Mal de Montano

dezembro 31, 2006

A Casa do Tempo Perdido

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 4:35 am

Por Carlos Drummond de Andrade

Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
Pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
Pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
Minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
No bater e bater.
O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

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dezembro 29, 2006

Faxina da virada

Filed under: Aqui o mal geral,Montanas,Outros Escritos — maldemontano @ 12:06 pm

faxinai.jpg

Por Pandora Montana

Recesso de boas festas é um bom momento para se “arrumar as tralhas”. De repente o Papai Noel despeja seu saco em nossas casas e hora de reajeitar a bagunça do ano. E haja saco! Saco de lixo, saco de paciência, saco para reinventar uma nova vida para o ano novo que se aproxima.

 Ontem foi dia de “faxinar” o quarto da criança que tem mais brinquedos que um dia pode conter. Pecinhas, jogos, panelinhas, coisinhas, bichinhos, bonecas, carrinhos, trenzinho etc., e haja fôlego para organizar, separar, e botar em ordem a desordem do ano, cuja pressa não nos deixa parar para manter os dias “arrumados” (se é que isso é possível).

Agora, estou aqui na virada da meia-noite, assistindo “Sex and the City” (tão recomendado pela Perséfone) e pensando a volubilidade da vida, pois viver é instável, praticamente incontrolável.

Pensando nos dias perdidos, nas noites insones, nos desencontros, nas alegrias, nas decepções, enfim, refletindo sobre o ano. Ainda não estamos no dia 31 de dezembro, mas não há data certa para se rever propósitos, desejos, valores.  

Sei que 2006 (especialmente o segundo semestre) foi pancada para mim. Porém, é preciso renovar alguns itens da lista do viver. Encaixar melhor algumas peças do quebra-cabeça psicológico, consertar alguns jogos do poder capitalista e lançar novas estratégias, trocar as pilhas de vontades adormecidas, separar os dados da sorte das ondas de azar. Cuidar para que cada coisa volte ao seu lugar logo que findar (ou antes mesmo) o momento ruim e dar corda à brincadeira que nos faz feliz enquanto os olhos brilham, o tempo pára e o coração palpita.

Perpetuar o que é bom é arte. Enterrar o que é ruim é virtude. E que 2007 seja um ano de arte e virtudes, acima de tudo lúdico, divertido. Sejamos sábios para que vida não vire simplesmente entulho!

Pandora sabe que é melhor abrir algumas caixas e trancar bem  outras…

dezembro 27, 2006

Vinha

Filed under: Montanas,Poesias — maldemontano @ 2:20 pm

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Por Solange Pereira Pinto

Olhos gordos de amor

Molhado

Brilho puro da luz

Suado

Boca sedenta de carne

Vermelha

Tez macia dos lábios

Perdidos

Acordes agudos da voz

Silente

Sorriso medido dos dentes

Vorazes

largadas mãos da viola

Urgente

Envolvem o cós da menina

Canção

Repetidos nomes do passado

Acaso

Umedecida lua do amor

Flutua.

(1999) 

dezembro 26, 2006

Esperança

Filed under: Mal de Antano — maldemontano @ 9:50 pm

   Por Mario Quintana 
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
 

dezembro 24, 2006

Poemas de Dezembro

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 4:37 am

 

Por Carlos Drummond de Andrade

  

Em 1963 Lázaro Barreto, como muitos outros, mandou para Carlos Drummond de Andrade um exemplar de seu livro “Contos do Apocalipse Clube”, já que estava dando seus primeiros passos no mundo das letras. Tocado pela situação de Barreto, que à época residia em uma pequena cidade mineira, Marilândia, Drummond, bem a seu estilo, lhe escreve comentando a obra e começa uma troca de correspondências com o iniciante que durou mais de 20 anos. Os dois jamais se encontraram pessoalmente, mas o poeta nunca deixou de remeter suas opiniões sobre os escritos de seu conterrâneo e, principalmente, alguns poemas que permaneceram inéditos até há pouco. Sua gentileza chegou ao ponto de enviar um poema onde comemorava o nascimento da primeira filha de Barreto, mesmo errando seu nome (Ana Paula):

 
Lázaro e Inês
Agora três
Nada comum
Os três agora
Formam só um
A toda hora
Arte de amar
Lição de aula
Aberta
em flor
Maria Paula.
 

Abaixo, alguns dos “Poemas de Dezembro” agora revelados:

 

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
– flor do cotidiano –
é vôo de um pássaro
é uma canção.

 

(Dezembro de 1968)

 


Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança.

 

(Dezembro de 1973)

 


Fazer da areia, terra e água uma canção
Depois, moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre, neste mundo

 

(Dezembro de 1981)

 


Quem me acode à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.
 

(Dezembro de 1985)

 


Para encerrar, uma receita de Ano Novo dada pelo poeta:

 

Receita de Ano Novo

 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Fonte:  Releituras

dezembro 22, 2006

Biblioteca ideal

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 1:19 am

Por Pandora Montana

Cada pessoa (que tem por prazer e paixão a leitura) pode definir o que seria uma biblioteca “ideal”.

Difícil mesmo é não esquecer um título e poder ler, durante essa vida rápida, tudo o que se gostaria.

Como estamos em uma época de festas, recesso e, para alguns, férias, que tal pensarmos na nossa biblioteca ideal? Você já parou para pensar quais são os livros que não poderiam faltar na sua? Você já leu grande parte do que gostaria?

Fica aqui uma boa oportunidade para rever as estantes e pedir ao Noel as obras que faltam. E, até mesmo, ler aquele autor que já anda meio empoeirado na prateleira mais alta.

Hoje recolhi, na internet, a dica da historiadora e arqueóloga Fernanda de Camargo-Moro. Lembrando que cada um terá a sua lista (seja por gosto, estética, identidade, paixão absoluta) e algumas coincidências podem ocorrer!

Vamos lá!

_____________________________________

“A leitura é essencial em todos os aspectos, não só para cultivar o espírito e estruturar a personalidade, mas também para abrir caminhos, vias de comunicação e de embelezamento da vida”, define a historiadora e arqueóloga Fernanda de Camargo-Moro, que, durante quase 40 anos, se dedicou a um fascinante trabalho de campo em montanhas e desertos da Ásia e da Arábia. Envolvida em dois projetos – Himalaia e Rotas de Cultura, que vai de Veneza até a Índia –, ela analisava a relação dos achados arqueológicos de antigas civilizações com a cultura e o meio ambiente. 

Com base em suas ricas experiências, Fernanda atualmente dirige teses e seminários, além de se dedicar à escrita. Fora as edições e os artigos de caráter técnico-científico, tem várias obras voltadas ao grande público: Arqueologias culinárias da Índia; Veneza: O encontro do Oriente com o Ocidente; A ponte das turquesas; Nos passos da Sagrada Família; Arqueologia de Madalena. São relatos de suas viagens, em que ela retrata amorosamente os aspectos culturais desses lugares distantes e das pessoas com as quais conviveu. Nas 500 páginas de A ponte das turquesas, por exemplo, percorre lendas, monumentos, história, arte e singularidades do império turco, como os mistérios do harém e as requintadas comidas palacianas. É um guia completo para quem vai a Istambul.  

“Escrever, para mim, é uma forma de retornar a um tempo inesquecível e revivê-lo num novo espaço. Eu busco as memórias como um tecelão busca as cores para criar um tapete, ou como um aquarelista tange suas cores em busca de uma imagem”, diz a autora, que encontra, na literatura, o alimento para sua aguçada sensibilidade. “Quando não estou escrevendo, estou lendo – intensamente. Os livros são minha eterna paixão, o grande e insubstituível prazer.” 

A arqueóloga ressalta que os livros foram imprescindíveis em sua trajetória profissional, mencionando alguns dos autores que mais a influenciaram, como Aristóteles, Hegel, Descartes, Voltaire, Fernand Braudel – “meu eterno guru e querido professor”. Suas indicações de leitura: 

Ressurreição, de Machado de Assis. Esta primeira obra do autor, de 1870, me encantou quando eu ainda era criança. Como o próprio autor definiu, não é um “romance de costumes”, mas “o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres”. Na minha visão, ali se desenha, com firmeza, a luta entre a razão e a paixão. 

Capitães da areia, de Jorge Amado. Escrita na primeira fase do autor, esta obra-prima denota sua intensa preocupação social. As autoridades e o clero, com exceção do Padre Pedro, são retratados como opressores, cruéis e responsáveis pelos males. Por outro lado, os problemas existenciais dos quase cem garotos que moram num trapiche abandonado os transformam em heróis únicos e corajosos, corajosos capitães das areias de Salvador.  

O encontro marcado, de Fernando Sabino. Num estilo inovador, a história de Eduardo Marciano é contada por um narrador que parece conhecê-lo profundamente. O leitor é convidado a participar do relato e a se identificar com as angústias de Eduardo, que começam na infância, quando sua galinha de estimação vira o almoço de domingo. 

A tragédia da Rua das Flores e os Os Maias, de Eça de Queiroz. A leitura destas duas obras geniais, que considero profundamente interligadas, transformou-se em uma nova experiência quando pude relê-las uma em seguida da outra – Os Maias, depois A tragédia –, observando com mais acuidade a metamorfose dos personagens e suas similitudes.  

Justine, Balthazar, Mountolive e Cléa – os quatro volumes que compõem O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Publicado no final dos anos 1950, é um conjunto literário que, a meu ver, permanecerá como Proust – exemplar e inesgotável. As novelas são passadas em Alexandria, uma cidade semi-oriental, com personagens europeus, orientais e mesclados das duas culturas. Seu estilo, que eu chamaria de metamórfico, pois os personagens vão se modificando dentro do ponto de vista de cada interpretação, me seduziu e enfeitiçou. 

O vermelho e o negro, de Stendhal. Durante a ascensão social pretendida por Julien Sorel, figuram duas mulheres singulares, que representam as duas inclinações do seu caráter: a Senhora de Renal, o sonho e a aspiração a uma felicidade pura e simples; e Mathilde de
la Mole, a energia, a ação brilhante e febril. Conseguindo conciliar realismo e romantismo, Stendhal faz um retrato social da época (1830) e o enriquece com uma inteligente e perspicaz análise psicológica.
 

Fora do lugar, de Edward W. Said. Nascido numa Jerusalém sob mandato britânico, de pais palestinos cristãos, que se viram obrigados a partir da terra natal logo após a criação do Estado de Israel, Edward W. Said viveu no Egito, no Líbano e nos Estados Unidos, sentindo-se sempre um ‘fora do lugar’. Neste livro, escrito durante sua luta contra um câncer que o levaria à morte em 2003, ele fala do processo de construção de sua identidade e, como pano de fundo, dos problemas que convulsionaram o Oriente Médio no século 20. Esta e outras obras do autor foram imprescindíveis para uma melhor compreensão das regiões ditas do Oriente. 

Para onde você vai com tanta pressa, se o céu está em você?, de Christiane Singer. Esta obra, que mostra a parte mais sensível de uma mulher, confirma mais uma vez a sutileza e a profundidade dessa autora, cujos livros se tornam, para muitos, volumes de cabeceira.  

Eu poderia recomendar ainda vários outros que, para mim, são inesquecíveis: Crime e castigo, de Dostoievski; A natureza das coisas, de Lucrécio; Cândido, de Voltaire; A balada do cárcere de Reading, de Oscar Wilde, Os ensaios, de Montaigne, Cartas persas, de Montesquieu, e muitos mais que este espaço não comportaria. 

Fonte aqui

dezembro 20, 2006

Antes de o sol nascer

Filed under: Contos,Mal do dia,Montanas — maldemontano @ 2:25 pm

Por Solange Pereira Pinto

 

Foi na topada da calçada. Havia sim bebido demais, ou talvez o suficiente para tropeçar na razão e deixar seu corpo cair. Suzana pagou a conta sozinha. Entrou no Audi prata. Acenou loira um tchau embriagado. No alto volume lançou o CD novamente. O volante seguia ao retumbe da bossa. Velho dia nova. Seguia, ensurdecida de desejo. Havia o pensamento. O refrão da despedida “não posso ficar” que se misturava ao estribilho “garçom nessa mesa de bar”. Detestava rima pobre. Ora, porra! Todos vão embora, enfim. Para ela, afinal, apenas quatro horas da madrugada. As ruas largas da cidade entreabriam a sofregidão. Maldita segunda-feira. Cruzou as sinaleiras. Os viadutos. Os bares de becos. Os pubs da moda. Nada. Vazio. Ninguém. Desligou o som. Cantou sozinha acompanhada pelos amortecedores. Pelo retrovisor avistou vultos. Dois homens. Um agachado. Outro não. Descia o viaduto. Logo em frente três adolescentes cheirando cola. Diria sim, sabia. Não eles, talvez. Ela. Reduziu a marcha. Rodopiou o balão. Era o retorno do possível. De um lado seguir para casa. De outro seguir para o insólito. Preferia conduzir. Acelerou. Buscou na bolsa o batom. Pegou o chiclete. Nem faróis opostos. Que saco! Suzana decidiu estourando nos lábios da bola de borracha. Ainda açucarada. Parou o carro. Psiu! Ei, você! O rapaz que limpava a frente do bar olhou para trás. Ei! Venha cá! Voz doce, mascando hortelã. O que é? Precisa de ajuda? Venha… Eu? Onde tem uma cerveja? Olha madame, não sei não. Onde você vai dormir? Eu? Detestava esses monossílabos educados. Sim, você não está trabalhando? Sim, estou. Numa hora dessas vai embora, não vai? Sim, vou. Então, onde você mora? É…é que hoje durmo aqui mesmo depois de dar um trato na fachada. Era um moço alto, sorriso tímido. Boca lasciva. Mãos fortes. Quando você termina isso ai? Eu? Ai, ai, ai… ela pensou. Ué, agora. Ele entendeu. Os quadris mudaram de banco. A vassoura ficou encostada sob o letreiro. Ela ajeitou o olhar no espelho carona. O rapaz entrou. Ligou a ignição. Acendeu o último cigarro. Para onde quer ir? Qualquer lugar em que o ponteiro não amanheça antes de o sol nascer.

 

 

 

dezembro 18, 2006

Poesia concreta por Bianca Amaro

Filed under: Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 8:40 pm

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Clique na imagem para ler o poema

Entrevista com Guimarães Rosa

Filed under: Entrevistas,Mal de Antano — maldemontano @ 12:20 am

 

Diálogo com Guimarães Rosa

 Trechos da entrevista concedida a Günter Lorenz em 1965, em Gênova*

Por Günter Lorenz

  

(…) Lorenz: (…) Gostaria de falar com você sobre o escritor Guimarães Rosa, o romancista, o mágico do idioma, baseando-nos em seus livros que fazem parte, penso eu, do tema “o homem do sertão”.

 

Guimarães Rosa – Sim, acho que se quiséssemos dizer sobre estes três ou quatro pontos tudo o que temos de dizer, daqui a um ano ainda estaríamos conversando. E nem você nem eu temos tanto tempo. Suponho que esta enumeração das coisas que lhe interessam a meu respeito não tem uma seqüência estrita…

  

 

Lorenz: Apenas uma seqüência improvisada, intercambiável.

 

Guimarães Rosa – Precisamente. E por isso gostaria que começássemos pelo que você mencionou como tema final. Chamou-me “o homem do sertão”. Nada tenho em contrário, pois sou um sertanejo e acho maravilhoso que deduzisse isso lendo meus livros, porque significa que você os entendeu. Se você me chama de “o homem do sertão” (e eu realmente me considero como tal), e queremos conversar sobre esse homem, já estão tocados no fundo os outros pontos. É que eu sou, antes de mais nada, este “homem do sertão”; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também – e nisto pelo menos acredito tão firmemente como você – que ele, esse “homem do sertão”, esta presente como ponto de partida mais do que qualquer coisa.

  

 

Lorenz: Fixemos este ponto de partida; e para encaminhar nossa conversa, queria propor-lhe um início convencional: biográfico, embora ele já não seja tão convencional, se minhas conclusões sobre o que disse há pouco estiverem certas. Nasceu no sertão, aquela estepe quase mística do interior de seu país, encarnada como um mito de consciência brasileira…

 

Guimarães Rosa – Sim, mas para sermos exatos, devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim, sim, de muita importância. Além disso,
em Minas Gerais. Sou mineiro. E isto, sim, é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo. Cordisburgo. Não acha que soa como algo muito distante? Sabe também, que uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, mas na realidade é um sobrenome sueco que na época das migrações era Guimaranes (1), nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho. Você certamente conhece a história dos suevos. Foi um povo que, como os celtas, emigrou para todos os lugares sem poder lançar raízes
em nenhum. Este destino, que foi tão intensamente transmitido a Portugal, talvez tenha sido o culpado por meus antepassados se apegarem com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama o sertão. E eu também estou apegado a ele…

Lorenz: Você está se referindo a seu “caráter literário” que inclui no importante grupo de literatos brasileiros denominados regionalistas?

Guimarães Rosa – Sim e não. É necessário salientar pelo menos que entre nós o “regionalismo” tem um significado diferente do europeu, e por isso a referência que você fez a esse respeito em sua resenha de Grande Sertão é muito importante. Naturalmente não gostaria que na Alemanha me considerassem um Heimatschriftsteller (2). Seria horrível, uma vez que é para você o que corresponderia ao conceito de “regionalista”. Ah, a dualidade das palavras! Naturalmente, não se deve supor que quase toda a literatura brasileira esteja orientada para o “regionalismo”, ou seja, para o sertão ou para a Bahia. Portanto, estou plenamente de acordo, quando você me situa como representante da literatura regionalista; e aqui começa o que eu já havia dito antes: é impossível separar minha biografia de minha obra. Veja, sou regionalista porque o pequeno mundo do sertão…

  

 

Lorenz: Pequeno talvez para o Brasil, não para os europeus…

 

Guimarães Rosa – Para a Europa, é sem dúvida um mundo muito grande, para nós, apenas um mundo pequeno medido segundo nossos conceitos geográficos. E este pequeno mundo do sertão, este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o símbolo, diria mesmo modelo de meu universo. Assim, o Cordisburgo germânico, fundado por alemães, é o coração do meu império suevo-latino. Creio que esta genealogia haverá de lhe agradar.

 

 

 

Lorenz: O que importa é que, além disso, ela é exata. Mas voltemos à sua biografia…

 

Guimarães Rosa – Creio que minha biografia não é muito rica
em acontecimentos. Uma vida completamente normal.

 

 

 

Lorenz: Acho que não é bem assim. Em sua vida você passou por sua série de etapas muito interessantes, até mesmo instrutivas. Estudou medicina e foi médico, participou de uma guerra civil, chegou a ser oficial, depois diplomata. Deve haver ainda outros fatos, pois estou apenas citando de memória.

 

Guimarães Rosa – Chegamos novamente ao ponto que indica o momento em que o homem e sua biografia resultam em algo completamente novo. Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte…

 

 

 

Lorenz: Deve-se considerar isto como uma escala de valores?

 

Guimarães Rosa – Exato, é uma escala de valores.

 

 

 

Lorenz: E estes conhecimentos não constituíram, no fundo, a espinha dorsal de seu romance Grande Sertão?

  

Guimarães Rosa – E são. Mas devemos acrescentar alguns outros sobre os quais ainda temos de falar. Mas estas três experiências formaram até agora meu mundo interior; e, para que isto não pareça demasiadamente simples, queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas.

 

 

 

Lorenz: Parece uma sucessão e uma combinação um tanto quanto curiosas de motivos.

 

Guimarães Rosa – Bem, tudo isto é curioso, mas o que não é curioso na vida? Não devemos examinar a vida do mesmo modo que um colecionador de insetos contempla os seus escaravelhos.

 

 

 

(…) Lorenz: Atrevo-me a apostar que a maioria de seus leitores alemães, antes de ler seu livro, nem sequer sabia que o sertão existe. Provavelmente ainda o considera uma invenção sua.

 

Guimarães Rosa – Também acho. Recentemente, durante minha viagem à Alemanha, convenci-me disso. Um crítico que me foi apresentado como homem famoso – prefiro não dizer seu nome – felicitou-me por eu haver “inventado uma nova paisagem literária”, tão “magnífica”, assim entre aspas. Coisas semelhantes me aconteceram na Itália, na França e até na Espanha. Mas é preciso aceitar essas coisas, não se pode evitá-las. Quando escrevo, não posso estar constantemente acrescentando notas de rodapé para assinalar que se trata de realidade.

 

 

 

(…) Lorenz: E o seu Riobaldo? Acho que você ainda não acabou de caracterizá-lo.

 

Guimarães Rosa – Eu sei. Gostaria de acrescentar que Riobaldo é algo assim como Raskolnikov, mas um Raskolnikov sem culpa, e que, entretanto, deve expiá-la. Mas creio que Riobaldo também não é isso. Melhor, é apenas o Brasil.

 

 

 

(…) Lorenz: Novamente um paradoxo magnífico: “eu tento o impossível”. Entretanto, deveríamos ser ainda mais concretos. Temos essa questão do compromisso, que talvez pudéssemos utilizar nesse sentido. Como você definiria, por exemplo, sua concepção do dever de um autor, diferenciando-a de Astúrias ou, naturalmente, de Jorge Amado?

 

Guimarães Rosa – Gosto de Astúrias porque se parece tão pouco comigo. Este homem é um vulcão genial, uma exceção, segue suas próprias leis. Nós nos entendemos e nos admiramos, porque somos muito diferentes um do outro. Mas ele vive de um modo que gera perigo: ele pensa ideologicamente.

 

 

 

Lorenz: E Jorge Amado? Você não acha que este grandioso fabulista e amigo dos homens também pensa ideologicamente?

 

Guimarães Rosa – Sem dúvida, ele também é um ideólogo; mas sua ideologia me é mais simpática que Astúrias. Astúrias tem algo do distanciamento incorruptível de um sumo-sacerdote; sempre enuncia novos dez mandamentos. Isto é admirável, mas não encanta. As palavras de Astúrias são palavras de um pai, de um patriarca que emite sentenças no sentido do Antigo testamento. Amado é um sonhador, e sem dúvida alguma um ideólogo, mas adota a ideologia do conto de fadas com suas normas de justiça e expiação. Amado é um menino que ainda crê no Bem, na vitória do Bem; defende a ideologia menos ideológica e mais amável que já conheci. Astúrias é a poderosa voz do juízo final. Amado vai dando pinceladas a mais não poder, e certamente quer mandar ao diabo muitas coisas, mas o faz de forma tão encantadora que nos convence com maior razão. Astúrias se expressa com palavras de ferro.

 

 

 

(…) Lorenz: Ainda tenho uma última pergunta, a cuja resposta dou muita importância. Não ria, vou lhe perguntar em que está trabalhando agora. Sei que isso não levaria a nada. Mas gostaria que me dissesse o que pensa do futuro da América Latina.

 

Guimarães Rosa – Realmente, pensei que você estava querendo me comprometer agora e depois me perguntar todo ano quando ficaria pronto o livro anunciado. Prefiro que não tenha sido assim. Sou um homem que viu muitas coisas no mundo, que entende muito de literatura mundial. Não quero pecar por presunção, mas comparando quantitativamente o que se escreve, por exemplo, na Europa, com o que se escreve entre nós, sinto-me um tanto orgulhoso. É claro que também entre nós se imprime muita coisa medíocre que nada tem a ver com literatura. Mas isso existe sempre e em toda parte. Entre nós, não só no Brasil e não só entre os escritores velhos e os de minha geração, há muitos que justificam as maiores esperanças e permitem que encaremos tranqüilamente o futuro. A América Latina se tornou no terreno literário e artístico, digamos em alemão, Weltfähig (“apta para o mundo”). O mundo terá de contar. Olhe, Lorenz, não seria tão errado reduzir todas as ciências a uma lei básica, como fizeram os escolásticos e cientistas medievais. Não, eu não quis evocar a teologia. Mas quero pintar um panorama que, no fundo, delineia todos os problemas intelectuais da atualidade. Olhe, o futuro da Europa e de toda humanidade é como uma equação com várias incógnitas. A Europa é pequena, mas seus habitantes são ativos e, além disso, têm a seu favor uma grande tradição. E, entretanto, os europeus não têm qualquer influência sobre essas incógnitas que determinam o futuro de seu continente. O “x” e o “y” desta equação decidirão o amanhã, tanto assim que quase já se pode dizer hoje. A América Latina talvez não seja a incógnita principal, o “x”, mas provavelmente será o “y”, uma incógnita secundária muito importante. Pela matemática, sabe-se que uma equação não se resolve se uma segunda incógnita não for eliminada. Suponhamos agora que a América Latina seja a tal incógnita “y”. Com isso a Europa está em um ponto culminante para o seu futuro. E não estou falando apenas das necessidades e do potencial econômico de meu continente. Você sabe que nós, os latino-americanos, nos sentimos muito ligados à Europa. Para mim, Cordisburgo foi sempre uma Europa
em miniatura. Amamos a Europa como, por exemplo, se ama uma avó. Por isso espero que a Europa reconheça a equação e leve em conta o “y”. Isso não lhe traria nenhum prejuízo. Por nós e conosco talvez a Europa tenha um futuro não só no campo econômico, não só no campo político, mas também como fator de poder espiritual. No final das contas, somos parentes espirituais: avó e netos. A Europa é um pedaço de nós; somos sua neta adulta e pensamos com preocupação no destino, na enfermidade de nossa avó. Se a Europa morresse, com ela morreria um pedaço de nós. Seria triste, se em vez de vivermos juntos, tivéssemos de dizer uma oração fúnebre pela Europa. Estou firmemente convencido, e por isso estou aqui falando com você, de que em 2000 a literatura mundial estará orientada para a América Latina; o papel que um dia desempenharam Berlim, Paris, Madri ou Roma, também Petersburgo ou Viena, será desempenhado por Rio, Bahia, Buenos Aires e México. O século do colonialismo terminou definitivamente. A América Latina inicia agora seu futuro. Acredito que será um futuro muito interessante, e espero que seja um futuro humano.

 

 

Notas(1)              Esta cidade do norte de Portugal atualmente se chama Guimarães. Situa-se na província do Minho, perto de Braga, antiga cidade real e de peregrinação.(2)              Citado em alemão por Guimarães Rosa. 

 

 

Fonte aqui 

  

dezembro 16, 2006

Sadismo*

Filed under: Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 2:10 pm

Por Giovanna Carla de Oliveira 

Puxei os pontos da sua ferida.
Pisei, de salto, em cheio no seu calo.
Servi pra sua mãe mortadela vencida.
E joguei minha aliança no ralo.


 Deixei rachado todo o seu espelho.
Declarei meu amor na lataria do carro.
Marquei sua camisa com batom vermelho.
Pulei na cama com pé sujo de barro.


 
Botei groselha no seu doce vinho.
Inventei um amigo imaginário.
Dei veneno pro seu passarinho.
Esqueci o casamento e o aniversário.


 Derramei a água pra matar sua sede.
Menti o horário de tomar remédio.
Pichei meu nome na sua parede.
Pra sua aventura, fiz cara de tédio.
 


 Cocei com unha sua brotoeja.
Comprei supérfluos no seu cartão.
Coloquei água na sua cerveja.
Servi laxante na reunião.
 
Queimei todas suas cartas bregas.
Quebrei todas suas caras regras.
Gostei de fazer o que fiz.
Eis a minha nova tática:
Mostrar minha versão mais sádica
E começar a me fazer feliz.

___________________________
  *Poesia vencedora do Concurso de Poesias da Funarte, em 2000, que integra o livro “Outro Dia”.  

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