Mal de Montano

dezembro 2, 2006

Debate: quero escrever, mas… (I)

Filed under: Debatendo,Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 12:04 pm

exerccores.jpg

Por Arbel Griner

  

A pergunta era: o que me levaria a não escrever? O ato, mais que prazeroso para mim, é redentor e catártico. Sinto vontade de fazê-lo para desabafar, para compartilhar, para me analisar e, quiçá, entender. Tanta coisa conduz ao escrever, então, por que não?

 

Um motivo em que consigo pensar agora… Talvez seja o número um. Dá até vergonha de pronunciar ou de deixar registrado por escrito, apesar de ser muito comum. Sim. Seria ela a causa: a magnânima, a poderosa, estirada nas redes pendentes de todo o país, esquadrinhada pelos acadêmicos de grande notoriedade, comentada pelos filósofos e pelos críticos, recriminada por professores e pais, imortalizada pelas músicas de Vinícius de Morais. Muitas vezes…. Muitas vezes não escrevo pela mesma razão que me levaria a dormir sem escovar os dentes, a não ligar para uma grande amiga ou para a minha mãe, a não aguar a planta sedenta: tenho preguiça – e quem não tem é que inventa!

 

Talvez seja a primeira coisa a me afastar do bloco de notas ou das teclas do computador. Enquanto corre o dia, inúmeros temas que julgo dignos de uma reflexão por escrito me vêm à mente. Planejo o como, o onde, o quando. A forma da redação. Se será uma crônica, um conto, uma carta ao jornal cheia de indignação. Sim, sim, eu confesso: até um livro já planejei começar. Encontrei o tema, recebi a inspiração; então? O dia transcorreu: acordei, corri, andei, estudei, me preocupei, me indignei, ri! Mas não escrevi.

 

Como se não bastasse a preguiça, reprovável e sem explicação quando analisada sob a ótica da científica razão, não é que consigo enumerar mais uma barreira para o dedilhar de meus textos no computador? A fonte do segundo obstáculo, da pedra no caminho, são os outros textos. É você se achar incapaz de escrever tão bem e com tanta propriedade quanto um outro. É julgar que jamais articulará as palavras com a maestria de uns; que não tem competência para provocar nos outros o que provocam em você os textos de alguns. É, sejamos sinceros, pôr-se no devido lugar. Aos que não sabem como nem o quê dizer, resta o calar.

 

Podem falar que é besteira, que o importante é a expressão. Fácil falar! Já moraram alguma vez com o tio que trabalha numa casa de edição? Já estiveram rodeados por intelectuais que se expressam como poucos sobre os assuntos que apenas alguns discutem? Eu já! Quatro anos e meio de comentários (muitas vezes depreciativos) acerca do texto alheio; de desdém em relação a autores que eu julgava tão grandes; de condenação à burrice e à falta de preparo daqueles que nunca leram os clássicos, os neo-clássicos, os modernos, os malditos, os benditos, os cults, os vinte principais jornais do dia, os filósofos, os humanistas, os progressistas, os alquimistas, o Alcorão, a Bíblia! Como se qualificar – e não se diminuir, se amesquinhar – em meio ao tom tão opressor da onisciência da Academia e do intelectualismo? Como ousar se pronunciar – seja oralmente ou via escrita – na casa dos que já leram milhões e milhões de palavras? – e em várias línguas diferentes, vale dizer.

 

Podem comentar que sou fraca, sem orgulho, uma metralhadora de escusas sem estima. Ter um tio editor casado com uma tia intelectual, pai de três gênios e avô de três “primeiros lugares” no vestibular, sendo um defensor de tese de mestrado aos 21, para mim, é fogo. Já sentiram o chão que os sustenta trepidar ao se infiltrar pelos alto-falantes do computador a tenebrosa e poderosa voz de João Ubaldo Ribeiro? O que isso tem a ver? Vou reformular a pergunta: o tio editor de vocês é procurado no skype por João Ubaldo Ribeiro? Ah! Bom! Só para saber. Isso não é de intimidar?

 

Certa vez, até cheguei perto de me considerar “parte deles”. Quase me autorizei a escrever alguma coisa para compartilhar com eles – e com os demais. Foi quando redigi, ao fim dos quatro anos e meio de convívio sob o mesmo teto, uma carta de agradecimento aos tios intelectuais que me acolheram enquanto estudava longe de casa. Não é que as palavras agradaram o tio? Ele veio me perguntar se eu gostaria de escrever as memórias de uma pessoa que pretendia registrar seus quase oitenta anos de existência em forma de livro. “Eu? Claro!”. Quase me desmanchei de orgulho. “Ele acha que sou capaz! Ele acha que eu posso!” – não me continha. Até que, um ano mais tarde, o tal do livro ficou pronto. A auto-estima, que ainda conseguira esguichar mais um pouco após a revisão com reduzidas indicações de erros ortográficos e sugestões de reescrita, despencou. Foi justo quando tomei coragem para perguntar o que o tio havia achado do produto final. Guardei a resposta na lembrança e também na pasta de itens recebidos da caixa postal: “Achei o resultado final bastante bom, dentro dos limites que entendemos juntos desde o início: um depoimento transformado em relato, e não um romance, uma obra literária etc. Mas a verdadeira opinião tem de ser de quem encomendou o livro: se a história e a maneira com que foi contada refletem a visão que tem da história vivida e de como gostaria que ela fosse percebida. É um texto ‘de encomenda’ e quem encomenda é quem julga. Como texto, no contexto acima, tudo bem”.

 

Você voltaria a escrever depois de uma dessas? Quem disse que eu pretendi escrever um romance? Por que a isenção, a saída pela culatra que dribla o que perguntei? Se há tanta dificuldade em dizer o que achou a ponto de transferir a responsabilidade de julgar o texto a outros – àqueles que o encomendaram mas que não entendem nada de mercado editorial –, provavelmente é porque não gostou ou porque não me considera à altura do que já editou. Lembremos: ele tem o João Ubaldo na lista de contatos do skype, e isso já o torna tão poderoso quanto a voz chacoalhante do autor baiano. Um homem de círculo de amizades tão seleto e afim com a literatura de autores distancia os que apreciam também as letras “menores”.

 

Eu havia pensado em outro empecilho à escrita, do qual agora não consigo me lembrar. Tudo bem, ele perdeu a vez, mas acaba de ceder o lugar. Um quarto motivo inibidor vem me ocorrer, mas se torna terceiro na presente listagem por assumir o posto do outro motivo, aquele que minha memória pôs a perder. Muitas vezes, ao finalmente chegarmos ao papel ou ao computador, já não mais nos lembramos do que queríamos escrever. Do que outrora parecia tão certo e certeiro. É assim que mais algumas redações nos escapam, e deixar de escrever se torna costumeiro.

 

Ah!, voltou-me o terceiro obstáculo – agora transmutado, dadas as circunstâncias, em quarto colocado. O aperfeiçoamento, a lapidação, a busca pelas palavras e pelas conexões perfeitas, geralmente, implicam sofrimento – isso não é um pretexto. Não precisa ser bom, basta ser perfeccionista (ou realista) para se deixar exaurir pelo processo de redação. Pelo menos assim eu costumava pensar, até consultar um grande ídolo, formador de opinião. Um distintíssimo colunista de um grande jornal: “Sofrer ao escrever?”, disse ele em tom blasé, “Não. Não. Nunca. Por quê?”. Mais um que deve ter João Ubaldo na lista de contatos do skype. Foi a partir daí que comecei a pensar se não haveria aqueles predestinados a escrever e aqueles que ralam para sê-lo. Como os gênios. Não lêem mais do que nós porque se esforçam mais. Simplesmente nasceram com o poder de absorção infinitamente maior do que o dos “reles mortais”. O que eles vêem, absorvem. É isso. É ser naturalmente demais.

 

Apesar da figura despretensiosa que antes tentei construir, me pego em uma falha. Será que sou tão humilde assim? Se o fosse, por que cargas d’água acharia que escrever consiste em conseguir vomitar um texto perfeito? Por que acharia que, para executar a escrita, tudo tem de vir como um sopro, assim, direto? Chegar, se registrar, e se apresentar como obra prima, sem nada a retocar – isso não existe, garota, vá aprimorar essa rima!

 

Mais um motivo, o derradeiro: quem não sabe produzir uma boa redação com concisão, não deveria escrever. Se o caso se aplica a mim? Já estou na quarta página do Word. O que mais preciso dizer?

 Convenci? Motivos suficientes listei, para o ato de escrever abolir? Perda de tempo! Coisa para poucos! – é isso que é escrever. Então, por que continuo a me meter? Por que insisto em fazer? Por que ainda admiro tanto aqueles que podem ouvir ecoar, em seus alto-falantes pessoais, a voz triunfal de João Ubaldo e de outros imortais?

Anúncios

5 Comentários »

  1. […]  O resultado você confere nos textos das Montanas: Arbel Griner  , Selena Carvalho   e Solange Pereira.  […]

    Pingback por Debatendo: bloqueio na escrita? « Mal de Montano — dezembro 2, 2006 @ 2:50 pm | Responder

  2. O texto que li é gradicante, por que desenvolve o aprendizado e esclare dúvidas sobre a escrita e também de facio entendimento.

    Comentário por Idelfonso Alves Costa — setembro 7, 2007 @ 8:09 am | Responder

  3. olá Arbel! seremos colegas da turma de mestrado do ifcs ufrj 2008. preciso de seu email para incui-lo no grupo de discussão que fiz pra nssa turma! me escreva!
    abraços, Ludmila.

    Comentário por Ludmila — outubro 15, 2007 @ 9:18 pm | Responder

  4. ilwdkf ezwlm

    Comentário por free flash action script — setembro 16, 2008 @ 6:08 am | Responder

  5. wiesxp xjhq

    Comentário por california zipcod — setembro 16, 2008 @ 7:07 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: