Mal de Montano

novembro 7, 2006

Ventre

Filed under: Contos,Montano por um dia — maldemontano @ 1:56 am

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Por Liduina B. de Oliveira 

 

 

Estavam sempre em pares, a definir o almoço, o passar, os varais, debruçar neles roupas vazias, almas. E de volta aos quantos, às camas estendidas. Vassouradas. Ambas espelhadas, avessos. A dona, nova, enxovalhada, a consumir-se em entre dias, em entre quartos e corredores, a dona, bonita ainda, remodelada por acontecidos. Ela tão silêncio. Sorriso surrado, sempre, e olhar no nunca. Eram quase uma. A negra roliça, no vai-e-vem, a atinar na outra, e repetir os gestos, a amá-la e apiedar-se. Que a dona sabia dos solavancos do dono, nela, a derrubá-la, bicho bruto, ela mansa, de cara virada, acuada, permitia, cumpria o não ato, o nojo, o não. Fitavam-se, ela sabia. Queria fugir. Pra onde. 

 

Silêncio no percorrer a casa, vazia, vazios os anos, os ventres. A negra buscava, com flores, nos vasos, perfumar alegria na dona, com doces, nos potes, adoçar a vida da dona, com gestos, infinitamente. No lapso da noite ele chegava. O banho esquentado, jantar, café e rede no avarandado. No terreiro, cigarro fumado. O cheiro dele a castigar o ar. A apartá-las. 

 

O que a fazia silenciar, se não que pelo silêncio fora reduzida. Com silêncio e perdão acariciava a outra, no depois das horas, acertando a imagem na dela e atinar que era dia, a percorrer. 

 

Tempos seguidos, o ventre da negra crescia. Fitavam juntas o silêncio do a ver. O não saber, se amor ou ódio. Ambas, imagens. E quando, no anoitecer em que a chuva vinha revirar os varais, a negra em carreira e balaio, sacudindo-os. Por força largou-os e foi de emboscada para longe, no não ser. Homens contados arrancaram do ventre o choro escuro, desconhecido. Ela gritou e emudeceu. Voltou, que não havia de deixar a dona. Aquela, encostada. Chegou por de trás, na porta pequena, cão acuado. A dona banhada em desespero abraçou-a, tratou-a em lençóis novos. Não choraram mais. E os dias, e os varais cicatrizavam aqueles. 

 

Juntavam ambas o ódio, pendurando-o nos punhos da rede, no prego das chaves, nas réstias de alho, nas calças dele secas ao sol. 

 

A dona dormia. Sua ausência tranqüilizava-as. Horas se adiantando. A porta aberta e ele aos solavancos, aos berros, exigiu-a. A negra foi. Achava que nunca, depois daquilo. Foi. Não piedade, amor, nada. O álcool fedendo nele, na boca, no cuspe. Venefício no dentro, no nunca mais. Largou-a. Sobejada, em meio à sala, nua em chão de pedra. Ao canto, no alto da escada, a dona, encolhida, firme no não chorar, fitava-a, refletia-se. Ele, olhos nela, pigarreou, cobriu suas partes, esperou o jantar. Serviu-se, fartou-se. Acendeu o cigarro sobre o café, na rede. 

 

A dona, sorriso surrado, bonita ainda, balançava a rede,
em punho. A negra refletida, no outro punho, balançando, e o vai-e-vem a derramar, lento, sangue no terreiro, no avarandado. Não piedade, amor, nada…
 

 

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