Mal de Montano

novembro 14, 2006

“Sou essas duas coisas sem querer ser nenhuma delas” Mia Couto

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 2:45 pm

Entrevista  com Mia Couto

26-09-2006

 

 

O Outro Pé da Sereia é um livro de relatos, de miragens, de viagens que se cruzam na história e nos sonhos de alguns personagens. O Portal da Literatura conversa com Mia Couto.

 

 

Em que momento é que lhe surgiu a idéia de escrever O Outro Pé da Sereia?

Raramente se poderá dizer que um livro nasce de uma idéia. Há idéias várias, às vezes pensamentos mal formulados inicialmente, sentimentos cruzados. Um dos núcleos inspiradores foi a leitura de um documento histórico que relata o encontro do missionário D. Gonçalo da Silveira e o Imperador do Monomotapa. O encontro é muito sugestivo, rico em mal-entendidos que revelam códigos culturais diversos. Essa distância continua a marcar ainda hoje aquilo que se celebra como “encontro”de culturas.

 

«Os ricos enriquecem, os pobres empobrecem. E os outros, os remediados, vão ficando sem remédio (O alfaiate de Vila Longe)». À semelhança de outras figuras este é um barbeiro filosófico. Um barbeiro que corta a direito, a torto e a direito e que se preocupa com as coisas de direito. Há muitos barbeiros em Moçambique, Mia Couto?

Há. Os moçambicanos possuem uma consciência muito crítica do que se passou e se passa no seu país, depois de um período profundamente ideologizado.

 

Fale-nos um pouco do seu trajecto literário.

O Outro Pé da Sereia é o meu décimo nono livro. Comecei por publicar poesia, sou filho de poeta e mantenho que, ainda hoje, a poesia é o meu modo de narrar uma história. Estou traduzido e publicado em 21 países e recebi, por duas vezes, o prémio nacional de literatura
em Moçambique. Vejo agora que tenho imensa dificuldade em falar do trajecto literário pois não quero nunca olhar a minha vida como um percurso pensado ou com uma intenção de fazer um currículo. Tudo o que eu fiz foi de forma não pensada, sem administrar intenções ou guiar para objectivos definidos. Aconteceu escrever, acontece-me estar escritor e, em qualquer momento, poderei ser uma outra coisa qualquer, desde que isso me dê prazer.

 

O Mia Couto é uma viva referência na literatura de expressão portuguesa. A literatura moçambicana e africana começam a ganhar o seu próprio espaço. Que especificidades aponta à literatura africana e que escritores se vão revelar nos próximos tempos, Mia Couto?

Existem especificidades. Essas especificidades traduzem momentos históricos e a relação dos africanos com um mundo que os negava como sujeitos e autores da História. Esse registro é dominante para os anos 60, 70 e 80. Na última década, porém, há um outro posicionamento, mais livre, menos datado. É como se, hoje, os autores africanos não estivessem presos a qualquer outra reivindicação que não fosse a da qualidade da sua literatura. Não posso prever quem fará parte da próxima geração de escritores. Posso dizer que, em relação a Moçambique, o gênero dominante deixará de ser a poesia e ser prosa.

 

Não o vemos como um autor comodamente satisfeito com o que já escreveu. Presumimos que já há outros projectos
em curso. Quer falar-nos do que vem a seguir?

Como já disse, não assumo um livro como um projecto. Pode ser apenas uma questão de palavras mas a palavra “projecto” está, para mim, muito marcada. O que vem a seguir (que pode ser um romance ou um conto, ainda não sei) é uma história de uma mulher européia que vem para África em busca do marido, de quem ela foi perdendo todos os rastos. Não queria dizer muito mais, aliás, nem sei se sei mais…

 

Há quem se esqueça da sua faceta de biólogo, mas quem o lê sabe que conta histórias por via da poesia. O Mia Couto é um biólogo que escreve, que poetiza, ou um escritor que estuda os seres vivos?

Sou essas duas coisas sem querer ser nenhuma delas. Eu não quero ser escritor ou biólogo ou seja o que for. Uso a escrita e a biologia como janelas onde procuro ver as múltiplas facetas da Vida. São casas que visito e não me sinto morador de nenhuma delas.

 

Há algum facto relacionado com este livro que queira relatar ao Portal de Literatura?

Num certo momento eu pensei que deveria ir procurar o túmulo de D. Gonçalo da Silveira. Como sabe, nunca ninguém encontrou os restos mortais desse mártir cristão. O que é mais estranho é que ele próprio vaticinou isso mesmo, dizendo qualquer coisa como “nunca acharão o lugar onde me irão sepultar”. Eu já tinha tudo preparado, tinha os contactos de quem me iria acompanhar quando dei conta que esse lugar está hoje sob as águas da albufeira de Cabora Bassa. Isso me fez desistir, ainda que eu fosse para recolher fantasmas, não ia numa missão de resgate histórico…

 

Por último, Mia Couto, como é que vê a literatura dos tempos que correm e que autores merecem ser distinguidos?

Existem, felizmente, várias literaturas e existem vozes de quem ainda sente o prazer de contar histórias. Eu creio que os autores do chamado Terceiro Mundo possuem uma frescura particular desse ponto de vista, eles transportam relatos vivos, eles viveram mundos que só a ficção pode fazer suportar.

http://www.portaldaliteratura.com/entrevistas.php?id=6

 

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