Mal de Montano

dezembro 22, 2006

Biblioteca ideal

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 1:19 am

Por Pandora Montana

Cada pessoa (que tem por prazer e paixão a leitura) pode definir o que seria uma biblioteca “ideal”.

Difícil mesmo é não esquecer um título e poder ler, durante essa vida rápida, tudo o que se gostaria.

Como estamos em uma época de festas, recesso e, para alguns, férias, que tal pensarmos na nossa biblioteca ideal? Você já parou para pensar quais são os livros que não poderiam faltar na sua? Você já leu grande parte do que gostaria?

Fica aqui uma boa oportunidade para rever as estantes e pedir ao Noel as obras que faltam. E, até mesmo, ler aquele autor que já anda meio empoeirado na prateleira mais alta.

Hoje recolhi, na internet, a dica da historiadora e arqueóloga Fernanda de Camargo-Moro. Lembrando que cada um terá a sua lista (seja por gosto, estética, identidade, paixão absoluta) e algumas coincidências podem ocorrer!

Vamos lá!

_____________________________________

“A leitura é essencial em todos os aspectos, não só para cultivar o espírito e estruturar a personalidade, mas também para abrir caminhos, vias de comunicação e de embelezamento da vida”, define a historiadora e arqueóloga Fernanda de Camargo-Moro, que, durante quase 40 anos, se dedicou a um fascinante trabalho de campo em montanhas e desertos da Ásia e da Arábia. Envolvida em dois projetos – Himalaia e Rotas de Cultura, que vai de Veneza até a Índia –, ela analisava a relação dos achados arqueológicos de antigas civilizações com a cultura e o meio ambiente. 

Com base em suas ricas experiências, Fernanda atualmente dirige teses e seminários, além de se dedicar à escrita. Fora as edições e os artigos de caráter técnico-científico, tem várias obras voltadas ao grande público: Arqueologias culinárias da Índia; Veneza: O encontro do Oriente com o Ocidente; A ponte das turquesas; Nos passos da Sagrada Família; Arqueologia de Madalena. São relatos de suas viagens, em que ela retrata amorosamente os aspectos culturais desses lugares distantes e das pessoas com as quais conviveu. Nas 500 páginas de A ponte das turquesas, por exemplo, percorre lendas, monumentos, história, arte e singularidades do império turco, como os mistérios do harém e as requintadas comidas palacianas. É um guia completo para quem vai a Istambul.  

“Escrever, para mim, é uma forma de retornar a um tempo inesquecível e revivê-lo num novo espaço. Eu busco as memórias como um tecelão busca as cores para criar um tapete, ou como um aquarelista tange suas cores em busca de uma imagem”, diz a autora, que encontra, na literatura, o alimento para sua aguçada sensibilidade. “Quando não estou escrevendo, estou lendo – intensamente. Os livros são minha eterna paixão, o grande e insubstituível prazer.” 

A arqueóloga ressalta que os livros foram imprescindíveis em sua trajetória profissional, mencionando alguns dos autores que mais a influenciaram, como Aristóteles, Hegel, Descartes, Voltaire, Fernand Braudel – “meu eterno guru e querido professor”. Suas indicações de leitura: 

Ressurreição, de Machado de Assis. Esta primeira obra do autor, de 1870, me encantou quando eu ainda era criança. Como o próprio autor definiu, não é um “romance de costumes”, mas “o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres”. Na minha visão, ali se desenha, com firmeza, a luta entre a razão e a paixão. 

Capitães da areia, de Jorge Amado. Escrita na primeira fase do autor, esta obra-prima denota sua intensa preocupação social. As autoridades e o clero, com exceção do Padre Pedro, são retratados como opressores, cruéis e responsáveis pelos males. Por outro lado, os problemas existenciais dos quase cem garotos que moram num trapiche abandonado os transformam em heróis únicos e corajosos, corajosos capitães das areias de Salvador.  

O encontro marcado, de Fernando Sabino. Num estilo inovador, a história de Eduardo Marciano é contada por um narrador que parece conhecê-lo profundamente. O leitor é convidado a participar do relato e a se identificar com as angústias de Eduardo, que começam na infância, quando sua galinha de estimação vira o almoço de domingo. 

A tragédia da Rua das Flores e os Os Maias, de Eça de Queiroz. A leitura destas duas obras geniais, que considero profundamente interligadas, transformou-se em uma nova experiência quando pude relê-las uma em seguida da outra – Os Maias, depois A tragédia –, observando com mais acuidade a metamorfose dos personagens e suas similitudes.  

Justine, Balthazar, Mountolive e Cléa – os quatro volumes que compõem O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Publicado no final dos anos 1950, é um conjunto literário que, a meu ver, permanecerá como Proust – exemplar e inesgotável. As novelas são passadas em Alexandria, uma cidade semi-oriental, com personagens europeus, orientais e mesclados das duas culturas. Seu estilo, que eu chamaria de metamórfico, pois os personagens vão se modificando dentro do ponto de vista de cada interpretação, me seduziu e enfeitiçou. 

O vermelho e o negro, de Stendhal. Durante a ascensão social pretendida por Julien Sorel, figuram duas mulheres singulares, que representam as duas inclinações do seu caráter: a Senhora de Renal, o sonho e a aspiração a uma felicidade pura e simples; e Mathilde de
la Mole, a energia, a ação brilhante e febril. Conseguindo conciliar realismo e romantismo, Stendhal faz um retrato social da época (1830) e o enriquece com uma inteligente e perspicaz análise psicológica.
 

Fora do lugar, de Edward W. Said. Nascido numa Jerusalém sob mandato britânico, de pais palestinos cristãos, que se viram obrigados a partir da terra natal logo após a criação do Estado de Israel, Edward W. Said viveu no Egito, no Líbano e nos Estados Unidos, sentindo-se sempre um ‘fora do lugar’. Neste livro, escrito durante sua luta contra um câncer que o levaria à morte em 2003, ele fala do processo de construção de sua identidade e, como pano de fundo, dos problemas que convulsionaram o Oriente Médio no século 20. Esta e outras obras do autor foram imprescindíveis para uma melhor compreensão das regiões ditas do Oriente. 

Para onde você vai com tanta pressa, se o céu está em você?, de Christiane Singer. Esta obra, que mostra a parte mais sensível de uma mulher, confirma mais uma vez a sutileza e a profundidade dessa autora, cujos livros se tornam, para muitos, volumes de cabeceira.  

Eu poderia recomendar ainda vários outros que, para mim, são inesquecíveis: Crime e castigo, de Dostoievski; A natureza das coisas, de Lucrécio; Cândido, de Voltaire; A balada do cárcere de Reading, de Oscar Wilde, Os ensaios, de Montaigne, Cartas persas, de Montesquieu, e muitos mais que este espaço não comportaria. 

Fonte aqui

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: