Mal de Montano

setembro 23, 2008

Reflexão!

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 11:23 pm

Escrever fácil é muito difícil.

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‘Literatura brasileira presta desserviço à leitura’

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 5:11 pm

 

Professor da pós-graduação em Comunicação da UFF, ex-subreitor da Estácio de Sá, o jornalista Felipe Pena estréia na ficção criticando o ambiente em que tem transcorrido sua vida profissional: a universidade brasileira. “O analfabeto que passou no vestibular” (7 Letras) é anunciado como um romance-denúncia sobre o ensino superior em nosso país, e nesta entrevista Pena critica tanto a mercantilização do saber nas instituições privadas quanto a obscuridade da linguagem usada em cursos prestigiados. Um hermetismo, diz, que se faz presente também na literatura brasileira contemporânea, segundo ele chata e besta.

Esse livro, para você, é basicamente um meio de levantar uma discussão sobre o ensino universitário brasileiro, ou você tem também ambições literárias, espera ser reconhecido como escritor?


Não tenho pretensões literárias com este livro nem com o próximo, que está quase pronto. Não faço literatura, faço ficção. A literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.


Após fazer mestrado e doutorado em Literatura Brasileira, não tenho dúvidas de que são os mestres e doutores que prejudicam a formação de um público leitor no país. A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores universitários se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. As teses e dissertações seguem regras rígidas justamente para garantir essa perpetuação de poder. E isso se reflete na literatura.

Enfim, tento seguir na direção contrária. Escrevo para ser lido, o que parece ser um pecado mortal no sacro universo de nossa literatura. E, como conseqüência da leitura, é que proponho algumas discussões. Em “O analfabeto que passou no vestibular”, não é só a qualidade do ensino superior que pretendo colocar em pauta, mas o próprio papel da universidade e dos professores universitários. Entretanto, talvez a questão mais importante esteja na própria linguagem. Acredito que precisamos de livros de ficção que sejam acessíveis a uma parcela maior da população. E isso não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. Escrever fácil é muito difícil.

Seu livro é anunciado como um romance-denúncia sobre a decadência do ensino universitário no Brasil. Por que você quis fazer um romance e não a denúncia, simplesmente?

A ficção fala mais sobre a realidade do que a própria realidade. Ela é perene, não serve para embrulhar o peixe no dia seguinte. Regularmente, diversas pessoas denunciam a decadência do ensino universitário no Brasil. São alunos, professores, pais e até congressistas. Basta abrir os jornais e ver os indicadores do MEC, os resultados das provas da OAB e as avaliações do INEP. O que adianta? As discussões duram no máximo alguns dias e depois se perdem. Esse é o tempo da mídia. A imprensa esgota o assunto rapidamente, pois outras pautas se impõem. É da sua natureza.

Com o livro é diferente. Daqui a dez anos alguém ainda poderá levantar a discussão. Além disso, a ficção fornece pistas sobre comportamentos, levanta discussões sobre detalhes que passam despercebidos e aguça a imaginação, o que é sua característica mais importante. Por exemplo: a reforma universitária está em tramitação no Congresso Nacional. Se um deputado em Brasília tiver interesse em ler ficções sobre universidades pode encontrar um material incomum para criar soluções imaginativas e não apenas burocráticas ou paliativas. Como diria o Manoel de Barros, noventa por cento do escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira.

Sua experiência em universidades privadas te deixou pessimista quanto à expansão do ensino superior no país? Que episódios te levaram a constatar essa decadência?

Os episódios estão descritos no próprio livro e foram retirados de jornais. Eu ficcionalizo fatos que saíram na mídia. Invento enredos a partir de outros que já foram veiculados na imprensa. O problema é que nossa realidade é inverossímil mesmo. Como explicar para um estrangeiro que um analfabeto passou no vestibular? Ou como explicar o próprio vestibular, um concurso que dá aos ricos acesso ao ensino universitário gratuito, deixando para os pobres a opção de pagar ou não estudar?

Quero que fique bem claro que não sou contrário à expansão universitária nem ao ensino privado. O que me incomoda é a mercantilização, que se intensificou absurdamente nos últimos anos com a abertura de capitais das universidades, que agora lançam ações na Bolsa de Valores. Eu esperava que a entrada de dinheiro melhoraria as condições de ensino, mas não foi o que aconteceu. Em vez disso, prevalece a lógica do corte de custos para aumentar os lucros. Isso significa turmas com mais alunos, demissões de professores e quebra de pré-requisitos para otimizar as salas de aula. Imagine um aluno de engenharia que cursa Cálculo II antes de fazer Cálculo I. Que tipo de ponte ele vai construir? E o pior é que nós é que vamos atravessar essa ponte.

No Brasil, as universidades particulares baseiam suas receitas exclusivamente nas mensalidades, o que é um erro fatal e principal causa dessa distorção. A solução seria investir na pesquisa, fazer parceria com grandes empresas e receber royalties. Isso iniciaria um ciclo vicioso positivo. Mais pesquisas, melhores pesquisadores, melhores, professores, melhores alunos. E, conseqüentemente, mais investimentos. Infelizmente, os acionistas querem o caminho mais rápido, não pensam a longo prazo.

Mas eu sou um otimista. Acho que essa realidade ainda pode mudar. Assim como também pode mudar aquilo que nossos doutores chamam de Literatura.

 

Fonte aqui

setembro 20, 2008

O casulo de nós mesmos (Resenha – Seda, de Alessandro Baricco)

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 9:43 pm


Por Solange Pereira Pinto

O livro “Seda”, de Alessandro Baricco, escrito em 1996, é inexplicavelmente lindo. A alegoria, construída com maestria, nos faz sentir como os bichos da seda a tentar virar mariposas. O texto, tramado como as voltas das mãos de um ilusionista, surpreende. “Uma vez tivera entre os dedos um véu tecido com fio de seda japonesa. Era como ter entre os dedos o nada”.

Narrativa breve. Concisa. Não sobra e nem falta. Encanta. Tal qual a borboleta para nascer, Hervé Joncour, protagonista, segue seu destino com uma naturalidade que pode beirar ao nada. Como o cair de uma tempestade… “Era, além disso, um daqueles homens que amam observar a própria vida, julgando imprópria qualquer ambição de vivê-la”.

Baricco empresta à obra uma composição melodiosa do ritmo da prosa à escolha dos nomes de lugares, das personagens, dos detalhes; aspecto talvez influenciado por sua formação musical.

O recurso da repetição de trechos ampliados e sutilmente modificados dá no leitor a impressão de rotina, de “mundo que gira em torno de si mesmo”, de bicho a se revirar dentro do casulo para confeccionar o fio da seda.

A pacata Lavilledieu, o visionário-idealista Baldabiou, o instigado Hervé Joncour, o misterioso Japão e Hara Kei, e o contraponto feminino de Hélène, a menina dos olhos sem corte oriental, Mme. Blanche fazem as imagens sensoriais de Baricco correrem no sangue do leitor. São pequenos e certeiros picos na veia embriagando, inebriando… até o fim do mundo.

A seda. Os segredos. A sedução. “Esperou longamente, no silêncio, sem mover. Depois, lentamente, retirou o pano molhado dos olhos. Já não havia quase luz, no cômodo. Não havia ninguém, ao redor. Levantou-se, apanhou a túnica que jazia dobrada no chão, colocou-a sobre os ombros, saiu do cômodo, atravessou a casa, chegou diante de sua esteira e se deitou. Pôs-se a observar a chama que tremia, diminuta, na lanterna. E, com cuidado, parou o Tempo, por o todo o tempo que desejou. Foi um nada, depois, abrir a mão e ver aquele papel. Pequeno. Poucos ideogramas desenhados um embaixo do outro. Tinta preta.”

Disse Walter Benjamin que “toda ordem é precisamente uma situação oscilante à beira do precipício”. Lá estava Joncour. Dedilhando a seda. “Tinha atrás de si uma longa estrada de oito mil quilômetros. E diante de si o nada. De repente viu aquilo que julgava invisível. O fim do mundo”.

A rotina caminha, se repete trecho a trecho. Num átimo algo que muda… Para iludir uma rotina que insiste em se repetir… Assim como nós nos insistimos. Uma dor estranha. Tentar sair do casulo de nós mesmos… para chegar ao fim do mundo.

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Brasília, chuva fina sobre o cerrado, 20 de setembro de 2008.

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setembro 18, 2008

A Cerveja Escarlate

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 3:43 pm

18.9.08

por Fernanda de Aragão

Cenário:

O evento Cartografia Web Literária, promovido pelo SESC Consolação em parceria com o pessoal do Portal Cronópios – Pipol e Edson Cruz – foi realmente muito bacana. Bom para os pensamentos sobre os caminhos da nossa literatura contemporânea, quem é quem e coisa e tal. A crônica abaixo foi inspirada na mesa *publicação e distribuição da literatura em tempos digitais* do dia 13 de agosto, que recebeu aqueles que “começaram, ou firmaram sua escrita e interferência no meio literário, em blogs, sites ou coletivos de literatura”. A idéia da organização era “discutir os caminhos da publicação e da distribuição da literatura em tempos de Internet e a importância de sites e blogs na trajetória de autores, iniciantes ou não”.

Debatedores: Clarah Averbuck, Ana Paula Maia, Cardoso (André Czarnobai), Artur Rogério, Lima Trindade – Mediação: Fabrício Carpinejar

Cena:

A cerveja escarlate

– tem cerveja?
– o que você acha desta questão da China e do Tibete?
– por que é que não pode fumar aqui?
– estão querendo construir uma nova estatal para extrair petróleo, você viu?
– fiz esta tattoo para lembrar minha primeira transa, o cara era ótimo!
– você leu o dossiê do Luis Nassif contra a revista veja?
– não leio blog dos outros.

Ele, porque precisa romper para ser anti, carregou ela pelas ruas da cidade depois de ter pintado com escarlate as unhas de uma das mãos. Base na outra. Disse que vai à manicura só para entender as mulheres. As boas línguas contestam: é só para ilustrar o óbvio do pensamento casseta e planeta. Urgente! E se está todo mundo de terno, porque a festa é black tie, ele vai de kilt, simples assim: óculos coloridos extravagantes para roubar a cena, chapéus de bobo-da-corte tirados da sua sacola lúdica estilo mary poppins, perucas e piadinhas do tipo “se você quiser dizer porra, amém!”. E pela bizarrice o chamam de poeta.

Elas, no meio do debate e durante a fala do próximo, cochichavam uma com a outra e riam alto, microfone à mão, quando a platéia interveio:
– o que você tem a dizer?
– desculpe, qual é a pergunta mesmo?
– se você já descobriu algum escritor pela internet…
– dane-se! E a cerveja, vai chegar?
– cocaína só do lado de fora! – Ele disse, não porque precisava parecer anti, mas porque ela estava lhe roubando ao se portar assim, mais anti do que ele. Não, não pode; e continuou: – se tu quiser, pode ir fumar lá fora!
– a porta da rua é serventia da casa – Murmurou alguém na platéia, mas ninguém ouviu.
– posso ir fazer xixi? – Era a voz da outra.

Talvez porque ela não tivesse, de fato, nada relevante a dizer, levantou-se e voltou depois de urinar. Tomou de volta seu lugar à mesa de debates, microfone sobre o colo e olhar pro canto de lá, de quem nunca esteve no lado certo do auditório, até que lhe dirigiram a palavra:

– desculpe, qual é a pergunta mesmo?
– seu blog literário, tem finalidade de quê?
– apenas para divulgar meu trabalho, deixo na gaveta os originais.
– e os comentários?
– não vejo! Aliás, não tenho esse espaço para críticas. Não estou nem aí!
– fodam-se? – Era ele novamente, clamando a atenção escarlate.
– é, fodam-se! – ela numa risada irônica, um pouco antes de concluir: – e a cerveja?
– foda-se tu! – A mesma voz indignada da platéia mais uma vez não foi ouvida.

Mas a transparência deu no paralelismo do microfone aberto:
– Fabrício, a cor das suas unhas combina com o meu isqueiro!
– E a base da outra mão combina com seu nome, Clarah.
– Ana Paula, o que você acha?
– desculpe, qual é a pergunta mesmo?

Combinaram a cerveja para depois dali. E lá pela meia-noite a bebida no copo já assumia os 100 reais da garrafa de vinho, um cigarro depois do outro. É que tanto faz. Eles apenas precisam romper para ser anti. É que tanto faz. No calote, só a cerveja escarlate.

Vale a pena ler de novo…

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 2:42 am

PENSAR – Correio Braziliense (31/07/2004) / Estado de Minas (07/08/2004)

Caminhos da arte total
Professora de literatura da UFMG, escritora e especialista na obra de Peter Greenaway, Maria Esther Maciel lança livros de ficção e ensaios

por SÉRGIO DE SÁ

Zenóbia não é personagem do filme Alta Fidelidade mas adora listas. De “peixes perplexos”, de “cidades
raras”, de “ervas daninhas”, de “livros de cabeceira”. A criadora de Zenóbia, Maria Esther Maciel, garante não ser muito boa em ordenar coisas. “Listas são limitadas, excludentes e insuficientes”. Ainda assim, arrisca dizer que os cinco artistas que mais admira são Leonardo da Vinci, Vermeer, Arthur Bispo do Rosário, Peter Greenaway e Keith Jarrett. Mas poderiam ser também Paul Klee, J.S. Bach, M.C. Escher, Lygia Clark e Élida Tessler. Isso, sem incluir os escritores. É bem provável que Greenaway ficasse em primeiro lugar numa classificação imaginária. Do contrário, Maria Esther não teria feito pós-doutorado em Londres sobre o diretor de A Barriga do Arquiteto e O Livro de Cabeceira. Do contrário, também não teria organizado livro de textos sobre o cineasta, O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway, e tampouco teria dedicado vários ensaios a ele em A Memória das Coisas, ambos publicados há pouco. Além desses dois títulos, a lista das obras de Maria Esther Maciel, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e poeta de mão-cheia, acaba de ganhar a prosa tão enxuta quanto impactante de O Livro de Zenóbia, aquela que gosta de elencar esquisitices.

Sobre ela, sobre saberes múltiplos e, em especial, sobre Greenaway, gira o papo que se lê a seguir.

Três livros de uma tacada. Organização, ficção, ensaística. E a inevitável visibilidade midiática. É muita coisa de uma vez só para uma mineira?

Maria Esther Maciel – Dizem que os mineiros trabalham em surdina. Vim elaborando esses livros ao longo dos últimos três anos, sem alarde. O primeiro a ficar pronto foi O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway, que permaneceu na editora por mais de um ano. Fechei A Memória das Coisas em agosto do ano passado, e O Livro de Zenóbia, iniciado há dois anos, só ganhou impulso a partir de janeiro. Por coincidência, os três saíram simultaneamente, o que deu margem para se pensar que preparei os três de uma vez só, em ritmo voraz. Mas, não. Foi tudo construído aos poucos, de acordo com as demandas internas e externas. Se, por um lado, publicar os três juntos trouxe um certo desconforto, por outro, creio que isso acabou por ser interessante, pois acho que um livro completa, de certa forma, o outro. Eles compõem uma tríade coerente com as minhas inquietações dos últimos anos. Sei que agora entrarei em um momento de elaboração silenciosa do que possivelmente virá (ou não) nos próximos anos.

Zenóbia parece personagem de um romance clássico. Tem força descomunal, mas é apresentada ao leitor em fragmentos. A diluição do narrador é proposital?</em>

MEM – Sempre considerei que o maior desafio para um escritor que se aventura na escrita de um romance é construir suas personagens, dar a elas não apenas um nome, um rosto, uma identidade civil, mas também uma vida que, por mais ficcional que seja, possa trazer uma espécie de realidade intrínseca. Os autores clássicos se esmeraram nesse trabalho e chegaram a criar personagens maiores do que a própria trama que as envolve. Isso sempre me fascinou. Por outro lado, não sou muito afeita ao modelo realista de narrativa, pautado nos princípios da sucessividade temporal. Eu queria construir uma personagem convincente, mas que fosse sendo constituída através de traços, reminiscências, imagens, sensações do narrador e de outras personagens. Zenóbia, ao contrário das personagens clássicas, não se apresenta inteira, completa, bastante: ela vai surgindo aos fragmentos, no ritmo esgarçado da memória dos que conviveram com ela, dos que souberam (ou imaginaram) algo de sua vida. Se tem alguma força, ela se deve à soma de seus gestos, pensamentos, palavras, atitudes, desejos. Seu cotidiano é feito de miudezas, de coisas banais. E ela busca extrair disso pequenas epifanias e assombros.

Há uma clara vontade de recuperação de lirismo, não?

Como se a realidade estivesse esgotada em vários sentidos, principalmente como norte da literatura brasileira…

MEM – Ando meio cansada do realismo exacerbado que tomou conta da literatura brasileira contemporânea. E avessa ao formalismo asséptico, desvitalizado, que ainda predomina em boa parte da poesia que se faz hoje no Brasil. Em O Livro de Zenóbia tentei, sim, recuperar um certo lirismo, mas que não exclui, necessariamente, o traço irônico, a dimensão trágica e o humor sutil. Tendo cada vez mais ao exercício de uma escrita livre de coerções temáticas e formais, busco me desvencilhar da tirania da metalinguagem e da intertextualidade explícita – práticas já exauridas, debilitadas – e buscar outras possibilidades estéticas para o meu trabalho. Abrir-me às impurezas da experiência, à força do trágico e ao êxtase do sublime. Não renegar o prosaico nem sucumbir ao realismo. Apostar na delicadeza como um antídoto contra a truculência do mundo, da realidade.

Jorge Luis Borges é de fato a melhor conexão da literatura com o cinema de Peter Greenaway?

MEM – Costumo dizer que, para quem assiste a um filme como O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, ou O Livro de Cabeceira, sem um prévio conhecimento de outros trabalhos de Peter Greenaway, é quase impossível aceitar uma associação entre ele e Borges. Onde estariam, no escritor argentino, a escatologia, o erotismo explícito, o transbordamento barroco, o delírio visual? Mas se atentarmos para certas estratégias ficcionais desses e outros filmes de Greenaway, veremos que as afinidades são muitas: o apreço pelos embustes autorais (sobretudo nos pseudodocumentários do diretor), o olhar enciclopédico sobre o mundo, o exercício das taxonomias insólitas, o gosto pelo artifício e pelas simetrias, a profusão de referências eruditas, a concepção do universo como uma biblioteca de babel. Talvez o filme de Greenaway mais borgiano seja A Última Tempestade. Trato disso com detalhes em um dos ensaios do livro A Memória das Coisas. Mas além de Borges, outros escritores são referências importantes para o cinema greenawayno, como James Joyce, Lewis Carroll, Italo Calvino, Georges Perec, Dante e Shakespeare. Mas menos sob a perspectiva dos temas e dos enredos do que sob a perspectiva da linguagem e dos procedimentos poéticos e ficcionais.

O que você diria para convencer alguém de que vale a pena ver e conhecer Greenaway?

MEM – Greenaway é um dos poucos cineastas contemporâneos que ainda ousam na experimentação de novas formas e linguagens, sem que isso signifique uma recusa do passado. Ele leva o cinema a transbordar de seus próprios limites, a expandir-se para além da tela. Sua erudição criativa possibilita-lhe trazer para um mesmo topos o legado cultural de diferentes tradições – entre elas, a do renascimento e a do barrroco –, as experimentações da vanguarda, as inovações tecnológicas e as referências culturais do presente. Transita, com desenvoltura, em vários campos do saber, sejam eles os da literatura e das artes em geral, sejam os da culinária, da arquitetura, da moda, da zoologia e da anatomia. E não se furta a explorar o estranho, o escatológico e o insólito. Além disso, não faz concessões aos imperativos da indústria cinematográfica e assume uma postura extremamente irônica perante o culto contemporâneo do chamado “politicamente correto”. É ainda um crítico dos sistemas de organização e classificação do mundo e do conhecimento. Um artista completo, que reedita, no contexto do século XXI, a intrigante e instigante figura do artista/intelectual transdisciplinar, de feição renascentista.

O intelectual não pode mais ficar parado no mundo contemporâneo?

MEM – Vivemos, hoje, sob o signo da multiplicidade, da confluência entre as artes e os campos disciplinares. Cabe ao intelectual contemporâneo estar atento a isso. A especialização e a fixidez do conhecimento já não condizem com as demandas do nosso tempo. O movimento, o trânsito, a abertura à alteridade são as linhas de força que nos definem. Greenaway é diretor de ópera, escritor, pintor, curador. De alguma maneira, ele reedita essa figura do artista renascentista. Algo que tem a ver também com a idéia de Arte Total, de Wagner. Ele tenta reconstituir essa figura para mostrar que o cinema tem que se abrir para essas outras linguagens, que as artes e os campos de saber estão aí também para serem mesclados, conjugados. Além disso, aposta na idéia de que uma das formas de se revitalizar o cinema é buscar os recursos que as outras artes podem oferecer.

Qual filme dele é seu preferido e por quê?

MEM – É difícil dizer qual é o meu preferido. Talvez seja O Livro de Cabeceira, por ser o mais poético. Nele, erotismo e escrita se entrelaçam de forma magnífica. A tela se transforma em várias ao mesmo tempo, graças aos inventivos experimentos tecnológicos usados ao longo de todo o filme. Sucessão e simultaneidade se mesclam na narrativa. E o mais interessante é que a obra literária que lhe serve de referência não é um livro com trama e enredo, mas o diário de uma poeta japonesa do século X, Sei Shonagon, cheio de listas e apontamentos sobre coisas da natureza e trivialidades da corte. Greenaway inventa um enredo para o filme e busca no livro de Shonagon a atmosfera, a linguagem, as listas e as imagens. Compõe um filme de grande poder de sedução visual, que inverte os procedimentos tradicionais da adaptação.

Greenaway é um escritor legível?

MEM – Por incrível que pareça, não é um escritor barroco ou experimental. Seus textos são límpidos e escorreitos. A maioria é de narrativas curtas, que trazem histórias prosaicas, mas o tempo todo assaltadas pelo insólito, pelo nonsense. Têm humor e ironia. Inteiramente legíveis e digeríveis. O mesmo se pode dizer de seus ensaios.

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Livros de Maria Esther Maciel

A Memória das Coisas
Editora Lamparina,160 páginas, R$ 22

O Livro de Zenóbia

Editora Lamparina, 160 páginas, R$ 29,50

O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway

Unimarco Editora, 216 páginas, R$ 25,00

setembro 13, 2008

Abaixo o hábito de ler

Filed under: Mal do dia,Montanas,Outros Escritos — maldemontano @ 2:16 pm
Por Solange Pereira Pinto (escritora, professora e arte-educadora)

A escola da minha filha tem um programa de leitura chamado ciranda do livro. O objetivo é que cada criança pegue uma obra para ler no fim de semana e faça, na apostila encadernada em espiral, uma atividade pré-determinada (desenhar uma passagem, escolher um personagem favorito, ilustrar a idéia principal, fazer um breve resumo etc.).

Imagino que nem todos os alunos façam a tarefa de bom grado. No início a escola tentou uma competição: a criança que pegasse mais livros na biblioteca ganharia um prêmio ao término do período X. Minha filha logo chiou: “mamãe, assim não vale. Tá muito chata essa história de quem lê mais. Tem gente que só pega livrinho fininho e com muita figura pra ler rápido e pegar outro. Eu que escolhi pelo título, por que achei interessante a história, vou perder. O meu livro é muito mais grosso que os outros!”, choramingou.

Tinha ela razão. Vencer a competição era o objetivo das crianças sob o pretexto da escola de formar o hábito da leitura e quiçá cidadãos do futuro. Nesse meio tempo, crítica daqui, chororô acolá, ficou difícil para a professora lidar com a manobra “pedagógica”, deslindada pela pequena estudante.


O projeto competitivo saiu de cena e a apostila em espiral continuou seu trajeto, às sextas-feiras, mochila adentro; só que agora sem a pressão de se ser o primeiro lugar no ranking de “leituras lidas”. Algumas crianças ficaram aliviadas. Alguns pais também. Ufa!

Chegado o dia de mais uma escolha, minha menina, que se chama Ana (Luísa) optou por pegar um livro chamado Ana e Ana, segundo as palavras dela “achei pela capa que podia ser interessante”. E era. Aliás, é!

O livro de Célia Godoy, ilustrado divinamente por Fé, narra a história das gêmeas Ana Carolina e Ana Beatriz, que idênticas na aparência tentavam se distinguir por cores, roupas, adereços, ainda que “por dentro” fossem bem diferentes nos gostos e afinidades com o mundo. Cresceram e cada uma tomou um rumo, até que…

Até que eu parei para pensar se a leitura é um “hábito-ato” possível de se formar em alguém. Sendo professora há algum tempo e exatamente na área de produção de textos, leitura e interpretação, recordei das principais dificuldades e justificativas dos meus alunos quando perguntados sobre o tal, difundido, alardeado: hábito de ler!

Em geral, se apontam desconcentração, sono, preguiça, falta de exemplos familiares, ausência de livros em casa, dificuldade de entendimento, cansaço, visão embaralhada, e, principalmente, falta de tempo! Questionados sobre este último item, respondem: “ah, professora tem muita coisa melhor a fazer do que ler, como ver TV, praticar esportes, sexo, passear, navegar pela internet…”.

“– Mas céus! Vocês não gostam de ler nada?”, re-interrogo.
“– Também não é assim. A gente lê sobre o que gosta ou sobre o que precisa”.

Se tempo é uma questão de prioridade, e nele a gente ocupa primeiro o que dá prazer ou necessita, aonde entra o esforço pedagógico de formar o hábito de ler? Creio que na vala comum.

Diz o companheiro Houaiss que hábito é “maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente; costume, regra, modo, maneira permanente ou freqüente, regular ou esperada de agir, sentir, comportar-se; mania”.

Ora, formar o hábito de ler para quê?

Em certa medida, quem tem uma formação escolar considerada razoável (sei lá o que isso significa) lê o que lhe atrai. Jornais, almanaques, cadernos de esporte, revistas semanais, publicações de fofocas etc, estão pelas esquinas e bem amassadas, indicando que mãos e olhos passaram por ali.

E daí?

Nada!

O hábito de ler, melhor formulando, a prática de ler não significa em essência nada. O costume de ler pode ser um desábito de adquirir conhecimento. Entrar no piloto automático da leitura não traz por si só transformação.

Se ler é um dos caminhos para se chegar ao conhecimento de determinado fenômeno, idéia, verdade, ler por ler é no máximo chegar à aquisição de dados brutos e informações superficiais, massificadas, deglutidas por seus autores para todos.

Hoje deveríamos por em pauta, conclamar, não o desgastado hábito de ler, mas sim o hábito de pensar, o hábito de querer saber, o hábito de ser curioso. Se os próprios considerados – pelos professores – não-leitores admitem ler o que lhes interessa, óbvio seria despertar antes a vontade de conhecer. Ler, por hábito, deveria deixar de ser regra de conduta apregoada pelas escolas. Transformar o pensamento e ampliá-lo por desejo, deveria ser a etiqueta.

Ler é mera conseqüência. A causa é querer sair do lugar-comum, voar sem tirar o pé do chão, pensar para existir… Meu hábito maior é “Ser” e por isso eu leio muito. Dessa forma, vou me desabituando de mim para me habituar às minhas releituras…

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