Mal de Montano

abril 24, 2007

“Escrever é uma ponte entre o real e o imaginário”

Filed under: Entrevistas — maldemontano @ 4:51 pm


A Tribuna – Santos – 23/04/2007

O escritor Milton Hatoum foi uma das estrelas do último sábado da 1ª Bienal de Guarujá, que acontece no Pavilhão de Eventos Enseada (Avenida Miguel Esféphano, 1.739) até o próximo dia 30. O vencedor do Prêmio Jabuti 2006, com a obra Cinzas do Norte, participou do Salão de Idéias, espaço de encontro entre autores e público, falando sobre o tema O Processo de Criação do Romance Contemporâneo, destacando as alegrias de construir personagens e da sensação de fracasso ao deixar um livro inacabado.

Em entrevista a A Tribuna, ele ressaltou as principais dificuldades de escrever, falou sobre o difícil acesso aos jovens e sobre seu novo romance, que deve ser publicado no segundo semestre deste ano.

Qual a maior dificuldade no processo de criação de um romance?
É saber se o assunto eleito cabe no tema, porque muitas vezes ele não se ajusta ao gênero. Às vezes, o autor tem o assunto, mas ele é limitado e cabe melhor em formato de novela ou de relato. Sempre espero que o tema me procure, que entre na minha vida. Então, tento falar sobre o assunto por meio da literatura.

Em que se baseia para escrever?
Quando escrevo um romance é porque de alguma forma essa história aconteceu comigo. Costumo dizer que o romance é a arte do \’como se tivesse acontecido\’. É uma ponte entre o real e o imaginário. Repetir aquilo que eu vivo ou que o leitor vive não tem graça. Acho que os outros querem ler o que poderia ter acontecido comigo, ou com eles e, dessa forma, se verem projetados na trama.

O senhor escreve para um tipo de leitor específico?
Não, porque o maior mistério da literatura é o leitor. A gente nunca sabe para quem está escrevendo e o mais difícil é descobrir como escrever um bom livro, uma história que envolva os leitores. O resultado é sempre uma surpresa. Quando escrevi Dois Irmãos, achava que seria um fracasso (o livro também foi vencedor do Prêmio Jabuti).

Brasileiro lê pouco?
Existem leitores que conhecem literatura e não é um público desprezível. A expansão das universidades, das escolas, de bienais, enfim, dos eventos culturais tem contribuído para o aumento desses leitores. Acho que esse número vai crescer quando o governo investir mais na escola pública, aumentar o piso salarial, a reciclagem dos professores e instalar bibliotecas e equipamentos nos colégios.

O jovem de hoje não lê? Por quê?
Falta no currículo das escolas incluir discussões entre professores para escolher quais livros indicar. Se você manda um jovem ler algo que ele não gosta, que não chame sua atenção, ele não vai se interessar. Duvido que eles não gostem de ler A Morte e A Morte de Quincas Berro D\’ Água, de Jorge Amado, que tem uma linguagem menos rebuscada e uma história que envolve desde a primeira página. Essa é uma literatura de qualidade e fácil acesso. É preciso perceber que o universo do jovem de hoje, às vezes, é muito limitado. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, o meu livro Dois Irmãos entrou na lista de publicações que devem ser lidas para o vestibular de algumas faculdades, o que é motivo de orgulho para mim. O que importa é que o jovem inicie lendo bons livros, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa.

Começar com livros de auto-ajuda pode ser prejudicial. Por quê?
Porque acredito que esses livros são enganadores e o principal engano que se pode cometer é acreditar que esse tipo de publicação é literatura. Se você lê obras de auto-ajuda mas conhece Machado de Assis e sabe diferenciá-los tudo bem.

O senhor foi convidado para lecionar em uma Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Aceitou o convite?
Eu deveria ter ido em março para ficar lá durante seis meses, mas adiei porque minha mãe adoeceu e precisou fazer uma cirurgia. Pretendo ir no ano que vem.

A literatura brasileira é bem aceita nos Estados Unidos?
Poucos escritores brasileiros são traduzidos lá. Os Estados Unidos são um país fechado à literatura estrangeira e as traduções não chegam a 10% nas livrarias, enquanto na Europa o índice é de 30%. É um país que não tem interesse pela cultura do outro, apenas as universidades abrem esse espaço.

Elas seriam a porta de acesso ao país?
Sim, essas são as portas, mas eu diria que são pequenas para a quantidade de escritores.

No momento o senhor está escrevendo um novo livro?
Sim, estou terminando uma novela (pequeno romance) sobre o mito do Eldorado, que fala sobre pessoas ribeirinhas que acreditam que, embaixo das águas, há uma cidade perfeita, onde não há miséria e violência. Trata-se de uma história de amor, um drama familiar, em uma cidade fictícia do Amazonas. A previsão é que ele seja publicado ainda no segundo semestre deste ano.

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