Mal de Montano

setembro 27, 2006

As linhas por escrever…

Filed under: Aqui o mal geral,Outros Escritos — maldemontano @ 5:51 am


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Baga II

 Por Pandora Montana 

Primeiro vou me apresentar. Não sei exatamente se sou uma espécie de povo antigo da índia, um molusco feito concha ou instrumento de cordas como alaúde. Ou quem sabe sou a primeira mulher, enviada a Prometeu e seu irmão, feita no céu. Falam que cada um dos deuses contribuiu com alguma coisa para me aperfeiçoar. Deram-me beleza, persuasão e música. E, depois de tudo isso me ofereceram à Epimeteu (sugestivo nome, não?). 

Acontece que o tal Epimeteu tinha em sua casa uma caixa. Lá guardava alguns artigos do mal (ou do bem, não se sabe). Curiosa que sou, fui saber o que continha aquela caixa. De repente, quando a destampei tudo de lá se escapou espalhando-se por toda a parte. Uma multidão de pragas que atingiram o desgraçado homem (ou de sortes?). Só ficou na caixa uma coisinha. Essa que nos salvaria sempre (será?).  

Bem, sei que existem outras versões para a minha história. Mas, deixa pra lá. O fato é que estou vivinha da silva, aqui, no Mal de Montano. E, vou abrir as caixas. Ah, se vou! Aquele item guardadinho vai se revelar um dia talvez. Mas, por enquanto, soltarei todos dos males e bens guardados na caixa, que agora é minha. A caixa de Pandora.  Fomos no dia 21/9 no Mercado Municipal (509 sul) para mais um encontro das Montanas. O tema sobre títulos tinha rendido um bolão e fomos arriscar outra cena. Água com gás, gelo e limão. Mercado até interessante para boas fotos. A calçada do bar abarrotada de gente. 

Se essa rua, se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar… A pobre W3 sul já foi palco de nobreza nos idos anos 60. Era a avenida das coisas boas e caras. Passarela da elite. Longe de cidade livre (atual Núcleo Bandeirante).  

A cidade cresceu. Construíram outras ruas. Eixos. Prédios. Bairros. Shoppings. Livrarias. Tudo foi se ajuntando na nova capital, Brasília. Numa derrocada, por volta dos anos 80, a W3 se tornou quase última letra do alfabeto e dos desejos brasilienses. Prédios velhos. Abandono. Descaso. Solidão.  

Eis que surge agora o tal Mercado Municipal “revitalizando” a senhora, praticamente beata, dábliu três. Engraçado ver. Os motores dos ônibus rumando à rodoviária uníssonos ao tom embriagado da sociedade “candanga”. Mesas e cadeiras disputadas nas calçadas imundas e quebradas, apoiando saltos finos, tênis caros, fragrâncias chiques, roupas de grife. Homens e mulheres, de todas as idades, desfilando olhares, competindo chopps, buscando “parceria”. Uma composição surreal (ou hiper-realista?) entre os letreiros antigos indicando “pousada”, “estética facial”, “estética corporal”, “kassabian aluguel de roupas” … 

Nada que perturbasse muito o Mal. Lá estávamos para comer literatura. Discutir Vila-Matas. Criar categorias poéticas. Traçar novas tramas. Cronicar. Durou o suficiente. Contabilizados cinco chopps a R$ 4,10 cada. Caixa aberta. Vamos em frente. Rumo ao gelo seco. Embrenhar nos solos de luz néon. Dançar. Espantar os males? Ou recolhê-los? O que da caixa sai a ela retorna, pode ser.   Depois de muito sacolejo, Perséfone, que tem uma história para lá de controvertida, que já foi raptada por Plutão (planeta que agora saiu do mapa), resolveu ir para outras colheitas. Mais especificamente, para casa cuidar dos seus.

Eu, que animada estava por revelar ainda mais os Males (coaptando retalhos para Montano), segui com a louca dos fins de noite. Uma espécie de ”Hades” noturna. Raptora, agora, de Pandora. Seguimos para a tal sopa. Imagina o que é cantar embriagada por toda a madrugada? Soltar a voz de mesa em mesa, como quem panfleta santinho de canditado!

Fizemos do sopanário uma orquestra de babel. Pagode do Zeca se misturando com Nelson Gonçalves, apimentado da bossa de Tom e Vinícius, remexido do samba de Paulinho, fatiado de MPB variado “a la carte”, raspado no fundo a ópera Carmen de Bizet. Isso mesmo. A maestrina de belos olhos azuis, pele de Branca de Neve, casaco de Salvador Dali, conduzindo a festa.

Um famoso compositor lá estava também. Tocando seu violão e curtindo. Observando as notas musicais, as pautas e  as linhas que só podem ser traçadas na bagaceira. Naquele momento quando todas as luzes de lucidez se apagam e os contos começam a surgir. Só quem anda sob a luz das estrelas, sob o véu da madrugada, é capaz de saber que os personagens são vivos. Deste cenário se constroem enredos. Eu mesma anotei alguns parágrafos, que brevemente estarão publicados aqui.

A noite se acabou as sete da manhã. E, a maestrina, com suas baquetas, oferecia “quem quiser atestado médico para não trabalhar é só me pedir”.  Eu não precisava. Estava com o último segredo da caixa. Podia dormir por toda a manhã. Apenas um advogado, com reunião marcada para as nove, gritava inconsolável. Esbravejava: “só eu vou me ferrar. Só eu estou lascado. Só eu preciso trabalhar cedo”.

O sol brilhou no pára-brisa. Dei um sorriso largo. O último gole de água gasosa. Segui para casa pensando quantos contos se criam numa noite. Quantos livros se perdem na madrugada. Quanto ainda posso descansar para acordar refeita e me tomar novamente do Mal. Abrir outra vez a caixa e soltar todas as frases que ainda não foram escritas… ou já foram?

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