Mal de Montano

outubro 6, 2006

Entrevista – Evandro Affonso Ferreira

Filed under: Entrevistas,Montanas — maldemontano @ 4:24 pm

Penélope Montana entrevistou o escritor Evandro Affonso Ferreira especialmente para o blog Mal de Montano. Confira!  

Penélope: Você tem ouvido absoluto para as palavras? 

Evandro Affonso Ferreira: Não absolutamente apre sou apenas como disse o grande Millôr um vivificador das palavras; gostaria na verdade de ser feito ele amigo Juliano Garcia Pessanha que é procurado pelas palavras; eu fiau! bagalafumenga eh-eh procuro as palavras; incansavelmente; sonoras sim diferentes sim pouco usuais sim; mas digo-repito: procuro hã não sou procurado. 

Penélope: Grogotó tem minicontos lapidares. Como chegar na justa medida, introduzida em nossa língua portuguesa por Sá de Miranda, o filho do cônego, sobretudo para você, a quem disseram que o fluxo pinga à joyce? Evandro Affonso Ferreira: Grogotó! foi minha primeira experiência literária; comecei pensando assim: vou criar minicontos como se fosse possível criar minimiss: minúscula sim mas com cara de miss corpo de miss sorriso de miss cousalousa; fiz-refiz uns duzentos minicontos até chegar nele Grogotó!; acho que com o tempo fui me aperfeiçoando na digamos surpreendência; consegui achar um jeitinho de surpreender o leitor no final de cada história. 

Penélope: Fale-me sobre Pandora. Que trabuzanas ela vai aprontar? Evandro Affonso Ferreira: Trabuzana é um livro que está ainda na página 34-35; cada capítulo tem um narrador diferente; nada de novo claro Lobo Antunes faz isso em quase todos os livros dele; mas no meu caso tudo gira em torno da mulher que foi assassinada pelo “poeta-revelhusco” 44 anos mais velho do que ela; por enquanto tem o velhote propriamente dito depois tem a amante e depois o marido; mulherzinha era por assim dizer moderninha eh-eh coração franciscano; sim Pandora entra toda hora em cena; tragédias a cântaros. 

Penélope: Seus personagens são pessoas de meia-idade, idosos, ou decrépitos. Sapateiros, alfaiates, livreiros, desempregados… existe uma galeria e um conjunto coeso na sua literatura, desde Grogotó, passando por Araã, Erefuê, Zaratempô e Catrâmbias, de 2006. Quais as características comuns entre seus livros? Evandro Affonso Ferreira: Primeiro a linguagem; depois a velhice; acho que consigo falar melhor deles revelhuscos; sou um deles; sessenta e um anos nos costados; mas vivi uns 80 já; 30 anos de boemia hã podemos contar 45 de vida vivida; mas reatando fio da conversa a velhice me fascina; raramente falo de jovem; gosto de lidar com a solidão morte desespero cousalousa; acho que qualquer freud de botequim decifra esse enigma (como direi?) evandriano. 

Penélope: Quando você começou a campanha heróica de explicar em todas as entrevistas que a sua literatura não é parecida com a de Guimarães Rosa? Você considera algum crítico, em especial, que tenha lido melhor a sua obra? Evandro Affonso Ferreira: Sim; meu amigo Alcir Pécora; o único; modo geral parvuleza daquelas. 

Penélope: “O papel do escritor é o A4”. A platéia rola de rir com suas participações em debates literários. Antes de Grogotó, você trabalhava com humor e, pessoalmente, tem senso afiado, vira todas as coisas de ponta-cabeça. Como o humor cabe hoje na sua literatura? Evandro Affonso Ferreira: Humor cabe-caberá sempre em qualquer lugar; nela minha literatura acho indispensável porque diacho tragédias a flux eh-eh vez em quando precisa dum chiste qualquer; nosso Machado fazia muito isso: mais fácil cair das nuvens do que no terceiro andar. 

Penélope: Algumas histórias do seu antigo sebo Sagarana, como a do bêbado que entrou e pediu-lhe ajuda, e o socorro que você prestou, ter tirado da estante o Santo Agostinho para entregar ao homem, ficaram conhecidas. Fatos ficcionais como esse acontecem muito em sua vida?  Evandro Affonso Ferreira: Sim tem outra história interessante: mulher entra de súbito nela sebo Sagarana, olha para vitrine, exclama: “Nossa! já escreveram a biografia dele?” brocoió aqui se aproximou hã livro dele Joyce – Ulisses; semana em que morreu Ulisses Guimarães. 

Penélope: E o encontro com Francisco Dantas, no sebo Avalovara? Evandro Affonso Ferreira: Foi lindo; cidadão chega na loja se aproxima da estante de literatura brasileira, puxa O Coivara da Memória e pergunta “O senhor tem uma edição mais antiga deste livro?” retiro livro da mão dele cliente digo alto-bom-som: “Amigo este livro é uma obra prima; magnífico”; cliente diz humildemente: “Obrigado amigo muito obrigado”; era o próprio; conversamos cinco horas sem parar; Francisco Dantas é um escritor maravilhoso; uma figura maravilhosa; trata a palavra com carinho; neca neres de literatura ajornalistizada. 

Penélope: Você gostaria de ver seus livros traduzidos? Para qual idioma? 

Evandro Affonso Ferreira:Gostaria de ver meus livros editados em Portugal; lá sim eles tratam bem as palavras; escrevem bonito muito bonito; exemplo: Os passos em volta dele Herberto Helder é um livro magistral. 

Penélope: Fale sobre seu próximo livro, você se sente dono da situação quando escreve novo livro ou é sempre um salto para o abismo? 

Evandro Affonso Ferreira: Nunca neca neres jamais me sinto dono de situação nenhuma; sou um babaquara um brocoió inseguro que só vendo. 

Autobiografia “Não tenho evidentemente a alma seráfica dela santa Teresa de Ávila mas também não sou puh o anhanga em figura de gente; nem sempre andando sobre ovos com passo titubeante tampouco distraído feito ele Tales primeiro filósofo aquele que caiu num poço quando contemplava os astros; áureo meio-termo; não tenho o self-control budista mas estou longe distante mesmo de sofrer amiúde delírios persecutórios à maneira dele Rousseau; não sou digamos libertina feito ele Aretino mas também catrâmbias! segui nunca-jamais à risca ela parábola do bom Samaritano: há uma medida nas coisas; não sou adepta fervorosa dele Proudhon tampouco entusiasta delas utopias de Campanella Bacon More Fénelon quejandos; no meio está a virtude; não nasci para imitar os heróis de Plutarco mas nunca abandonei vergonhosamente o escudo feito ele Arquíloco; desde sempre adepta dele topos dantesco segundo o qual a dúvida agrada não menos que o saber; sábia sensata serena; vivo entre a agressividade e a subserviência; feliz sim sei abstrair; às vezes fico dias seguidos recolhida em mim mesma; sou au fond uma estóica; não pertenço àquela escola que afirma que todo ser humano pode em princípio ser seu próprio especialista nem àquela outra que acredita que apenas os bem-dotados são capazes de descobrir as verdades universais; nem tanto nem tão pouco; sou em síntese um exemplo paradigmático da moderação. Este não sou eu evidentemente; mas diacho existe gente assim?” Evandro Affonso Ferreira, 61 anos, escritor (cinco livros publicados), livreiro (dono do Sebo Avalovara
em São Paulo).

Confira aqui o capítulo I – Trabuzana (ainda inédito), cedido por Evandro Affonso Ferreira para o Mal de Montano.

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3 Comentários »

  1. Essa entrevista com o pequeno-grande Evandro é pra ler ajoelhado.
    O cara é profissional! Sem comentários, Evandro! Vc sabe que o povo aqui da capital federal te adoram !

    Márcio

    Comentário por Márcio — outubro 6, 2006 @ 7:51 pm | Responder

  2. Procurando algo sobre nosso sobrenome na internet me deparei com essa entrevista que achei ótima, apesar de nao conhecê-lo me engrandeci em descobrir mais um Afonso Ferreira de alta equivalência.Um abraço de uma FeAfonso rreira.Recife.PE 23.02.2008

    Comentário por maria goreth afonso ferreira — fevereiro 23, 2008 @ 9:05 am | Responder

  3. Agradecemos as visitas! abraços montanos!

    Comentário por maldemontano — abril 11, 2008 @ 4:00 pm | Responder


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