Mal de Montano

outubro 30, 2007

A menina que roubava livros

Filed under: Mal do dia,Resenhas — maldemontano @ 10:05 pm

O Globo  / Data: 3/3/2007
Crença no poder salvador das palavras

Para a heroína de Markus Zusak, literatura é refúgio num mundo que desmorona

Por Mara Bergamaschi ‘Uma cordilheira de escombros fora es­crita, desenhada, erigida à sua volta. Ela estava agarrada a um li­vro’. A descrição que o escritor australiano Markus Zusak faz de sua heroína, a adoles­cente Liesel Meminger, quan­do ela sobrevive a um bombar­deio na Alemanha de 1943, não vale só para este momento, mas para todas as 500 bem en­redadas páginas de seu romance ‘A menina que roubava livros’. Antes mesmo do início da Guerra, Liesel Meminger já se agarrava a livros para ten­tar escapar ao desmorona­mento de seu mundo. Aos nove anos, após perder o irmão e ter de separar-se da mãe, ela vê cair na neve do ce­mitério o que viria a ser seu primeiro livro roubado – o ‘Ma­nual do coveiro’. Nessa épo­ca, a alemãzinha, filha de pais comunistas perseguidos pelo hitlerismo, não pudera freqüentar direito a escola e mal conseguia juntar sílabas. Não pôde, portanto, sequer come­çar a decifrar seu bizarro livro. Cinco anos mais tarde, na hora em que as bombas arrasarem a rua de seu lar adotivo, pode­remos constatar o surpreen­dente progresso de Liesel. Em meio à Alemanha nazista, pessoas compassivas ‘A menina que roubava li­vros’, primeira obra de Zusak lançada no Brasil – a quinta de sua carreira – celebra, antes de mais nada, a crença no po­der das palavras de salvar e manter vivos os que perderam muito ou quase tudo. É um hino à literatura como meio de ex­pressão, capaz de amenizar até os mais terríveis pesadelos. E de irmanar pessoas, mesmo que elas aparentemente só tenham a compartilhar medo, an­gústia e desespero. É também uma aposta na Humanidade ­ou pelo menos em 10% dela. O autor explica – ‘Em 1933, noventa por cento dos ale­mães manifestavam um apoio resoluto a Adolf HitIer. Isso deixa dez por cento que não o manifestavam’. Nascem nesse universo minoritário seus principais personagens, pes­soas comuns, compassivas e independentes. Como o pintor de paredes Franz Hubermann, pai adotivo de Liesel, disposto a cumprir uma promessa de ajuda feita há 20 anos – mes­mo que isso signifique o risco de acolher um jovem judeu, Max Vandenburg, no porão de sua pequena casa. Mais uma vez o escritor exalta a palavra, desta vez não a escrita, mas a empenhada. O amor pelos livros conduz e sustenta a engenhosa estrutura do romance. As histórias lidas por Liesel no período de 1939 a 1943 – roubadas, oferecidas e escritas para ela são usadas para organizar a obra em nove partes parcialmente lineares. São livros dentro do livro. A dé­cima e última parte chama-se ‘A menina que roubava livros’, exatamente o título que está em nossas mãos. Ao lê-lo, encon­traremos fragmentos dos vá­rios outros livros de Liesel, além de duas histórias comple­tas – ‘O vigiador’ e ‘A sacudido­ra de palavras’. Há um ano na lista de mais vendidos no NYT Escritos e ilustrados por Max, que se torna grande ami­go de Liesel, esses dois textos nascem sobre as páginas ar­rancadas e pintadas de branco de ‘Mein Kampf’, a bíblia na­zista assinada pelo próprio führer. Para completar, somos ainda brindados com os tex­tos curtos e precisos do ‘Diá­rio da Morte’, porta-voz especial em tempos de guerra. E é também a Morte quem resgata para a posteridade algo pre­cioso que se perderia na ‘cor­dilheira de escombros’ dos bombardeios. É nesta sofisticada monta­gem – e não no simples fato de escolher a Morte como nar­radora – que podemos me­lhor admirar a capacidade criativa de Zusak. Curioso a ponto de facilitar o marketing em torno da obra, o artifício de usar a Morte pouco acrescenta à narrativa – podemos imaginar outros personagens em seu lugar -, e tem o efeito duvidoso de infantilizá-la. Uma opção talvez deliberada, já que o público-alvo do escri­tor, hoje em franca expansão, tem sido o juvenil. Aos 32 anos, Zusak viu seu sucesso consolidar-se em seu país e al­cançar o Reino Unido e os Estados Unidos. ‘A menina que roubava livros’ mantém-se há quase um ano na lista do ‘New York Times’ dos títulos infan­to-juvenis mais vendidos. Por fim, nos perguntamos por que um jovem escritor, morador da ensolarada Sidney, resolveu dedicar-se, 60 anos depois, ao período mais sombrio do ‘continente cin­za’. Primeiro – porque o tema é parte de suas origens. Seus pais, aos quais dedica o livro, viveram quando crianças os efeitos do nazismo e da guerra na Alemanha e na Áustria. Em sua obra, os episódios da me­mória familiar transcorrem na pequena Molching – uma alusão a Olching, cidade cortada pelo rio Amper, próxima a Mu­nique e a Dachau, onde foi er­guido o primeiro campo de concentração de Hitler. Pode­mos imaginar uma segunda ra­zão – porque a Morte continua a ter de trabalhar sem parar, acossada por ‘aquele novo chefe que pede o impossível e quer sempre mais’. Que nós chamamos de guerra.

Anúncios

2 Comentários »

  1. Oi, arrisquei meus comentários sobre a obra que devorei em uma tarde de sábado fria.
    http://alenacairo.wordpress.com/2007/08/23/universo-feminino/

    Beijos!

    Comentário por Alena Cairo — outubro 31, 2007 @ 11:41 pm | Responder

  2. o livro é ótimo
    mas qual o público o livro presente atingir ?

    Comentário por jedeone praxedes — setembro 9, 2015 @ 10:54 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: