Mal de Montano

novembro 29, 2006

Borges vem para o jantar

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 4:59 pm

16/10/2006  

 

Adolfo Bioy Casares relatou em um diário de 1.700 páginas os encontros com seu amigo 

 

Por J. Rodríguez Marcos

 

Em Madri

  

Numa tarde de 1931, um dos escritores jovens de maior renome na Argentina conheceu um rapaz intoxicado por literatura. Falaram de livros e tornaram-se inseparáveis. O jovem, de 32 anos, chamava-se Jorge Luis Borges. O rapaz, de 17, Adolfo Bioy Casares. Não haviam passado cinco anos quando conceberam sua primeira obra a quatro mãos, um extravagante folheto comercial sobre as virtudes de “um alimento mais ou menos búlgaro”: a coalhada. Longe de qualquer frivolidade, aquele legendário caderno teve para Bioy um caráter iniciático: “Depois de sua redação eu era outro escritor. Toda colaboração com Borges equivalia a anos de trabalho”.

  

Aquela primeira tentativa de literatura láctea desembocou no nascimento de Bustos Domecq, o nome com que os dois amigos assinaram várias coletâneas de contos policiais nos quais, segundo Borges, ele punha os argumentos e Bioy, “as frases”.

  

O mesmo se poderia dizer das notas que o próprio Bioy Casares dedicou em seus diários ao autor de “O Aleph”. De fato, aquele colocou os argumentos e este, as palavras ao longo de centenas de encontros registrados na maioria das vezes sob o mesmo cabeçalho: “Borges janta em casa”. Das 20 mil páginas de cadernos íntimos que Bioy escreveu ao longo da vida, sua relação com Borges ocupa 1.700.

  

São as que antes de morrer, em 1999, preparou para publicação com a ajuda de Daniel Martino, seu testamentário. O resultado é um tijolo vibrante, cheio de nomes mas sem índice onomástico, que, com o simples título de “Borges”, a editora Destino publicará em todo o mundo de língua espanhola no próximo dia 19.

  

Embora o livro se estenda de 1931 a 1989, a verdade é que Bioy resume os primeiros 15 anos em uma dezena de páginas. Brilhantes. São os tempos do primeiro encontro, da coalhada, da fundação de revistas e editoras efêmeras e do casamento, em 1940, de Adolfo Bioy Casares com a também escritora Silvina Ocampo. O padrinho foi, é claro, Borges.

  

Como era de se esperar, os diários borgeanos de Bioy estão cheios de literatura. Jantar após jantar, os dois escritores vão alimentando o que em uma entrevista o próprio Borges admitiu como uma profunda amizade “sem intimidade”, cuja pedra angular eram os livros. Assim, se Georgie ironicamente se considerava “um velho discípulo” de Adolfito, este reconhece desde o início de suas anotações que o amigo o fez compreender a inutilidade da liberdade total, “a liberdade idiota” que havia defendido literariamente até então. É claro, onde há literatura há literatos. Assim, por aquela mesa também passou a admiração pelos clássicos “queríveis” – Stevenson, Kafka, Cervantes, Montaigne – e o desdém por contemporâneos como Ortega, Baroja, Juan Ramón Jiménez (“os suecos do Nobel são melhores para inventar a dinamite do que para dar prêmios”), Alberti (“Marinero en Tierra” “é uma porcaria”), Sábato (“sua conversa é anedótica, sem pensamento”) ou Augusto Roa Bastos (“um subalterno”).

  

Em quase 2 mil páginas cabe muita literatura, mas também muita vida. Cabem os temores de Borges de não ser reconhecido pelos porteiros da Biblioteca Nacional de Buenos Aires quando foi nomeado diretor em 1955 e cabem os crescentes problemas de retina que terminariam
em cegueira. E cabe, a conta-gotas, a política, mais a internacional que a doméstica, apesar do peronismo e do golpe militar de 1976. Assim, durante a Guerra dos Seis Dias, o autor de “O Livro de Areia” arremete contra os que defendem a causa árabe contra Israel: “Fascina-os a baixeza (…) Se houvesse uma guerra entre suíços e lapões todos seriam partidários dos lapões (…) Os árabes de hoje não são os que levantaram a Alhambra”, dizia Borges.

  

Conhecido sedutor, Bioy relata menos suas próprias aventuras do que as tormentosas relações de seu amigo, que em 1967 se casa com Elsa Astete.

  

“Ponho meu destino nas mãos de uma desconhecida”, lembra que Borges disse.

  

Uma desconhecida que Bioy considera ignorante mas respeitosa, “em atitude de serva enamorada”. Quando chega a vez de María Kodama – com a qual Borges, divorciado de Astete, casou-se em Genebra pouco antes de morrer em 1986 -, o tom das anotações não poupa aspereza. No início Bioy evita incitar as animosidades levantadas contra Kodama, que alguns consideram responsável pelo fato de o escritor ter morrido longe de seus amigos argentinos: “Borges me disse que para morrer dá na mesma um lugar ou outro. E que luxo: ter um amor, e ainda mal de amores aos 80 e tantos anos”. Passado o tempo, mudam as formas: “María é uma mulher de estranha idiossincrasia; acusava Borges por qualquer motivo; castigava-o com silêncios – lembrem-se de que estava cego; vigiava-o – ficava furiosa diante da devoção dos admiradores. Ao lado dela, vivia com medo de aborrecê-la”. O diário termina com uma última lembrança.

  

Antes de morrer, alguém gravou Borges cantando tangos. E Bioy comenta: “Dizem que nessa gravação Borges ri com o riso de sempre”.

  

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 Visite o site do El País <http://www.elpais.es/>  

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novembro 28, 2006

CORRESPONDÊNCIA DE FERNANDO SABINO PARA MÁRIO DE ANDRADE:

Filed under: Mal de Antano,Mal do dia — maldemontano @ 1:04 pm

  

Belo Horizonte, 30 de Dezembro de 1942 

“… Esta terra aqui é desgraçada, Mário. Ou o sujeito foge daqui (como fez o Carlos Drummond e recentemente o Oswaldo Alves), ou se perde mesmo. È o caminho de todos nós se aqui ficamos: casar, ter filhos, criar galinhas, um bom emprego, condição social – e literatura mesmo… horas vagas! É o cúmulo. E lá vou eu, Mário, lá vou eu. Nem queira saber que drama tem sido isso para mim. Estarei indo pelo mesmo caminho? Será que conseguirei reagir a tempo, ou me agüentar a-pesar de tudo? Estarei sujeito a ser artista nas horas vagas, por diletantismo? Isso para mim será pior do que a morte. Mas então é preciso mesmo mandar tudo à merda e tocar pra frente, romper com tudo e todos, abandonar tudo e todos, fugir daqui para poder se agüentar? Sinto perfeitamente que se continuar com o corpo mole acabarei pior do que eles, Mário. E isso não pode, não pode acontecer de maneira nenhuma. Coragem eu tenho, se for necessário…”  

Trecho tirado de “Cartas a um jovem escritor e suas respostas”

novembro 27, 2006

Budapeste – Chico Buarque

Filed under: Resenhas — maldemontano @ 10:53 am

  

Por Solange Pereira Pinto 

em 23.10.2003

  

Visitar “Budapeste” pelos olhos verdes de Chico Buarque, que lá mesmo dizem nunca esteve, mais que uma viagem por sua fantasia é um encontro com o princípio de vida de um escritor; não somente do escritor autor ou do protagonista ghost writer, ora José Costa, ora Zsoze Kósta, mas com a necessidade de um princípio de unificação de qualquer escritor com sua escritura.

  

Debruçar nas 174 páginas, envolvidas por uma capa ocre de letras espelhadas, faz o relógio parar, o tempo repetir. A linguagem fluida, e muito bem construída, como é a marca do poeta-músico-trovador, conduz pela aparência simples aos intricados pensamentos e labirintos de aspirações. 

 

Num rompente diria que a trama de Budapeste, que não intenciona mostrar a capital húngara, tão somente a aura de um cenário estrangeiro que se alterna com a conhecida paisagem carioca, para abrigar as incertezas de José Costa em ficar no Brasil, divertindo-se na própria língua, ou de partir para conhecer o magiar o transformará
em Zsoze Kósta, revela o sentimento solitário de um escritor que ao narrar acontecimentos de vidas alheias descreve a própria existência; que ao emprestar suas palavras ao desejo e vaidade de um interlocutor que lhe contrata – para possuir uma voz que não lhe pertence – transforma-o em si mesmo  e vice-versa. A mistura de identidades, a falta destas.

  

Entre passagens de um amor a o outro, de uma necessidade a outra, mostra a resignação, do escritor fantasma, pela fama do anonimato que lhe dá sustento e pela libertação que contém uma inquietação, embora dita por um autor inventado, que prefere o renome, comum a quem se esconde, a quem se promove e a quem só a escuta. A história revela que há um fio costurando todos a uma mesma vida que sobrevive de uma mixagem de palavras, fantasias e linguagens.

  

Aponta um fruto que é suculento de mastigar em qualquer tempo e que o sabor não se esvai por já ter sido mastigado, e nem importa por quem, mas porque o gosto continua a se perpertuar da fonte, para quem colhe ou cria, do ser humano que não se esgota em produzir palavras, inventar linguagens, em se comunicar para se distinguir, e em acreditar na sua natureza crescente, progressiva, que leva à evolução da espécie; fazendo-se imortal em páginas, páginas e páginas, não interessando muito quem seja o autor, pois, sempre, na essência será ele mesmo – o Homem – e sua complexidade – razão, inteligência, sentimento e emoção humana – o que finalmente iguala ilustres e desconhecidos que buscam a si mesmos em suas histórias de vidas inventadas, assim como é.

novembro 26, 2006

Concurso literário

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 5:26 pm

A Vitavision lançou em Junho de 2006 o seu primeiro concurso literário, com o intuito de estimular a produção de novos escritores dos gêneros prosa e poesia. O tema dos textos é livre. Podem se inscrever escritores de todas as idades, brasileiros ou estrangeiros, independente de possuírem currículo na área literária. Os textos deverão estar escritos em língua portuguesa. Aceitamos textos de escritores nativos de outras línguas, porém, caso o texto original não esteja em língua portuguesa, no ato da inscrição no concurso, o autor deverá enviar o texto original e sua tradução para o português (caso o autor estrangeiro prefira, a Vitavision poderá fazer a tradução de seu texto mediante o pagamento deste serviço).

Os autores poderão concorrer em 3 categorias:

1) Poesia

2) Prosa (conto/crônica)

3) Livro (Romance, Novela, Ficção, Biografia, Infanto-Juvenil e similares)

PRAZO DE INSCRIÇÃO
As inscrições estão abertas de 1 de Junho de 2006 até 1 de Maio de 2007.

Veja aqui os detalhes

Do manuscrito ao virtual…

Filed under: Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 10:48 am

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Sapo 

Por Eudoro Augusto

  

O que procuras, homem de Deus?

Procuro o beijo de uma princesa perversa

que me devolva ao brejo.

 Cansei de ser príncipe. 

novembro 24, 2006

Maíra…

Filed under: Mal do dia,Quem gosta indica — maldemontano @ 10:56 am

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Por Frank Coe

 Passando rapidamente por Brasília o cineasta premiado deixou sua dica para o Mal de Montano: “Maíra” (Record, 1996), de Darcy Ribeiro. Saiba mais sobre o livro aqui.

novembro 22, 2006

Livro brasileiro, uma história de 200 anos

Filed under: Mal de Antano — maldemontano @ 6:56 am

TRAJETÓRIA EDITORIAL  

Historiador inglês esboça um panorama da evolução das editoras nacionais, cujo ponto de partida é a chegada da Corte portuguesa 

Por Marcelo Vaz

 

O ano de 1808 é considerado fundamental para a história do Brasil. A chegada da família real portuguesa foi decisiva para que a colônia deixasse de ser submetida a amarras mercantilistas e começasse a conquistar a autonomia que lhe daria condições de seguir vida independente. Para o que viria a ser a indústria editorial brasileira, não foi diferente. Menos de dois meses após o desembarque da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, o príncipe regente, dom João VI, emitiu uma carta régia autorizando a impressão no Brasil. Antes, qualquer escrito que surgisse na colônia deveria ser publicado na Europa ou permanecer na forma de manuscrito – restrição que pode em parte ser atribuída ao conservadorismo da administração do marquês de Pombal (1750-1777), para quem a impressão na colônia significava fonte de poder e influência dos jesuítas.  

A carta régia de dom João VI foi impressa em um dos dois prelos (ou prensas) que Portugal importou da Inglaterra para uso na metrópole e que, ironicamente, devido às turbulências políticas de 1807, nunca chegaram a ser usados lá: ficaram encaixotados no cais de Lisboa com 28 fontes de tipos para impressão. “A arte de imprimir com tipos móveis, que os governantes portugueses tanto se empenharam para não deixar chegar ao Brasil, acabou sendo trazida ao país pelo próprio governo”, resume o inglês Laurence Hallewell em O livro no Brasil, possivelmente a mais completa história das editoras comerciais no Brasil.  

Resultante de tese de doutorado defendida na Universidade de Essex (Inglaterra) em 1975, o livro chega neste mês à segunda edição brasileira – 20 anos após a primeira, publicada somente depois de Hallewell ter sido convidado para dar aulas de biblioteconomia na Universidade Federal da Paraíba. São 816 páginas de histórias detalhadas de editores e publicações, além de estatísticas que ajudam a compreender a formação e o desenvolvimento da cultura do livro no país.  

O livro no Brasil começa sua narrativa mesmo antes da descoberta da América, passa pelo primeiro século e meio de colônia, época em que “a indústria da impressão não era administrativamente necessária nem economicamente possível”, registra a tentativa frustrada dos holandeses de introduzir a impressão em Recife, na década de 1640, e chega ao século XVIII, quando se tem prova definitiva da existência de uma prensa em território brasileiro. Isidoro da Fonseca, um dos principais tipógrafos de Lisboa, foi responsável por um prelo no Rio em 1747. Ele teria vindo de Portugal, contra a vontade das autoridades da metrópole, a convite do governador do Rio e de Minas, Gomes Freire de Andrade. Logo que se soube em Lisboa de sua oficina de impressão, no mesmo ano, foi emitida uma ordem para fechá-la.  

Mas é realmente no século XIX que, como conta Hallewell, essa história começa para valer. Saiba mais

novembro 20, 2006

Ronaldo Cagiano e o dicionário de pequenas solidões

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 12:57 pm

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Na próxima quarta-feira (22/11) Ronaldo Cagiano lança seus contos no “Dicionário de pequenas solidões” (Editora Língua Geral).

Será no Café com Letras  – 203 sul, tel.  (61) 3322.5070 – a partir das 19h30min.

As montanas estarão por lá! Não perca!

novembro 19, 2006

Firmino

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 4:19 pm

  Por Selena Carvalho 

        

O menino olha desanimado para o galo que o pai acaba de lhe entregar.

Àquela hora do dia, o sol incide na parte frontal do quintal da casa, projetando sombras retorcidas dos galhos sem folhas. A poucos passos dali, a mãe, olhos inchados, esfrega com vigor a camisa manchada de sangue do filho mais velho. 

Pedro morreu há uma semana. Dona Maria pressentiu a tragédia ao ver, da soleira da porta, o cortejo de homens levantando poeira no chão de terra batida. Já mais perto, reconheceu Seu Anacleto liderando o grupo, com uma camisa branca na mão. Atrás, dois homens carregavam a rede com o corpo do filho dentro. 

Deve ter sido nesse mesmo dia que o galo desapareceu. 

Só se deu pela falta dele três dias depois, mas já naquele amanhecer não se ouvia mais o canto. O pai não disse nada, mas o menino sabia que outro viria. 

No começo da outra semana, enquanto do outro lado da cidade a família de Seu Ananias chorava a mesma dor, Seu Anacleto chega em casa com o galo novo. Passa-o às mãos do filho caçula em silêncio. O menino, que não decifrava escritos, sabia ler olhos, e lê no pai toda a expectativa que derrama sobre ele, a responsabilidade herdada: sua vez e seu dever.  

– Ele é muito novo! – a mãe argumenta. O pai não dá ouvidos. O menino não quer cuidar do galo, não tem jeito para aquilo. O que ele gosta mesmo é de brincar com carrinhos feitos de plásticos, ler o livro de imagens, ficar na beira da estrada puxando conversa com viajantes. Sabe, entretanto, que não adianta reclamar.  

Olha desanimado para o bicho. 

Resolve chamá-lo Firmino. O pai concorda, embora tivesse preferido um nome mais viril. 

 Tenta lembrar de como Pedro treinava o dele. Enquanto D. Maria o olha de viés, dirige-se ao cubículo de madeira atrás do banheiro no quintal, onde o galo deve ficar trancafiado dias antes da briga, para ficar raivoso. Dentro encontra a vara, as esporas e o bico de metal.  

O pai ajuda no treino. Todo dia, depois do trabalho, antes que o sol se esconda, chama o filho. Estimulado, aos poucos, o galo deixa de ser pacífico. Seu Anacleto acredita nele: anuncia a briga aos quatro ventos, desafia o adversário, propõe apostas. A mãe acompanha de longe. Um peso no coração quase a impede de respirar, mas não se atreve a enfrentar o marido.         

No dia da rinha a cidade amanhece agitada. O galo branco contra o galo preto. Seu Anacleto disfarça o nervosismo; D. Maria, a tristeza; o menino, o medo. Na arena, os homens incitam os animais. Cristas arrepiadas. Só um sairá vivo.

A briga dura cerca de uma hora. Mal o galo preto cai estendido no terreiro, Seu Anacleto levanta Firmino com ar vitorioso. Não vê ou não se importa com o corpo ensangüentado. O menino atrás, aos berros, pedindo ao pai cuidado com as feridas.  

Antes do nascer do sol, acorda. A mãe em frente à cama, em vigília a noite inteira, a trouxa com poucas peças de roupa no colo. Dá um beijo nela, olha o pai que finge dormir e sai. D. Maria, da soleira da porta, acompanha os passos do filho até onde consegue enxergar. Maldiz o dia em que conheceu Seu Anacleto.  

– Por que você me deu filhos para depois tirar? 

O marido não se mexe, continua fingindo. Também queria ter tido outra vida, mas naquele lugar não havia outra possível. Agora viriam solidão, remorso, raiva e a mágoa da mulher que os acompanharia.  

No fim da semana, da soleira da porta, D. Maria vê o cortejo de homens levantando poeira no chão de terra batida. Já mais perto, reconhece Seu Anacleto liderando o grupo com uma camisa branca na mão. Atrás, dois homens carregam a rede com o corpo do menino dentro. No amanhecer, enquanto ele é velado, o silêncio preenche os espaços da casa.  

Já naquele dia não se ouve mais o canto de Firmino. 

novembro 17, 2006

a cercania de uma festividade

Filed under: Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 8:45 pm

Por Piero Eyben

como que das distâncias
apartado, os olhos rarejam
algumas imagens do final.
assim pára, toma da água e
do vinho (2 partes por uma):
o reflexo de uma alegria de fum-
aça – nas assaduras do tempo –
e o júbilo de – tendo escrito na
parede: porque no sé res.

comíamos, no entr’espaço de
duas linhas, alguns petiscos de
alguma conversa: risos, só risos
à toa.

saldo: rubros, sem sapatos, alguns
caídos, dança, fumaça ao léu de
nossas (in)consciências consistentes.
saldo: menos bergman, mais nietzsche,
ainda um mallarmaico brinde
solitude, recife, estrela.

um último traçado, em escrita ou
melodia – pouca importa – de feliz
morada, abraços, como devem ser
aqueles que bebem vida – como pound –
mesmo de quem se retira.

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