Mal de Montano

setembro 24, 2006

Carpinejar: cotidiano sem ser banal

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 10:12 pm

ENTREVISTA

UM CRIADOR CONTEMPORÂNEO
Antenado com seu próprio tempo, o escritor Fabrício Carpinejar explora as linhas do cotidiano conquistando cada vez mais leitores

Por Katia Michelle
Foto de José Suassuna


Fabrício Carpinejar: “Se eu era um menino feio, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu achava que escrever era covardia, eu fui descobrir depois que escrever era coragem”

Curitiba – Para quem acredita na existência de uma metamorfose no comportamento masculino, existe um exemplo. Alguém a quem apontar o dedo e dizer: esse aí faz parte da revolução. Mas felizmente não é preciso guilhotina, nem tampouco interrogatório para saber mais sobre o tema. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar, 33 anos, não oscila ao falar sobre o assunto nem admitir (ou mostrar) que faz parte dessa mudança. Um exemplar autêntico dos homens que não só querem saber mais sobre os mistérios femininos, como também não têm medo de se admitir sensíveis.

Dono de uma personalidade intrigante e sedutora, Carpinejar utiliza as palavras para soprar ao leitor, masculino ou feminino, a pujança da vida. Depois de saborear um brownie com sorvete de nozes, numa charmosa confeitaria de Curitiba – onde participou do projeto Sempre um Papo, da Caixa Econômica Federal – ele concedeu entrevista à Folha. Acompanhe.

Como a literatura nasceu em você?
Eu não diria que ela nasceu. Eu diria que eu a despertei à medida em que aprofundei meus próprios defeitos. Todas as dificuldades que eu tive na infância e na adolescência eu nunca notei como uma abolição do caráter. Eu notava como se fosse o princípio do caráter porque eu tinha que exigir mais de mim. O fato de ser feio, por exemplo, te torna mais esforçado. Tu vai explorar muito mais a tua capacidade de persuasão. Tu não vai ser preguiçoso. Tem que se esforçar o dobro, o triplo. Mas isso é uma recompensa, porque tu vai aprender a compreender o outro. Tu vai aprender a se antecipar ao outro. Tu vai aprender a sair de si mesmo.

E essas questões te ajudam a escolher os temas que você aborda nos seus poemas e crônicas, já que o cotidiano, as relações amorosas, a família, são questões recorrentes nos seus textos?
Eu acho que isso é do autismo infantil. O fato de estar sempre desatento para o conjunto, mas desperto e atento para o detalhe. E a maioria das pessoas não repara nos detalhes porque não os julgam importantes. Acho que as pessoas são muito ambiciosas no amor. A gente devia ser menos. A gente sempre procura uma salvação. Sempre procura alguma coisa que tem utilidade. Eu fui criado ao lado de um terreno baldio, ao lado de uma reserva de inutilidades, uma reserva de sonho, uma reserva de imaginação. Chegou o momento que eu não queria que minha mãe transformasse aquele terreno ou o comprasse para convertê-lo em um campo de futebol. Porque ali eu podia imaginar, além de um campo de futebol, outras coisas. Eu podia brincar com toda a insuficiência do terreno. A gente tem que brincar na vida com o que a gente também não foi.

Reunindo essas características e esses conceitos, você conseguiu uma coisa que é difícil hoje na literatura, que é a projeção. Você acha que é raro conquistar isso no Brasil?
Eu sou passional. Eu não vivo porque eu posso. Eu vivo porque eu quero. Eu vivo porque eu não sei fazer outra coisa. Aliás, todas as minhas incompetências herdaram essa competência literária. O escritor não é aquele que foi escolhido, é aquele que se escolheu. Eu me escolhi. Eu não tinha ninguém pra fazer no meu lugar aquilo que eu tinha que fazer. Eu não tive a opção da covardia. Se eu não cuidasse de mim, quem cuidaria?

Essa tua experiência de vida é o que te credencia para ter colunas, como a que você publica na Super Interessante, por exemplo, em que você dá conselhos amorosos?
Imagina, se eu era um menino feio, deslocado, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu pensava que escrever fosse covardia. Como eu não tinha capacidade para me expor publicamente, eu escrevia. Eu fui descobrir depois que escrever é coragem. Que é muito mais difícil escrever e se comprometer e assumir o risco, a letra, do que falar. Escrever é olho no olho, não tem como se desviar, não há letra que se desvie. E eu também fui sempre o melhor conselheiro. Sempre trafeguei sobre universos paralelos, masculino e feminino.

Fale um pouco sobre sua relação com a internet, depois do seu blog, que acumula 300 mil visitas, teve alguma transformação na sua maneira de escrever?
Houve tranformações, sim, porque depois do blog eu comecei a ler o leitor e me abrir. Eu contesto os escritores que pensam que se aproximar do público é se diminuir na literatura. Bom escritor é aquele que está no mesmo patamar do leitor, a ponto de ambos se confundirem. Eu não suporto a idéia de que o escritor tem que estar um degrau acima.

Você está lançando um livro infantil. Para quando é e como são os seus projetos agora?
Eu estou escrevendo um livro de poesia intitulado ”Meu filho, minha filha’, que fala sobre minha experiência paterna em dois estágios. Uma com um filho morando comigo e outra com filho morando longe. Eu quero pegar esses dois ângulos da paternidade: o pai de final de semana e o pai da sequência. Estou bem feliz com o resultado, mas só vou lançá-lo em 2008. A Bertrand Brasil também está republicando toda a minha obra. Este ano deve sair ”Um Terno de Pássaros ao Sul”, o ano que vem ”Terceira Sede” e em 2008, ”Biografia de uma Árvore”. O infantil é o ”Filhote de Cruz Credo”, onde eu brinco com a história dos meus apelidos e que vai sair pela Editora Girafa. A ilustração é do Rodrigo Rosa. E no ano que vem sai meu outro livro de crônicas, ”O homem quando chora”, que mostra essa metamorfose masculina de comportamento.

Trecho da crônica “Sou quando deixo de ser”, de Carpinejar

“Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros.

Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei.”

Fonte: Blog de Carpinejar

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