Mal de Montano

janeiro 7, 2007

A volta da adorável subversão de Nelson Rodrigues

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 11:11 pm

Único romance em que assinou com o próprio nome, O Casamento foi proibido quando lançado, em 1966

Por Ubiratan Brasil

Quando faz referência à versão que levou ao cinema do romance O Casamento, de Nelson Rodrigues, o cineasta e comentarista Arnaldo Jabor é enfático: ‘É um filme duro, violento e grotesco, esquisito, sexual, estomacal, intestinal, uma grande explosão.’ Também a adaptação teatral que João Fonseca e Antonio Abujamra fizeram nos anos 1990 arrancou gargalhadas e aplausos em cena aberta, quando encenada nos palcos cariocas. Mesmo nascido em 1966, o romance rodriguiano mantém uma assustadora atualidade por sua violência e dramaticidade ao revelar o brutal apodrecimento de uma família na véspera do casamento da filha. É o que se pode constatar com a leitura de O Casamento, recentemente relançado pela editora Agir que, felizmente, investe na publicação da obra em prosa de Nelson Rodrigues – o anterior foi A Vida como Ela É.

Único romance que o dramaturgo e cronista assinou com o próprio nome, sem recorrer a pseudônimos folhetinescos, O Casamento foi um extraordinário sucesso na época do lançamento, vendendo 8 mil exemplares nas duas primeiras semanas de setembro de 1966, equiparando-se a Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, lançado na mesma época. Escrito em apenas dois meses, foi uma encomenda de Carlos Lacerda, que queria um inédito de Nelson Rodrigues para inaugurar sua editora Nova Fronteira. Mas, ao ler os originais, Lacerda ficou chocado e não quis publicá-lo. Então armou um belo estratagema e repassou-o a um amigo comum de ambos, Alfredo Machado, da Guanabara, que o aceitou correndo.

Mesmo assim, Nelson não tinha motivos para comemorar: dias depois de a obra chegar às livrarias, ele foi surpreendido pela morte do irmão, Mário Filho. Com isso, noites de autógrafos, entrevistas, coquetéis, tudo foi cancelado. E, antes que pudesse recuperar-se do impacto, o escritor levou outro baque ao ser informado de que O Casamento fora proibido por Carlos Medeiros Silva, ministro da Justiça do então presidente, o marechal Castelo Branco. Motivo: ‘A torpeza das cenas descritas e a linguagem indecorosa em que está vazado.’ Segundo o documento, o romance era um ‘atentado’ contra a ‘organização da família’.

Na verdade, a cegueira cultural da censura militar era latente – o livro conta a história de uma família conservadora que revela o seu desmoronamentovenenos acobertado pela tradicional hipocrisia. Estão, em O Casamento, frases que se tornaram clássicas como ‘Só os profetas enxergam o óbvio’, ‘Não acredito que uma mulher possa amar o mesmo homem por mais de dois anos’, ‘Qualquer um pode ser obsceno, menos o ginecologista’ e, talvez, a mais conhecida, ‘Todo canalha é magro’.

A sociedade brasileira, porém, não parecia preparada para encarar um retrato tão detalhista. A proibição pela censura federal praticamente não repercutiu na imprensa, fruto da pesada mão que o governo militar impunha aos meios de comunicação. Pior: o jornal O Globo, no qual Nelson escrevia diariamente a coluna À Sombra das Chuteiras Imortais, publicou um artigo de primeira página defendendo a proibição. O jornal não citava diretamente o título da obra, mas elogiava a ‘corajosa’ atitude do ministro ao proibir um livro que atentava contra ‘os princípios basilares da nossa organização social, e entre esses o matrimônio’.

Nelson tentou se defender – em entrevista ao Jornal do Brasil, o escritor dizia que a medida era odiosa e analfabeta. ‘O livro é de um moralismo transparente, taxativo e ostensivo para quem sabe ler e para quem não é analfabeto nato ou hereditário’, protestou ele, conforme relata Ruy Castro na biografia O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras). ‘A esperança que tenho, apesar de tudo, é a de que não assistirei à queima pública do meu livro como numa cerimônia nazista.’

A condenação, de fato, não chegou a tal extremo, mas o silêncio de seus pares (apenas alguns amigos como Paulo Francis, Hélio Pellegrino e Franklin de Oliveira protestaram publicamente contra a proibição) decepcionou o escritor. Para completar, um de seus detratores se deu ao trabalho de contar os palavrões em O Casamento e computou 147. Curiosamente, ainda lembra Ruy Castro, as livrarias estavam abarrotadas de exemplares do livro Trópico de Câncer. ‘E o romance de Henry Miller continha essa mesma quantidade de palavrões – só que por capítulo’, aponta.

Seis meses depois, já em 1967, o Tribunal Federal de Recursos liberou o livro, considerando o ato do ministro da Justiça como de ‘ilegalidade máxima’. Mas o destino funéreo de O Casamento estava marcado: sem críticas publicadas na imprensa, o interesse do público desapareceu e a obra só voltou a despertar atenção em 1975, com o filme de Arnaldo Jabor, e, em 1993, com sua republicação pela Companhia das Letras.

A volta da obra às livrarias oferece ao leitor a oportunidade de ter um contato justamente com o inventário de obsessões mais caras a Nelson Rodrigues. Adultério, incesto, assassinato e um austero moralismo pontuam as páginas do livro, que volta a subverter a ordem mesmo no novo milênio. Autor de uma dramaturgia que foi um divisor de águas no teatro brasileiro, unindo elementos melodramáticos, naturalistas e expressionistas, Nelson tornou-se, com o correr dos anos, uma das poucas unanimidades dos palcos nacionais. E seus romances acompanham a mesma trajetória, apresentando sua própria perspectiva política de um estilo de vida familiar específico de um patriarcalismo muito local. Ruy Castro aponta O Casamento como um dos três ou quatro maiores romances brasileiros do século passado. Poucos desaprovam.

Fonte O Estado de São Paulo

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O Casamento, Nelson Rodrigues, Editora Agir, 372 págs., R$ 40

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