Mal de Montano

outubro 6, 2008

Capitu mandou flores no centenário da morte de Machado

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Por Linaldo Guedes

 

 

Rinaldo de Fernandes tem se destacado na literatura brasileira contemporânea como contista e antologista. Doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP, é professor de literatura brasileira na Universidade Federal da Paraíba. Obteve em 2006, com o conto “Beleza”, o Prêmio Nacional de Contos do Paraná, um dos mais tradicionais da literatura brasileira. Autor dos livros de contos O Caçador (1997 – Ed. da UFPB) e O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) e da novela inédita Rita no pomar. Organizou e lançou nacionalmente as seguintes antologias: O Clarim e a Oração: cem anos de Os sertões (São Paulo: Geração Editorial, 2002); Chico Buarque do Brasil (Rio de Janeiro: Garamond/Fundação Biblioteca Nacional, 2004); Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (São Paulo: Geração Editorial, 2006); e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Rio de Janeiro: Garamond, 2006).

 

Está lançando em 10 de julho próximo, pela Geração Editorial (SP), a sua mais nova antologia, intitulada Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos 100 anos de sua morte. A antologia, reunindo um conjunto de excelentes escritores brasileiros, está prevista para ser lançada em João Pessoa em agosto. Veja mais detalhes sobre esse importante lançamento na entrevista abaixo.

 

 

Como surgiu a idéia de lançar a antologia Capitu mandou flores, reunindo textos de, sobre e baseados em Machado de Assis?

 

Rinaldo de Fernandes – Em 2006 organizei a antologia Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, que foi publicada, numa bela edição, pela Ed. Garamond, do Rio de Janeiro. Foi um livro muito bem recebido, sendo hoje – pelo que acabo de ser informado numa nota do Diário de Pernambuco – objeto de estudo até na Sorbonne. Nas Quartas histórias foram recriados todos os contos do livro Sagarana, que Guimarães Rosa publicou em 1946, e trechos e situações do romance Grande sertão: veredas, que é de 1956. Na época eu já tinha o projeto de organizar uma nova antologia, desta vez em torno de Machado de Assis. Fiz, ainda em 2006, uma enquete com 17 escritores brasileiros para escolher os 10 melhores contos de Machado. Feita a escolha, convidei 35 autores para o trabalho de recriação.   

 

 

Como está estruturada a antologia?

 

Rinaldo de Fernandes – A antologia, intitulada Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos 100 anos de sua morte, que está saindo pela Geração Editorial (SP), se compõe de três partes: na primeira, há a recriação dos 10 melhores contos de Machado de Assis (aqui, abrindo cada uma das seções, constam os 10 melhores contos do autor de “Missa do Galo”); na segunda, há 5 contos recriando trechos e situações do Dom Casmurro (um resumo do romance foi feito pela professora da UFPB Sônia Maria van Dijck Lima); e na terceira, há 5 ensaios exclusivos sobre a obra de Machado, tratando do ficcionista, do dramaturgo e do poeta. Ensaios de Silviano Santiago, Luiz Costa Lima, Pedro Lyra, Regina Zilberman e André Luís Gomes (professor da UnB).

 

 

Quais os 10 melhores contos de Machado escolhidos na enquete e que são recriados na antologia? Que autores os recriaram?

 

Rinaldo de Fernandes – Os contos de Machado, na ordem da escolha na enquete, são: “Missa do Galo”, “A Cartomante”, “O Espelho”, “Noite de Almirante”, “A causa secreta”, “Pai contra mãe”, “O Alienista”, “Uns braços”, “O Enfermeiro” e “Teoria do medalhão”. Foram reescritos na antologia pelos seguintes autores: Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Cecília Prada, Nelson de Oliveira, André Sant’Anna, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Ivana Arruda Leite, Andréa del Fuego, Marcelo Coelho, Deonísio da Silva, Bernardo Ajzenberg, João Anzanello Carrascoza, Antonio Carlos Secchin, Leila Guenther, Marilia Arnaud, Rinaldo de Fernandes, Raimundo Carrero, Mário Chamie, Aleilton Fonseca, Tércia Montenegro, Maria Valéria Rezende, Amador Ribeiro Neto, Carlos Gildemar Pontes, Aldo Lopes de Araújo, Suênio Campos de Lucena, Carlos Ribeiro, Ronaldo Cagiano, Sérgio Fantini e Maria Alzira Brum Lemos. Participo com o conto “Beleza”, que obteve em 2006 o Prêmio Nacional de Contos do Paraná e cuja epígrafe é retirada de “O Alienista”.

 

 

E os autores que recriaram passagens do romance Dom Casmurro?

 

Rinaldo de Fernandes – Foram Hélio Pólvora, Daniel Piza, Godofredo de Oliveira Neto, W. J. Solha e Nilto Maciel.

 

 

Esta não é a sua primeira antologia sobre um autor de renome. Antes, já havia feito outras, sobre Euclides da Cunha (O Clarim e a Oração), Chico Buarque (Chico Buarque do Brasil) e Guimarães Rosa (Quartas histórias). Que critérios você utiliza na seleção dos autores que são incluídos nas antologias?

 

Rinaldo de Fernandes – O primeiro, e principal, é o critério do bom texto. Todos os autores que convido já têm obras publicadas e, alguns deles, um trabalho já consagrado. Normalmente, junto consagrados, emergentes e jovens promessas. Além disso, não priorizo o eixo Rio-São Paulo, convidando autores de várias regiões. O Nordeste (a Paraíba, Pernambuco, o Ceará e a Bahia, em especial) tem sido sempre muito bem representado em minhas antologias. Há ótimos contistas aqui na Paraíba, a exemplo de Marilia Arnaud, Aldo Lopes e Geraldo Maciel, para citar só estes três. O trabalho que desenvolve o Clube do Conto é dos mais importantes, admiro muito.

 

 

De um modo geral, os autores convidados a participarem das antologias têm correspondido às suas expectativas?

 

Rinaldo de Fernandes – Sim. Aqui e ali, até pela natureza de minha proposta – a recriação de autores clássicos de nossa literatura –, há casos em que tomo a liberdade de sugerir algumas mudanças no texto. Isto é raro acontecer, mas, quando acontece, os autores entendem o meu gesto, sabem que eu, no trabalho de organizador, estou tendo uma visão de conjunto dos textos da coletânea. Os colaboradores de minhas coletâneas, além de competentes, sempre foram muito gentis comigo.    

 

 

Nesta antologia sobre Machado de Assis, que resultados lhe surpreenderam?

 

Rinaldo de Fernandes – Vários. Como organizador, até por uma questão de ética e de respeito pelo conjunto dos autores, não acho bom ficar citando os melhores textos da coletânea, mesmo porque cada um dos textos tem sua história e momento de produção. Vou recebendo os contos e montando o livro – e cada conto tem seu valor próprio. Posso adiantar que o conto do Moacyr Scliar, recriando “Missa do Galo”, é excelente. Mas na coletânea há outros tantos contos excelentes, e prefiro, como disse, não citá-los. Gostaria, por outro lado, de aproveitar para dizer uma coisa que considero importante: todas as minhas antologias são revisadas por mim mesmo – normalmente não aceito os revisores das editoras. Não é por desconfiança no trabalho desses profissionais, é por um critério próprio. Sinto-me mais seguro assim, além de acompanhar de perto o trabalho dos colaboradores. É muito trabalhoso organizar antologias, há que ter muita responsabilidade, mas tenho muito prazer em prepará-las.

 

 

Você sempre procura encaixar autores paraibanos nessas antologias. Fale um pouco sobre isso.

 

Rinaldo de Fernandes – Já participaram de minhas antologias cerca de 25 autores da Paraíba. Ou como contistas, ou como ensaístas, ou como poetas. Mas eu sempre faço o convite baseado no critério, já referido, da qualidade do texto. Sempre convido escritores cujos textos eu conheço e admiro. Na Paraíba há ótimos escritores, que estão entre os melhores autores do País. Alguns deles deveriam ter mais oportunidades no mercado editorial, que ainda é muito excludente.

 

 

Estamos no centenário da morte de Machado de Assis. Qual a importância de sua obra para a literatura universal?

 

Rinaldo de Fernandes – Machado é um caso extraordinário, de autor da chamada periferia (dos países ocidentais) que se eleva a gênio. Ele desperta interesse e é atual tanto pela absoluta genialidade em investigar a alma humana, em entender os mecanismos de ambigüidade dos seres, sempre divididos entre o prestígio e o prazer, sempre interessados em si mesmos, como pela enorme capacidade de representar o Brasil de seu tempo, tanto o sistema social com o político. Machado se utilizou da ironia como o recurso mais apropriado para o material humano e social que estava retratando. E tornou-se, em nossa literatura, um mestre insuperável do romance e do conto, sobretudo.

 

 

Há alguma influência de Machado de Assis em sua obra?

 

Rinaldo de Fernandes – Penso que sim. Sempre que vou construir os personagens dos meus contos, tenho em mente o processo machadiano. Machado é cruel, sugestivo. E isto eu aproveito no momento da criação dos meus protagonistas (o advogado do meu conto “O perfume de Roberta” é uma figura escorregadia, inteiramente machadiana; como é também a madrasta do protagonista do conto “Beleza”). Todos os personagens machadianos – ou quase todos – são suspeitos. São dadas pistas pelo narrador que deixam uma sugestão de base, e de repente nos encontramos diante do ambíguo absoluto. O que Conceição, a mulher casada do conto “Missa do Galo” (um dos recriados na antologia), faz naquela sala conversando com o adolescente? Que ser mais sugestivo e insinuante é a Conceição, hein? Não somos quase sempre assim, sugestivos e insinuantes, quando estamos atrás de nossos interesses?

 

 

E na literatura contemporânea, você vê influências machadianas em algum autor ou nossos escritores contemporâneos se influenciam mais pelas experimentações de linguagem de um Guimarães Rosa, por exemplo?

 

Rinaldo de Fernandes – Guimarães Rosa é um caso à parte. É o nosso autor mais inventivo no séc. XX. É, portanto, inimitável na linguagem. A psicologia machadiana é base para grandes escritores. Lygia Fagundes Telles (lembremos, por exemplo, do conto “Antes do baile verde”) e Dalton Trevisan (quase tudo nele) são autores profundamente machadianos, no meu entender.

 

 

Que conto ou romance de Machado de Assis você prefere e por quê?

 

Rinaldo de Fernandes – Os três romances capitais de Machado são Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. A história de Capitu e Bentinho (Dom Casmurro) é a minha preferida. Os 10 contos que estão na antologia Capitu mandou flores são extraordinários. Talvez pelo fato de eu os ter lido e relido várias vezes na preparação do livro, terminei os tendo como os meus preferidos também. “Missa do Galo”, “O Espelho”, “O Enfermeiro”, “O Alienista” e “A causa secreta”, para só citar estes cinco (dos cerca de 200 contos escritos por Machado), são peças riquíssimas, que retratam com muita força a natureza humana. Estão, certamente, entre os melhores contos da literatura universal.  E há retrato mais pungente da escravidão do que um relato como “Pai contra mãe”? Penso que não.

 

 

A antologia será lançada em São Paulo dia 10 de julho. E na Paraíba, alguma previsão?

 

Rinaldo de Fernandes – O lançamento nacional de Capitu mandou flores será dia 10 de julho, na Livraria da Vila, em São Paulo, com a minha presença e a de vários colaboradores do livro. Depois haverá os lançamentos regionais, dos quais participarei também: Belo Horizonte (dia 11 de julho), João Pessoa, Fortaleza, Salvador, São Luís, etc. Em João Pessoa o lançamento deverá ocorrer, muito provavelmente, na primeira semana de agosto.

 

 Fonte: Cronópios

 

 

(Entrevista concedida ao jornalista e poeta Linaldo Guedes, publicada no jornal A União, de João Pessoa-PB)

 

 

 

Capitu mandou flores
Autor: Rinaldo de Fernandes – Contos
Formato 16X23 cms, 528 págs.
ISBN: 978-85-61501-02-0
Cód. barra: 978-85-61501-02-0
Peso: 0.7 kg.
R$ 49,90
Descrição:
Nos cem anos da morte de Machado de Assis, 40 escritores brasileiros recriam seus 10 melhores contos – mais trechos e situações do romance DOM CASMURRO – e escrevem sobre a obra do maior escritor brasileiro de todos os tempos. A presente edição publica os 10 contos originais nos quais se basearam estes autores para levar adiante este enorme desafio: recontar, à luz de hoje, histórias que Machado de Assis tornou eternas.
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