativa na hora de administrar (e de ministrar) as verbas? É triste, mas, mais uma vez, os escritores brasileiros estão deixando de se envolver com literatura para se envolver com política. Não podem querer transmitir, para a sociedade, o ônus de uma escolha pessoal. Uma escolha problemática.

Julio Daio Borges

São Paulo, 29/7/2005

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