Mal de Montano

janeiro 29, 2008

Inventário – Um outro eu descartável (parte I)

Filed under: 1,Montanas — maldemontano @ 6:04 pm

grafitedigital.jpgPara Celso Murilo

Não. Melhor dizendo: balanço. Não, não. Talvez, devaneio. A troca do dia já fazia há alguns dias. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal. O de si, também. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando. Ir à festinha, nem pensar. Usar o próprio tempo com alguém estava raro. Melhor assim. Quer dizer, possível. Não tardaria o dia em que todos reclamariam de tão estranha criatura e manias. Hábitos nada saudáveis: trocar o dia pela noite. Tempos modernos para velhos corpos e cabeças. Afinal, nada havia mudado tanto. Em dois mil anos, aliás em milhões de milênios, deixa prá lá. Coisa tola era querer fazer do seu dia o seu inferno, pois tanta cobrança para quem quer paz, não se fazia boa idéia. Era tolice, porém era o que lhe restava, supunha. Continuava a chatice. “Oi, vamos sair?”. “Ei, se anima!”. “Ah, que preguiça é essa?!”. “Vamo lá”. “Não pode continuar desse jeito!”. Tanta cantilena aos ouvidos rendeu uma saída. Daquelas. Redenção. Começou no papo besta e na cerveja. Uma. Duas. Cinco. Nove. Engata papo meio-cabeça-meio-pileque. Doze. Senta gente. Some gente. Desce copo. Baixa santo. Sobe espuma. Levanta as idéias. Queima o fogo. Incendeia o diabo. Muda de boteco. Uma. Duas. Cinco. Chega a hora do tum-tum-tam-tam-tec-tec. Bate-estaca. Bate-punheta. Bate-zorra. Bate-piração. A pista de dança semi-cheia. A idéia lotada. zummm. zoom. zomp. zump. Rebola. Abaixa. Sobe. Rebaixa. Beija. Esfrega. Lambe. Arregaça. Inferniza. Ataca. Come. Vira. Pega. Larga. Beija. Beija. Beija. Some. Ri. Disfarça. Escancara. Surta. Pega carona. Apaga… Não. Melhor dizendo: balanço. Não, não. Talvez, devaneio. A troca do dia já fazia há alguns dias. Fechado para o dia. Disponível para si mesmo, à noite. Evitava o contato social. O corriqueiro do outro, estava sacal. O de si, também. À volta aparentemente igual, se não fossem os dias atabalhoados passando… Conta a história ao amigo de décadas. Ele sorri e arremata: “que nada, não esquenta. Era um outro eu descartável”. É. Era sim, um outro eu. Um outro nosso. Um outro coletivo. Um outro libertador. Um outro eu mesmo. A gente tem vários desses. Ou daqueles. Usa. Tira. Descarta. Levanta a tampa do vaso e vomita. Dá descarga e a ressaca moral escorrega para o bueiro. Lá se vai você pelo ralo. Aliás, pelo ralo já se tinha ido no dia anterior… ou quando?

 Por Solange Pereira Pinto

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