Mal de Montano

maio 14, 2007

“Independentes”, novos rejeitam rótulo

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 12:54 am

Livros/antigeração

Autores ressaltam mudanças criadas pela internet, dizem que é mais fácil publicar e preferem seguir caminhos individuais

Nova safra de escritores usa a rede e se distancia da tentativa de formação de “movimentos”, como a chamada Geração 90

Rodrigo Paiva/Folha Imagem

Veronica Stigger, Santiago Nazarian, Carola Saavedra e Ana Paula Maia, escritores que se reuniram na Folha para discutir suas influências, o uso da internet e a luta para entrar no mercado

MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCAL

“Fobia da influência”. Essa é uma boa definição para uma nova geração de autores que começa a ser adotada pelas grandes editoras. Ao contrário do grupo que os precedeu, o conjunto de novos escritores está em sua maior parte buscando caminhos independentes, rejeita grandes influências e consegue mais visibilidade.
A explosão dos blogs e o barateamento do custo de publicação são duas razões dessa maior exposição dos novos. Há um grande número de nomes aparecendo e a dificuldade, agora, parece ser o processo de amadurecimento.
“Pelo número, fica evidente que nunca se publicou tanto”, diz Daniel Galera, que ficou conhecido como o criador da microeditora Livros do Mal e é uma espécie de símbolo do jovem que conseguiu sair da produção caseira para uma grande editora. Para ele, nunca foi tão fácil publicar. “Hoje há uma tecnologia mais acessível e barata, com amigos tu consegue resolver”, disse à Folha.
Joca Reiners Terron, que também ficou conhecido por uma pequena editora alternativa, a Ciência do Acidente, concorda. “Tudo é muito mais barato, está ao alcance das mãos, as pessoas podem produzir seus livros sozinhas e dá para fazer a autodivulgação.” Ao contrário dos anos 90, que viu pelo menos uma tentativa de movimento em torno da chamada Geração 90 [leia na página E6], os nomes atuais evitam classificação. “Eu me sinto parte da mesma fase [da Geração 90]”, diz Galera, 27.
Cecilia Giannetti, colunista da Folha e autora que vai publicar seu primeiro romance neste ano, é mais incisiva: “Para os escritores, esse debate [geracional] atrapalha, não gosto de procurar marcas iguais”.
Outra força para os novos é a internet. “Blog nem existia, publicar na internet já era notícia e isso nos ajudou”, diz Galera.
Daniel Pellizzari, que foi sócio de editora de Galera, concorda: “Já tínhamos público formado, isso foi importante para as editoras grandes, elas estão com um olhar mais atento”.
Giannetti também acha que a internet ajudou. “Hoje é mais fácil, o editor conta com novos métodos de filtragem como a internet. O pessoal das antigas ainda manda material impresso e encadernado. Agora, se chega por email, depois de três páginas você [o editor] já pode ter uma idéia”.
Para estimular o debate, a Folha reuniu em São Paulo quatro jovens escritores representativos dessa nova safra para falar sobre o que os une (ou separa), influências, internet e a batalha de quem tenta entrar no mercado. Foram convidados apenas autores de prosa: Carola Saavedra, Veronica Stigger, Santiago Nazarian e Ana Paula Maia.

 
FOLHA – É possível hoje falar em uma nova geração de escritores? Existem pontos em comum ou de ruptura com os autores que já estão consolidados no mercado editorial?
SANTIAGO NAZARIAN –
É bobagem falar de geração, mas acho também bobagem desprezar totalmente, falar que não existe. Quem tem idades próximas, cresceu nos anos 80, sofreu muitas influências parecidas. Isso acaba se manifestando de alguma forma na literatura. Mas ao mesmo tempo acredito que todo autor procure alguma voz própria. A escrita tem muito a ver com o individualismo, é uma atividade supersolitária. Acho que são inevitáveis alguns traços em comum, principalmente nos temas. Não tanto na linguagem ou no estilo.
ANA PAULA MAIA – Acho que não há influência de um autor ou de um grupo de autores. Posso dizer que tenho uma influência muito grande da cultura pop, do desenho animado “Caverna do Dragão”, das novelas das oito… Eu me lembro que assistia a “A Pantera Cor-de-Rosa” tomando mamadeira. Cresci assistindo filmes de Jerry Lewis, de Elvis Presley, consumindo rock dos anos 80.
CAROLA SAAVEDRA – Falar em influência é muito difícil, até porque muitas das influências que tive funcionaram de forma inconsciente. É difícil falar de uma geração, porque as pessoas estão escrevendo em linhas diferentes. Posso falar do que estou procurando. Me interessa a literatura como processo, a estrutura da narrativa. Trabalhar com isso, mais do que contar uma história. Para mim foram muito importantes autores hispano-americanos, chilenos, espanhóis. O Roberto Bolaño foi muito importante, o César Aira e o Ricardo Piglia.FOLHA – E quanto ao gênero? O romance policial e a violência parecem ter influenciado os autores da geração anterior…
SANTIAGO NAZARIAN –
Gosto mais de mistério e horror do que de policial. Acho que os meus quatro livros são muito diferentes entre si. Em “A Morte Sem Nome”, queria fazer um livro exagerado, pretensioso. Quando eu cheguei no quarto livro, “Mastigando Humanos”, falei: agora é hora de eu tentar algo que seja literatura e que ao mesmo tempo possa ser divertido. Foi um pouco assim que mudou a minha posição quanto à literatura. Publiquei o primeiro livro com 25, agora estou me formando e ainda espero que continue me formando por um bom tempo, eu não quero estacionar.
VERONICA STIGGER – Concordo com a Ana Paula, acabamos sendo influenciados por tudo o que a gente vê e lê, por tudo o que se assiste na televisão, no cinema etc. No meu caso, acho que fui muito influenciada pela minha tese. Tenho uma “vida dupla”. Dou aula de estética e história da arte, modernismo. Meus dois livros foram feitos ao mesmo tempo em que eu estava fazendo a pesquisa de doutorado, sobre arte, mito e rito na modernidade. Vejo os dois livros como vestígios das leituras que fiz para a tese. No primeiro, vejo a construção dos personagens de uma forma meio mítica. “Gran Cabaret Demenzial” foi gestado em Roma, onde fui estudar Mondrian, Malevitch, Duchamp… Aqueles manifestos: dadaístas, surrealistas, o futurismo italiano, o futurismo russo. Estudei como se organizavam aquelas “soirées”.
Daí vem o nome “Gran Cabaret Demenzial”. Meu livro, estruturalmente falando, tem um pouco dessas noitadas. Vejo todos aqueles textos como se fossem contos, que vão adquirindo uma forma de poema e até de uma peça.
ANA PAULA MAIA – Gostar de escrever sobre violência é mais por vivência. Fui criada no subúrbio, no meio de matadores. Desde pequena conheci os dois lados da cidade. Meu pai tinha um bar, a gente tinha que trabalhar lá. Nos fins de semana se juntavam todos os matadores. Eram gente boa, pais de família… E os homens têm um diálogo maravilhoso. Eles conversando informalmente é muito divertido. Só reproduzo. Mas meu primeiro romance não tem nada disso. É um romance burguesão.
CAROLA SAAVEDRA – Estou falando de um outro mundo. “Toda Terça” é um livro que trata em parte da experiência do estrangeiro, da Alemanha, como lidar com a dificuldade da comunicação. A respeito do estrangeiro, do preconceito. Também do preconceito ao contrário, da idealização da América Latina ou de parte da África ou da Ásia, como um Eldorado mítico. E como funcionam essas relações, essas tentativas de comunicação. O personagem namora uma menina que é antropóloga, então, através desses personagens, também tem um pouco essa tentativa de enxergar o outro. Estou falando da identidade do sujeito também, porque uma parte é com o Javier e tem a outra parte que é com o psicanalista. A personagem está construindo uma identidade artificialmente. Roubando a história de outras pessoas.

FOLHA – O que vocês acham da internet, dos blogs?
ANA PAULA MAIA –
Eu escrevo um folhetim na internet. O tamanho de um capítulo é o tamanho de um “post” de um blog.
SANTIAGO NAZARIAN – Tenho uma visão um pouco diferente. Vejo o meu blog como um meio de divulgar os livros. Não faço literatura no blog. Acho importante ter esse mural, para as pessoas saberem tua opinião sobre determinado ponto de vista, coisa de formador de opinião mesmo.

FOLHA – Ser escritor está na moda?
SANTIAGO NAZARIAN –
Acho que já teve um boom maior, já passou. Surgiu muito com a história do (Daniel) Galera, a Clarah Averbuck estourando no blog, o projeto (do livro) “Parati para Mim”. Isso fez as editoras apostarem em novos autores, até 2005, daí perceberam que não rendia tanto assim em termos de vendas, e a coisa apaziguou um pouco.
CAROLA SAAVEDRA – A minha impressão é que tem um interesse, sim, das editoras grandes também, por novos autores. Eles estão procurando.
ANA PAULA MAIA – Eles sempre têm esse discurso, estamos procurando. Daqui a 20 anos vão dizer a mesma coisa.

FOLHA – Com os custos menores, não há uma menor dependência das editores grandes? Antes só havia as grandes, hoje há uma miríade de editoras menores…
CAROLA SAAVEDRA –
Só que me parece que tem um ponto que é muito difícil de ultrapassar. É relativamente fácil você publicar por uma editora pequena, mas sair dali para uma editora maior…
VERONICA STIGGER – Para mim, o segundo livro foi mais difícil de fazer, mas não por questões de mercado. Eu lancei o primeiro livro aos 30 anos, ou seja, levei a a vida toda para escrever. Para o segundo, tive três anos…


Colaborou MANUEL DA COSTA PINTO, colunista da Folha

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Novos autores se afastam de temas da identidade nacional

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 12:51 am

Análise


Recurso ao universo pop talvez seja uma forma de os novos escritores fugirem da costumeira reflexão sobre a realidade

por MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

Dentre os fantasmas que rondam os escritores (obsessões pessoais, memórias traumáticas, a perturbadora e irrepresentável realidade à volta etc.), um dos mais recorrentes é a sombra de outros autores.
A tal ponto que o crítico norte-americano Harold Bloom cunhou a expressão “angústia da influência” para explicar as “relações intrapoéticas” nas quais uma obra é sempre uma releitura (assumida ou inconfessada) de seus precursores.
Num plano mais mundano, os escritores costumam ostentar seus empréstimos (são casos, parodiando Bloom, de “orgulho da influência”) ou negar suas dívidas (“fobia da influência”). Na história recente da literatura brasileira (tão recente que não sabemos ainda quem de fato entrará para a história) pode-se ver uma oscilação entre essas duas posturas.
No início do novo milênio, começou a circular a expressão “Geração 90” (título de uma antologia de contos organizada por Nelson de Oliveira) para designar alguns escritores surgidos na década anterior -nomes como Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Luiz Ruffato, André Sant’Anna e Joca Reiners Terron.
Em comum entre eles, a temática urbana, a preocupação em representar o esgarçamento do tecido social por meio de uma prosa fragmentária -ora mimetizando a fala da rua (meganhas, criminosos, desvalidos de todo tipo), ora emulando as narrativas policiais.
Não tardou para que tal denominação fosse tachada de lance publicitário. Talvez o seja, mas isso não cancela as reais convergências entre eles, além da fonte comum na prosa hiper-realista criada por Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, João Antonio ou Ignácio de Loyola Brandão -autores citados, aqui e ali, pelos integrantes da Geração 90.

Idéia de geração
De todo modo, a idéia de “geração” ficou indelevelmente marcada, gerando movimento contrário: a negação radical, pelos novos escritores, de quaisquer afinidades eletivas, seja entre seus pares, seja em relação a hipotéticos precursores. Ocorre que a influência é um fenômeno interior ao texto literário e muitas vezes independe da vontade de seu autor. Podemos, portanto, identificar aquelas sombras que, mesmo a contragosto, insistem em neles se projetar.
Não se trata, bem entendido, de uma continuidade entre a produção atual e a Geração 90 -que, a rigor, também deixa margem a diálogos mais pontuais. Bom exemplo é a dicção dura, bestializante, do romance “Subúrbio”, de Bonassi, que se comunica com Graciliano Ramos e seus “bichos do subterrâneo” (a expressão é de Antonio Candido).
Quais seriam as influências dos escritores que aparecem hoje como apostas das grandes editoras ou como contemplados por prêmios e bolsas de criação literária?

Estética da violência
É inevitável, por exemplo, reportar “A Guerra dos Bastardos”, de Ana Paula Maia, à estetização da violência presente nos romances de Rubem Fonseca e Patrícia Melo -mesmo que esse diagnóstico não caiba em seu livro anterior, “O Habitante das Falhas Subterrâneas”. Ainda dentro do gênero policial, “Estado Vegetativo”, de Tiago Novaes, é uma homenagem aos jogos de espelhos de Borges e ao cerebralismo de Poe mas também ao rebaixamento irônico da ficção de Luis Fernando Verissimo (autor de “Borges e os Orangotangos Eternos”, paródia do escritor argentino).
Verissimo, aliás, é uma presença oculta nos contos escatológicos de Veronica Stigger, que recuperam o absurdo das crônicas do escritor gaúcho.
Seu “Gran Cabaret Demenzial” inclui outras referências, que remontam à iconoclastia das artes plásticas (especialmente Marcel Duchamp), com uma decomposição grotesca do corpo e uma obsessão por orifícios que reconduzem a subjetividade a estados inorgânicos, pulsionais (no sentido psicanalítico do termo).
Na ficção de Veronica, há um caráter alegórico também presente em “Mastigando Humanos”, de Santiago Nazarian, no qual o jacaré-narrador circula pelos esgotos numa deglutição psicodélica do lixo da indústria cultural. O Kafka de “A Metamorfose” está à espreita em versão biodegradável, da mesma forma que Edward Pimenta, em “O Homem que Não Gostava de Beijos”, cria uma personagem fantástica que troca de identidade e freqüenta figuras midiáticas como Michael Jackson e Madonna para neles introduzir um elemento perturbador, à maneira do Zelig de Woody Allen.
O recurso ao universo pop, à mescla de elementos da alta cultura com ícones da comunicação de massa (cinema, rock, seriados de TV), talvez seja a forma que esses novos escritores encontraram para apagar as marcas de uma literatura sempre convocada a refletir sobre a realidade na qual está imersa.
Essa realidade já não corresponde aos temas modernistas da identidade nacional. Sai de cena a última geração que tentou dar resposta ficcional ao imperativo da emancipação política; entra no palco uma anti-geração, às voltas com conflitos subjetivos cujo espaço é fluido -e que corresponde à nossa massacrante irrealidade.

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