Mal de Montano

novembro 19, 2006

Firmino

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 4:19 pm

  Por Selena Carvalho 

        

O menino olha desanimado para o galo que o pai acaba de lhe entregar.

Àquela hora do dia, o sol incide na parte frontal do quintal da casa, projetando sombras retorcidas dos galhos sem folhas. A poucos passos dali, a mãe, olhos inchados, esfrega com vigor a camisa manchada de sangue do filho mais velho. 

Pedro morreu há uma semana. Dona Maria pressentiu a tragédia ao ver, da soleira da porta, o cortejo de homens levantando poeira no chão de terra batida. Já mais perto, reconheceu Seu Anacleto liderando o grupo, com uma camisa branca na mão. Atrás, dois homens carregavam a rede com o corpo do filho dentro. 

Deve ter sido nesse mesmo dia que o galo desapareceu. 

Só se deu pela falta dele três dias depois, mas já naquele amanhecer não se ouvia mais o canto. O pai não disse nada, mas o menino sabia que outro viria. 

No começo da outra semana, enquanto do outro lado da cidade a família de Seu Ananias chorava a mesma dor, Seu Anacleto chega em casa com o galo novo. Passa-o às mãos do filho caçula em silêncio. O menino, que não decifrava escritos, sabia ler olhos, e lê no pai toda a expectativa que derrama sobre ele, a responsabilidade herdada: sua vez e seu dever.  

– Ele é muito novo! – a mãe argumenta. O pai não dá ouvidos. O menino não quer cuidar do galo, não tem jeito para aquilo. O que ele gosta mesmo é de brincar com carrinhos feitos de plásticos, ler o livro de imagens, ficar na beira da estrada puxando conversa com viajantes. Sabe, entretanto, que não adianta reclamar.  

Olha desanimado para o bicho. 

Resolve chamá-lo Firmino. O pai concorda, embora tivesse preferido um nome mais viril. 

 Tenta lembrar de como Pedro treinava o dele. Enquanto D. Maria o olha de viés, dirige-se ao cubículo de madeira atrás do banheiro no quintal, onde o galo deve ficar trancafiado dias antes da briga, para ficar raivoso. Dentro encontra a vara, as esporas e o bico de metal.  

O pai ajuda no treino. Todo dia, depois do trabalho, antes que o sol se esconda, chama o filho. Estimulado, aos poucos, o galo deixa de ser pacífico. Seu Anacleto acredita nele: anuncia a briga aos quatro ventos, desafia o adversário, propõe apostas. A mãe acompanha de longe. Um peso no coração quase a impede de respirar, mas não se atreve a enfrentar o marido.         

No dia da rinha a cidade amanhece agitada. O galo branco contra o galo preto. Seu Anacleto disfarça o nervosismo; D. Maria, a tristeza; o menino, o medo. Na arena, os homens incitam os animais. Cristas arrepiadas. Só um sairá vivo.

A briga dura cerca de uma hora. Mal o galo preto cai estendido no terreiro, Seu Anacleto levanta Firmino com ar vitorioso. Não vê ou não se importa com o corpo ensangüentado. O menino atrás, aos berros, pedindo ao pai cuidado com as feridas.  

Antes do nascer do sol, acorda. A mãe em frente à cama, em vigília a noite inteira, a trouxa com poucas peças de roupa no colo. Dá um beijo nela, olha o pai que finge dormir e sai. D. Maria, da soleira da porta, acompanha os passos do filho até onde consegue enxergar. Maldiz o dia em que conheceu Seu Anacleto.  

– Por que você me deu filhos para depois tirar? 

O marido não se mexe, continua fingindo. Também queria ter tido outra vida, mas naquele lugar não havia outra possível. Agora viriam solidão, remorso, raiva e a mágoa da mulher que os acompanharia.  

No fim da semana, da soleira da porta, D. Maria vê o cortejo de homens levantando poeira no chão de terra batida. Já mais perto, reconhece Seu Anacleto liderando o grupo com uma camisa branca na mão. Atrás, dois homens carregam a rede com o corpo do menino dentro. No amanhecer, enquanto ele é velado, o silêncio preenche os espaços da casa.  

Já naquele dia não se ouve mais o canto de Firmino. 

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