Mal de Montano

setembro 18, 2008

Vale a pena ler de novo…

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PENSAR – Correio Braziliense (31/07/2004) / Estado de Minas (07/08/2004)

Caminhos da arte total
Professora de literatura da UFMG, escritora e especialista na obra de Peter Greenaway, Maria Esther Maciel lança livros de ficção e ensaios

por SÉRGIO DE SÁ

Zenóbia não é personagem do filme Alta Fidelidade mas adora listas. De “peixes perplexos”, de “cidades
raras”, de “ervas daninhas”, de “livros de cabeceira”. A criadora de Zenóbia, Maria Esther Maciel, garante não ser muito boa em ordenar coisas. “Listas são limitadas, excludentes e insuficientes”. Ainda assim, arrisca dizer que os cinco artistas que mais admira são Leonardo da Vinci, Vermeer, Arthur Bispo do Rosário, Peter Greenaway e Keith Jarrett. Mas poderiam ser também Paul Klee, J.S. Bach, M.C. Escher, Lygia Clark e Élida Tessler. Isso, sem incluir os escritores. É bem provável que Greenaway ficasse em primeiro lugar numa classificação imaginária. Do contrário, Maria Esther não teria feito pós-doutorado em Londres sobre o diretor de A Barriga do Arquiteto e O Livro de Cabeceira. Do contrário, também não teria organizado livro de textos sobre o cineasta, O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway, e tampouco teria dedicado vários ensaios a ele em A Memória das Coisas, ambos publicados há pouco. Além desses dois títulos, a lista das obras de Maria Esther Maciel, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e poeta de mão-cheia, acaba de ganhar a prosa tão enxuta quanto impactante de O Livro de Zenóbia, aquela que gosta de elencar esquisitices.

Sobre ela, sobre saberes múltiplos e, em especial, sobre Greenaway, gira o papo que se lê a seguir.

Três livros de uma tacada. Organização, ficção, ensaística. E a inevitável visibilidade midiática. É muita coisa de uma vez só para uma mineira?

Maria Esther Maciel – Dizem que os mineiros trabalham em surdina. Vim elaborando esses livros ao longo dos últimos três anos, sem alarde. O primeiro a ficar pronto foi O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway, que permaneceu na editora por mais de um ano. Fechei A Memória das Coisas em agosto do ano passado, e O Livro de Zenóbia, iniciado há dois anos, só ganhou impulso a partir de janeiro. Por coincidência, os três saíram simultaneamente, o que deu margem para se pensar que preparei os três de uma vez só, em ritmo voraz. Mas, não. Foi tudo construído aos poucos, de acordo com as demandas internas e externas. Se, por um lado, publicar os três juntos trouxe um certo desconforto, por outro, creio que isso acabou por ser interessante, pois acho que um livro completa, de certa forma, o outro. Eles compõem uma tríade coerente com as minhas inquietações dos últimos anos. Sei que agora entrarei em um momento de elaboração silenciosa do que possivelmente virá (ou não) nos próximos anos.

Zenóbia parece personagem de um romance clássico. Tem força descomunal, mas é apresentada ao leitor em fragmentos. A diluição do narrador é proposital?</em>

MEM – Sempre considerei que o maior desafio para um escritor que se aventura na escrita de um romance é construir suas personagens, dar a elas não apenas um nome, um rosto, uma identidade civil, mas também uma vida que, por mais ficcional que seja, possa trazer uma espécie de realidade intrínseca. Os autores clássicos se esmeraram nesse trabalho e chegaram a criar personagens maiores do que a própria trama que as envolve. Isso sempre me fascinou. Por outro lado, não sou muito afeita ao modelo realista de narrativa, pautado nos princípios da sucessividade temporal. Eu queria construir uma personagem convincente, mas que fosse sendo constituída através de traços, reminiscências, imagens, sensações do narrador e de outras personagens. Zenóbia, ao contrário das personagens clássicas, não se apresenta inteira, completa, bastante: ela vai surgindo aos fragmentos, no ritmo esgarçado da memória dos que conviveram com ela, dos que souberam (ou imaginaram) algo de sua vida. Se tem alguma força, ela se deve à soma de seus gestos, pensamentos, palavras, atitudes, desejos. Seu cotidiano é feito de miudezas, de coisas banais. E ela busca extrair disso pequenas epifanias e assombros.

Há uma clara vontade de recuperação de lirismo, não?

Como se a realidade estivesse esgotada em vários sentidos, principalmente como norte da literatura brasileira…

MEM – Ando meio cansada do realismo exacerbado que tomou conta da literatura brasileira contemporânea. E avessa ao formalismo asséptico, desvitalizado, que ainda predomina em boa parte da poesia que se faz hoje no Brasil. Em O Livro de Zenóbia tentei, sim, recuperar um certo lirismo, mas que não exclui, necessariamente, o traço irônico, a dimensão trágica e o humor sutil. Tendo cada vez mais ao exercício de uma escrita livre de coerções temáticas e formais, busco me desvencilhar da tirania da metalinguagem e da intertextualidade explícita – práticas já exauridas, debilitadas – e buscar outras possibilidades estéticas para o meu trabalho. Abrir-me às impurezas da experiência, à força do trágico e ao êxtase do sublime. Não renegar o prosaico nem sucumbir ao realismo. Apostar na delicadeza como um antídoto contra a truculência do mundo, da realidade.

Jorge Luis Borges é de fato a melhor conexão da literatura com o cinema de Peter Greenaway?

MEM – Costumo dizer que, para quem assiste a um filme como O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, ou O Livro de Cabeceira, sem um prévio conhecimento de outros trabalhos de Peter Greenaway, é quase impossível aceitar uma associação entre ele e Borges. Onde estariam, no escritor argentino, a escatologia, o erotismo explícito, o transbordamento barroco, o delírio visual? Mas se atentarmos para certas estratégias ficcionais desses e outros filmes de Greenaway, veremos que as afinidades são muitas: o apreço pelos embustes autorais (sobretudo nos pseudodocumentários do diretor), o olhar enciclopédico sobre o mundo, o exercício das taxonomias insólitas, o gosto pelo artifício e pelas simetrias, a profusão de referências eruditas, a concepção do universo como uma biblioteca de babel. Talvez o filme de Greenaway mais borgiano seja A Última Tempestade. Trato disso com detalhes em um dos ensaios do livro A Memória das Coisas. Mas além de Borges, outros escritores são referências importantes para o cinema greenawayno, como James Joyce, Lewis Carroll, Italo Calvino, Georges Perec, Dante e Shakespeare. Mas menos sob a perspectiva dos temas e dos enredos do que sob a perspectiva da linguagem e dos procedimentos poéticos e ficcionais.

O que você diria para convencer alguém de que vale a pena ver e conhecer Greenaway?

MEM – Greenaway é um dos poucos cineastas contemporâneos que ainda ousam na experimentação de novas formas e linguagens, sem que isso signifique uma recusa do passado. Ele leva o cinema a transbordar de seus próprios limites, a expandir-se para além da tela. Sua erudição criativa possibilita-lhe trazer para um mesmo topos o legado cultural de diferentes tradições – entre elas, a do renascimento e a do barrroco –, as experimentações da vanguarda, as inovações tecnológicas e as referências culturais do presente. Transita, com desenvoltura, em vários campos do saber, sejam eles os da literatura e das artes em geral, sejam os da culinária, da arquitetura, da moda, da zoologia e da anatomia. E não se furta a explorar o estranho, o escatológico e o insólito. Além disso, não faz concessões aos imperativos da indústria cinematográfica e assume uma postura extremamente irônica perante o culto contemporâneo do chamado “politicamente correto”. É ainda um crítico dos sistemas de organização e classificação do mundo e do conhecimento. Um artista completo, que reedita, no contexto do século XXI, a intrigante e instigante figura do artista/intelectual transdisciplinar, de feição renascentista.

O intelectual não pode mais ficar parado no mundo contemporâneo?

MEM – Vivemos, hoje, sob o signo da multiplicidade, da confluência entre as artes e os campos disciplinares. Cabe ao intelectual contemporâneo estar atento a isso. A especialização e a fixidez do conhecimento já não condizem com as demandas do nosso tempo. O movimento, o trânsito, a abertura à alteridade são as linhas de força que nos definem. Greenaway é diretor de ópera, escritor, pintor, curador. De alguma maneira, ele reedita essa figura do artista renascentista. Algo que tem a ver também com a idéia de Arte Total, de Wagner. Ele tenta reconstituir essa figura para mostrar que o cinema tem que se abrir para essas outras linguagens, que as artes e os campos de saber estão aí também para serem mesclados, conjugados. Além disso, aposta na idéia de que uma das formas de se revitalizar o cinema é buscar os recursos que as outras artes podem oferecer.

Qual filme dele é seu preferido e por quê?

MEM – É difícil dizer qual é o meu preferido. Talvez seja O Livro de Cabeceira, por ser o mais poético. Nele, erotismo e escrita se entrelaçam de forma magnífica. A tela se transforma em várias ao mesmo tempo, graças aos inventivos experimentos tecnológicos usados ao longo de todo o filme. Sucessão e simultaneidade se mesclam na narrativa. E o mais interessante é que a obra literária que lhe serve de referência não é um livro com trama e enredo, mas o diário de uma poeta japonesa do século X, Sei Shonagon, cheio de listas e apontamentos sobre coisas da natureza e trivialidades da corte. Greenaway inventa um enredo para o filme e busca no livro de Shonagon a atmosfera, a linguagem, as listas e as imagens. Compõe um filme de grande poder de sedução visual, que inverte os procedimentos tradicionais da adaptação.

Greenaway é um escritor legível?

MEM – Por incrível que pareça, não é um escritor barroco ou experimental. Seus textos são límpidos e escorreitos. A maioria é de narrativas curtas, que trazem histórias prosaicas, mas o tempo todo assaltadas pelo insólito, pelo nonsense. Têm humor e ironia. Inteiramente legíveis e digeríveis. O mesmo se pode dizer de seus ensaios.

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Livros de Maria Esther Maciel

A Memória das Coisas
Editora Lamparina,160 páginas, R$ 22

O Livro de Zenóbia

Editora Lamparina, 160 páginas, R$ 29,50

O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway

Unimarco Editora, 216 páginas, R$ 25,00

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