Mal de Montano

outubro 11, 2006

Domingo

Filed under: Montano por um dia,Outros Escritos — maldemontano @ 3:18 am

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 Por Olímpia (ou Nosferatu, tanto faz) 

A única vez que avistei o Mal de Montano desconhecia a condição de atacada: hoje o chamo pelo nome, e nós – os enfermos – celebramos a margem de vilas e matas os efeitos desse mal em divina decadência. 

Solitude, récit, etoile! 

Vivemos errando, pela penumbra dos bosques, com o romance perigoso: prima página pushkin. 

Domingo 

0:50 no mostrador: na rua uma voz canta. Letra inusitada: música caipira americana. Pela veneziana do banheiro brecho a figura que recita, solitária: uma estrela.  

Temas eternos eternos serão? A eternidade é um canto infernal, antes de mim não foi criado mais nada senão eterno, e eterna eu duro. O mal dantes era assim: juntava os alhos com outros bugalhos. 

Afinal, a mudança súbita para vozes e cercanias álteres  é uma das vantagens secretas que a literatura tem sobre a vida. 

 Quer ver? 

Domingo 

Sandra sofre de diabetes, tem 40 anos, nasceu em Brasília.  Mora em litoral que tanto podia ser Açores como Alcobaça;  a pequena come chocolates e brinca com ela, a tão@poderosa.com do romance do poeta Mário Faustino.

“(…) Vinha teu vulto tão belo

Em teu cavalo amarelo,

Anjo meu, que, se me amasses,

Em teu cavalo eu partira

Sem saudade, pena, ou ira;

(…)

Era tão cálido o peito

Angélico, onde meu leito

Me deixaste então fazer,

Que pude esquecer que a cor

Dos olhos da Vida e da dor

Que o Sono vinha trazer.”  

A ambulância apareceu: os incrédulos do SUS! Levou Sandra, embora o rastro trágico e o escatológico vômito perdurem na tarde dourada e verde. Aqui nos Açores (Madagascar?), como em qualquer lugar, moramos entre o divino e o profano: blues no ar, vinho e queijo no bar. 

 Domingo  

O Mal de Montano é cínico: gerou mania de ler escritores citados por escritores.  Desde Bartleby e companhia (só de orelha) Montano fala no The man without qualities de Robert Musil. No agito de uma mudança geográfica, popped up na minha particular tela global proposta profissional. Honorários: livros da Amazon.com. 

Blz: topei, mas caí na besteira de escolher um homem de muita qualidade, qualidade pra caralho: dois volumes. O primeiro tem 723 pp. e o segundo 1774. Em fonte miúda. 

Reviro as páginas do Mal à procura do sentido da opção: “pouco depois, esse menino transformou-se em o homem sem qualidades do romance de Musil, aquele matemático idealista que contemplava as ruas de sua cidade e cronometrava, de relógio na mão, os automóveis, as carruagens, os bondes e as silhuetas dos transeuntes esfumadas pela distância. Aquele homem media as velocidades, os ângulos, as forças magnéticas das massas fugidias…” 

Knockout. 

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