Mal de Montano

outubro 30, 2007

Um adeus ao poeta – Cassiano Nunes

Filed under: Aqui o mal geral — maldemontano @ 10:15 pm

No dia 15 de outubro ele se foi. No dia dos professores morre Cassiano Nunes. Brasília perde um poeta que também foi defensor da educação. O professor de muitas gerações, seja na poesia, seja na literatura. Encontrar Cassiano pelas ruas de Brasília era alegria. Sempre com assuntos interessantes e dicas importantes, o meigo poeta encantava. Solícito. Agradável. Inteligente. Humilde. Um homem que literalmente vivia entre livros. Sua casa era uma biliboteca (cujo acervo será cuidado pela UnB). Foi no evento cultural Conversa Com Verso (1999) que pude ver mais de perto sua docilidade. Fica aqui um adeus simbólico para você, Cassiano Nunes. Suas palavras, certamente,  ficarão! Abaixo um poema de Cassiano à Elvira Bezerra:

 

CANTIGA PARA RIBEIRO COUTO                                                     
 

  •  
      Meu amigo morto, 
      por onde andará?
      Deve estar junto ao porto, 
      no cais do Paquetá!Correu longes terras, 
      mas afinal voltou, 
      vistas as paisagens, 
      que, infante, sonhou.Que importa o seu povo 
      não o reconheça 
      e seus versos sensíveis 
      até desconheça?

      À  gente tão fria, 
      Couto absolverá. 
      já voltou a Santos, 
      ao cais do Paquetá!

 

 

27/ 04/ 2005 – literatura

Uma vida de poesia

Biblioteca Central da UnB comemora os 84 anos de
Cassiano Nunes com exposição de livros, cartas e documentos

“A vida é muito curta e urgente
para eu desperdiçar tempo com
seus aspectos mais negativos”

Cassiano Nunes

ANNYARA ZORZETO
Estagiária da Assessoria de Comunicação

Roberto Fleury/UnB Agência
O professor Cassiano Nunes diz que ensino
é uma forma de enriquecimento espiritual

No dia 27 de abril, o poeta Cassiano Nunes completa 84 anos e, para marcar a data, a Biblioteca Central (BCE) da Universidade de Brasília (UnB) preparou uma homenagem: exposição com livros, cartas, poesias e documentos do escritor. O acervo foi todo doado pelo próprio Nunes, cuja vida em Brasília passa pelo trabalho no Instituto de Letras (IL) da UnB. O artista deixou sua marca nas salas da universidade durante 25 anos entre 1966 e 1991, participando da formação de uma geração de profissionais que hoje o chamam de mestre. “Nunca separei a vida do ensino, porque acredito que tudo deve convergir para o enriquecimento espiritual do ser humano”, disse durante a abertura da mostra.

Cassiano Nunes é figura popular nas letras e na própria cultura de Brasília. “Se fizermos um balanço de todos os acontecimentos culturais da cidade, 90% de todo o material a gente encontra com Cassiano”, afirmou a bibliotecária Nora Magnólia, emocionada durante a cerimônia. “Ele me deu muito conhecimento com a pureza com que escreve seus textos. A gente se apaixona” conta a coordenadora da Seção de Obras Raras e organizadora da exposição.

Roberto Fleury/UnB Agência
Majú elogia a sensibilidade e a técnica presentes nos poemas curtos de Nunes

Para a professora da UnB Maria de Jesus Evangelista, a Majú, que teve Cassiano como orientador em sua dissertação de mestrado, o poeta e professor representa duas coisas. “Cassiano é sensível e um mestre de todo o tempo. Com poemas curtos ele consegue concluir com perfeição uma filosofia de compreensão do ser humano”, analisou.

ÍCONE – Com cerca de 50 títulos publicados, Cassiano caracteriza sua obra como uma conversa com os leitores. “Busco expressar meus sentimentos e procurar nas pessoas a solidariedade”, falou Cassiano. Atualmente, o poeta vive em uma casa em Brasília rodeado por livros. “Pertenço à classe dos escritores brasileiros, o que me faz estar ligado intima e afetivamente à cultura do Brasil. Embora não tenha conhecido muitos escritores pessoalmente, respeito-os pela literatura e pelo patriotismo, pois como dizia meu amigo Mário de Andrade, ‘Da terra somos o grande milagre do amor’”, declamou.

A poesia de Nunes revela paixão pela vida e desejo em explorá-la detalhadamente a cada etapa. Para a professora do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB Hilda Lontra, ele é um ícone da cultura brasileira, profissional incansável, intelectual ativo e bom amigo. “Obrigada pelos seus ensinamentos poéticos. Brasília agradece a preferência”, disse.

VIVA CASSIANO!
Conheci Cassiano Nunes em 1995 no espaço cultural Renato Russo (508 sul), fazendo um curso de história do cinema com o professor Sergio Moriconi. Fiquei cativado pela personalidade dele. Aproveitei a ocasião e o convidei para fazer um recital de poesias para minha turma na universidade. Ele foi e, a partir daí, interessei-me pela obra dele e comecei a ler alguns livros”.

RF/UnB Agência

Desse encontro entre Cassiano Nunes e o cineasta Bernardo Bernardes (foto) nasceu a idéia do documentário Viva Cassiano!, que fala da vida do poeta. O documentário, que demorou oito anos para ficar pronto devido à falta de patrocínio, mostra, entre depoimentos de amigos, admiradores e poesias recitadas pelo próprio personagem, a história de um dos principais poetas da atualidade.

O filme ficou pronto em 2002 e foi exibido no 37º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro em 2004. Ganhou o prêmio Júri Popular. No dia 26 de maio, Viva Cassiano! será exibido no Festival de Cinema de Cuiabá e deve estar nas salas do Cine Academia (em Brasília) na segunda semana de junho.

PERFIL

Cassiano Nunes nasceu em Santos, interior de São Paulo, em abril de 1921. Filho de imigrantes portugueses, foi o primeiro filho nascido em solo brasileiro. Passou a infância na cidade de São Vicente (SP), onde aos 15 anos começou a se envolver com a literatura, para infelicidade de seu pai, que queria ver o filho trabalhando como funcionário do Banco do Brasil. “Letras não meu filho, números”, gritava o pai.

Cassiano é mestre em literatura norte-americana e doutor em literatura alemã, foi professor visitante na New York University e, em 1966, iniciou a carreira de professor da Universidade de Brasília. Tornou-se um estudioso da obra de Monteiro Lobato.

CURIOSIDADE

Criador de versos desde a adolescência, aos 20 anos Cassiano Nunes fez uma autocrítica de seus poemas e, ao julgá-los ruins, passou mais 20 anos sem escrever nada. Decidiu fazer outra tentativa e escreveu Espera um Pouco (transcrito abaixo). Enviou, então, os versos ao escritor Antônio Cândido, para que ele avaliasse. Recebeu a resposta de que “aquilo sim era um poema”.

“Espera um pouco
Não dês nome de amor
Ao que não passa de desejo.
Ideal é uma palavra demais
para o teu apetite de aposentadoria.
Procuro ser exato ao definir as coisas.

À minha morte não denomines morte.
Nem a consideres definitiva.
Espere um pouco, amigo!
Espera um pouco
Pela ressurreição”

HISTÓRIA

A chegada de Cassiano Nunes à capital começou com uma carta. Em 1966, o poeta voltava de Nova York e ao chegar ao aeroporto do Rio de Janeiro, encontrou com o amigo e também escritor Carlos Drummond de Andrade. Nessa oportunidade, Cassiano perguntou a Drummond para onde deveria seguir.

A resposta veio 15 dias mais tarde em carta recebida em São Vicente (SP), na casa da família. Era categórica: “Vá para Brasília”. E assim foi. Cassiano mudou-se para a capital e a adotou como cidade mãe e fonte de inspiração para muitos de seus textos.

 

 

VEJA TAMBÉM

Personalidade
  Cassiano Nunes
    Nosso grande poeta

Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada. Textos: UnB Agência. Fotos: nome do fotógrafo/UnB Agência.

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2 Comentários »

  1. CASSIANO NUNES É OBJETIVO E PACIENTE E ISSO SE NOTA EM SUA FRASE ESCRITA ACIMA E TANBÉM EM SUA ESPERA PELA POESIA, ISSO QUE É AMOR Á ARTE…

    http://poeta.nunez.zip.net/

    Comentário por nunez — abril 2, 2008 @ 3:55 pm | Responder

  2. Com certeza Nunez! agradecemos a visita!

    Comentário por maldemontano — abril 11, 2008 @ 4:00 pm | Responder


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