Mal de Montano

dezembro 20, 2006

Antes de o sol nascer

Filed under: Contos,Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 2:25 pm

Por Solange Pereira Pinto

 

Foi na topada da calçada. Havia sim bebido demais, ou talvez o suficiente para tropeçar na razão e deixar seu corpo cair. Suzana pagou a conta sozinha. Entrou no Audi prata. Acenou loira um tchau embriagado. No alto volume lançou o CD novamente. O volante seguia ao retumbe da bossa. Velho dia nova. Seguia, ensurdecida de desejo. Havia o pensamento. O refrão da despedida “não posso ficar” que se misturava ao estribilho “garçom nessa mesa de bar”. Detestava rima pobre. Ora, porra! Todos vão embora, enfim. Para ela, afinal, apenas quatro horas da madrugada. As ruas largas da cidade entreabriam a sofregidão. Maldita segunda-feira. Cruzou as sinaleiras. Os viadutos. Os bares de becos. Os pubs da moda. Nada. Vazio. Ninguém. Desligou o som. Cantou sozinha acompanhada pelos amortecedores. Pelo retrovisor avistou vultos. Dois homens. Um agachado. Outro não. Descia o viaduto. Logo em frente três adolescentes cheirando cola. Diria sim, sabia. Não eles, talvez. Ela. Reduziu a marcha. Rodopiou o balão. Era o retorno do possível. De um lado seguir para casa. De outro seguir para o insólito. Preferia conduzir. Acelerou. Buscou na bolsa o batom. Pegou o chiclete. Nem faróis opostos. Que saco! Suzana decidiu estourando nos lábios da bola de borracha. Ainda açucarada. Parou o carro. Psiu! Ei, você! O rapaz que limpava a frente do bar olhou para trás. Ei! Venha cá! Voz doce, mascando hortelã. O que é? Precisa de ajuda? Venha… Eu? Onde tem uma cerveja? Olha madame, não sei não. Onde você vai dormir? Eu? Detestava esses monossílabos educados. Sim, você não está trabalhando? Sim, estou. Numa hora dessas vai embora, não vai? Sim, vou. Então, onde você mora? É…é que hoje durmo aqui mesmo depois de dar um trato na fachada. Era um moço alto, sorriso tímido. Boca lasciva. Mãos fortes. Quando você termina isso ai? Eu? Ai, ai, ai… ela pensou. Ué, agora. Ele entendeu. Os quadris mudaram de banco. A vassoura ficou encostada sob o letreiro. Ela ajeitou o olhar no espelho carona. O rapaz entrou. Ligou a ignição. Acendeu o último cigarro. Para onde quer ir? Qualquer lugar em que o ponteiro não amanheça antes de o sol nascer.

 

 

 

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