Mal de Montano

maio 14, 2007

Novos autores se afastam de temas da identidade nacional

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 12:51 am

Análise


Recurso ao universo pop talvez seja uma forma de os novos escritores fugirem da costumeira reflexão sobre a realidade

por MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

Dentre os fantasmas que rondam os escritores (obsessões pessoais, memórias traumáticas, a perturbadora e irrepresentável realidade à volta etc.), um dos mais recorrentes é a sombra de outros autores.
A tal ponto que o crítico norte-americano Harold Bloom cunhou a expressão “angústia da influência” para explicar as “relações intrapoéticas” nas quais uma obra é sempre uma releitura (assumida ou inconfessada) de seus precursores.
Num plano mais mundano, os escritores costumam ostentar seus empréstimos (são casos, parodiando Bloom, de “orgulho da influência”) ou negar suas dívidas (“fobia da influência”). Na história recente da literatura brasileira (tão recente que não sabemos ainda quem de fato entrará para a história) pode-se ver uma oscilação entre essas duas posturas.
No início do novo milênio, começou a circular a expressão “Geração 90” (título de uma antologia de contos organizada por Nelson de Oliveira) para designar alguns escritores surgidos na década anterior -nomes como Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Luiz Ruffato, André Sant’Anna e Joca Reiners Terron.
Em comum entre eles, a temática urbana, a preocupação em representar o esgarçamento do tecido social por meio de uma prosa fragmentária -ora mimetizando a fala da rua (meganhas, criminosos, desvalidos de todo tipo), ora emulando as narrativas policiais.
Não tardou para que tal denominação fosse tachada de lance publicitário. Talvez o seja, mas isso não cancela as reais convergências entre eles, além da fonte comum na prosa hiper-realista criada por Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, João Antonio ou Ignácio de Loyola Brandão -autores citados, aqui e ali, pelos integrantes da Geração 90.

Idéia de geração
De todo modo, a idéia de “geração” ficou indelevelmente marcada, gerando movimento contrário: a negação radical, pelos novos escritores, de quaisquer afinidades eletivas, seja entre seus pares, seja em relação a hipotéticos precursores. Ocorre que a influência é um fenômeno interior ao texto literário e muitas vezes independe da vontade de seu autor. Podemos, portanto, identificar aquelas sombras que, mesmo a contragosto, insistem em neles se projetar.
Não se trata, bem entendido, de uma continuidade entre a produção atual e a Geração 90 -que, a rigor, também deixa margem a diálogos mais pontuais. Bom exemplo é a dicção dura, bestializante, do romance “Subúrbio”, de Bonassi, que se comunica com Graciliano Ramos e seus “bichos do subterrâneo” (a expressão é de Antonio Candido).
Quais seriam as influências dos escritores que aparecem hoje como apostas das grandes editoras ou como contemplados por prêmios e bolsas de criação literária?

Estética da violência
É inevitável, por exemplo, reportar “A Guerra dos Bastardos”, de Ana Paula Maia, à estetização da violência presente nos romances de Rubem Fonseca e Patrícia Melo -mesmo que esse diagnóstico não caiba em seu livro anterior, “O Habitante das Falhas Subterrâneas”. Ainda dentro do gênero policial, “Estado Vegetativo”, de Tiago Novaes, é uma homenagem aos jogos de espelhos de Borges e ao cerebralismo de Poe mas também ao rebaixamento irônico da ficção de Luis Fernando Verissimo (autor de “Borges e os Orangotangos Eternos”, paródia do escritor argentino).
Verissimo, aliás, é uma presença oculta nos contos escatológicos de Veronica Stigger, que recuperam o absurdo das crônicas do escritor gaúcho.
Seu “Gran Cabaret Demenzial” inclui outras referências, que remontam à iconoclastia das artes plásticas (especialmente Marcel Duchamp), com uma decomposição grotesca do corpo e uma obsessão por orifícios que reconduzem a subjetividade a estados inorgânicos, pulsionais (no sentido psicanalítico do termo).
Na ficção de Veronica, há um caráter alegórico também presente em “Mastigando Humanos”, de Santiago Nazarian, no qual o jacaré-narrador circula pelos esgotos numa deglutição psicodélica do lixo da indústria cultural. O Kafka de “A Metamorfose” está à espreita em versão biodegradável, da mesma forma que Edward Pimenta, em “O Homem que Não Gostava de Beijos”, cria uma personagem fantástica que troca de identidade e freqüenta figuras midiáticas como Michael Jackson e Madonna para neles introduzir um elemento perturbador, à maneira do Zelig de Woody Allen.
O recurso ao universo pop, à mescla de elementos da alta cultura com ícones da comunicação de massa (cinema, rock, seriados de TV), talvez seja a forma que esses novos escritores encontraram para apagar as marcas de uma literatura sempre convocada a refletir sobre a realidade na qual está imersa.
Essa realidade já não corresponde aos temas modernistas da identidade nacional. Sai de cena a última geração que tentou dar resposta ficcional ao imperativo da emancipação política; entra no palco uma anti-geração, às voltas com conflitos subjetivos cujo espaço é fluido -e que corresponde à nossa massacrante irrealidade.

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