Mal de Montano

setembro 28, 2006

Resenha – A Árvore das Palavras – Parte 1

Filed under: Montanas,Resenhas — maldemontano @ 3:43 am

 Releituras

Por Fernanda Benevides Carvalho 

Hoje é quinta-feira, dia de palmeirense comer spaghetti e de atualizar o blog para o Mineo. Teolinda Gersão, em A Árvore das Palavras. Voltei à mosquitada. Às terçãs e quartãs de Lourenço Marques (minutinho para ida rápida ao wikipedia: fundada em 1782, feitoria com o nome de Lourenço Marques; em 1877 foi elevada à vila e sede municipal e em 1899 tornou-se a capital da colônia portuguesa de Moçambique; a partir dos Anos 40 e 50, do século XX, a cidade expandiu-se, passou a se chamar Maputo a seguir à Independência, em 1975). Como ia dizendo, à época que corre essa história, de A Árvore das Palavras, Anos 60, Lourenço Marques era colônia de Portugal.  

Lourenço Marques, c. 1905

Algumas questões me vieram à cabeça durante a leitura de A Árvore das Palavras. Uma delas tem a ver com essa habilidade de certos escritores em fazer o transpasse da vida para a sintonia fina da escrita: quais as relações entre arte e vida para o artista; esse seria um ponto – será de representação, anarquização, fuga, sublimação?

Surge nova pergunta: se se percebe algo luminoso na escritura, por que mecanismos isso se dá? Considero, para tanto, o escritor e o seu ofício, sem entrar nas linhas de produção que são estabelecidas entre produtor, produto, mercado, arte (e de artistas marginalizados desse processo).

Se esmiuçar essa fórmula mágica é tarefa difícil, proponho mais um desafio aos sofredores do Grande Mal e a você, Mineo, o de rasgar a intimidade nesta página virtual. Como é para vocês ler um livro muito bom?

Ao começar A Árvore das Palavras, dei-me conta que a leitura corria numa velocidade tal, tive de voltar. Eu já tinha ultrapassado a primeira parte. Mas como o garoto de O Barão das Árvores, do Calvino, subi numa árvore para espiar, decidi palmilhar o quintal da Casa Preta. Fiquei “a catar as palavras” como frutos deitados ao chão, num sombrão de pé de bananeira, no calor do sol cegante e do vento – bafo quente de animal. O vento morno fazia as folhas dançarem, tenros ramos de jacarandá, folhas de ervas nascediças, hibiscos. O sol? Um olho azul. Palavras de Teolinda Gersão.

Que bela cena, a inicial. Lourenço Marques estática e extática pelo calor, nunca mais vou usar a expressão “calor senegalesco”, vou adotar “moçambicano”, que vem com cheiro de flor e fruta.

“Na Casa Preta não havia medo dos mosquitos. Nem se receava, a bem dizer, coisa nenhuma. Na Casa Preta as coisas cantavam e dançavam. As galinhas saíam do galinheiro e pisavam a roupa caída do estendal, cagando alegremente sobre ela, Lóia gritava enxotando-as mas desatava a rir ajoelhada na terra, esfregava outra vez a roupa com um quadrado de sabão e regava-a com o regador cheio de água. Parecia divertir-se a fazer as coisas, porque ria sempre e nunca prendia realmente as galinhas, que tornavam a cagar na roupa, que ela regava outra vez – a água saía em chuva pela mão do regador que balançava na mão dela. E pelo caminho entre a torneira e a roupa, ela ia ressuscitando as flores”.

 Lóia é a ama-de-leite. Tão presente como Gita, a narradora, danada, gostava era da Casa Preta, mas vinha do núcleo dos brancos pobres. Seus pais, Amélia e Laureano, trata pelo primeiro nome, talvez ganhe com essa distância o poder de observação, e possa nomear seus dilemas a partir da distância, é preciso avaliar a herança que se recebe, talvez seja o primeiro dilema, o de descobrir o que fazer com a carga de origem. Amélia talvez simbolize autoritarismo, preconceito. Laureano é o seu avesso. Mas o vínculo de Gita é com os pretos. Npiné oiwe. 

Como se fechar na Casa Branca se as coisas dançavam era na dos pretos? Npiné oiwe, npiné oiwe.

Estou aqui também, nestas páginas, esturricada sob o sol lascado. Desço da árvore. E espero: cairá a noite como o copo de cerveja preto entornado pelo pai Laureano. 

Agora está fresquinho, debaixo das nuvens da manhã serena de Brasília. Já ultrapassei a cidade-porto, a cidade-cais. Foi-se o primeiro capítulo. Livro que arrasta a gente, de cambulhada, acaba logo também. Releio de novo a primeira parte. E você Mineo, o que faz em circunstâncias semelhantes?

Quero acompanhar Laureano, flagrá-lo na varanda bebendo cerveja. Conheço muita gente que está sempre no mesmo lugar fazendo a mesma coisa.

Ajustei minha lente de Big Brother Literário, Big Brother de Montano, coisa mais brega, ser voyeur. O abelhudo literário perde para a tara do voyeur tradicional, que observa ao vivo e a cores. Será mesmo que existe perda? Talvez o Montano invasor de privacidade tenha prazeres mais sofisticados; o que acham Perséfone, Pandora, Montanas?

A vida de Gita em relação à da mãe Amélia, impregnada de tensão… quero ver as modificações e ações que exercem uma sobre a outra, vou relendo o pay-per-view das melhores imagens do percurso da heroína. E o que será que enfeitiça Gita e Lóia?

Escuto vozes, as imagens surgem das vozes. A prosa de Teolinda é pautada. Música?

Não é linear.

Teolinda propõe um jogo de contar.

Gosto dele, traga-me, leva-me. Para além da forma ousada, ela é também painelista da sociedade.

O que me levou de arrastão, explico a você Mineo, humorista dos humoristas: enredei-me no fluxo de consciência dessa prosa. Olhe como não estou exagerando: “… jogarei um jogo contigo. Assim, quando chegas à tarde, e chamas, entrando a porta: Giiiiiitaaaa… – só o silêncio responde, a casa parece vazia e sonolenta. Porque eu não estou, como à hora do almoço, à tua espera, à janela, transformei-me num animal pequeno, escondido em passos furtivos atrás do guarda-louça. E tu deixaste de ser tu, és agora um animal grande chegando, fatalmente chegando, cada vez mais perto…” E vão despencando seis parágrafos, desses caudalosos de sete linhas cada um: “Sinto-te caminhar, invisível, por entre os móveis da entrada…”; “Ser encontrada é uma morte…”; “E agora és de novo tu, de novo um homem, o homem amado desta casa…”; “Então sobrevém um grande riso e uma grande paz…”; “Nessa altura sinto por ti uma grande ternura…”; “E depois fecho os olhos e sei que também vou cair dentro…”. No teatro, eles seriam considerados bifes, os atores têm pavor dessas falas longas, bifões provocam falhas no ritmo. O prodígio de Teolinda está em fazer com que esses T-Bones, na contra-corrente da linguagem sumária de frase curta e do estilo nervoso, dê mais estocadas. 

Procuro informações na internet, Teolinda Gersão. Nas fotos, uma mulher que vive além do tempo, numa idade indefinida. Foi Milan Kundera quem disse que talvez só tomemos consciência de nossa idade em momentos excepcionais. Esta é a nossa gaja. Teolinda é da leva de 1940, rosto redondo, muito claro, com cabelos repicados para fora. Simpaticíssima nas entrevistas. O Ruffato, sabe-tudo, parece ter afinidade com essa prosa bem proseada e conhecer a fundo os escritores do além-mar. Tem sim um artigo. Falou sobre A Árvore das Palavras, precisamente. Pinço em seguida uma tese da fefeléche (faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da usp), alguém a chama de senhora metaleira das palavras, aliás, o “senhora” por mim acrescido não pela idade, que não lhe pesa, devo chamá-la com o, como direi?, epíteto de quem se coloca na sua autoridade. 

 Não sei se a sua escritura se compara à guitarra de Angus Young, do Ei ci di ci. O que me vem à cabeça: Tom Zé, dos Jogos de Armar, com seus gêneros chameguinho-choro, improviso hip hop, arrastão, estilo trovador, e por aí afora. Os entrechos de Teolinda – prosa cheia de costuras, urdiduras –  têm variações. Chamarei a isso de densidade.  

Bibliografia de fila dobra-quarteirão, vou me inteirar de tudo. Estréia: O Silêncio, romance (Anos 80). Depois vieram: Mulher Dormindo; Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo; História do Homem na Gaiola e do Pássaro Encarnado (infantil); Os Guarda-Chuvas Cintilantes (diário); O Cavalo de Sol; A Casa da Cabeça de Cavalo; Os teclados; Os Anjos; O Mensageiro e Outras Histórias com Anjos (contos); Histórias de ver e Andar (contos de 2002).

A Árvore das Palavras está cheia, carregadinha. De palavras-vivas. Por causa de um dos títulos da Teolinda, Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo, lembro-me da famosa história dos pintores Zeuxis e Parrhasios. Arte é artifício. Para reproduzir a vida? Fico com a pergunta. Reza a tradição, sobre o caso dos pintores que… (eu ia dizer pintores gregos, mas um dos meus professores ligado em história clássica uma vez estrebuchou de raiva com o meu cretinismo geográfico incapaz de diferenciar gregos, aqueus, jônios, dórios).

O tromp-l’oeil de uvas pintadas por Zeuxis enganou os pássaros que, não sendo esses afiados gaviões-do-cerrado que têm atacado as pessoas de bem em Brasília, foram bicá-las. Na versão que me contaram, a tela teria sido perfurada pelos pássaros. Seguro de si por ter iludido os bicadores, Zeuxis sugeriu que Parrhasios pintasse uma cortina. (Lacan utiliza a palavra véu, e diz que o véu pintado por Parrhasios “numa muralha para ocultar de Zeuxis o seu ardil” é a própria arte, que seria, por fim, uma técnica de ocultar, se entendi direito, porque retiro informações sempre de segunda mão; alô, Montanos-Universitários e Montanas-Universitárias, peço ajuda!). Ao tocar no véu ou na cortina ou em coisa que o valha, para sua surpresa e terror, Zeuxis constatou o grande engano: não se tratava de objeto, com tridimensionalidade, mas sim de pintura, era um dos trabalhos-de-mestre de Parrhasios.

Isso tudo para voltar ao assunto de que talvez o maior desafio do artista, seja ele realista ou não, é unir arte e vida. Esta junção particularmente feliz, que pode criar uma presença vital no discurso literário, encontra-se em Teolinda Gersão (pausa para inserir uma propaganda: Enrique Vila-Matas, nosso autor-inspiração, recebeu prêmios e loas por seu Bartleby & Companhia; trata da poética de escritores que mergulharam na vida porque esta lhes pareceu um gesto mais belo e radical do que a literatura, de onde, ato-contínuo, desapareceram, como uma palavra que tende ao silêncio ou à entropia; por mim, que sou dada a experimentar paradoxos, o tema só interessou porque foi transformado, em irretocável forma, nas páginas de um livro inesquecível… vamos dar mais pitacos sobre o Vila-Matas em nova oportunidade). 

 Minha conclusão não fecha o raciocínio… Míope que sou, aproximo-me das miragens antes das substâncias.

Teolinda, como descrevê-la?Teolinda pintora, música, o que mais se pode agregar à sua prosa? Este trecho não comprova que a vida pode ser criada em palavras?  

“Um barco é como uma casa, verifico. Uma casa que balança, e anda de lugar em lugar. Nem sequer falta o cheiro da cozinha, para onde se desce por uma escada íngreme, que tem um último lanço de ferro. O fogão está aceso e dois homens em tronco nu cortam legumes em cima de uma tábua, atiram os restos dentro de um alguidar onde se amontoam espinhas de peixe, cascas de cebola e borras de café.Tomem um copo, diz um dos cozinheiros pondo cerveja noutra mesa onde já estão três homens. Sentamo-nos e bebemos, está calor e o balanço do barco e a cerveja causam-me vertigens, mas por nada do mundo me iria embora porque tudo o que agora acontecer faz parte de uma onda em que eu entrei. O marujo que pintava a escada juntou-se a nós, apertamos mais as cadeiras para lhe dar lugar, rimos com força, falamos sem querer alto de mais. Duas conchas grandes servem de cinzeiro, todos fumam, tu também, há uma nuvem que se adensa em volta. E eu bebo mais cerveja e sinto o navio andar à roda, agarro-me com força na beira da mesa e acho que tudo é possível, o barco poderia, enquanto aqui estamos, arrancar, e chegaríamos uma manhã a Singapura”. […]    

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2 Comentários »

  1. Fê,
    linda resenha! Tem razão, ela se lê melhor postada no site do que encostada na cama…
    Nunca li a linda Teolinda, mas senti que é coisa de primeira.

    Abraço pras montanas de plantão!

    Márcio

    Comentário por Márcio — setembro 28, 2006 @ 10:20 am | Responder

  2. preclaríssima fernanda,
    escrita soberba (a tua).
    um poema.
    tivesses eliminado um substantivo próprio (na verdade, comum) e seria a quinta-das-quintas-feiras.
    que dizer agora?
    só que uma história que começa com “Ao quintal chegava-se através da porta estreita…” e finda com “Como uma pálpebra caindo” é tão grandiosa como a autora (da resenha).

    que uma que se introduz com “Antes que estes depoimentos…” PLAFT

    mas maior grandiosidade não poderia caber senão à senhora (autora da resenha), que trouxe a lume o célebre canhotinha de ouro, de cuja árvore só brotava o hay que tener vantagem em tudo, e hoje está tomado do mal de montano, quem diria?, pois que ultimamente estava de mal de pelé, que não o havia incluído entre os mil e tantos melhores jogadores da rua onde ele reside.
    Fernanda, somente tu para nos revelar acontecimento tão auspicioso.

    Passa já de uma lauda, estou com uma pálpebra grudando na outra, o calor no ponto de ônibus é causticante…

    Tua bênção.

    [estou postando cd. espero que fiques de bem de flávia]

    Comentário por mineo — outubro 2, 2006 @ 5:48 pm | Responder


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