Mal de Montano

setembro 27, 2006

Percurso

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 6:03 pm

                  

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Por Selena Carvalho

 

Wellington adota sempre o mesmo percurso para ir trabalhar: pega a via sem retorno que traz ao Plano, depois o Monumental, após a Catedral, a primeira à direita. Quando há manifestação atravancando o caminho, os policiais desviam o trânsito, sempre no mesmo ponto. Nesse dia, os cones estavam bem acima, nenhuma passeata, mobilização, portanto. Antes de entrar na transversal indicada, avista a sirene do carro de bombeiros.  – Bombom, bala, chiclete!

Nos sinais costuma permanecer de janelas fechadas. “Se aceito todas as filipetas, no fim de uma semana dirijo caminhão de lixo”. Tampouco tem paciência para malabaristas, engolidores de fogo, palhaços. Uma vez viu um rapazola tentando fazer bananeira. O menino não conseguia ficar nem um segundo com as pernas para cima, acabou, veio pedir dinheiro. Teve vontade de bater nele: “Pensa que a gente é o quê?”   – Bombom, bala, chiclete! – a voz o faz virar a cabeça. 

O homem em quase todos os carros entrega um pacote, conversa com os clientes, apanha o dinheiro, corre para outro. Wellington não desgruda os olhos, força a memória, de familiar só a voz. Tira a carteira às pressas, balança a nota, ele volta para atender. 

No dia seguinte, a foto de capa do jornal é o moto-boy no chão, a aglomeração. Por isso o trânsito desviado. Pelo estado da motocicleta, é impossível não fique com seqüelas. “Talvez puxe a perna como o pai e o velho no sinal”. O pai também se acidentou trabalhando, caiu de um andaime numa construção, naquele tempo ainda não em moda a preocupação com equipamentos de segurança. A indenização acabou em poucos meses, a aposentadoria insuficiente para sustentar os quatro filhos, não conseguiu mais ocupação.  

 Sem perceber, dobra na mesma rua, apesar do caminho liberado. De novo o velho, na correria entre os veículos.  De longe já o vê. Desacelera para dar tempo ao vermelho do semáforo.  

   – Bombom, bala, chiclete! 

Que fim levou o pai, se perguntou durante muitos anos. Uma madrugada ouviu o choro da mãe no quarto ao lado, entrou e a encontrou deitada, o rosto enfiado no travesseiro. Seu pai foi embora, ela conseguiu dizer. Não tocou mais no nome dele.  Aponta um pacote qualquer dentro da cesta, pergunta quanto é, entrega algumas moedas. Finge abri-lo enquanto pelo retrovisor acompanha o homem se arrastando em direção a outro motorista. Surpreso, percebe as mesmas ancas da família, sobressaltadas pela idade. Ri ao lembrar dos irmãos puxando ferro, correndo, nadando e as malditas ali.  

A irmã falava nele nos primeiros meses, mas como a mãe se aborrecesse, parou. Os outros dois, pequenos à época, pareciam não guardar recordação. D. Maria, nem passado um ano, trouxe Seu João para morar com eles. Só mesmo Wellington ainda pensava no pai. Até há pouco conversava com ele: Seu Milton acompanhou as angústias da adolescência, deu palpites sobre namoradas, aconselhou sobre mudanças de emprego. Quando teve os próprios filhos, por vergonha ou vontade de enterrar de vez a história, guardou o pai imaginário. 

Um mês inteiro, ainda a transversal. “Tão fácil perguntar o nome!” O velho já o reconhece, puxa assunto, o pacote na mão. Wellington vem devagar, às vezes não dá certo, o verde exigindo movimento, passa acenando, ouve o grito: 

– Vai com Deus, filho. Tenha um bom dia!!! 

No trabalho, dificuldade para se concentrar. Maldiz o acidente, o moto-boy, o desvio e o novo percurso que não consegue largar. 

Em um almoço de família, aproveita a mãe na cozinha para falar dele aos irmãos: cara boa, chuva ou sol, vendendo bala. Manca da perna direita, poderia viver de esmola, pose de coitado, mas não, ri o tempo todo, as pessoas têm vontade de comprar dele. De repente: – Por onde andará o pai, hein? – Desenterrando defunto é? – Ei, olha o respeito! D. Maria chega bem na hora. – Estão falando de quem? – Wellington encanou com um cara que vende bala num sinal. Vai lá, maninho, explica para ele que você não teve pai, quem sabe ele não te adota? A mãe joga a travessa com a comida em cima da mesa e sai para o quarto. – Credo, o que deu nela? – Vocês bem sabem que esse assunto é proibido. 

A semana inteira, cada vez que o vê a reação da mãe lhe vem à cabeça. Não pensa em outra coisa, procura fotos, faz contas, rememora datas.  – O senhor tem família? – o medo da resposta.  

 – Tenho, não, filho. Já tive, faz muito tempo…         

 – O que aconteceu?          

 Sinal aberto, buzinas atrás, sai arrancando.  

– Vai com Deus, filho. 

A mãe não quer tocar no assunto. – Por que a senhora se trancou no quarto aquele dia? – Não gosto que vocês discutam, só isso, ainda mais na hora da comida. Prefere não insistir. “Será que estou mesmo desenterrando defunto?” O almoço é servido. O irmão mais novo faz troça com os sobrinhos, Walkíria conta para a cunhada sobre o novo namorado, todos falam ao mesmo tempo, D. Maria ri, apertando a mão de Seu João. A lembrança do pai imaginário se insinua para Wellington. – Gente, ninguém me ouve! Passa o macarrão! 

No outro dia, pega o antigo caminho para o trabalho. Anda tranqüilo. Na rua, nenhum rosto conhecido.            

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2 Comentários »

  1. Enfim a estreia. Parece que já havia sido inaugurado há um tempinho, mas só hoje tive notícias lá no Idéias e Ideais. Tá chique o negócio aqui hein?!

    Tá, imaginei um final mais romântico para esse conto, aliás desde o engarrafamento que penso em finais, alguns românticos ou dramáticos, mas nenhum se consolidou. Gostei de ser surpreendido no final.

    Sucesso no blog!
    Beijo, T+

    Comentário por Ual — setembro 27, 2006 @ 9:00 pm | Responder

  2. Selena-montana,
    bacana o texto pai-filho-sem-saída. Parabéns pelo talento… já tinha te visto encapsulada em cabines minúsculas de bibliotecas escuras buscando sossego pra leitura, mas não sabia do dom da caneta também!
    Sorte!
    Márcio

    Comentário por Márcio — setembro 28, 2006 @ 10:28 am | Responder


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