Mal de Montano

outubro 4, 2006

Tahar Ben Jelloum – Poemas Escolhidos (1966/1995)

Filed under: Montano por um dia,Resenhas — maldemontano @ 8:38 pm

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Por Hélio Meira de Sá  

 

A obra literária e ensaística do marroquino Tahar Ben Jelloun é com razão celebrada nas duas margens do Mediterrâneo. O escritor ostenta inúmeros prêmios, dentre eles o Prix Goncourt, a mais importante honraria literária francesa. Ainda que objeto de críticas de fundamentalistas extremados, vocaliza o vigor da contestação dos que se insurgem contra a opressão aos povos árabes, seja em seu próprio território, seja na condição de imigrantes vilipendiados em terras européias. É exatamente o entrelaçamento do engajamento político com a evocação poética das tradições culturais árabes ou do Magreb (região formada pelo Marrocos, Argélia, Mauritânia e Tunísia) que lhe confere destacado papel na literatura magrebina de expressão francesa.  

Pode causar estranheza, contudo, a opção aparentemente paradoxal pelo idioma do colonizador francês como a língua de seus escritos, procedimento adotado também por outros autores magrebinos de sua geração. Ocorre que a possibilidade de atingir leitores extraterritoriais significa o não-confinamento a uma comunidade ou região. Ben Jelloun argumenta que os “franceses se instalaram no Magreb, e eu me instalei em sua língua”. Trata-se do conceito de “violência da escritura”, que preconiza não o “abandono da língua francesa, mas a sua violação de modo a golpear em todos os níveis – sintático, morfológico, gráfico, simbólico e fonético –  a lógica original da língua francesa”.  

A coletânea “Tahar Ben Jelloun: poemas escolhidos (1966-1995)”, tradução de Cláudia Falluh Balduino Ferreira, Editora da UnB, nos apresenta sua produção poética, pouco conhecida dos leitores brasileiros. O poeta nos adverte de chofre que “não começou fazendo poemas de amor”. Não poderia ser diferente. O ritual iniciático se deu no cárcere, entre 1966 e 1967, onde foi enclausurado após sua participação nas revoltas estudantis de 1965. Escrever naquela situação traduzia rigorosamente a “cólera e a necessidade de reagir contra a injustiça e a opressão, contra a mentira e a traição”. Não obstante a advertência, sua poética densa é perpassada pelo sopro doce, pela dicção terna e pelo toque sensível de quem jamais se desgarrou da causa humanista, do viés fraterno e solidário que permeia semelhante comprometimento político.  

A demarcação do espaço poético na obra de Tahar Ben Jelloun molda-se às dicotomias com as quais trabalha, resultantes das fronteiras criadas com as rupturas culturais impostas pelo processo colonização/descolonização. Percebe-se um jogo dialético de ausências e de presenças, referências temporais e espaciais resgatadas pela “erva molhada de uma memória envelhecida” de um imigrante instalado na França. A vitalidade do passado conjuga-se à impotência do presente: “eu possuía as chaves da cidade  […] hoje sou um cemitério de terracota”.  

As imagens se apóiam em pilares básicos de construção. A memória obviamente como elemento deflagrador de sua poética. A pedra, matéria incoercível, testemunha que simboliza a trajetória temporal. O vento que varre os espaços, impulsionando o tempo e arejando a memória. A areia, o resíduo da dissolução do passado. A dor e o ódio, como elementos que se originaram dos conflitos.  

Há, no tocante ao eixo temático, poemas em que denuncia os infortúnios do povo palestino ao deparar-se com a terra usurpada. A dureza metálica das máquinas dos ocupantes surrando impiedosamente a terra. No dramático poema “As amendoeiras feridas morreram”, por exemplo, relata ao filho distante a destruição de sua aldeia pelos israelenses. A narrativa pungente, emocionante, reconstitui os episódios de 1948, no deserto do Sinai, que desencadearam os conflitos ainda hoje irresolutos: “eles abriram nossas chagas e bebemos nossa morte […] Foi a única vez que chorei. Eu sei, tu não gostas de lágrimas, desculpe-me se as minhas caíram. Mas a vergonha as reuniu em meu corpo como pedras, como os dias, como as preces”.  

O poema “Aurora”, que se associa à mesma esfera temática, faz citação ao poeta palestino Ghassane Kanafani assassinado por um comando sionista em 1972. Os poemas intitulados “Não identificados” homenageiam os anônimos mortos, cujos corpos, depositados ao “flanco da colina”, ressurgem como “estátuas que se levantam ao vento da chama”. 

O ponto de inflexão da poesia-denúncia é percebido no momento em que invoca a pátria. Aí, a ternura e erotismo, cúmplices do vento e da noite, descortinam uma outra face da poesia de Ben Jelloum. Em “As moças de Tanger”, embora a antinomia continue sendo a força motriz, reveste-se da sensualidade que vem da “fenda dos lábios por onde passa a música que faz dançar os espelhos”. Utiliza-se da evocação elegíaca, com uma voz de soluço e riso, ao constatar uma pátria que não tem mais rosto: “O Marrocos, se fosse um rosto, seria uma luz, uma palavra do vento, deriva das estações, enigma das pedras”.  

A cidade de Fez emerge dos subsolos da lembrança, como “pedras grávidas cospem lembranças”. São vários poemas dedicados à sua cidade natal. A palavra é o que lhe resta neste exercício surdo de estreitar a distância que o separa de sua terra ou de amainar a dor que o atormenta. Sua poesia tem o gume da lâmina metálica que resplandece ao sol cego. Tem o timbre seco da amêndoa pétrea de que já falou João Cabral de Melo Neto, com quem, aliás, mantém uma certa proximidade imagética, assim como a poesia cabralina aproximou Pernambuco da Andaluzia. 

A importância de sua obra é crucial, sobretudo, neste início de século, quando as discussões sobre o choque de civilizações ganham espaço nos meios acadêmicos e na mídia, fomentadas pelas conseqüências funestas do recrudescimento da incompreensão mútua entre culturas e povos. Tahar expõe as fraturas das identidades nacionais, ao mesmo tempo em que as reconstrói, na condição de imigrante que vivencia a difícil realidade de estar entre duas nações, entre dois territórios, entre duas línguas e entre duas culturas, com a amarga sensação de não-pertencimento. 

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