Mal de Montano

outubro 19, 2006

Entrevista – Marçal Aquino

Filed under: Entrevistas — maldemontano @ 5:06 pm

E a literatura como vai?

Fonte: Livraria Cultura News nr 148 – outubro/2006
 

Para dar uma visão dos novos rumos e talentos que vêm se sobressaindo na literatura brasileira, ninguém melhor do que um dos mais aclamados escritores atuais: Marçal Aquino. Dono de um estilo marcante, ele é autor de livros como Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios e roteirista de destaque no cinema nacional. Sua parceria com o diretor Beto Brant rendeu filmes premiados: Os matadores, Ação entre amigos, O invasor.

Como vê o atual cenário da literatura brasileira?
O que me chama a atenção na literatura contemporânea brasileira é a vitalidade deste momento. Há um número imenso de novos (e bons) autores escrevendo ao mesmo tempo e uma diversidade interessante de vozes. Vejo também muita diversidade temática, o que é bom e necessário para dar conta de um Brasil tão fragmentado.

Que caminhos a produção literária vem percorrendo nas últimas décadas?
Minha formação como escritor e leitor se deu, sobretudo, na década de 1970, quando vigorava o conto como gênero predominante. Foi a época de ouro do conto brasileiro, com o surgimento de escritores como Domingos Pellegrini, Sérgio Sant’Anna, Caio Fernando Abreu, Rubens Figueiredo e Roberto Drummond e a consolidação da obra de autores que já vinham publicando anos antes, como Rubem Fonseca, João Antônio, Dalton Trevisan, Luiz Vilela, Ignácio de Loyola Brandão, Wander Piroli e outros. O conto foi praticamente banido na década seguinte, quando prosperaram os livros-depoimento e também o romance histórico. Nos anos 1990, houve um boom de novos escritores, sobretudo por conta do surgimento de um grande número de pequenas editoras. Hoje há muita gente escrevendo e publicando e uma indiscutível variedade de discursos literários. Claro que é cedo para dizer quem tem importância ou não neste panorama – só o tempo vai fazer essa triagem.

Houve mudanças significativas na área editorial?
Acho que hoje em dia é mais fácil para um autor publicar seu primeiro livro, pois existe um universo de possibilidades editoriais entre grandes, médias e pequenas editoras. A mídia, ao contrário de outros tempos, quando só abria espaço para grandes editoras, hoje trata da mesma forma o autor que publicou por uma casa tradicional e aquele que publicou por uma editora nanica.

O que se faz e pensa em literatura hoje?
Percebo muita gente se queixando de que a literatura brasileira só se ocupa do real e só fala da violência urbana, mas acho que essa é uma visão equivocada. Há literaturas para todos os gostos, e a de cunho realista é apenas uma delas. Outro dado fundamental: nunca na história da literatura brasileira houve tantas mulheres escrevendo (e bem) ao mesmo tempo. Cito algumas cuja literatura me agrada muito: Ivana Arruda Leite, Adriana Lisboa, Andrea del Fuego, Tércia Montenegro, Índigo, Cintia Moscovich.

Quem são os escritores contemporâneos de maior destaque?
Pessoalmente, acompanho com atenção a trajetória de vários autores contemporâneos. Entre eles, um destaque é Luiz Ruffato, escritor da minha geração com um claro projeto literário e, mais que isso, com profundas marcas de humanismo naquilo que escreve. No momento ele está envolvido com uma realização arrojada: um conjunto de cinco livros intitulado Inferno provisório (dois volumes já foram publicados, Mamma Son Tanto Felice e O mundo inimigo), abordando o processo de transformação que ocorreu no país nas últimas décadas. Entre os escritores mais novos, gosto do carioca João Paulo Cuenca, que estreou com um romance muito bom, chamado Corpo presente. Gosto também dos gaúchos Daniel Galera e Paulo Scott.

Entre os clássicos, quais os que resistiram mais vigorosamente ao tempo ou até ganharam novo vigor?
O escritor clássico é uma espécie de matriz, pois sua obra vai sempre influenciar novas gerações de escritores. O clássico sempre poderá ser lido por uma perspectiva nova, daí ser clássico. Penso que isso vale para gente como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Drummond, Jorge de Lima, Clarice Lispector, João Cabral e Osman Lins. Talvez seja um pouco ousado, mas eu me arrisco a pensar que alguns autores relativamente recentes (estão vivos ainda) têm uma obra que já dá mostras de ter entrado para o cânone. Caso do Raduan Nassar e suas duas novelas Lavoura arcaica e Um copo de cólera. E também do Rubem Fonseca, que, a meu ver, já tem lugar garantido na história da literatura nacional, entre outras coisas, por ter dado feição ao moderno conto urbano brasileiro, sobretudo com a primeira parte de sua obra.

Quais os gêneros mais expressivos atualmente?
É difícil falar em gênero predominante, dada a pluralidade de autores e estilos. Do ponto de vista mercadológico, entretanto, é possível notar grande interesse por uma literatura que fale do real imediato, dessa realidade conflagrada que estamos vivendo.

Considera inevitável que o escritor seja influenciado por sua época?
Um escritor não escapa ao seu tempo. Para o bem e para o mal. Mesmo que não se ocupe do real como tema e procure abrigo literário em outra época, estilo ou enfoque, ele sempre estará sujeito ao seu tempo. Ninguém está livre de suas circunstâncias históricas. Em alguma instância, a literatura é também um depoimento sobre o tempo em que foi produzida. Acredito que é nesse sentido que o real aparece quase in natura nos escritos de vários autores neste momento. Mas mesmo com o aspecto documental muito pronunciado, trata-se de literatura, e não de jornalismo – em muitos casos, de boa literatura. E é isso que importa.

O leitor de hoje valoriza a boa literatura?
Acredito que o número de pessoas que se interessam de verdade por literatura atualmente corresponda a uma minoria, mas é uma minoria que vale a pena. Gente que enxerga a experiência literária como algo importante para suas vidas. Algo indispensável. Isso está se tornando raro, a meu ver. Eu sempre fico muito triste quando entro pela primeira vez numa casa e não vejo livros. Mas hoje em dia, com a internet, o pessoal não tem nem lista telefônica.

No atual contexto literário, a poesia ocupa lugar de destaque?
A poesia, a exemplo da prosa, também vive um momento muito interessante. Na verdade, apesar de prosador, gosto muito de ler poemas. Entre os novos, acompanho com atenção e gosto do trabalho de gente como Carpinejar, Ademir Assunção, Donizete Galvão, Luiz Guedes, Rodrigo Garcia Lopes, Aníbal Cristobo, Carlito Azevedo e um longo etc.

E a literatura infanto-juvenil, como tem evoluído?
Tive uma boa experiência com a literatura juvenil: publiquei quatro títulos na coleção Vaga-Lume, da Ática. São os chamados livros paradidáticos, que são adotados em escolas pelo Brasil todo. Acho interessante como forma de criar leitores, embora eu me preocupe quando essa leitura é imposta ao aluno (são obrigados a ler e a fazer provas sobre o que leram). Literatura deve ser sempre fonte de prazer e deleite, nunca obrigação. Claro que existem professores criativos por aí (conheci muitos, felizmente), que recusam esse modelo e procuram outras maneiras de seduzir os futuros leitores. Vi experiências bem interessantes em minhas andanças por escolas.

Como definiria a importância do livro para a evolução de um país?
Um país que abre mão do livro como instrumento cultural é um país condenado à obscuridade.

De  que forma se poderia ampliar o acesso ao livro no Brasil?
Outro dia, eu estava numa palestra com o escritor Luiz Ruffato e ele disse que falta ao Brasil hoje uma política educacional, e não uma política cultural. Ele tem razão. Nós temos sérios problemas de base, que nem vale a pena ficar arrolando aqui. Como é que podemos pensar que livro será importante para pessoas que têm outras prioridades (todas legítimas e urgentes)? No Brasil, na minha opinião, houve um recuo assustador do ponto de vista cultural. A barbárie, como sabemos, tem triunfado por aqui. O que existe – e dá alento – são algumas ilhas. Mas, repito, são minorias.

Quais as perspectivas no campo literário?
Acho que é impossível arriscar qualquer previsão. Apesar de tudo, acredito que o livro tal qual o conhecemos hoje nunca desaparecerá. (Note-se que o e-book, a despeito de todo alarde, nunca decolou; até mesmo best sellers como Stephen King descobriram isso.) Não importam os avanços tecnológicos, sempre existirá alguém interessado em compartilhar histórias na forma como acontece hoje: escritor-livro-leitor. Talvez seja um universo pequeno, mínimo. Não importa. É com esses leitores que os escritores estarão dialogando.

Fonte: Cultura News

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2 Comentários »

  1. Ótima entrevista.

    Comentário por Leandro Oliveira — outubro 23, 2006 @ 9:59 am | Responder

  2. Prezados amigos,

    Acredito que Marçal Aquino vem construindo uma obra importante dentro da literatura brasileira. E gostei de sua visão otimista sobre o presente e o futuro da literatura. Também sou escritor (com alguns livros publicados), e, se possível, gostaria de saber o endereço postal do Marçal para lhe enviar alguns livros meus publicados.
    Desde já agradeço-lhes a atenção.
    Elias Antunes.

    Comentário por Elias Antunes — setembro 16, 2007 @ 8:57 pm | Responder


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