Mal de Montano

dezembro 31, 2008

Minhas histórias vêm da voz’, diz Alessandro Baricco

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 3:35 pm

por André Miranda

Entre goles de cerveja e baforadas de cigarro, um simpático Alessandro Baricco (na foto de Michel Filho) conversou com O GLOBO num bar de Paraty. O autor italiano está na cidade fluminense para participar, neste sábado, às 15h, da mesa “Fábulas italianas”, com Contardo Calligaris. Autor de “City”, “Seda” e “Esta história”, Baricco é considerado um dos mais importantes escritores contemporâneos da Itália, e alcançou fama na Europa com seus livros, suas participações em programas de TV, sua parceria com a banda francesa Air e a adaptação de suas histórias para o cinema — como foi o caso da peça “Novecentos”, transformada no filme “A lenda do pianista do mar” por Giuseppe Tornatore. Dele, a Companhia das Letras acaba de lançar o romance “Sem sangue”, em que a personagem Nina parte para uma vingança depois que sua família é vítima de uma guerra cruel. O resultado é uma obra bem ao estilo do autor: guiada por música e útil para o leitor.

Você foi um dos fundadores de uma escola de escrita criativa na Itália, nos anos 1990. Mas é possível ensinar alguém a escrever com criatividade?

ALESSANDRO BARICCO: Na verdade, não é exatamente uma escola de escrita criativa. Nós costumamos dizer que é uma escola de narrativa. Os alunos ficam dois anos com a gente e alguns escrevem livros, mas muitos outros escrevem para televisão, para o cinema, para publicidade, para quadrinhos… Não é uma escola para se aprender a escrever livros, mas uma escola para você aprender a contar histórias.

Da mesma forma, esta edição da Flip tem um sentido mais amplo do que é considerado literatura. E você, também, é um autor acostumado a trabalhar com outras formas de narrativa, como cinema e teatro. Partindo da experiência da escola, no fundo, tudo isso se trata do mesmo assunto, contar uma história?

BARICCO: É o mesmo ato, o ato da escrita. Se você quer ter isso como profissão, escrever é uma coisa bem natural, como correr. Não é necessário ir para uma escola aprender a correr. Mas se você quiser viver de correr, se quiser ir para os Jogos Olímpicos, aí é diferente, você também precisa estudar. Além disso, há muitos talentos que vivem distantes do mundo cultural, e a escola os coloca próximos a esse mundo cultural. A escola os coloca mais perto do mundo que eles querem habitar. Nossa escola ajuda os alunos a entender muito mais seu próprio talento.

O nome da escola é Scuola Holden, numa homenagem ao personagem de J.D. Salinger. A influência de Salinger é grande assim?

BARICCO: Quando eu e outros quatro amigos a fundamos, nós queríamos fazer uma escola diferente. Então pensamos numa escola em que Holden Caulfield pudesse aprender alguma coisa. Escolher o nome de Holden foi um desafio de fazer uma escola que ele iria amar. Salinger se mantinha na superfície dos temas e, assim, conseguia alcançar resultados muito profundos.

Você apresentou um programa de TV sobre ópera na Itália e, anos depois, gravou o CD “City reading” com a banda francesa Air, de música eletrônica. Como nas várias formas de escrita, os diferentes estilos musicais também têm o mesmo valor?

BARICCO: A música está dentro da escrita. Não em todas. Nos textos de Kafka, por exemplo, quase não há música. Mas para mim é muito importante, é meu jeito de escrever. Minhas histórias vêm da voz, na minha forma de escrever é possível reconhecer a voz. Na minha vida, eu trabalhei de muitas formas diferentes para cruzar música com palavras, histórias e ficção. Minha paixão pela ópera nasceu daí. Eu via as óperas como grandes histórias e, depois, havia a música. Eram as palavras dentro do ritmo. O cruzamento foi muito forte, muito bem-sucedido. E o mesmo ocorre hoje. Eu pedi ao Air para fazer uma performance comigo em Roma, com música ao vivo. Eles aceitaram e nós fizemos uma espécie de leitura de algumas páginas de “City”. Aí eles pediram que gravássemos um CD. É um CD estranho, um tipo de música que não existe. Mas eu gosto.

Você também apresentou um programa de TV sobre livros. Televisão e literatura são artes consideradas quase antagônicas: uma está mais ligada à alta cultura, enquanto a outra é mais associada à cultura popular. É possível juntas as duas?
BARICCO: É possível. Você tem que pensar que um programa de TV quer dizer, pelo menos, um milhão de pessoas. É um público pequeno em comparação com outros programas de TV, mas é muito grande para a literatura. Então, se essas pessoas param e te ouvem, elas demonstram curiosidade, mostram que podem entender o que você está falando. O que funciona na TV é alguém contando alguma coisa com paixão. Isso pode ser com beisebol, com política, com outros temas. É exatamente o que eu fazia. De uma forma bem simples, eu ia lá e falava dos meus livros favoritos. E funcionava. Eu conseguia botar um livro na lista dos mais vendidos no fim de semana, depois de falar dele no programa. Fiz isso com o Salinger, por exemplo.

O seu romance “Sem sangue”, que está sendo lançado aqui agora, foi publicado originalmente em 2002, um ano depois do 11 de Setembro, numa época em que todo o mundo só falava de guerra. Isso de certa forma o influenciou?

BARICCO: Escrever sobre guerra era uma coisa que eu já tinha na minha cabeça muito tempo antes. Mas eu tinha um certo medo de tratar disso. Aí, comecei a fazer o “Sem sangue”, escrevi um trabalho sobre a “Ilíada”, que para mim é uma ótima reflexão sobre a guerra, e uma parte do “Esta história”, meu último romance, é sobre guerra. Acho que precisei escrever de formas diferentes sobre esse tópico. Talvez o 11 de Setembro tenha, de certa forma, me empurrado para o tema.

E como você enxerga a personagem Nina? Ela é uma vítima?

BARICCO: Ela é motivada pela vingança. No livro, até o fim, você não consegue saber se ela é mesmo uma assassina ou não. Você sempre tem duas versões. Tradicionalmente, as personagens femininas são a voz da paz. Os homens agem como animais e as mulheres ficam em casa com as crianças, esperando os homens voltarem da guerra. É assim na “Ilíada”, por exemplo. Em “Sem sangue”, trabalhei com uma personagem feminina e eu mesmo não sei dizer se a Nina é uma assassina ou não.

Você é um dos mais respeitados autores contemporâneos da Itália e também um dos mais vendidos. Ao criar uma história, você pensa no leitor?

BARICCO: Não em termos de mercado. Eu acho que é como fazer uma mesa. Eu quero fazer alguma coisa que funcione. Uma coisa sólida onde as pessoas podem apoiar seus copos e beber. Os livros, para mim, são coisas úteis, de que as pessoas precisam, como precisam de pão. Eu penso no leitor porque quero que ele se sente e use a mesa. E quero que ele ache que é uma mesa confortável, bonita. Esse é o meu trabalho.

Você já conhecia o Brasil, não? Quais suas impressões sobre o país?

BARICCO: Eu já havia estado no Brasil duas vezes. Na última, houve um grande problema em São Paulo, um ataque a vários pontos comandado por criminosos de dentro da prisão. Achei aquilo assustador. Não consigo imaginar como é conviver com esse tipo de situação. Como vocês conseguem?

(entrevista publicada no caderno especial do Globo na Flip)

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dezembro 29, 2008

O outro – Neil Gaiman

Filed under: Contos,Mal do dia — maldemontano @ 12:25 am

dezembro 26, 2008

Não existe pote de ouro no arco-íris do escritor

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 4:09 pm

Sexta-feira, 29/7/2005

Julio Daio Borges

Eu já ia usar esse título, mas eu ia escrever sobre a Geração 90. Eu ia escrever sobre a história que eu ouvi de um dono de sebo, que conheceu todo esse pessoal. De como eles estão na mídia toda hora (tema de Coluna anterior) e de como eles estão felizes por receber um adiantamento (para escrever um livro em, sei lá, um ano) de 500 reais mensais. 500 reais. Tem base? Para ser escritor. Escritor de editora grande. Escritor com distribuição nacional, tal e coisa, coisa e tal. Escritor.

Mas o assunto do Movimento Literatura Urgente me atropelou. Na verdade, por conta de uma matéria sobre isso na Veja, os próprios escritores já entraram na conversa que eu ia começar. Entraram de sola. E eu vou tentar provar por que esse Movimento está errado e por que quase todos eles – dentro desse Movimento – também estão. Não provar pelas mesmas razões que eles evocam, mas por outras, e por experiência própria. Vocês estão livres para concordar ou discordar, tá?

Eu não sei o que aconteceu dos anos 90 pra cá, mas um montão de escrevinhadores – na minha geração (e eu me incluo) – resolveu achar que podia viver de publicar. Será que foi o surgimento (e a consolidação) da editora do Luiz Schwarcz? Será que foi a revolução (editorial) que a Companhia das Letras provocou? Será que foi a modernização do setor que as outras editoras (velhas e novas) se viram obrigadas a implementar? Será que foi o êxito do Rubem Fonseca? Será que foi o João Ubaldo Ribeiro na Nova Fronteira? Será que foi o Luis Fernando Verissimo na Objetiva? Será que foi o Paulo Coelho – sinal-da-cruz agora – na Rocco?

Eu sei lá. Eu sei que um monte de gente, na aurora dos seus vinte anos, dos anos 90 pra cá, resolveu achar que dava.

Não dá. Nunca deu e nem digo que nunca dará, mas dificilmente daria – em qualquer lugar. Não é um problema do Brasil. Não é um problema estrutural nosso, mas é a realidade do escritor. Vocês – escritores da Geração 90, que estão agora reclamando – já pensaram que Kafka, um dos pais da modernidade, morreu antes de se consagrar? Lembram que ele pediu a Max Brod, seu testamenteiro, para queimar a maior parte do seu espólio? Não, vocês não se lembram, vocês não conseguem se lembrar. Lembram provavelmente de Thomas Mann, outro dos pais da modernidade, que não amargou falta de reconhecimento mas que já se estabeleceu logo no primeiro romance. Mas vocês se esqueceram de que Thomas Mann é um caso à parte.

Vamos voltar pra cá. Vocês – escritores da Geração 90 – esqueceram que, no Brasil, quase ninguém viveu de ser escritor? Eram funcionários públicos; tinham outros cargos, tinham outras profissões. Ninguém era escritor full time. Só o Jorge Amado – que tinha a militância por trás. O Drummond foi trabalhar com Gustavo Capanema, ministro do Getúlio. O Guimarães Rosa foi ser médico; depois, diplomata. O Euclides da Cunha era engenheiro; construía pontes (nem jornalista era). O Rubem Fonseca trabalhou um tempão na Light (foi também delegado de polícia, como todo mundo sabe). O Ferreira Gullar foi escrever roteiro e dramaturgia na Globo. O Mário de Andrade não foi ao casamento do Fernando Sabino por falta de grana. O Oswald de Andrade era dono do bairro inteiro de Cerqueira César (vulgo “Jardins”), em São Paulo, e torrou toda a sua fortuna com esse negócio de ser escritor. O Álvares de Azevedo morreu aos 22 anos; o Castro Alves, aos 24. O Luis Fernando Verissimo – o bem-amado da capa da Veja, que vende milhões de exemplares todos os anos – mora até hoje na mesma casa que foi de seu pai (Érico Verissimo, também escritor). O Paulo Coelho ficou milionário, tá, mas só. E alguém aqui quer imitá-lo?

Agora, vocês, com vinte, trinta anos, que querem viver de literatura (ou viver de escrever), acham que dá. Não é por que vocês querem que vai dar. Sinto lhes informar.

O problema de escrever é um só. É gostoso; é terapêutico; alivia que nossa… Mas não resolve os nossos problemas, de escritores. O escritor geralmente começa na adolescência, com um diário (eu disse “diário”, não disse “blog”). Tem um problema qualquer – de carência, de insegurança, de auto-afirmação – e dá-lhe diário pra extravasar. Como eu disse, é terapêutico, funciona. O problema continua lá (escrever não resolve), mas parece que – depois de escrever – fica mais fácil lidar. Esse é o problema, na verdade. A maioria dos escritores carrega essa muleta para a vida inteira (“Os escritores – ao contrário de todas as outras pessoas – não conseguiram se livrar do diário”, Martin Amis na Flip 2004), e quando a coisa aperta, mais lá na frente, dá-lhe diário ou o que estiver no lugar (agora pode colocar “blog”). Como os problemas não se resolvem escrevendo, o escritor começa a colocar a culpa nos que estão em volta: pais, professores, namorada, esposa, chefe, sociedade, governo, essas coisas. A escrita vira uma fuga e ele desiste de resolver os problemas que – porque o mundo está contra ele – não se resolvem mais. Então procura uma solução mágica.

Esse Movimento Literatura Urgente é mais uma solução mágica para resolver o problema do escritor. Uma mesada, um subsídio, uma parte dos impostos, sei lá, não importa. Os escritores não se convenceram até agora de que não vão viver apenas de publicar. Ainda mais no começo da carreira…

Se eu, pela minha experiência, tivesse um conselho para quem pensa em ser escritor – e deixar tudo pra trás para se dedicar –, meu conselho seria: não largue, não deixe tudo pra trás. Se você tem um emprego, não deixe seu emprego. Se você tem uma profissão, não largue sua profissão. Porque ser escritor não é emprego, não é profissão, não é cargo. Ainda não descobriram uma maneira de se viver só de publicar. E não é só no Brasil – em nenhum lugar.

O problema – da Geração 90, agora – é que eles acreditaram que dava pra viver de publicar. Eles viram a miragem – largaram tudo –, caminharam até lá e depois descobriram que não havia nada. Percorreram o arco-íris inteiro mas o pote de ouro não estava lá no final. Saíram na Folha, falaram na televisão, tocaram no rádio, embarcaram para feiras (ou festas ou jornadas) literárias, bienais, fundaram editoras, foram contratados por “editora grande”, montaram blogs, o escambau – mas, enfim, descobriram que não adiantava nada. Porque não existe mercado editorial no Brasil. O mercado editorial daqui é uma ficção! Não temos leitores, as tiragens são simbólicas, os livros são considerados caros, proporcionalmente quase ninguém compra, e a porcentagem que o escritor recebe é aquela que vocês já sabem: 10% ou menor, muito menor. Vamos fazer uma conta rápida: as tiragens máximas são de 3 mil exemplares; vender mil (um mil) no Brasil (estou falando de escritor relativamente novo) é um estrondo; um livro de R$ 50 (preço de capa – livro caro), mil exemplares, 10% para o escritor; dá 5 mil reais. Cinco mil reais para viver um, dois anos – dá menos do que os 500 reais mensais (de adiantamento) que eu citei no primeiro parágrafo.

E como é que vocês foram achar que dava?

Então o escritor – da Geração 90, da Geração 2000, sei lá – acabou de concluir que não dá. Tenta outras formas de remuneração (afinal, já largou tudo: amigos, família, profissão – às vezes, nem tem pra largar): jornalismo, cinema, etc. Jornalismo também não dá. Escritores e jornalistas precisam conversar. O escritor – que não é jornalista – não é, portanto, contratado do jornal (da revista, sei lá). Colabora mas quase nunca recebe (é colaborador, não é do staff). Ou recebe, mas recebe mal (de novo, nem aqueles 500 reais). A mídia está quebrada, cara, não te contaram? Cinema. Ele ouviu falar que o Marçal Aquino ganha uma grana para roteirizar. Mas é o Marçal. O Marçal tem quantos anos nas costas de sua carreira de escritor? E a indústria cinematográfica brasileira vive – ainda – uma situação de instabilidade periclitante. As leis de incentivo podem mudar. O cinema brasileiro pode acabar, como acabou – de uma hora pra outra – na era Collor, porque acabaram os subsídios, a isenção de impostos, blablablá. E quem ganha com cinema é profissional de imagem. R$ 8 mil, por semana, para um diretor de arte. Escritor não é diretor de arte.

“E, agora? Devo me jogar da ponte?” Não, não deve; mas deve olhar os dois lados da questão. Por causa da internet (eu não disse “por culpa”), temos cada vez mais escrevinhadores. Inflacionou o mercado. É natural que escrever – que já não valia nada – agora valha menos do que nada. Os escritores vão ter de pagar pra publicar. Aliás, já está acontecendo. Vocês são escritores da Geração 90, vocês sabem. Quantos não tiveram de editar com dinheiro do próprio bolso para poder começar? Eu acho que – tirando quem tirou a sorte grande – todos tiveram de se (auto-)editar. Agora olhem para os empregadores de escrevinhadores como nós. Se você não aceitar colaborar a troco de nada (ou a troco de uma remuneração aviltante), numa revista ou num jornal, alguém vai aceitar. A oferta é enorme. Cinema, mesma coisa. O resto, mesma coisa (tradução, mesma coisa). E quanto mais blogs, e quanto mais ferramentas de publicação, pior. Mais escrevinhadores passando fome. É uma tendência que não dá pra mudar.

Aí os escritores que já partiram pro tudo ou nada (independentemente da sua qualidade literária) chegam a essas mesmas conclusões e começam a se desesperar. Apelam então. Exigem desvio de impostos, ou alíquotas, para um Movimento que vai – em princípio – lhes garantir maneiras de se sustentar. Ou seja: mais uma vez, eles não querem resolver seus problemas próprios, mas querem que o governo – ou o mercado editorial, mediante uma taxa – resolva (ou facilite o seu lado). Nada contra palestras e circuitos literários, e oficinas, e colóquios, e o escambau, mas isso não resolve. É que nem acreditar que o Fome Zero resolve o problema da fome. Não resolve. É artificial. Amanhã, o governo muda, as taxas mudam, baixam uma portaria, e voltamos à aridez do cinema da era Collor. Não adianta se pendurar no estado, não adianta querer impor – à força – um número crescente de escritores, ao mercado (e ao público), que o Brasil (ou qualquer país) não comporta.

As soluções – se é que elas existem – são as mesmas e não são de agora. Educação, leitura, livros baratos, poder aquisitivo, cultura, hábito, bons escritores. O melhor que o escritor pode fazer agora é escrever o melhor que pode, e esperar. Que venha uma nova geração. Que venham novos leitores. (A geração internet, quem sabe?) Que o Brasil avance. Que o mercado editorial se desenvolva… O caminho é o mesmo em todo lugar.

E, óbvio, a maioria dos “escritores” que estamos vendo aí hoje vai “rodar”. É a lei da selva. É a seleção natural. Sobram os melhores. Não adianta impor cotas, não adianta querer sustentar uma casta se a mesma sociedade – em que se circunscreve essa casta – não parece, naturalmente, inclinada a sustentá-la. Sem mencionar um simples fato: que critérios vamos adotar? Os fundadores do Movimento Literatura Urgente têm prerrogativa na hora de administrar (e de ministrar) as verbas? É triste, mas, mais uma vez, os escritores brasileiros estão deixando de se envolver com literatura para se envolver com política. Não podem querer transmitir, para a sociedade, o ônus de uma escolha pessoal. Uma escolha problemática.

Julio Daio Borges

São Paulo, 29/7/2005

Por que não estudo literatura?

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 3:26 pm

A principal função da Literatura – a educação sentimental, digamos assim – desaparece quando a dedicação aos livros se torna obrigatória e mecânica.

Eduardo Carvalho

Por que não ler os clássicos

Filed under: Aqui o mal geral,Mal do dia — maldemontano @ 3:08 pm

Terça-feira, 3/6/2008
Não gostar de MachadoDaniel Lopes

Não gostar de Machado de Assis, no Brasil, é arriscado. Quero dizer, se você sair por aí dizendo que não gosta. Mesmo se lhe foi pedida uma opinião. Você não corre o risco de ser surrado (não sei se essa garantia serve caso você esteja nos corredores da ABL), mas com certeza receberá aquele olhar de piedade que apenas os seres superiores sabem produzir.

Você é criticado por não gostar de Machado mesmo por quem nunca o leu, ou, ainda pior, por quem o leu e também não gostou, mas ainda assim… patrimônio nacional é patrimônio nacional. Mexer com Machado é quase como mexer com a Amazônia. Quase, nada, é pior, muito pior. Se Al Gore quer saber o que é realmente bom pra tosse, que experimente, em vez de dizer que a Amazônia é do mundo, declarar que Machado é “um escritor de segunda”, como já opinou Millôr Fernandes.

Há pouco tempo, um leitor do Digestivo, comentando no meu perfil, se revoltou contra o fato de eu ter escrito que “ainda no colégio, nunca consegui gostar de Machado de Assis, e apenas quando já havia entrado na universidade pude compreender que não perdera nada”. Também concorreu para aumentar a indignação do leitor o fato de eu ocupar espaço no Digestivo com textos sobre livros de autores estrangeiros, insignificâncias como J. M. Coetzee e Nathaniel Hawthorne: “Não gostar do Machado e gostar de escritores estrangeiros bem traduz esta juventude de hoje influenciada pela cultura americana e outras, que entram nos nossos ouvidos diariamente pela mídia e também por livros”.

O autor da mensagem assinou como Delton. Eu lhe enviei uma resposta, mas esta voltou, acusando e-mail inválido.

Seja como for, assim que li seu comentário lembrei de algo que me ocorreu logo que entrei no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí. Foi em 2003. Certo dia, entre uma aula e outra, estou a folhear no corredor um livro de George Orwell, quando um rapaz mais ou menos da minha idade pára sua caminhada simplesmente para dizer que eu sou um alienado. Eu levanto os olhos e o vejo erguendo um livro de José de Alencar. “Já leu isso?”, perguntou. Sou um sujeito muito tímido, não gosto de discutir nem com gente inteligente. Disse apenas que “já, é um livro muito ruim”. Nem vi direito o título, mas se era José de Alencar só podia ser algo chato, e eu queria me livrar do rapaz o mais rápido possível. Ele resmungou e foi embora.

Hoje penso que ele devia ser um desses membros do movimento estudantil que gastam mais tempo se movimentando do que estudando. Não sei se ele viu que o livro do Orwell era em inglês, pois eu estava começando a estudar inglês. Acho que não viu. Se tivesse visto, a bronca poderia ter sido maior. Com certeza, ele não sabia da história de vida de George Orwell. Tomara que, de 2003 para cá, a militância do jovem fã de Alencar em um partido político ou outro lhe tenha deixado algum tempo de sobra para aprender sobre a participação de Orwell na Guerra Civil espanhola, do lado dos republicanos e contra os fascistas ― experiência que gerou o livro Homage to Catalonia.

Nacionalismo literário
“Triste do povo que precisa de heróis”. O que diria então Bertolt Brecht da carolice de uma intelectualidade nacional que precisa de heróis para se sustentar?

Sempre duvidei que alguém em sã consciência, se lhe fosse dado dois livros, um de George Orwell e um de José de Alencar, ao cabo das leituras preferisse Alencar. Se preferir, não discriminarei. Juro. Mas duvido que prefira.

É verdade que Machado de Assis não é tão ruim quanto José de Alencar. Se, conforme disse em recente entrevista ao jornal Rascunho o professor e escritor sergipano Antonio Carlos Viana, “dar Machado de Assis para um menino de 15 anos é querer que ele não goste de literatura, nunca mais”, o que dizer do trauma gerado em um jovem que é forçado a ler coisas como Senhora? Viana diz ter acabado de escrever um livro em que indica 45 autores indispensáveis para que alunos do segundo grau tomem gosto pela leitura ― entre os quais, Franz Kafka e John Fante. Estou com ele.

Aliás, por que mesmo nossas crianças e jovens são torturados com obras monstruosas da literatura brasileira e portuguesa, ao mesmo tempo em que são privados dos grandes clássicos da literatura universal? É claro que existem excelentes obras brasileiras ― é difícil, por exemplo, imaginar um estudante não se divertindo e se comovendo com Memórias de um sargento de milícias ou Triste fim de Policarpo Quaresma. Mas por que, em vez de incluir estorvos do período romântico brasileiro, nossas grades curriculares não permitem aos mestres trabalhar novelas de Herman Melville, Gogol e Tolstoi, contos de Jack London e por aí vai? É para “valorizar o que é nosso”?

Mas enquanto a função principal dos nossos professores de literatura for fazer os alunos detestarem a literatura, o tipo de produto literário nacional que os estudantes irão comprar em sua vida adulta será, no máximo, as obras completas de Paulo Coelho, empilhadas estrategicamente na estante da sala, unicamente para fins de enfeite.

De cada 100 jovens que entram na universidade (tendo feito belos pontos nas provas de literatura), quantos se tornarão adultos apreciadores da literatura relevante, nacional e internacional? Sejamos benevolentes, suponhamos que esse número seja de 10. Desses 10, quantos devem à escola essa dádiva? 1. Podem sair pesquisando por aí. Os outros 9 se comportaram de forma rebelde na juventude, fingindo que liam poesia parnasiana, apenas para fazer a média na prova, enquanto que, na surdina, encontravam em sebos e bibliotecas o que realmente lhes dava prazer e o que de fato os transformou em leitores maduros ― alguns, até, apreciadores de Machado de Assis.

E para constar. O que respondi ao leitor Delton no e-mail que não foi entregue, em resumo, foi que

― é verdade, não gosto de Machado de Assis. E não é porque nunca o li, ou não entendi as estórias. Sim, li algumas e as compreendi, mesmo as que abandonei pela metade. O que não quer dizer que no futuro, em novas leituras, não possa vir a gostar dele. Mas não sinto a menor obrigação de fazê-lo;

― é uma besteira achar que se alguém não gosta de Machado ou qualquer outro escritor é porque tem que crescer mais “literaturalmente”. Claro, eu tenho muito que evoluir, e espero evoluir sempre. Mas quem garante que, lá pelos 140 anos, tendo evoluído continuamente, ainda assim eu não vá gostar de Machado? Ou será que se o sujeito tem 100 anos e não gosta de Machado é porque ele não evoluiu o suficiente? E quem gosta de Machado aos 15 anos já atingiu o ápice de sua vida “literatural”? Que bobagem, não é mesmo?

― eu lhe asseguro que é muito bom ser influenciado por culturas de fora, dos EUA, da Europa, Oriente, África, Marte… Tão bom quanto ser influenciado pela cultura local. Acredite, há porcaria escrita em todo lugar, e em todo lugar há coisa boa à nossa espera. Pergunte a Machado, que era fã de carteirinha de Montaigne e Laurence Sterne.

Daniel Lopes
Teresina, 3/6/2008

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