Mal de Montano

setembro 21, 2006

Títulos: por que são objetos de culto e adoração?

Filed under: Debatendo,Sobre Títulos... — maldemontano @ 2:35 am

                                                                                       por Fernanda Benevides de Carvalho

 

Quem sofre de entupimento nas coronárias por causa do Mal de Montano não deixa escapar um bom título. Corre sebos, livrarias. Registra o título nos escaninhos da memória, se não pode adquirir seu objeto de culto, de adoração. O Doente de Montano procura a diagramação das capas da mesma forma que o viajante atento capta a cidade desconhecida, lendo obsessivamente o chamariz do comércio das placas nas ruas. 

Um título é como o biquíni ou a sunga: tem de valorizar o miolo. Existem tantos gêneros quantas são as nuances de temperamento. Uns são pé-no-chão, retratam com fidedignidade o conteúdo, cabem no quadro do livro. Normalmente os acadêmicos mantém esta característica de honestidade e de funcionalidade. É como se houvesse uma propriedade articulada num todo orgânico na “Dialética da Colonização”, de Alfredo Bosi. O autor sintetizou no título-ícone o que seu leitor vai encontrar nas páginas seguintes, quase que o adverte, “Dialética da Colonização, hipócrita leitor!”, antes de entrar em contato com o pensamento rigoroso da academia, escute o título. 

Casos curiosos são os “grandes achados”, títulos tão perfeitos que dispensam até a leitura do livro. “A Angústia da Influência”, de Harold Bloom é desse tipo: já contém a premissa, a “angústia”, e a conclusão, ainda a “angústia”. 

Foi o humorista Millôr, no entanto, na opinião dessas blogueiras de Montano, quem bolou o melhor título de todos os tempos, e mesmo atribuído a um conto, merece citação. Convidado a escrever um miniconto para a coletânea de mínimos de Marcelino Freire, aproveitou justamente que o título estava livre dos limites formais exigidos. Sacou de um fôlego só: “Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramirez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do Caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do Sul da Flórida para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais”. O miniconto era o seguinte: “Capitão, tem que me estuprar em ½ minuto; às 8 seu navio explode”. 

Outra forma de titular – esse, o verbo correto? – é apelar à carência do leitor. Quando Nietzsche e Platão são usados no título, pretende-se apanhar o leitor carente que quer se tornar ilustrado, mas não tem forças para mamar o original. Os títulos visam cifras, dindim. O escritor Marcos Rey contava, às gargalhadas, junto às mesinhas de latão da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional,
em São Paulo, como a mira num título certeiro de “O Enterro da Cafetina” resolveu a sua aposentadoria e a de seus descendentes – não me lembro se os tinha. Enfim, o leitor gosta dos apelos dos folhetins, se no mercado oficial quer se edificar e ilustrar, no paralelo, gostamos, nós os leitores, de sacanagem.
 

Um desses títulos geniais que apareceram recentemente é “Contos para Ler Cagando”, de Caco Belmonte (aqui cabe uma perguntinha ao autor, monte de quê?). Depois, tudo o que vier estará na descida da ladeira à banalidade, o título será insuperável. Fedorenta é a paródia aos manuais de auto-ajuda do pessoal do Casseta: “Como Vencer na Vida, Mesmo Sendo um Bosta”. 

Editores, às vezes, são protagonistas. Conseguem impor caprichos aos indefesos autores. Com o escritor Ford Madox Ford a coisa chegou a níveis baixos, o editor lhe recusou o “The Saddest History”, livro lançado durante a Iª Guerra; a explicação dada a ele pela negativa foi o seu título originário ter sido considerado sorumbático ou depressivo. Num arrebatamento vaidoso, Ford Madox Ford disse então que pusesse “O Bom Soldado”. Um dia esse nome estampado numa vitrine aprisionou seu olhar. Quando se deu conta, era o seu livro à venda na livraria, titulado com a piada que mandou ao editor. 

Emblemáticos são os títulos dos segmentos viagens/gastronomia. Os que tratam de comida procuram servir o título como aperitivo. Nina Horta, poeta das caçarolas, que tem sobrenome vocacionado para o ramo da culinária, emplacou o seu delicioso “Não é Sopa”. O marido, creio que o crítico Luiz Henrique Horta é sua cara-metade, mais proustiano, lançou o clássico dos clássicos “Em Busca do Prato Perfeito”. Há os de índole reflexiva, ainda em gastronomia e afins: “O Cozinheiro e o Mar”, “Porto – Um Vinho e Sua Imagem”. O sensual “Conforte-me com Maçãs”. O pantagruélico “Comer como um Frade”. O oportunista “Receitas para Saborear Assistindo à Copa do Mundo”. O insólito “Alho e Safiras”. E os de mistério: “O Que Einstein Disse a Seu Cozinheiro”, além de “Um Ganso em Toulouse”. Antes de mencionar as viagens, não podemos esquecer os da linhagem medicina/saúde, onipotentes, conclamativos, que são: “O Poder dos Sucos”, “Deixa Sair”, e as revoluções. Ah, as revoluções, como “A Nova Revolução da Glicose”; e eu que perdi a velha, como fico? 

Do gênero viagens, gosto de “Sob o Sol da Toscana”, que deveria estar inscrito na porta do paraíso, porque o éden só pode ser um torrão de terra como a Toscana, com suas bicicletas, seus moleques, a língua das mammas italianas, as caves e vinherias dos chianti. É assim. Um título puxa outro, que puxa outro, que puxa outro. Lembro-me de Carlos Heitor Cony, voltou de Pompéia, viu o Vesúvio, as cores ocres, os mosaicos e “A Casa do Poeta Trágico”. E há os que tratam do mar. Todos os que descrevem ou evocam o mar merecem amor incondicional. Por exemplo, os livros de Moacir Lopes, novelista das maresias: “Onde Repousam os Náufragos”, “Cais, Saudade em Pedra”, “A Ostra e O Vento”, “Belona, Latitude Noite”. Ainda na linha dos espaços geográficos e míticos, existem os que escorregaram no japonismo. “Paisagem Pintada com Chá”, de Milorad Pavitch, das bandas da Sérvia ou da Croácia, que arriscou um título autenticamente japonês, mais primoroso do que os de Yasunari Kawabata, com os seus etéreos “No País das Neves” ou “A Casa das Belas Adormecidas”. 

Os meus preferidos?Avalovara”, de Osman Lins, título com um quê de árabe, de sonoridade forte, como se fosse a miragem de uma palavra abrindo a boca de sede no deserto. Outro impressionante, cuja beleza rasga a capa, é “Coivara da Memória”, de Francisco Dantas. Os lúdicos, da prosa épica e luxuriante de Evandro Affonso Ferreira: “Araã!”,Grogotó”, “Erefuê”. Lúdico e com toques de humor negro: “O Outro Pé da Sereia”, de Mia Couto e “A Orelha de Van Gogh”, do Scliar. 

O maior título de todos: o epifânico “Cinza das Horas”. Não há nada mais lírico do que a imagem de uma fogueira consumida, de cinzas que já foram brasa e fogo. Traduz a transformação de nossos dias agitados pelo percurso não menos agitado da vida. Ao final, só resta a cinza fria.      

 

Anúncios

5 Comentários »

  1. querida fernanda,
    os títulos que mais curto são:

    – pequena história marítima
    – uma mulher que está fazendo a nova literatura brasileira e 24 que estão correndo atrás dela
    – título do usa open de maria sharapova
    – título nenhum de ana ivanovic
    – título de miss brasil de vera fischer

    Comentário por mi.neo — setembro 22, 2006 @ 4:01 pm | Responder

  2. correção do item 2: uma fernanda que está fazendo a nova literatura brasileira e 24 que estão correndo atrás dela

    Comentário por mi.neo — setembro 22, 2006 @ 5:29 pm | Responder

  3. Olha… nos últimos tempos meus títulos têm sido “código penal comentado”, “direitos cafusos, digo difusos”, “a vida (..como ela é ?…)do bebê “; e “o bebê do zero aos seis meses (e o os pais a 100 km/h).

    Mas título bom mesmo foi o do Palmeiras em 92…

    Valeu ! Texto show de bola, pra variar.

    Márcio

    Comentário por Márcio — setembro 28, 2006 @ 10:11 am | Responder

  4. Olha… nos últimos tempos meus títulos têm sido “código penal comentado”, “direitos cafusos, digo difusos”, “a vida (..como ela é ?…)do bebê “; e “o bebê do zero aos seis meses (e o os pais a 100 km/h)”.

    Mas título bom mesmo foi o do Palmeiras em 92…

    Valeu ! Texto show de bola, pra variar.

    Márcio

    Comentário por Márcio — setembro 28, 2006 @ 10:12 am | Responder

  5. Oi Fernanda, não sou marido da Nina, nem mesmo parente, infelizmente, porque somos amigos e eu a admiro bastante. Outro infelizmente, não escrevi “Em busca da refeiçao perfeita”, apenas traduzi para a Cia das Letras, o autor é o cozinheiro americano Anthony Bourdain.

    Comentário por luizhorta — janeiro 31, 2007 @ 5:05 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: