Mal de Montano

outubro 15, 2006

Resenha – A Árvore das Palavras – Parte 3

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 11:51 pm

Por Fernanda Benevides Carvalho

A Árvore das Palavras, de Teolinda Gersão, 3ª Parte. Advertências ao amigo e leitor Mineo: Número 1: Esta também não é uma resenha. Consegui sair pela tangente? Número 2: a última sessão hebdomadária que deveria ter acontecido na quinta, ora, ora, ficou para hoje (graças ao dia folgazão das crianças).

Tinha começado pela experiência partilhada com você, Mineo, de ler e reler um livro, único jeito de brecar o seu término, prolongando a leitura, e, ao mesmo tempo, apurando nossa contemplativa natureza vadia  ao menos, falo da minha, já que Mineo faz questão de espalhar que o bronzeado de urucum que ele desfila é o do trabalhador no ponto de ônibus.
Há o tempo do trabalho, o do repouso, o do sono, o da alegria, o da contemplação. O do espanto, diante do risco da beleza. Porque a prosa de Teolinda é narrativa de risco. Durante tais leituras e releituras contemplativas, logo mostrou-se impactante o dom raro de Teolinda em recriar a vida. A vida com sua desordem, sua indecisão em vez de resolução, sua sede em vez de contentamento perene. Lembro-me de um artigo recente do Ferreira Gullar, publicado na Ilustrada, em que o poeta dos poetas dizia que busca no poema um risco. Uma pena não ter recuperado o texto, acho que era exatamente sobre o fenômeno poético de lançar alicerces para o poema ir se construindo de forma viva.

No risco assumido por Teolinda, a vida reverbera, acompanhamos a protagonista Gita, na primeira parte, e, por seus olhos, a família de brancos pobres em Lourenço Marques (Maputo). Num segundo momento, a voz narrativa em terceira pessoa descreve os vaticínios da mãe Amélia que partiu de Lisboa à África, guiada por sonhos entrevistos no anúncio de jornal. No terceiro, o desfecho, Gita retoma a voz na condução musical, narrando o painel histórico de Moçambique às vésperas da independência, relato que se imbrica à sua vida particular e à sensibilidade à flor da pele que testemunha o mundo velho, arruinado, onde as pessoas gostavam de pisar umas nas outras: “Até na missa de domingo esse modo de estar era visível. Sobretudo na Catedral, ou na igreja de Santo Antônio da Polana: os que podiam e mandavam iam lá para serem vistos, para cumprimentar e serem cumprimentados à saída, e era bem vestirem-se com toilettes caras, embora conviesse terem ao mesmo tempo um ar simples, por vezes quase desportivo, e se não fosse hipocrisia seria até bonito de ver. (…) Apesar do ar compuncto, concentrado e quase humilde que punham na altura da confissão e da comunhão. Mas era tudo impostura e fingimento, iam lá não para se sentirem iguais aos outros, mas para afirmarem a sua posição de privilégio, e saíam de lá para continuarem a viver da mesma forma, para que haviam de mudar alguma coisa se tudo estava tão bem organizado assim, eles reinando e os outros servindo, agora e para sempre amém. No entanto o padre voltava-se para todos e dizia abrindo os braços: Caríssimos irmãos. (…) Porque logo a seguir eles comem com talher de prata o caril dominical de camarão ou de lagosta, servido por criados negros de luva branca, diz Roberto. Enquanto nas palhotas os negros comem caril de gafanhotos e ratazanas gordas assadas no espeto, e de noite os ratos roem as crianças adormecidas”.

Porque Gita pertencia à África, vê com lucidez a decadência. Mas neste reino caduco uma época luminosa se insinua, Gita está prestes a tomar parte na ruptura da história: “Então, de repente, rebentou a guerra. Como um terreno minado explodindo. Não foi para ninguém uma surpresa (…)”.
Salazar tinha a cara do avô de Gita: “O Velho tinha na infância a cara do meu avô, digo a Roberto. Mas caiu do telhado e morreu quando perseguia Laureano com o pau de marmeleiro e o cinto. Os ditadores caem sempre, concluo, porque essa história me parece exemplar. De um telhado, uma janela, de uma cadeira ou de um banco – caem sempre no fim, de qualquer coisa que já nem sequer é alta, pode até ser de rasteira ao chão”.

Gita na manhã de sol dos seus vinte e tantos anos presencia a atmosfera tensa e elétrica do ar daqueles anos, participa, foge dos estampidos da polícia à porta do liceu, está lá, na agitação chamada história. Refundará suas raízes em Portugal, levará sua semente de árvore de palavras para dar frutos. Para não matar o enredo, não vou entrar nos detalhes do que acontece a quem – a Laureano, a Lóia, a Orquídea, a Amélia, a Gita, a Rodrigo e a Roberto, esses últimos, entram apenas na terceira parte.

Retomo as questões formais. Constato que nesse percurso fragmentado de narrativa é possível encontrar algumas características que fazem as partes do jogo tão bem azeitadas. Resultaram em força, em pegada certa. Um destaque merecido é o modo de construir o caminho da personagem principal. Parece-me imprescindível uma personagem que tenha origem e destino, caminhe para um objetivo, inicie uma ação dramática. É por meio da ação que se propicia a mudança qualitativa na narração, conferindo densidade, patamares psicológicos, socioculturais e geográficos diferenciados, contrastantes. O jogo de narrar tem a ver com uma viagem.

Começa-se de um jeito, mas as forças operantes em meio ao percurso são transformadoras. Penso que deste ponto de vista, o efeito para o leitor, convocado a assumir também o seu papel nesse jogo, será de cumplicidade à essa transformação.

Grande é todo livro que a gente abre de um jeito, e quando fecha, a gente também se transformou. Meu espanto vai convergindo para esse ponto: como é que pode acontecer de certos elementos funcionarem, mesmo nas narrativas fragmentadas, experimentais, do mesmo jeito que funcionaram e funcionam num jogo de contar histórias ao pé da fogueira, tendo ao centro da roda o contador da fábula apenas fazendo o uso da palavra nua, com começo meio fim, e nenhum recurso a mais?

O livro de Teolinda não menciona fogueiras, mas me parece que se refere a uma árvore de palavras ancestrais.

Talvez a chave da radicalidade para romper de verdade as convenções esteja na reunião dos extremos: da sabedoria milenar de manter a chama da fogueira acesa daquele contador antigo, quase mítico, que tem a história e os ouvintes, e as experimentações. Hoje mais que nunca é necessário ir até o caroço, voltar às velhas perguntas sobre quem é a personagem que pede empréstimo de voz ao autor, sem que esse processo caia na ridicularização, pelos mais afoitos… que vão logo fazer piada sobre o método, chamar de espírita essa coisa de voz de empréstimo… ou dizer que quem tem projeto é engenheiro, não a personagem. Mesmo personagens sem projeto marcam a posição do não.

Saber prender. Saber contar uma história por ir lhe construindo um sentido que não elimina o risco diferencia um autor transformador daquele que é mero repetidor de fórmulas, ainda que sejam elas experiências pós-pós-tudo e dêem ao seu autor uma aura de sacador, de criativo, fazendo-o circular com a vinheta de artista do momento.

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1 Comentário »

  1. fernanda,
    tu me fizeste ler uma e reler seis vezes a árvore dos prazeres… das palavras, tão esplendorosa a tornaste.

    Comentário por mineo — outubro 18, 2006 @ 12:08 pm | Responder


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