Mal de Montano

outubro 31, 2006

Néon

Filed under: Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 1:49 am

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Por Carla Andrade 

Há dias de rapto

 o sol cego

 morrendo a gente

 em raios

 levam purpurinas de néon

 deixam

 carne

 vertigem

 teatro  

 mas se deixam, seria rapto?

 já vi chuva

 roubar alma

 em postes iluminados

 e ao mesmo tempo

 produzir novelos do tempo

 revelando rastros

 anelos de sonhos

 já vi ostra olhar de perfil

 só para pedir mãos

 em troca de pérolas

 sem falar no disparo

 das águias em dorsos febris

 voando o olhar da gente.  

outubro 28, 2006

Decálogo do Contista – Horácio Quiroga

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 10:00 pm

Decálogo do Contista – Horácio Quiroga

I- Creia em um mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekhov – como em Deus.
II- Creia que sua arte é uma montanha inacessível. Não sonhe em dominá-la. Quando puderes fazê-lo, só tu saberás.
III- Resista o quanto puderes à imitação, mas imite se a tentação for muito forte. Mais que qualquer outra coisa, o desenvolvimento da personalidade exige paciência.
IV- Tenha fé cega não na sua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ame a sua arte como a sua mulher, dando-lhe seu coração.
V- Não comece a escrever sem saber aonde ir. Em um bom conto, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância que as três últimas.
VI- Se quiseres expressar com exatidão este fato: “Um vento frio soprava do rio”, não há na linguagem humana palavras mais exatas que essas. Seja dono de suas palavras, sem te preocupares com suas dissonâncias.
VII- Não adjetive sem necessidade. Inúteis serão as camadas de cor adicionadas a um substantivo fraco. Se fizeres o que for preciso, ele terá, por si só, um colorido incomparável. Mas terá que buscá-lo.
VIII- Pegue seus personagens pelas mãos e conduza-os firmemente até o final, sem deixar que nada o desvie do caminho traçado. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado de resíduos. Tenha isso como verdade absoluta, mesmo que não seja.
IX- Não escreva sob emoção. Deixe-a morrer, e depois a evoque. Se fores capaz de revivê-la, terás chegado à metade do caminho.
X- Não pense em seus amigos ao escrever, nem nas reações a sua história. Pense como se seu relato só interessasse a seus personagens, e você fosse um deles. Não se dá vida a um conto de outro modo.

entre aspas…

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 9:54 pm

“A verdade, porém, é que ninguém se livra de suas próprias lembranças, nem de velhas idiossincrasias, malquerenças e desejos recalcados. E, quando se trata dum romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face ou na alma de seus personagens”. (Erico Veríssimo) 

Trecho de “Os segredos da ficção” (Raimundo Carrero)

outubro 26, 2006

Um domingo com Marçal Aquino

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 7:34 pm

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Por Solange Pereira Pinto 

O domingo acordou preguiçoso, como sempre. O sol numa alegria incontida entrava por toda a casa gritando a urgência de sair um pouco da poeira do desânimo habitual. O telefone tocou. Tomei um café, fiz uma careta (algumas coisas cheiram melhor que o próprio gosto). Rendi-me. Calcei o tênis, vesti o short e a camiseta, peguei o boné, nessa espantada ordem e chamei o paulista Marçal Aquino para uma volta no parque.

  

Sabe como é, domingo de sol no parque da cidade, lugar perfeito para famílias, crianças, patins, bolas, bicicletas, pipas, casais, pais, mães, tias, avós, desocupados, ambulantes, churrascos, piqueniques e duchas… Lá fomos nós ao encontro das Famílias terrivelmente felizes.

  Cada raio ia se alongando sobre o corpo e Aquino me contando a primeira de muitas histórias do dia. Logo diz “meu tio morreu em um hospício numa tarde de segunda. Conversando com seus fantasmas, a única coisa que aprendeu na vida”. E, num ato contínuo, foi relatando tudo o que ele poderia ter sido.

  

A cada passo dado, minha atenção redobrava, e novos cotidianos iam surgindo. Os onze jantares, o escritor saxofonista, a mulher com ar de quem é absolutamente íntima de incêndios, e ressaltou “o homem é uma criatura solitária. Muito embora viva procurando se amparar nas mais diversas coisas. Até mesmo numa página em branco”.

  

Fiquei pensativa. Quantas escoras fabricamos! Como um traçado de vida pode se complicar a cada parágrafo vivido? Foi quando ele me contou sobre a família no espelho da sala, “é, não tem jeito, viver não permite escolhas. Não se esqueça. Antes de sair, olho a redação: todos envolvidos na tarefa febril do fechamento. As pequenas tragédias pessoais – e, por que não, as grandes também -, adiadas por algumas horas. Para recomeçar tudo amanhã”. (Marçal é também jornalista e sabe bem o que é inventariar as causas alheias, esquecendo das próprias em nome do ofício).

  Ora leve, ora intenso, o tempo vai caminhando entre traduções de silêncios e verdades. São expostos os cacos, as colagens. Numa pausa me fixo nessa fala “…Mas hoje eu sei que a vida trapaceou com eles. Lembrando um relance aqui e um flagrante ali…”.

  

Suas histórias vão me fascinando sob a paisagem dominical de crianças saltitantes e de casais enamorados debaixo de copas verdes. No mesmo instante, vem ele contar de um dia de casamento, para em seguida narrar noites, acontecimentos em casas, em bares, falar das conspirações, dos casos, dos amantes, dos desejos urbanos, das emoções rurais. “Mortos não respondem por jogos perdidos em vida”. Entre risadas e tamanha curiosidade me torno voyeur daqueles seres de papel.

  

Algumas nuvens se unem cobrindo a tarde. A água de coco chega ao fim. Eu me apresso em ouvir a última história que meu novo amigo tem a contar “Miss Danúbio”. Em meio às diversas finitudes possíveis de mais um dia, despedi-me de Marçal, que com seu jeito enigmático, surpreendente e simples, passou o domingo a mostrar os entrelaces do dia-a-dia de pessoas comuns. Famílias terrivelmente felizes. Vários contos numa teia de vida. “Até mesmo os cheiros envelhecem…”, ele disse em algum momento. Alguém duvida?

outubro 25, 2006

Exposição de minicontos

Filed under: Mal do dia — maldemontano @ 6:00 am

Casa Verde promove exposição de minicontos em centros culturais gaúchos

Uma exposição de textos. Sim, essa é a próxima intervenção cultural da Casa Verde na capital gaúcha. A partir do dia 26 de outubro, cerca de 50 minicontos estarão expostos na Casa de Cultura Mario Quintana e no Centro Municipal de Cultura em banners de 30 x 40. Os textos fazem parte dos livros Contos de bolsa e Contos de bolso, que compõem a Coleção Lilliput da Casa Verde, e ficam expostos durante todo o período da Feira do Livro.

  

Com apoio do Núcleo de Literatura da Casa de Cultura Mario Quintana e da Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura, a iniciativa visa a aproximar o público da literatura, instigando nos transeuntes a reflexão e o estranhamento suscitados pelos minis.

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Sobre a casa

 Criada em junho de 2004 por Laís Chaffe, que lidera o grupo formando ainda por Christina Dias, Caco Belmonte, Luciana Veiga, Luiz Paulo Faccioli, Filipe Bortolini e Marcelo Spalding, a Casa Verde nasceu com o objetivo de reunir escritores dispostos a discutir seus textos e publicá-los por um selo próprio, com total independência. O primeiro livro da editora foi a antologia de contos Fatais, seguindo-se Contos de bolso e Era uma vez em Porto Alegre, todos lançados em 2005. Paralelamente às edições, a Casa Verde vem promovendo encontros com os leitores e oficinas literárias. No ano passado, Marcelino Freire  foi a Porto Alegre para uma oficina de minicontos. Neste ano, repetiu a dose com Ivana Arruda Leite. Novos livros individuais dos autores da Casa devem sair em 2007, a exemplo de Caco Belmonte, que neste ano lançou No Orkut dos outros é colírio. Ano que vem, quando também terá seqüência a Série Lilliput, com algumas surpresas.    

Da ficção ao romance…

Filed under: Mal do dia,Quem gosta indica — maldemontano @ 5:46 am

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Por Bruno Reis Bechtlufft

  

Estou lendo “Fortaleza Digital”, de Dan Brown (Sextante, 2005). É uma ficção maravilhosa que mostra o mundo digital, tecnologias, internet. Mesmo sendo hoje o autor quase um “clichê”, eu recomendo.  

Um livro marcante, para mim, foi “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez (Record, 2001). É um romance “surreal”, louco, tenso que prende a atenção o tempo todo. Muito bom! 

outubro 24, 2006

À espera de um agosto

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 5:06 pm

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por Aurora Galiléia

  

Tinha seis anos quando seus pais saíram foragidos da Polônia. Eram judeus e temiam a perseguição nazista. Da hostilidade polaca, vieram diretamente para o calor de Madureira. Eram cinco irmãos ao todo. Uma irmã mais velha e quatro meninos. Sempre foram muito unidos. Ele era o segundo na escala. A irmã casou logo cedo; tinha dezesseis anos. Os meninos viveram intensamente o Rio de Janeiro dos anos 40, 50 e 60. 

Durante a infância, arrancavam vitórias-régias do Campo de Santana. Na adolescência, jogavam futebol no descampado perto de sua casa. Mais tarde, deixaram o bigode crescer e incorporaram todos o típico malandro da Lapa e passavam o dia jogando pôquer.  

Cada um dos rapazes tinha suas características peculiares, mas o segundo era conhecido por ser o mais azarado. Certa vez, passou uma semana procurando seu cachorro que havia desaparecido. Quando encontrado, o cão, que estava raivoso, o mordeu. Passou 25 dias tomando injeções na barriga. Nunca era escolhido para as partidas mais importantes do futebol do bairro. No dia em que foi, o zagueiro do outro time quebrou sua tíbia e seu perônio. Foi inacreditável. Outra vez, ao tentar pagar sua conta no bar vizinho à sua casa, presenciou uma briga e foi acertado por uma bala de revólver destinada a outra pessoa. 

Todas essas estórias preocupam ao extremo quando acontecem. Mas, convenhamos, provocam risos quando passam e são ótimas para contar para os filhos e netos. Ele, no entanto, nunca os teve. Tinha muitos sobrinhos, e era muito querido por todos. Fritava batatas para eles aos domingos. Como nunca se casou, morou com sua mãe até o falecimento dela. Depois disso, passou a morar com a irmã, já viúva, na Tijuca.  

Tinha 67 anos, 25 injeções anti-raiva, uma tíbia e um perônio quebrados, uma bala – que podia sentir nos dias mais frios – alojada na coxa e um derrame. O último acidente mudou um pouco o seu jeito. Ele passou a ser mais calado, mais sério e olhava sempre para frente. Parecia que não ouvia as pessoas quando falavam com ele. Mas isto era apenas uma impressão. Na verdade, apesar de aparentar ser um pouco demente e robótico, percebia tudo, absolutamente tudo que se passava a sua volta. Ia com os irmãos para a joalheria que tinham juntos, em Copacabana. Ficava o pé do morro. Ele sempre estava alerta a tudo que acontecia e a tudo o que se dizia, o que podia ser percebido quando jogava ao vento um de seus comentários certeiros em meio a uma conversa dos outros.  

O derrame não foi, infelizmente, o último caso desagradável que contabilizaria. Aos 69 anos se internou para a extração de um tumor e, de repente, já tinha um rim a menos. Essa estória ele não poderia revelar aos seus filhos – caso os tivesse tido –, pois seus irmãos não lhe contaram sobre a retirada do órgão. Mesmo com o tamanho imenso do corte que fora feito nele, não desconfiou. Evidente que os irmãos tinham ocultado o fato, no intuito de não entristecer ou preocupá-lo. Eles acreditavam piamente na célebre frase popular que diz: “o que os olhos não vêem, o coração não sente” e a utilizaram como inspiração para criar uma outra: “o que os ouvidos não ouvem o corpo não percebe”. Pena. Estavam enganados. Cada dia ele ficava mais fraco e mais triste. 

Continuava vivendo sua vida como sempre o havia feito. Ia à loja, ajudar os irmãos e ficar a par de tudo o que lá acontecia. Pegava dois ônibus para comprar galinha caipira (o único tipo que comia) em Marechal Hermes, mesmo depois de desesperadas súplicas dramáticas, regadas a lágrimas, de sua irmã. Certa vez, inventou de ir ao Centro da Cidade, só para conseguir aquilo que tinha por “melhor creme de leite da região”. Foi escondido dos irmãos. Encheu dois sacos inteiros de latas de creme de leite e desmaiou com o peso deles e com os quarenta graus que fazia, nas escadas do metrô. Por sorte, um homem que subia as escadas logo atrás dele conseguiu ampará-lo. Sempre que via os sobrihos em festas e almoços de finais de semana, lágrimas enchiam-lhe os olhos. Estava visivelmente deprimido.  

Uma idéia, no entanto, o mantinha motivado. Era abril e ele já tinha toda a sua festa de aniversário de setenta anos planejada. Seria em agosto – seu mês de nascimento. Todo mês retirava sua aposentadoria e a repartia em três. Uma parte ia para a moça que havia sido sua empregada na outra casa. Já fazia mais de um ano que havia se mudado, mas ainda a ajudava. Outra parcela reservava para comprar uma geladeira de última geração para um sobrinho seu, que ele acreditava estava prestes a se casar. O terço final, era posto de lado, para o grande evento de agosto. 

Só falava da festa. Planejava fechar, como todos os anos, a rua de Madureira em que morou. Nenhum carro atrapalharia a alegria e o conforto dos convidados. Todos os moradores dali viriam. Um dos sobrinhos organizaria o pagode. Outro, que era bem alto e parecia impor respeito, tomaria conta das bebidas no bar, para que os vagabundos não conseguissem tirar proveito da boca-livre. Seus ex-vizinhos seriam, como de costume, os churrasqueiros. De tanto repeti-lo, todos os que mantinham contato com ele já sabiam de cor o cardápio: 25 quilos de carne; doze quilos de camarão; duzentos bolinhos de bacalhau; seis quilos de asinha de frango nascido, criado e morto em Madureira; seis quilos de lingüiça. Bebida também já não era problema. Deixaria um cheque de setecentos reais com o dono do bar. Se faltasse, ele completaria depois da festa. Se sobrasse, o dono do bar, que era seu amigo de anos, lhe devolveria a diferença. 

Seus olhos brilhavam sempre, agora. Afinal, ou estava chorando emocionado ao encontrar um dos sobrinhos; ou estava empolgado por falar – sempre as mesmas coisas – sobre seu churrasco. Setenta anos é uma data especial. Sua irmã mais velha, entretanto, não estava muito feliz com a idéia da comemoração. Achava que seu irmão estava sendo explorado e roubado. Não lhe agradava nem um pouco o pensamento daqueles oportunistas todos se debruçando em cima da bebida, da comida, enfim, da aposentadoria de seu irmão. Ela era tão dramática. Chorava sempre. Chorava ao falar dos filhos. Chorava aos falar dos netos. Chorava ao contar sobre o passado e ao planejar o futuro. Chorava nas alegrias, chorava nas tristezas. Chorava, implorando para que seu irmão desistisse da celebração. 

No início, seus filhos pediram para que ela parasse de intervir. Que deixasse o irmão quieto com seu plano. Que aquilo era a sua única fonte de alegria e empolgação. Que tudo ia ficar bem e que o importante era fazer o azarado feliz. Cada um, afinal, se alegra de maneira diferente. Ela então decidiu que não diria mais nada. Também não iria à festa, porém. Isso machucou mais ainda o irmão. Ficou tentando convencê-la, em vão. Era impossível concluir qual dos dois era mais teimoso. 

Os sobrinhos mais velhos intervieram novamente. Desta vez, tentaram convencer o tio a comemorar em um restaurante bacana. Eles pagariam o almoço. Assim seu tio não gastaria mais sua preciosa aposentadoria, e eles ficariam livres – tanto dos oportunistas da rua quanto do choro da mãe. Também não adiantou. Será que ninguém entendia? O que ele mais queria era fazer aquela festa, daquele jeito, com aquele cardápio e com todos os famintos roubando sua carne de primeira e seu camarão para garantir o rango da semana. 

Já era junho. Tinha 69 anos, quase setenta, 25 injeções anti-rábicas, uma tíbia e um perônio quebrados, uma bala – que podia sentir nos dias mais frios – alojada na coxa, um derrame e apenas um rim. Dois mil reais a menos de aposentadoria, reservados para uma festa que sua irmã querida condenava. Mesmo assim, seguia vivendo. Ainda bem que agosto estava por vir.

  

outubro 23, 2006

Circo de Horrores

Filed under: Aqui o mal geral,Outros Escritos — maldemontano @ 3:41 pm

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 Baga III

Por Perséfone Montana

  

Assisti, há algum tempo, um episódio do “Sex and the City”, intitulado “Circo de Horrores”, em que a personagem Carrie, após o término de um namoro, volta às baladas e encontra tipos, os mais variados, o cara bem de vida que roubava revistas baratas, o “Incrível homem de duas caras”, que a tratava com a maior delicadeza, quase ao mesmo tempo em que berrava para o homem atrás na fila e muitos outros.

  

 

Numa versão tupiniquim do famoso seriado, eu e Pandora temos passado por poucas e boas. 

 

Lembro do dia em que encarnamos o papel das “Irmãs Caridade”. Eu, para ficar com um francês. Ela, com o mais tarde apelidado Zé Goteira. Pois bem, não estávamos lá com muita vontade, mas também não custava. O francês, depois de alguns carinhos tímidos disse que precisava ir ao banheiro. Velho truque, não me dei conta. Para ser sincera, só percebi que não tinha voltado quando recebi a seguinte mensagem no celular: “Desculpe, mais tem meu ex-amorada. Estou na QL.. Conj… Casa… (faltou o CEP, pensei). Gostei molto de você.” Ok, querido, também gostei de você. Não “molto”, é verdade, mas ainda assim. Quando se pensa que se está se fazendo um favor… Pandora, por sua vez, depois de muita insistência, resolveu ceder aos apelos do Zé Goteira, homem difícil de descrever. Disse ele, a princípio, estar separado há dois meses, não queria sair nas fotos que tirávamos etc. Minutos depois, não conseguíamos fotografar mais ninguém, ele metido na frente da câmera. Eu achando que Pandora tinha ido longe demais na solidariedade, o cara ficaria agradecido para o resto da vida, ele vira para o amigo: “Vaza, vaza!” E saem os dois sem se despedir. Inacreditável. Nesse mesmo dia, conhecemos Débi e Lóide, mas nem vale a pena entrar
em detalhes. Foi também nesse dia que, a caminho do carro, ouvimos: “Cabelo de minhoca, cabelo de minhoca!”. Pandora deu um pulo: – É com a gente, é com a gente? – Ai, meu Deus, só faltava essa, Pandora vai engrossar!, pensei. –Ai, adorei! E me fez voltar para elogiar a originalidade dos rapazes. Pandora é surpreendente.
 

 

Costumo brincar com minha irmã: “Não sei como, mas todos os loucos tiveram acesso à informação de que eu ia sair, e saíram atrás.” O mesmo vale para Pandora. Situações, às vezes, inclusive, perigosas, como a do menino que encontramos já não lembro em que bar e a quem demos carona, que carregava uma misteriosa mochila, da qual não desgrudava um só instante. Por mais que insistíssimos não nos revelou o conteúdo. E aquele outro, que um dia tomou a chave do carro de Pandora e só a devolveu quando ela prometeu ser dele para sempre. Pobre amiga, até vomitou de tanto medo; no fim das contas ele só precisava ouvir o que ela acabou falando, mas foi demorado descobrir a senha. 

 

Agora, coisa curiosa tem sido a sugestão recorrente de sexo a três. Submersa no Reino dos Mortos, devo ter perdido o momento em que convite desse gênero se tornou corriqueiro. Quando foi, alguém me informa? Que menagé faz parte do imaginário masculino (também do feminino, muitas vezes) é público e notório, mas tudo bem sair por aí abordando as pessoas, sem a menor cerimônia? A propostas têm vindo de todos os cantos, veladas ou escancaradas. Desde o intelectual gaúcho, que após breve citação de autores sulistas, arrisca: “E se fossêmos nós três para o meu hotel, assisti o DVD do Vinicíus?”, até o velho conhecido, por quem fui apaixonada, que confessou abertamente querer ir para cama comigo de novo, mas dessa vez,  levando Pandora junto. 

 

Felizmente, de vez em quando, aparece alguém interessante. Assim, o Gato de Alice, alcunha carinhosa que ganhou de Pandora, por dançar sempre sorrindo. Gato de Alice foi capaz de segurar meu cabelo quando passei mal em frente ao Vem cá minha Puta. E mais: não se importou que eu dormisse em cima da mesa; ao contrário, ajeitou o braço, para que me acomodasse melhor. Eu tirando uma soneca, ele conversou sobre astros e estrelas com Pandora, enquanto ao lado, o amigo/amante dela comia, qual primata, pedaços enormes de algo que não conseguimos identificar. Batatas, talvez. 

 

Bem, quando se chega ao fundo da bagaceira, é preciso tato para voltar à tona. Mas será que conseguiremos ir para casa, depois dos encontros do Mal, com a excitação dos projetos e das cervejas na cabeça? A Literatura é possível sem vivência? A se pensar. 

 

Enquanto isso, talvez seja o caso de aceitar o conselho de Psique e passar um tempo num povoado, próximo a Marabá. Mergulharemos nos livros, nossas filhas crescerão cercadas pela natureza e só conviveremos com pessoas normais, se é que isso existe. 

 

Psique diz que amanhã manda o mapa do lugar.

outubro 22, 2006

Bebo a angústia que há em mim!

Filed under: Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 2:24 am

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 Por Wellington Diniz

Bebo a angústia que há em mim!

Não aquela eterna do botequim.

Apenas o João no balcão.

Bebo a angústia que há nos outros!

Não aquela querela do João.

Apenas o pião no salão.

Degusto delicadamente

Cada gole de minha derrocada,

A eterna lágrima do palhaço.

Faço o laço como desfaço

E disfarço a lágrima.

Não a do palhaço,

A do João no balcão.

outubro 20, 2006

Joyce in Sampa

Filed under: Contos,Montano por um dia — maldemontano @ 12:19 pm

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Por Edelson Nagues

  

Acordo ced[o](ento). O corpo [de] amar(elado) arfa, nu(lo). Gira a cabeça gira o quarto gira o mundo gira. Maldito gim! (Era r[um]?!) ou outro r[u]im (dói). 1 co[r]po d’á(gua): 1 porto. A mulher púbia em pêlo me ignoja. Dor/me. Eu [a] quero (ir) embora. Meu desespelho se reflete no banheiro. Vasomito silente, (des)/ca(r)go. Saio pé-antipétala. Ela so(zi)nha/ndo (comi[go]?). Tropeço na sã/Dália. Sã/dice: Talvez não nos vejamos mais… Talvez volte a ti[e]te(r). Rio de nós. Tal vez em que nos encontramos: des/tino.

  

Saio à rua: rot[o]/(a). In Sampa. Carros carram, velhozes. Nuvens nuvem: limites. Nu vem e vai. Personas pessoam: pés/sonham. E/difíci[l](os)? Muito(s). Verbos (re)verbam na mente, in-signos. A (c)idade não pára. Eu si[m]/g(n)o. Preciso (de) ir lá.

  Anda.  

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