Mal de Montano

outubro 24, 2006

À espera de um agosto

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 5:06 pm

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por Aurora Galiléia

  

Tinha seis anos quando seus pais saíram foragidos da Polônia. Eram judeus e temiam a perseguição nazista. Da hostilidade polaca, vieram diretamente para o calor de Madureira. Eram cinco irmãos ao todo. Uma irmã mais velha e quatro meninos. Sempre foram muito unidos. Ele era o segundo na escala. A irmã casou logo cedo; tinha dezesseis anos. Os meninos viveram intensamente o Rio de Janeiro dos anos 40, 50 e 60. 

Durante a infância, arrancavam vitórias-régias do Campo de Santana. Na adolescência, jogavam futebol no descampado perto de sua casa. Mais tarde, deixaram o bigode crescer e incorporaram todos o típico malandro da Lapa e passavam o dia jogando pôquer.  

Cada um dos rapazes tinha suas características peculiares, mas o segundo era conhecido por ser o mais azarado. Certa vez, passou uma semana procurando seu cachorro que havia desaparecido. Quando encontrado, o cão, que estava raivoso, o mordeu. Passou 25 dias tomando injeções na barriga. Nunca era escolhido para as partidas mais importantes do futebol do bairro. No dia em que foi, o zagueiro do outro time quebrou sua tíbia e seu perônio. Foi inacreditável. Outra vez, ao tentar pagar sua conta no bar vizinho à sua casa, presenciou uma briga e foi acertado por uma bala de revólver destinada a outra pessoa. 

Todas essas estórias preocupam ao extremo quando acontecem. Mas, convenhamos, provocam risos quando passam e são ótimas para contar para os filhos e netos. Ele, no entanto, nunca os teve. Tinha muitos sobrinhos, e era muito querido por todos. Fritava batatas para eles aos domingos. Como nunca se casou, morou com sua mãe até o falecimento dela. Depois disso, passou a morar com a irmã, já viúva, na Tijuca.  

Tinha 67 anos, 25 injeções anti-raiva, uma tíbia e um perônio quebrados, uma bala – que podia sentir nos dias mais frios – alojada na coxa e um derrame. O último acidente mudou um pouco o seu jeito. Ele passou a ser mais calado, mais sério e olhava sempre para frente. Parecia que não ouvia as pessoas quando falavam com ele. Mas isto era apenas uma impressão. Na verdade, apesar de aparentar ser um pouco demente e robótico, percebia tudo, absolutamente tudo que se passava a sua volta. Ia com os irmãos para a joalheria que tinham juntos, em Copacabana. Ficava o pé do morro. Ele sempre estava alerta a tudo que acontecia e a tudo o que se dizia, o que podia ser percebido quando jogava ao vento um de seus comentários certeiros em meio a uma conversa dos outros.  

O derrame não foi, infelizmente, o último caso desagradável que contabilizaria. Aos 69 anos se internou para a extração de um tumor e, de repente, já tinha um rim a menos. Essa estória ele não poderia revelar aos seus filhos – caso os tivesse tido –, pois seus irmãos não lhe contaram sobre a retirada do órgão. Mesmo com o tamanho imenso do corte que fora feito nele, não desconfiou. Evidente que os irmãos tinham ocultado o fato, no intuito de não entristecer ou preocupá-lo. Eles acreditavam piamente na célebre frase popular que diz: “o que os olhos não vêem, o coração não sente” e a utilizaram como inspiração para criar uma outra: “o que os ouvidos não ouvem o corpo não percebe”. Pena. Estavam enganados. Cada dia ele ficava mais fraco e mais triste. 

Continuava vivendo sua vida como sempre o havia feito. Ia à loja, ajudar os irmãos e ficar a par de tudo o que lá acontecia. Pegava dois ônibus para comprar galinha caipira (o único tipo que comia) em Marechal Hermes, mesmo depois de desesperadas súplicas dramáticas, regadas a lágrimas, de sua irmã. Certa vez, inventou de ir ao Centro da Cidade, só para conseguir aquilo que tinha por “melhor creme de leite da região”. Foi escondido dos irmãos. Encheu dois sacos inteiros de latas de creme de leite e desmaiou com o peso deles e com os quarenta graus que fazia, nas escadas do metrô. Por sorte, um homem que subia as escadas logo atrás dele conseguiu ampará-lo. Sempre que via os sobrihos em festas e almoços de finais de semana, lágrimas enchiam-lhe os olhos. Estava visivelmente deprimido.  

Uma idéia, no entanto, o mantinha motivado. Era abril e ele já tinha toda a sua festa de aniversário de setenta anos planejada. Seria em agosto – seu mês de nascimento. Todo mês retirava sua aposentadoria e a repartia em três. Uma parte ia para a moça que havia sido sua empregada na outra casa. Já fazia mais de um ano que havia se mudado, mas ainda a ajudava. Outra parcela reservava para comprar uma geladeira de última geração para um sobrinho seu, que ele acreditava estava prestes a se casar. O terço final, era posto de lado, para o grande evento de agosto. 

Só falava da festa. Planejava fechar, como todos os anos, a rua de Madureira em que morou. Nenhum carro atrapalharia a alegria e o conforto dos convidados. Todos os moradores dali viriam. Um dos sobrinhos organizaria o pagode. Outro, que era bem alto e parecia impor respeito, tomaria conta das bebidas no bar, para que os vagabundos não conseguissem tirar proveito da boca-livre. Seus ex-vizinhos seriam, como de costume, os churrasqueiros. De tanto repeti-lo, todos os que mantinham contato com ele já sabiam de cor o cardápio: 25 quilos de carne; doze quilos de camarão; duzentos bolinhos de bacalhau; seis quilos de asinha de frango nascido, criado e morto em Madureira; seis quilos de lingüiça. Bebida também já não era problema. Deixaria um cheque de setecentos reais com o dono do bar. Se faltasse, ele completaria depois da festa. Se sobrasse, o dono do bar, que era seu amigo de anos, lhe devolveria a diferença. 

Seus olhos brilhavam sempre, agora. Afinal, ou estava chorando emocionado ao encontrar um dos sobrinhos; ou estava empolgado por falar – sempre as mesmas coisas – sobre seu churrasco. Setenta anos é uma data especial. Sua irmã mais velha, entretanto, não estava muito feliz com a idéia da comemoração. Achava que seu irmão estava sendo explorado e roubado. Não lhe agradava nem um pouco o pensamento daqueles oportunistas todos se debruçando em cima da bebida, da comida, enfim, da aposentadoria de seu irmão. Ela era tão dramática. Chorava sempre. Chorava ao falar dos filhos. Chorava aos falar dos netos. Chorava ao contar sobre o passado e ao planejar o futuro. Chorava nas alegrias, chorava nas tristezas. Chorava, implorando para que seu irmão desistisse da celebração. 

No início, seus filhos pediram para que ela parasse de intervir. Que deixasse o irmão quieto com seu plano. Que aquilo era a sua única fonte de alegria e empolgação. Que tudo ia ficar bem e que o importante era fazer o azarado feliz. Cada um, afinal, se alegra de maneira diferente. Ela então decidiu que não diria mais nada. Também não iria à festa, porém. Isso machucou mais ainda o irmão. Ficou tentando convencê-la, em vão. Era impossível concluir qual dos dois era mais teimoso. 

Os sobrinhos mais velhos intervieram novamente. Desta vez, tentaram convencer o tio a comemorar em um restaurante bacana. Eles pagariam o almoço. Assim seu tio não gastaria mais sua preciosa aposentadoria, e eles ficariam livres – tanto dos oportunistas da rua quanto do choro da mãe. Também não adiantou. Será que ninguém entendia? O que ele mais queria era fazer aquela festa, daquele jeito, com aquele cardápio e com todos os famintos roubando sua carne de primeira e seu camarão para garantir o rango da semana. 

Já era junho. Tinha 69 anos, quase setenta, 25 injeções anti-rábicas, uma tíbia e um perônio quebrados, uma bala – que podia sentir nos dias mais frios – alojada na coxa, um derrame e apenas um rim. Dois mil reais a menos de aposentadoria, reservados para uma festa que sua irmã querida condenava. Mesmo assim, seguia vivendo. Ainda bem que agosto estava por vir.

  

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