Mal de Montano

novembro 1, 2006

Ler e escrever: gozo e tormento

Filed under: Debatendo,Ler ou escrever? — maldemontano @ 4:29 am

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Por Selena Carvalho 

 

O conto “A aventura de um leitor” de Italo Calvino, do livro “Os amores difíceis” retrata bem o prazer e a agonia que envolvem o leitor compulsivo. Nele, o protagonista Amadeo encontra uma mulher numa praia e meio sem querer (“A idéia de se aproximar e depois quem sabe ser levado por alguma circunstância imprevisível a puxar conversa e assim ter de interromper a leitura logo o faz preferir o lugar mais distante”) inicia um relacionamento com ela, ao mesmo tempo em que busca continuar o livro que está lendo. O texto tem passagens engraçadas, com ele abraçando-a, ao mesmo tempo em que tenta ter uma mão livre para pôr o marcador na página certa. 

 

Vejam bem: ele está de férias, muitos diriam: – Coisa boa encontrar alguém! Depois acabo de ler. Amadeo, não. Havia feito uma lista dos livros a levar para a viagem, e “Seu receio era de que não conseguisse terminar o romance: o início de uma relação balneária podia significar o fim de suas calmas horas de solidão…” Em um trecho chega a dizer: “Não adiantava, nada igualava o sabor de vida que está nos livros”. 

 

Também no meu conto “Todo dia”, a ser publicado em breve, aparece uma leitora voraz, que, observando a movimentação do marido em direção a ela, antecipa a iniciativa e pula em cima dele, pensando:  “Vamos, que ainda tenho um livro para terminar”. 

 

Doentes do Mal de Montano, como eu, vivem continuamente situações semelhantes.  Poucas atividades me causam tanto deleite quanto ler. Por outro lado, sigo atormentada com a falta de tempo e a enorme quantidade de livros a serem lidos. O frio na barriga que antecede a última página, quantas vezes ainda vou senti-lo? 

 

Fanática, por números e estatísticas, calculo por aproximação o número de livros que consigo ler por ano, depois, o de anos que tenho pela frente, levando em conta a expectativa de vida dos brasileiros, e concluo: Não vai dar para ler quase nada! E aumenta o meu suplício. 

 

Outro dia, no blog de Daniel Galera, vi algo sobre essa angústia. Diz ele ter agora por objetivo a “busca consciente de uma leitura concentrada e não apressada, tentando eliminar a ansiedade de ler tudo que está aí”. Assim, passou quatro meses lendo “Infinite Just” de David Foster Wallace, com bastante calma, se forçando todo dia a desbravar 10 ou 20 páginas, “indo e vindo entre notas de rodapé e saltos de tempo um tanto obscuros, ligando os fatos e personagens”. Que inveja senti do escritor sulista! Pensei em repetir a experiência, mas, antes, fui atrás de sua biografia. Fiz contas e desisti: Galera é bem mais novo, pode se dar a esses luxos. 

 

Igualmente tormentoso é o escrever. 

 

Nada mais apropriado para comprovar a assertiva do que o texto “Flaubert e a frase”, de Roland Barthes: “Bem antes de Flaubert, o escritor sentiu – e exprimiu – o duro trabalho do estilo, a fadiga das correções incessantes, a triste necessidade de horários desmedidos para chegar a um rendimento ínfimo”. 

 

Não quero chegar ao exagero do escritor francês, para quem a redação exige “irrevogável adeus à vida”, mas tenho que concordar que necessita enorme dose de dedicação. 

 

Claro que processos de escrita há os mais variados, mas, no meu caso, a coisa é lenta, lentíssima. Exige, antes de tudo, maturação quase completa ainda no campo das idéias. Depois, tentativas e mais tentativas, parodiando o grupo de rock, “à procura da frase perfeita”. Não fica pronto de cara, obviamente. É preciso colocá-lo na gaveta, dormir, ver que sensações provoca no outro dia. Procedimento que dura semanas seguidas, por vezes. Que felicidade quando de um dia para o outro se muda apenas uma pontuação, se troca uma palavra por seu sinônimo! Desesperador, quando não fica nada. (Diz Moacir Scliar, que a melhor amiga do escritor deve ser a tecla “delete”) Quando isso acontece, não há outra alternativa a não ser começar de novo, guardar na gaveta, dormir… 

 

Maravilhoso, no entanto, é ter o texto pronto, aquele que ficou tanto tempo na cabeça e que, acabado, pode dar lugar a outros. Quase não resisto ao clichê de afirmar que é como um orgasmo. Prazer que independe da opinião alheia e do fato de ser publicado ou, até mesmo, lido. 

 

Bem, chega de elucubrações. Tão difícil quanto inútil é definir o que traz mais satisfação e angústia: ler ou escrever. A essa altura, no que me diz respeito, como ficaria sem um ou outro?  

 

Vou agora ler um livro. Ou será que escrevo a história que ando matutando? Essa dúvida, sim, é de matar.

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1 Comentário »

  1. Bem, acho que já deu para perceber que tirei o dia para me colocar “em dia” com o Mal. Estou me divertindo! Estou tão orgulhosa das Montanas, que até me sinto intimidada. Não sei se devo ir à reunião de hoje à noite. Não sei se devo arriscar mais uma linha nesse blog de textos e idéias tão profundas, genuínas, geniais e bem articuladas. Parece-me que vocês levam isso muito mais a sério. Que vocês quatro já sabem que LER e ESCREVER é a verdadeira praia de vocês.

    Selena, o que acabou se assemelhando mais a um desabafo virtual de divã tinha a mera intenção, em princípio, de te parabenizar. PARABÉNS! Gostei demais do seu texto. Mesmo!

    Arbel.

    Comentário por Arbel Griner — novembro 9, 2006 @ 8:40 am | Responder


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