Mal de Montano

novembro 1, 2006

Ler ou escrever: o mal da literatose

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:37 am

 amaoealuva.jpg

 Por Valesca Monte 

 

 

– “Eu, eu não leio livros – diz Irnerio 

 

Li e não compreendi, talvez estivesse no lugar errado. Retomei a história voltando vinte páginas para reposicionamento estratégico. Até aquele dia considerava Irnerio apenas um homem interessado por Ludmila e pelas línguas ciméria e címbrica. Reli as tais vinte páginas. Era aquilo mesmo. Prossegui um pouco mais e, de repente, mais Irnerio: 

 

– “acostumei-me tão bem a não ler que não leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde criança, e pela vida afora a gente permanece escravo de toda escrita que nos jogam diante dos olhos”.   

 

Fechei o livro. Depois, os olhos. A voz do maldito Irnerio reverberava: “O segredo é não evitar olhar as palavras escritas. Pelo contrário: é preciso observá-las intensamente, até que desapareçam”. 

 

Ler ou escrever? Se sigo o conselho do malfadado Irnerio, e olho intensamente as palavras escritas até que elas desapareçam, o efeito é exatamente o inverso.  

 

 Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será”. Ludmila, a moça que arrebatou Irnerio, é quem parece ter razão. A boa leitura não proporciona apenas a imersão em um mundo à parte. Ela confere, isto sim, a possibilidade de questionar radicalmente a realidade, dando munição aos leitores incomuns que não se contentam com a vida tal como a vivem, construindo posturas em brasa, muito mais difíceis de manipular.  

 

Confesso que sequer sinto desconforto nas enormes prateleiras de livros não lidos. Até para os mais neuróticos é bastante claro que só leremos uma porção mínima dos livros existentes no mundo. A suprema angústia vem precisamente dos livros que leio e da incapacidade de construir, escrevendo, o que pretendo. 

 

Posso ler Se um viajante numa noite de inverno. Mas não consigo harmonizar conteúdo e forma como Calvino.  Xingo Irnerio e suas frases malfadadas, mas jamais criei um único personagem que propagasse inconformidades. Li quase toda a obra de Kafka, mas jamais converti um homem em inseto ou em culpado, muito menos na primeira linha.  

 

Não bastasse toda a tormenta que a boa leitura proporciona, há ainda a sua cruel e incontornável conseqüência. Quando fecho o livro e os olhos, não há nada que aplaque, sequer momentaneamente, a convicção de que para integrar completamente o único território livre da prisão do tempo e do espaço – a literatura –  é imperioso fechar a porta, sentar-se diante da tela em branco e posicionar os dedos nos teclados.

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3 Comentários »

  1. Parabéns!
    Senti daqui a angústia da autora, que tem sim uma habilidosa capacidade de construir, de forma velada, sem obviedades.
    Daniela.

    Comentário por daniela — novembro 1, 2006 @ 4:23 pm | Responder

  2. […] Sem troca prévia de idéias cada uma produziu seu “mal”. O resultado você confere nos textos: “Ler ou escrever: o mal da literatose” (Valesca Monte), “Palavras ou sarvalap?” (Solange Pereira Pinto) e “Ler e escrever: gozo e tormento” (Selena Carvalho). […]

    Pingback por Ler ou escrever em debate… « Mal de Montano — novembro 2, 2006 @ 7:48 pm | Responder

  3. Valesca,

    sei que estou BEM atrasada no comentário, afinal, hoje já se deve debater a próxima pauta e se deixar para trás a questão do ler e do escrever (se é que isso é possível em um sítio como o do Mal). Mas queria registrar por ESCRITO que muito me agradou e impressionou o que acaba de ser LIDO. As palavras descrevem com precisão e excelente articulação uma conciliação incrível com a leitura – sem que se esqueça, por outro lado, a angústia que os textos nos imprimem. Os exemplos que você usou para conduzir suas idéias são incríveis, pontuais, precisos, pérolas! Parabéns! Acho que a sua redação demonstra que, lendo ou escrevndo, os textos são o seu porto.

    Parabéns,

    Arbel.

    Comentário por Arbel Griner — novembro 9, 2006 @ 8:30 am | Responder


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