Mal de Montano

setembro 25, 2007

Não à reforma ortográfica – Entrevista com Mia Couto

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Um dos grandes autores da língua portuguesa, o moçambicano critica a uniformização do português e, ex-militante marxista, diz que não sabe mais o que é ser de esquerda

Por JONAS FURTADO

Fonte IstoÉ
KARIME XAVIER/AG. ISTOÉSócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras, o moçambicano Mia Couto é um dos maiores escritores contemporâneos africanos e da literatura de língua portuguesa. É o autor de seu país mais traduzido no mundo e, só em Portugal, seus livros somam quase meio milhão de exemplares vendidos. No final de agosto, ele veio ao Brasil para a 12ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo (RS). Sua mais recente obra, O outro pé da sereia, ganhou o 5º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, pelo melhor romance publicado em língua portuguesa nos últimos dois anos. A vitória valeu um prêmio de R$ 100 mil. Couto também é biólogo e dirige uma empresa de estudos de impacto ambiental em Moçambique, um dos 20 países mais pobres do mundo, onde metade da população é analfabeta.

Filho de portugueses, Couto era militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e lutou pela independência do país contra Portugal (1964-74). Foi um dos compositores do hino nacional de sua pátria e trabalhou para o governo durante a guerra civil (1976-92). Embora um pouco desapontado com os rumos tomados pela Frelimo, que abandonou o marxismo em 1990, ele ainda se diz simpático ao agora partido político, que continua no poder em Moçambique. Couto é um escritor acostumado aos prêmios. Neste ano, tornou-se o primeiro africano a vencer o União Latina das Literaturas Românticas, entregue em Roma, e seu primeiro romance, Terra sonâmbula, foi eleito um dos 12 melhores livros de toda a África no século XX. Fã dos escritores brasileiros, ele é, assim como Guimarães Rosa, um inventor de palavras – que, quando vêm à cabeça, anota em papéis e guarda no bolso para não esquecer.

ISTOÉ – Muitos grandes escritores esnobam os prêmios de literatura. O sr. gosta de ganhá- los?
Mia Couto – Gosto (risos). Todos gostam. Os que dizem que não estão representando. Mas uma coisa é gostar e outra é a importância que damos para isso. Evidentemente quem escreve não o faz para ganhar prêmios. Pobre do escritor que escreve em função disso. Dessa maneira, não se faz um bom livro nem se ganham prêmios.

ISTOÉ – Quando e por que começou a inventar palavras?
Couto – É uma coisa que me acontece, meus pais sempre lembram disso, desde menino – uma certa desobediência em relação àquilo que era norma. Começa pelo meu próprio nome. Nasci António e, quando tinha dois anos e meio, decidi que queria me chamar Mia, pela relação de afeto que tinha com os gatos. Eu pensava que era um deles (risos). Mais tarde, a poesia foi uma escola de desobediência, de transgressão. E havia uma outra condição: o português de Moçambique, sendo o mesmo do de Portugal, não fala àquela cultura. Senti desde sempre a necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana. A descoberta dos escritores brasileiros foi uma felicidade imensa para mim, pois eles já estavam fazendo isso: usando a língua portuguesa, mas com uma outra marca cultural.

ISTOÉ – Há um interesse crescente por literatura africana. Existe uma nova safra de talentos ou o mundo abriu os olhos para os escritores da África?
Couto – Acho que os escritores africanos têm ganho espaço da maneira certa, não por solidariedade política ou alguma outra condescendência. Estão entrando por seu valor literário. No princípio, acho que foi uma questão de moda. Em um primeiro momento, os africanos querem se afirmar pelo lado exótico, folclórico – se apegam nessa alma que lhes foi entregue pelos europeus e assumem um olhar emprestado da Europa. Esse momento passou, os escritores africanos hoje estão mais libertos, já não precisam mais fazer afirmações contra o colonizador nem proclamar sua africanidade. O escritor africano está fazendo alguma coisa que é profundamente universal. Ele está fazendo literatura, ponto final.

ISTOÉ – Moçambique é um dos cinco países que ainda não assinaram a proposta de reforma ortográfica para a língua portuguesa. O sr. é a favor da reforma?
Couto – Não. Não faço guerra contra a reforma, mas acho absolutamente absurdo o fundamento da necessidade de fazê-la. Evidente que é uma coisa convencional, não vai mudar a fundo as coisas, mas as implicações que isso tem do ponto de vista econômico acabam sempre por sobrar para os países mais pobres. Com esse dinheiro pode se fazer coisas mais importantes como, por exemplo, ampliar o conhecimento que temos uns dos outros. Circulo por São Paulo e grande parte das pessoas nem sabe o que é Moçambique. Nunca tive dificuldade em ler livros escritos na grafia brasileira; muito pelo contrário, me satisfaz muito haver essa diferença. No fundo, há uma familiaridade e uma estranheza que são importantes de estar registradas. Acho que a reforma não faz sentido, não subscrevo.

BRUNO VEIGA
“Chico Buarque como escritor atingiu a mesma excelência como músico, sobretudo em Budapeste. Chico me marcou muito como poeta”

ISTOÉ – O escritor Lobo Antunes disse, em uma entrevista recente, que no futuro o português será um dialeto e todos falarão inglês. O sr. concorda?
Couto – Não sou tão pessimista assim (risos). Vivo num país em que o bilingüismo, e até o trilingüismo, é patente. A capacidade humana está aberta para isso. Noventa por cento dos moçambicanos falam duas línguas: a materna e o português. Línguas não são apenas coisas técnicas, remetem a outras lógicas. Nós, humanos, sobrevivemos porque fomos criadores de diversidade. Essa característica terá que sobreviver ou nós não sobreviveremos.

ISTOÉ – Na mesma entrevista, Antunes ironizou José Saramago. Há outros casos notórios, como o de Vargas Llosa e García Márquez, que não se suportam. Por que há rivalidade entre grandes escritores?
Couto – Alguns casos que conheço são ódios verdadeiros – foram alimentados e não têm solução. Mas isso é uma coisa profundamente humana, esse sentimento de ciúme, inveja, sentir-se malamado. Essas rivalidades são um bocado induzidas pelo contexto em que vivemos, que apregoa a competição. Há um céu suficientemente grande para todas as estrelas. Além do que, o escritor só vence a si próprio: ele é um vencedor quando, perante a página em branco, é capaz de superar essa solidão.

ISTOÉ – Como estimular o gosto pela leitura?
Couto – É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida. Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto. Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta. Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história. Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.

ISTOÉ – O que do Brasil faz sucesso em Moçambique?
Couto – As novelas, em primeiro lugar. Têm uma capacidade de penetração e de assimilação enorme. Isso produz efeitos claros no campo lingüístico. Logo após a independência, amigos meus, refugiados da ditadura brasileira, queriam dar aulas de português em Moçambique e não eram bem vistos, por não falarem o português autêntico. Isso mudou completamente: hoje um professor brasileiro que dê aulas de português em Moçambique é bem-vindo, é algo charmoso. Isso se deve muito às novelas. Há também algo da música mais popular brasileira que faz sucesso, como Roberto Carlos, Roberta Miranda, aquelas duplas sertanejas. Mas também algo mais, digamos, sofisticado, como Chico Buarque e Caetano Veloso, tem uma grande aceitação.

ISTOÉ – A obra de Chico Buarque como escritor já atingiu a mesma excelência do que como músico?
Couto – Sim, sobretudo em Budapeste. Chico me marcou muito como poeta. Gosto tanto dele que não sou imparcial para julgar uma pessoa como Chico.

ISTOÉ – A paz em Moçambique é de fato duradoura? A democracia não corre riscos?
Couto – Acho que se vive em paz e que um certo tipo de democracia está estabelecida. O que não se resolveram foram as questões básicas, como a fome, porque ainda há tensões sociais profundas em Moçambique – e diria também no Brasil e em outros países. E essas tensões podem em algum momento ser aproveitadas politicamente por alguém com grande ambição de poder e que faça esse jogo de manipulação para alcançá-lo.  

ISTOÉ – O sr. lutou pela independência de seu país contra a pátria de seus pais. Houve dúvida, da sua parte, em algum momento?
Couto – Sim, havia dúvida, mas meus pais tiveram uma grande generosidade nesse aspecto: mesmo sendo portugueses, eles me criaram como sendo parte de Moçambique. E perceberam que eu estava sacudindo o pilar de um edifício que, um dia, ia cair também em cima deles. Reconheço isso como uma grande dádiva dos meus pais. Minhas dúvidas já estavam resolvidas quando era adolescente.

ISTOÉ – Chegou a pegar em armas?
Couto – Não me deixavam. A Frelimo era uma frente, portanto havia também um componente racista muito forte. Diziam que os brancos moçambicanos podiam lutar, mas que não podiam confiar tanto neles a ponto de dar-lhes uma arma. Os brancos, indianos e mestiços não podiam pegar em armas: podiam combater, como fiz, na área política, do ensino.

ISTOÉ – As minas terrestres ainda amedrontam a população no interior do país?
Couto – Circulo pelas zonas rurais e esse terror de algum dia pisar em uma mina está presente de maneira intensa. Sei o que é ter esse medo. Nós não sabemos exatamente quantas minas terrestres ainda temos. Mas o número oficial provavelmente é maquiado, porque a desminagem é um negócio. Muitas vezes as próprias empresas produtoras de minas fazem a desminagem, e ela custa mais caro ao país do que comprar minas. Mas mesmo que não sejam dois milhões de minas, que sejam mil: essas mil já são suficientemente graves. Estranho é os países que falam em nome dos direitos humanos, e que se arvoram como grandes defensores de uma certa humanidade contra o terrorismo, se recusarem a assinar os protocolos contra a fabricação de minas.

CANADIAN PRESS PHOTO
“Imagino que Fidel não gostaria de saber que deu vestidos a um homem. Mas estou acostumado. Esperam uma negra e se espantam quando apareço”

ISTOÉ – No Brasil, militantes de esquerda estão desapontados com o governo Lula. O poder realmente transforma as pessoas?
Couto – Não quero falar do Brasil, mas há todo um discurso político que mudou – provavelmente ele não era tão verdadeiro quanto se pensava, era assumido como um discurso da boca para fora. Há um verso de um poeta moçambicano da Frelimo que ilustra isso muito bem. “Não basta que seja pura e justa a nossa causa; é preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” Faltou isso em muitos dirigentes políticos. Por outro lado, também é verdade que quem está no poder tem que entrar numa lógica de gestão, na qual é muito difícil perceber onde está o limite entre a traição do princípio e o momento de adaptação ao mundo real. Isso é muito difícil de gerir. Vivi esse processo porque eu era da Frelimo, da oposição, e pensava que a conquista do poder seria o fim do poder – no sentido que todos teriam o poder.

ISTOÉ – Concorda com a afirmação de Lula que ser de esquerda é apropriado apenas para os jovens?
Couto – Seria triste pensar que é uma questão etária estar disposto e desejoso para mudar o mundo. Hoje já não sei o que é ser de esquerda, e provavelmente a própria esquerda não saiba o que ela é. Mas essa disposição, essa vontade de mudar o que está errado no mundo têm que ser permanentes.

ISTOÉ – Como divide seu tempo entre a biologia e a literatura?
Couto – Ser escritor é viver a escrita como uma forma de olhar o mundo. Portanto, sou sempre escritor, mesmo quando trabalho como biólogo. Para mim, a biologia é uma porta, uma janela que me permite falar com as pessoas, ir para o campo e receber histórias. Nunca sou simplesmente só uma coisa.

ISTOÉ – Durante uma visita diplomática a Cuba, os assessores de Fidel Castro presentearam- no com artigos femininos, já que, pelo seu nome, esperavam uma mulher. Algum dia Fidel se desculpou?
Couto – Acho que o próprio Fidel nunca soube. Imagino que ele não gostaria de saber, na cultura de machos que prevalece em Cuba, que deu vestidos a um homem (risos). Mas já estou acostumado. Muitas vezes esperam uma mulher negra e se espantam quando apareço.

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