Mal de Montano

outubro 9, 2006

ROLETA RUSSA

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 12:03 pm

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Por Selena Carvalho

  

 

A primeira coisa que disse, logo após se apresentar, é que não tolera celular tocando no meio da aula. Na mesma hora, barulho de cadeiras se arrastando, bolsas se abrindo, bips prolongados. Não se levou tão a sério, no entanto, soou como proibição estampada em cinemas, teatros, hospitais, a ser ou não observada, dependendo. Um tempo depois, se ouve o toque de um deles. A menina se levanta apressada e sai atendendo no caminho. – Qual o seu nome, por favor? – assim que voltou. – A senhora está perdendo um ponto. Apenas isso dessa vez, porque acho que não fui bem claro. Da próxima, ouçam todos, com quem quer seja e por qual motivo for, será zero no semestre.- Continuou com a explanação da metodologia a ser aplicada, predominância de trabalhos em grupos, seminários, apresentações.

  

Principiou, desde esse dia, o meu suplício.

  

Vou à secretaria averiguar a possibilidade de trancamento de matrícula. Lá sou informado de que posso trancar, claro, mas aquele professor acaba de ser efetivado; pela performance no concurso, muito superior à dos demais, assumiu a coordenação do curso. A menos que alguma tragédia aconteça, não há como chegar ao fim, sem passar por ele.

  

Que seja logo, então. Volto na aula seguinte resignado.

  

Escolho uma cadeira bem no centro, artifício que aprendi na tentativa de permanecer desapercebido. Abro o caderno, anoto toda palavra dita, parecer ocupado, sempre, muito ocupado! Evito cruzar o olhar com o dele; quando alguém faz alguma pergunta, imediatamente viro a cabeça na direção do interlocutor. Sei que deveria também eu, fazer alguma pergunta, qualquer que fosse, mas não consigo. Ficar quieto para não chamar a atenção e acabar chamando justamente por isso; estou cansado de saber. Ainda na memória o semestre passado: em uma das matérias, a professora avisou que dispensaria de prova quem tivesse participação
em classe. A partir daí, ela mal falava, tal a sanha de intervenção dos alunos. Fui o único a não abrir a boca, tive, por isso, que ler um livro inteiro, fazer prova sozinho e ainda agüentar a contrariedade de quem teve que elaborá-la só para mim.

  

Na segunda semana ele percebe que existo, não tem mais jeito.

  

– Ei, doutor, o senhor, como se chama?- Faz uma pergunta, nem é difícil, tinha estudado o assunto na véspera em casa, tenho a mania de sempre dar uma adiantada no que vai ser dado. Respondo alto, uma colega balança a mão, como a dizer que eu diminua, passo a falar baixo demais – Não estou escutando, doutor. – Ouço risos à minha volta, olho para o professor, que me analisa sarcástico, começo a gaguejar. O raciocínio parece se perder, fico alguns segundos calado entre uma frase e outra, até que, não sei que rompante de bondade o faz dizer: – Está certo, doutor, estou satisfeito.

  

 

Mal acaba a aula, pulo da cadeira, corro em direção à porta. Penso que não terei coragem de voltar mais, mesmo sabendo que terei que fazê-lo. Reconheço ter sido um milagre chegar à metade do curso sem ter passado por isso; deveria estar agradecido, mas sofro com a perspectiva de que aconteça com freqüência daqui para frente. No caminho para casa, flashs da minha infância, dois especialmente marcantes, nunca os contei a ninguém: o primeiro dia de natação na escola, devia ter uns seis, sete anos. Tinha levado sunga, touca, toalha, dentro de uma sacola. A professora não viu quem a havia trazido; na hora da natação perguntou quem iria fazer a aula, eu não respondia, depois começou a indagar de quem era a bolsa, eu não respondia, saiu de sala em sala à procura do dono e, como não o descobrisse, acabou deixando-a na secretaria. Até hoje não consigo explicar por que não tive coragem de dizer que era minha. O outro, muito pior: voltávamos, eu e minha irmã, de transporte escolar. Um dia, no meio do caminho, percebi que ela não estava no ônibus. Fiquei o resto da viagem quieto, preocupado, mas não me animei a comunicar o fato. Quando chegamos em casa, confusão, mãe chorando, pai brigando com motorista, eu, afundado na culpa. Estávamos ainda no meio da rua, quando, para meu alívio, a vimos chegar, nos ombros da professora.

  

Ele me faz perguntas todo dia.

  

Não entendo. Várias outras pessoas não foram interpeladas uma única vez. Esgotei o número de faltas a que tinha direito, passei semanas seguidas sem aparecer, ele não me esqueceu. Com certeza já percebeu o meu pânico e se compraz em me espezinhar. Meu analista acha que talvez queira ajudar, pressões assim, às vezes, transformam a vida das pessoas. Não creio nisso. Vejo nitidamente a expressão de satisfação quando começo a titubear. É certo que agora gaguejo menos, mas mesmo assim. Se ele não é sádico, como defende meu analista, nem quer me ajudar, hipótese em que não acredito absolutamente, talvez sinta um grande despeito. Observo a barriga proeminente, os cabelos ralos, calculo sua idade e penso ser impossível não ficar abalado com a juventude jogada à cara. Descarto logo o pensamento: carreira sólida, vasto conhecimento, sobretudo isso, vasto conhecimento sobre inúmeras coisas, uma mulher desejável, filhos perfeitos. Pouco provável que tenha inveja de quem quer seja. Se fosse esse o caso, inclusive, teria outros, com mais atributos, para perseguir.

  

Roleta russa, a última novidade.

  

Explica: ele escolhe um tema, coloca os nomes de todos os alunos em uma urna, trouxe-a para demonstração, sorteia um deles. O sorteado deverá fazer longa explanação sobre o assunto; os demais, perguntas. Cismo que deveria ter sido formada uma comissão para assegurar a lisura do procedimento, mas claro que não digo nada. Quem garante que haverá um só papel para cada nome? Sem supervisão, ele pode fazer o que quiser, até mesmo escrever cinqüenta papéis com o nome que quer que seja escolhido.

  

O meu. Essa idéia não me sai da cabeça: só eu posso ser sorteado porque só o meu nome está ali. Não sei por que fui eleito para Cristo.

  

Dia do sorteio.

  

Dormi de madrugada, estudando o tema, já quase decorado. Fiz anotações, ensaiei seguidas vezes frente ao espelho, minha irmã me tomou os pontos. Chego à sala bem mais cedo do que o costume, ele, quase no mesmo minuto em que toca o sinal. Faz brincadeira com um e outro, a simpatia que conquistou entre os alunos é algo que me deixa perplexo. Estão mancomunados. Todos sabem que serei eu o sorteado.

  

Dá início ao processo, maestro do meu tormento. Noto que trocou a caixa destinada aos nomes. Essa, hermeticamente fechada. Por quê?  Ele a balança, meio sorriso forjado. Tenho impulso de avançar sobre ele e desmascarar a farsa. Pega um papel. Difícil controlar os espasmos do corpo, o suor teima em escorrer da testa e fazer rodas na camisa, debaixo dos braços. Se ao menos ele consentisse em que eu fizesse a explanação sentado! Antes de ler, detalha o que espera do palestrante. Abre o papel devagar. A cabeça doendo, a garganta seca, a barriga revirada, cogito em sair correndo.

  

Olho ao lado, procurando cumplicidade, mas não vejo a aflição em mais nenhum rosto.

  

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3 Comentários »

  1. Selena, você está cada dia melhor.
    Estou louca pelo seu livro.
    beijão

    Martha

    Comentário por Martha Hormann — outubro 9, 2006 @ 6:37 pm | Responder

  2. Incrível como me identifico com suas personagens. A continuar assim, terei de chamá-la Bruxa…
    Carol

    Comentário por Carol — outubro 10, 2006 @ 2:00 pm | Responder

  3. Oi, Selena.
    muito legal o texto… vc consegue ir criando um clima para o clímax do texto, que acaba deixando o leitor querendo mais!
    Valeu!
    Márcio

    Comentário por Márcio — outubro 13, 2006 @ 1:44 pm | Responder


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