Mal de Montano

setembro 29, 2006

As bichas…

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BICHA*

Millôr Fernandes chegou da Europa e é bicha: Martha Alencar é bicha e
o marido dela, o Hugo Carvana bicha; o Sérgio Cabral, por sua “vez,
tem vergonha, acha que pai de família não deve confessar isso mas eu
sei é bicha; o Paulo Francis, que fica fazendo aquele bico, é bicha; o
Chacrinha, nem se fala, é bicha; o Gérson mesmo jogando pra burro, é
bicha; o Fortuna é bicha, bicha declarada, o Armando Marques é bicha;
a tia da namorada do Denner é bicha; a namorada do Denner é bicha; o
Denner é bicha; o Edvaldo Pacote é bicha, a Gal Costa é bicha; a Elis
Regina é bicha; o Nelsinho Motta é bicha; os Luiz Carlos Maciel são
bichas, os Monteiro de Carvalho são bichas; os Monteiro de Carvalho
são bichas, menos um, por falta de tempo, o Ricardo Amaral é bicha;
aquêle amigo do Ricardo Amaral é bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é
bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é bicha; o meu contrabandista é
bicha; ele é bicha; o Flávio Rangel é bicha; o Pedro Álvares Cabral
era bicha; o Antônio Houaiss é bicha; o Ulisses é bicha; o Maneco
Muller é bicha; o Fernando Fernandes é bicha; o Vinícius de Moraes é
bicha; o Carlos Drummond de Andrade, que ainda não me deu aquela
entrevista, é bicha; o Sérgio Cavalcanti é bicha; o Jaguar é bicha; os
contatos de publicidade, o Ewaldo e o Paulo Augusto, são tremendas
bichas; e o chefe dêles, o Grossi, é bicha; o lvon Cury é bicha; o
Daniel Mas, sem qualquer apelação, é bicha; como bicha é, também, o
Antônio Guerreiro; o José Silveira é bicha; o Manolo é bicha;

o Chico Buarque é bicha; o Caetano Veloso é bicha; o Gilberto Gil é
bicha; o Roberto Carlos é bicha; o Erasmo Carlos é bicha; o Zózimo
Barroso do Amaral é bicha; o Jaguar é bicha; a Márcia Barroso é bicha;
a Scarlet Moon de Chevalier, digo, a Scarlet é bicha, a Moon é bicha e
a Chevalier é bicha; meu Deus, como o Paulo José e Dina Sfat são
bichas; ah, sim, o Ênio Silveira é bicha; como esquecer que a Danusa é
tão bicha como a Leão; bicha, também, pois, a Nara Leão, e o Cacá
Diégues, que é marido dela, é bicha; e o Glauber Rocha, como todos os
baianos, é bicha; a Rosinha, mulher do Glauber, é uma tremenda biçha;
o Antônio Guerreiro é bicha; o Jaquar, que eu ia esquecendo, é bicha;
o José Hugo Celidônio é bicha; nunca vi ninguém tão bicha quanto o
Rogerio Sganzerla; bicha, mesmo, paravaler, é o lbrahim Sued, que não
pode ser mais bicha; Doval é bicha; Jairzinho é uma bicha radical;
falando em bicha: como vai você, Henfil; Minas Gerais é um viveiro de
bichas; Ziraldo, por exemplo, quem pode negar? É a maior bicha de
Caratinga; aliás, se vocês não sabem, esse tal de Caratinga também era
bicha; o filho do Jaguar, tão pequenino já é bicha; também, o
professor dêle é bicha, sô; ah, Virgem Santa, o João Saldanha é bicha;
o César Thedim é bicha e a Tonia Carreiro, para provar o dito, também
é bicha, falando nisso, o John Mowinckel é bicha; e o Pedrinho
Valente, embora ainda não saiba, é bicha; a êsse lá sabe: o Ivo
Pitanguy é bicha; há alguém mais bicha do que o Sérgio Bernardes? há,
o Jaguar; ah, que saudades que eu tenho da bicha Cláudio Abramo;
Afonso, Afonsinho, Afonsão, todos bichas; os Afonsos em geral, todos
bichas,- tenho melancolia do Rio Grande do Sul porque as bichas que
aqui são bichas não são bichas como lá; Olavo Bilac é bicha; o
bigodinho do Oscar Niemayer não me engana; é bicha; ora Tom Jobim, vai
ser bicha lá com a bicha do Frank Sinatra; como se não bastasse, de
bichas, é claro, agora ainda anda por aí aquela bicha da Florinda; a
bênção, minha bicha Baden; falando em bicha nada melhor do que uma
bicha do Jorge Ben depois da outra; Charles Anjo 45 é bicha enrustida;
você é bicha; o leitor, todos os leitores, são bichas; fala,
bichonilda Sérgio Noronha; a Olga Savary é bicha e o livro dela é mais
bicha ainda; Paulo Garcez é a chamada bicha respeitável; Jango é
bicha; Brizola é subverbicha; e a Wanderléia, segundo a bicha do
Flávio Rangel não a do no sentido possessivo mas do êle, Flávio – é
bicha ternurinha; e quem diria, hem? todos os Macedos Soares são
bichas; Rubem Braga anda caindo de tanto ser bicha.

Este parágrafo é bicha.

Por outro lado, Maria Bethânia é bicha; a democracia é bicha; êle é
bicha mas eu não sou louco de dizer; salve a bicha mais bicha de
Londres, a bicha do Ivan Lessa; o Jaguar é bicha, o Ferreira Gullar já
representou o Maranhão no concurso nacional de bichas; todos os
componentes do velho PSD são bichas; Paulo Mendes Campos é a bicha
mais intelectualizada que eu conheço; falando em bicha, vocês lá viram
que coisa mais incrível o gênero bicha-barbuda que é o Carlinhos
Oliveira?; bicha para falar a verdade, mas bicha mesmo, é o Hélio
Fernandes; criança, nunca verás uma bicha tão grande quanto a Maria
Raja Gabália; fala minha bicha Marlene Dabus; você é tão linda, Teresa
Souza Campos, mas é bicha, Joaquim Pedro e MeIo Franco e, portanto ,
bicha, pois todos os MeIo Franco são bichas; a Danusa Leão, insisto, é
bicha; olha aqui, ô Matarazzo, não queira me comprar:, tôda a familia
é bicha; e tem mais:

vocês lembram da Maysa, ex-Matarazzo? Pois é bicha, bicha é a torcida
do Flamengo; e a do Botafogo se existisse, bicha seria; os velhinhos
do Vasco são bichas; o Fluminense, vocês sabem, andam de salto alto;
todos os brasileiros são bichas; Europa, França e Bahia – tudo bicha;
Ásia, África, América e Passo Fundo, tudo bicha; inclusive o Jaguar,
tudo bicha; é a maior bichite da história do mundo; que, por sinal, é
bicha.

O único macho do mundo é o Nélson Rodrigues.

*Artigo de Tarso de Castro publicado no número 54, de 2 a 8 de julho de 1970.

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setembro 28, 2006

Resenha – A Árvore das Palavras – Parte 1

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 Releituras

Por Fernanda Benevides Carvalho 

Hoje é quinta-feira, dia de palmeirense comer spaghetti e de atualizar o blog para o Mineo. Teolinda Gersão, em A Árvore das Palavras. Voltei à mosquitada. Às terçãs e quartãs de Lourenço Marques (minutinho para ida rápida ao wikipedia: fundada em 1782, feitoria com o nome de Lourenço Marques; em 1877 foi elevada à vila e sede municipal e em 1899 tornou-se a capital da colônia portuguesa de Moçambique; a partir dos Anos 40 e 50, do século XX, a cidade expandiu-se, passou a se chamar Maputo a seguir à Independência, em 1975). Como ia dizendo, à época que corre essa história, de A Árvore das Palavras, Anos 60, Lourenço Marques era colônia de Portugal.  

Lourenço Marques, c. 1905

Algumas questões me vieram à cabeça durante a leitura de A Árvore das Palavras. Uma delas tem a ver com essa habilidade de certos escritores em fazer o transpasse da vida para a sintonia fina da escrita: quais as relações entre arte e vida para o artista; esse seria um ponto – será de representação, anarquização, fuga, sublimação?

Surge nova pergunta: se se percebe algo luminoso na escritura, por que mecanismos isso se dá? Considero, para tanto, o escritor e o seu ofício, sem entrar nas linhas de produção que são estabelecidas entre produtor, produto, mercado, arte (e de artistas marginalizados desse processo).

Se esmiuçar essa fórmula mágica é tarefa difícil, proponho mais um desafio aos sofredores do Grande Mal e a você, Mineo, o de rasgar a intimidade nesta página virtual. Como é para vocês ler um livro muito bom?

Ao começar A Árvore das Palavras, dei-me conta que a leitura corria numa velocidade tal, tive de voltar. Eu já tinha ultrapassado a primeira parte. Mas como o garoto de O Barão das Árvores, do Calvino, subi numa árvore para espiar, decidi palmilhar o quintal da Casa Preta. Fiquei “a catar as palavras” como frutos deitados ao chão, num sombrão de pé de bananeira, no calor do sol cegante e do vento – bafo quente de animal. O vento morno fazia as folhas dançarem, tenros ramos de jacarandá, folhas de ervas nascediças, hibiscos. O sol? Um olho azul. Palavras de Teolinda Gersão.

Que bela cena, a inicial. Lourenço Marques estática e extática pelo calor, nunca mais vou usar a expressão “calor senegalesco”, vou adotar “moçambicano”, que vem com cheiro de flor e fruta.

“Na Casa Preta não havia medo dos mosquitos. Nem se receava, a bem dizer, coisa nenhuma. Na Casa Preta as coisas cantavam e dançavam. As galinhas saíam do galinheiro e pisavam a roupa caída do estendal, cagando alegremente sobre ela, Lóia gritava enxotando-as mas desatava a rir ajoelhada na terra, esfregava outra vez a roupa com um quadrado de sabão e regava-a com o regador cheio de água. Parecia divertir-se a fazer as coisas, porque ria sempre e nunca prendia realmente as galinhas, que tornavam a cagar na roupa, que ela regava outra vez – a água saía em chuva pela mão do regador que balançava na mão dela. E pelo caminho entre a torneira e a roupa, ela ia ressuscitando as flores”.

 Lóia é a ama-de-leite. Tão presente como Gita, a narradora, danada, gostava era da Casa Preta, mas vinha do núcleo dos brancos pobres. Seus pais, Amélia e Laureano, trata pelo primeiro nome, talvez ganhe com essa distância o poder de observação, e possa nomear seus dilemas a partir da distância, é preciso avaliar a herança que se recebe, talvez seja o primeiro dilema, o de descobrir o que fazer com a carga de origem. Amélia talvez simbolize autoritarismo, preconceito. Laureano é o seu avesso. Mas o vínculo de Gita é com os pretos. Npiné oiwe. 

Como se fechar na Casa Branca se as coisas dançavam era na dos pretos? Npiné oiwe, npiné oiwe.

Estou aqui também, nestas páginas, esturricada sob o sol lascado. Desço da árvore. E espero: cairá a noite como o copo de cerveja preto entornado pelo pai Laureano. 

Agora está fresquinho, debaixo das nuvens da manhã serena de Brasília. Já ultrapassei a cidade-porto, a cidade-cais. Foi-se o primeiro capítulo. Livro que arrasta a gente, de cambulhada, acaba logo também. Releio de novo a primeira parte. E você Mineo, o que faz em circunstâncias semelhantes?

Quero acompanhar Laureano, flagrá-lo na varanda bebendo cerveja. Conheço muita gente que está sempre no mesmo lugar fazendo a mesma coisa.

Ajustei minha lente de Big Brother Literário, Big Brother de Montano, coisa mais brega, ser voyeur. O abelhudo literário perde para a tara do voyeur tradicional, que observa ao vivo e a cores. Será mesmo que existe perda? Talvez o Montano invasor de privacidade tenha prazeres mais sofisticados; o que acham Perséfone, Pandora, Montanas?

A vida de Gita em relação à da mãe Amélia, impregnada de tensão… quero ver as modificações e ações que exercem uma sobre a outra, vou relendo o pay-per-view das melhores imagens do percurso da heroína. E o que será que enfeitiça Gita e Lóia?

Escuto vozes, as imagens surgem das vozes. A prosa de Teolinda é pautada. Música?

Não é linear.

Teolinda propõe um jogo de contar.

Gosto dele, traga-me, leva-me. Para além da forma ousada, ela é também painelista da sociedade.

O que me levou de arrastão, explico a você Mineo, humorista dos humoristas: enredei-me no fluxo de consciência dessa prosa. Olhe como não estou exagerando: “… jogarei um jogo contigo. Assim, quando chegas à tarde, e chamas, entrando a porta: Giiiiiitaaaa… – só o silêncio responde, a casa parece vazia e sonolenta. Porque eu não estou, como à hora do almoço, à tua espera, à janela, transformei-me num animal pequeno, escondido em passos furtivos atrás do guarda-louça. E tu deixaste de ser tu, és agora um animal grande chegando, fatalmente chegando, cada vez mais perto…” E vão despencando seis parágrafos, desses caudalosos de sete linhas cada um: “Sinto-te caminhar, invisível, por entre os móveis da entrada…”; “Ser encontrada é uma morte…”; “E agora és de novo tu, de novo um homem, o homem amado desta casa…”; “Então sobrevém um grande riso e uma grande paz…”; “Nessa altura sinto por ti uma grande ternura…”; “E depois fecho os olhos e sei que também vou cair dentro…”. No teatro, eles seriam considerados bifes, os atores têm pavor dessas falas longas, bifões provocam falhas no ritmo. O prodígio de Teolinda está em fazer com que esses T-Bones, na contra-corrente da linguagem sumária de frase curta e do estilo nervoso, dê mais estocadas. 

Procuro informações na internet, Teolinda Gersão. Nas fotos, uma mulher que vive além do tempo, numa idade indefinida. Foi Milan Kundera quem disse que talvez só tomemos consciência de nossa idade em momentos excepcionais. Esta é a nossa gaja. Teolinda é da leva de 1940, rosto redondo, muito claro, com cabelos repicados para fora. Simpaticíssima nas entrevistas. O Ruffato, sabe-tudo, parece ter afinidade com essa prosa bem proseada e conhecer a fundo os escritores do além-mar. Tem sim um artigo. Falou sobre A Árvore das Palavras, precisamente. Pinço em seguida uma tese da fefeléche (faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da usp), alguém a chama de senhora metaleira das palavras, aliás, o “senhora” por mim acrescido não pela idade, que não lhe pesa, devo chamá-la com o, como direi?, epíteto de quem se coloca na sua autoridade. 

 Não sei se a sua escritura se compara à guitarra de Angus Young, do Ei ci di ci. O que me vem à cabeça: Tom Zé, dos Jogos de Armar, com seus gêneros chameguinho-choro, improviso hip hop, arrastão, estilo trovador, e por aí afora. Os entrechos de Teolinda – prosa cheia de costuras, urdiduras –  têm variações. Chamarei a isso de densidade.  

Bibliografia de fila dobra-quarteirão, vou me inteirar de tudo. Estréia: O Silêncio, romance (Anos 80). Depois vieram: Mulher Dormindo; Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo; História do Homem na Gaiola e do Pássaro Encarnado (infantil); Os Guarda-Chuvas Cintilantes (diário); O Cavalo de Sol; A Casa da Cabeça de Cavalo; Os teclados; Os Anjos; O Mensageiro e Outras Histórias com Anjos (contos); Histórias de ver e Andar (contos de 2002).

A Árvore das Palavras está cheia, carregadinha. De palavras-vivas. Por causa de um dos títulos da Teolinda, Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo, lembro-me da famosa história dos pintores Zeuxis e Parrhasios. Arte é artifício. Para reproduzir a vida? Fico com a pergunta. Reza a tradição, sobre o caso dos pintores que… (eu ia dizer pintores gregos, mas um dos meus professores ligado em história clássica uma vez estrebuchou de raiva com o meu cretinismo geográfico incapaz de diferenciar gregos, aqueus, jônios, dórios).

O tromp-l’oeil de uvas pintadas por Zeuxis enganou os pássaros que, não sendo esses afiados gaviões-do-cerrado que têm atacado as pessoas de bem em Brasília, foram bicá-las. Na versão que me contaram, a tela teria sido perfurada pelos pássaros. Seguro de si por ter iludido os bicadores, Zeuxis sugeriu que Parrhasios pintasse uma cortina. (Lacan utiliza a palavra véu, e diz que o véu pintado por Parrhasios “numa muralha para ocultar de Zeuxis o seu ardil” é a própria arte, que seria, por fim, uma técnica de ocultar, se entendi direito, porque retiro informações sempre de segunda mão; alô, Montanos-Universitários e Montanas-Universitárias, peço ajuda!). Ao tocar no véu ou na cortina ou em coisa que o valha, para sua surpresa e terror, Zeuxis constatou o grande engano: não se tratava de objeto, com tridimensionalidade, mas sim de pintura, era um dos trabalhos-de-mestre de Parrhasios.

Isso tudo para voltar ao assunto de que talvez o maior desafio do artista, seja ele realista ou não, é unir arte e vida. Esta junção particularmente feliz, que pode criar uma presença vital no discurso literário, encontra-se em Teolinda Gersão (pausa para inserir uma propaganda: Enrique Vila-Matas, nosso autor-inspiração, recebeu prêmios e loas por seu Bartleby & Companhia; trata da poética de escritores que mergulharam na vida porque esta lhes pareceu um gesto mais belo e radical do que a literatura, de onde, ato-contínuo, desapareceram, como uma palavra que tende ao silêncio ou à entropia; por mim, que sou dada a experimentar paradoxos, o tema só interessou porque foi transformado, em irretocável forma, nas páginas de um livro inesquecível… vamos dar mais pitacos sobre o Vila-Matas em nova oportunidade). 

 Minha conclusão não fecha o raciocínio… Míope que sou, aproximo-me das miragens antes das substâncias.

Teolinda, como descrevê-la?Teolinda pintora, música, o que mais se pode agregar à sua prosa? Este trecho não comprova que a vida pode ser criada em palavras?  

“Um barco é como uma casa, verifico. Uma casa que balança, e anda de lugar em lugar. Nem sequer falta o cheiro da cozinha, para onde se desce por uma escada íngreme, que tem um último lanço de ferro. O fogão está aceso e dois homens em tronco nu cortam legumes em cima de uma tábua, atiram os restos dentro de um alguidar onde se amontoam espinhas de peixe, cascas de cebola e borras de café.Tomem um copo, diz um dos cozinheiros pondo cerveja noutra mesa onde já estão três homens. Sentamo-nos e bebemos, está calor e o balanço do barco e a cerveja causam-me vertigens, mas por nada do mundo me iria embora porque tudo o que agora acontecer faz parte de uma onda em que eu entrei. O marujo que pintava a escada juntou-se a nós, apertamos mais as cadeiras para lhe dar lugar, rimos com força, falamos sem querer alto de mais. Duas conchas grandes servem de cinzeiro, todos fumam, tu também, há uma nuvem que se adensa em volta. E eu bebo mais cerveja e sinto o navio andar à roda, agarro-me com força na beira da mesa e acho que tudo é possível, o barco poderia, enquanto aqui estamos, arrancar, e chegaríamos uma manhã a Singapura”. […]    

setembro 27, 2006

Percurso

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 6:03 pm

                  

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Por Selena Carvalho

 

Wellington adota sempre o mesmo percurso para ir trabalhar: pega a via sem retorno que traz ao Plano, depois o Monumental, após a Catedral, a primeira à direita. Quando há manifestação atravancando o caminho, os policiais desviam o trânsito, sempre no mesmo ponto. Nesse dia, os cones estavam bem acima, nenhuma passeata, mobilização, portanto. Antes de entrar na transversal indicada, avista a sirene do carro de bombeiros.  – Bombom, bala, chiclete!

Nos sinais costuma permanecer de janelas fechadas. “Se aceito todas as filipetas, no fim de uma semana dirijo caminhão de lixo”. Tampouco tem paciência para malabaristas, engolidores de fogo, palhaços. Uma vez viu um rapazola tentando fazer bananeira. O menino não conseguia ficar nem um segundo com as pernas para cima, acabou, veio pedir dinheiro. Teve vontade de bater nele: “Pensa que a gente é o quê?”   – Bombom, bala, chiclete! – a voz o faz virar a cabeça. 

O homem em quase todos os carros entrega um pacote, conversa com os clientes, apanha o dinheiro, corre para outro. Wellington não desgruda os olhos, força a memória, de familiar só a voz. Tira a carteira às pressas, balança a nota, ele volta para atender. 

No dia seguinte, a foto de capa do jornal é o moto-boy no chão, a aglomeração. Por isso o trânsito desviado. Pelo estado da motocicleta, é impossível não fique com seqüelas. “Talvez puxe a perna como o pai e o velho no sinal”. O pai também se acidentou trabalhando, caiu de um andaime numa construção, naquele tempo ainda não em moda a preocupação com equipamentos de segurança. A indenização acabou em poucos meses, a aposentadoria insuficiente para sustentar os quatro filhos, não conseguiu mais ocupação.  

 Sem perceber, dobra na mesma rua, apesar do caminho liberado. De novo o velho, na correria entre os veículos.  De longe já o vê. Desacelera para dar tempo ao vermelho do semáforo.  

   – Bombom, bala, chiclete! 

Que fim levou o pai, se perguntou durante muitos anos. Uma madrugada ouviu o choro da mãe no quarto ao lado, entrou e a encontrou deitada, o rosto enfiado no travesseiro. Seu pai foi embora, ela conseguiu dizer. Não tocou mais no nome dele.  Aponta um pacote qualquer dentro da cesta, pergunta quanto é, entrega algumas moedas. Finge abri-lo enquanto pelo retrovisor acompanha o homem se arrastando em direção a outro motorista. Surpreso, percebe as mesmas ancas da família, sobressaltadas pela idade. Ri ao lembrar dos irmãos puxando ferro, correndo, nadando e as malditas ali.  

A irmã falava nele nos primeiros meses, mas como a mãe se aborrecesse, parou. Os outros dois, pequenos à época, pareciam não guardar recordação. D. Maria, nem passado um ano, trouxe Seu João para morar com eles. Só mesmo Wellington ainda pensava no pai. Até há pouco conversava com ele: Seu Milton acompanhou as angústias da adolescência, deu palpites sobre namoradas, aconselhou sobre mudanças de emprego. Quando teve os próprios filhos, por vergonha ou vontade de enterrar de vez a história, guardou o pai imaginário. 

Um mês inteiro, ainda a transversal. “Tão fácil perguntar o nome!” O velho já o reconhece, puxa assunto, o pacote na mão. Wellington vem devagar, às vezes não dá certo, o verde exigindo movimento, passa acenando, ouve o grito: 

– Vai com Deus, filho. Tenha um bom dia!!! 

No trabalho, dificuldade para se concentrar. Maldiz o acidente, o moto-boy, o desvio e o novo percurso que não consegue largar. 

Em um almoço de família, aproveita a mãe na cozinha para falar dele aos irmãos: cara boa, chuva ou sol, vendendo bala. Manca da perna direita, poderia viver de esmola, pose de coitado, mas não, ri o tempo todo, as pessoas têm vontade de comprar dele. De repente: – Por onde andará o pai, hein? – Desenterrando defunto é? – Ei, olha o respeito! D. Maria chega bem na hora. – Estão falando de quem? – Wellington encanou com um cara que vende bala num sinal. Vai lá, maninho, explica para ele que você não teve pai, quem sabe ele não te adota? A mãe joga a travessa com a comida em cima da mesa e sai para o quarto. – Credo, o que deu nela? – Vocês bem sabem que esse assunto é proibido. 

A semana inteira, cada vez que o vê a reação da mãe lhe vem à cabeça. Não pensa em outra coisa, procura fotos, faz contas, rememora datas.  – O senhor tem família? – o medo da resposta.  

 – Tenho, não, filho. Já tive, faz muito tempo…         

 – O que aconteceu?          

 Sinal aberto, buzinas atrás, sai arrancando.  

– Vai com Deus, filho. 

A mãe não quer tocar no assunto. – Por que a senhora se trancou no quarto aquele dia? – Não gosto que vocês discutam, só isso, ainda mais na hora da comida. Prefere não insistir. “Será que estou mesmo desenterrando defunto?” O almoço é servido. O irmão mais novo faz troça com os sobrinhos, Walkíria conta para a cunhada sobre o novo namorado, todos falam ao mesmo tempo, D. Maria ri, apertando a mão de Seu João. A lembrança do pai imaginário se insinua para Wellington. – Gente, ninguém me ouve! Passa o macarrão! 

No outro dia, pega o antigo caminho para o trabalho. Anda tranqüilo. Na rua, nenhum rosto conhecido.            

Três Segundos

Filed under: Contos,Montanas — maldemontano @ 5:52 pm

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Por Solange Pereira Pinto 

Rapidamente o círculo se abriu. Escapa o ar das cores sumidas. A transparência morta. Eis que surge. Sem cor. Sem vento. Sem altitude. O guri olhava. A terra. Os paus. A margem. Sem riacho. Navegado de sol.  O sertão da alma açoitava o menino. Sem nome.  Lia figuras. Desconhecia junção de letras. Via sereias. Ouvia ferrugem. Para lá. Pros sentidos, galopes. Pra língua, rapadura. Por dentro ocre. Seca. Cavidade. Encarde. Sob o céu cárdeo. Sede. O garoto empilhava. Polígono de lenha. No galho a roupa dança. No balanço pendura o futuro. Sobre tábua, entre cordas, pendula. Vinícius pés de escuridão. Para cá. As janelas.  Sem vidraças. Molduras que miram costas, que circundam olhos. Passa mugido. Range roda. Grita engrenagem. O chicote deserda canavial. Escorre o caldo doce. Sofre o bagaço. No sacolejo das bochechas, assenta o miúdo. A poeira. Os bois rodopiam. Saliva estiada. Você conhece Ventura? Não conheço lugar nenhum. Vascolejam as idéias. As malas de horizonte marrom. Moribundo azul. E tu? Nasceu vivo ou morto? O arco-íris redonda a bolha. Num pipoco evapora. O moleque estampido. Do ar solto respinga o nariz. Sem luz, sem sabão. Eis que some.

Poesia de Manoel Rodrigues

Filed under: Mal do dia,Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 4:59 pm

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“Desisto
de entender
viver é misto
déjà vu e nada a ver
“.

Poesia de Ronaldo Cagiano

Filed under: Montano por um dia,Poesias — maldemontano @ 4:09 pm

EXÍLIOS

(à moda de Cassiano Nunes) 

A cidade se des(d)enha em seus próprios labirintos:

pelas serpentes de pedra e asfalto

corre pressuroso um rio de animais metálicos. 

Não há mais lugar para os homens.

anônimos, como areia na ampulheta,

vamos caindo, atarefados,

em busca da outra margem: a utopia. 

A metrópole, como um ventre,

espera o desconhecido

e na solidão geométrica  

nascem catedrais de ausências. 

Se Paris está lendo Paulo Coelho,

eis minha vingança:

vou ler Proust em Cataguases.

As linhas por escrever…

Filed under: Aqui o mal geral,Outros Escritos — maldemontano @ 5:51 am


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Baga II

 Por Pandora Montana 

Primeiro vou me apresentar. Não sei exatamente se sou uma espécie de povo antigo da índia, um molusco feito concha ou instrumento de cordas como alaúde. Ou quem sabe sou a primeira mulher, enviada a Prometeu e seu irmão, feita no céu. Falam que cada um dos deuses contribuiu com alguma coisa para me aperfeiçoar. Deram-me beleza, persuasão e música. E, depois de tudo isso me ofereceram à Epimeteu (sugestivo nome, não?). 

Acontece que o tal Epimeteu tinha em sua casa uma caixa. Lá guardava alguns artigos do mal (ou do bem, não se sabe). Curiosa que sou, fui saber o que continha aquela caixa. De repente, quando a destampei tudo de lá se escapou espalhando-se por toda a parte. Uma multidão de pragas que atingiram o desgraçado homem (ou de sortes?). Só ficou na caixa uma coisinha. Essa que nos salvaria sempre (será?).  

Bem, sei que existem outras versões para a minha história. Mas, deixa pra lá. O fato é que estou vivinha da silva, aqui, no Mal de Montano. E, vou abrir as caixas. Ah, se vou! Aquele item guardadinho vai se revelar um dia talvez. Mas, por enquanto, soltarei todos dos males e bens guardados na caixa, que agora é minha. A caixa de Pandora.  Fomos no dia 21/9 no Mercado Municipal (509 sul) para mais um encontro das Montanas. O tema sobre títulos tinha rendido um bolão e fomos arriscar outra cena. Água com gás, gelo e limão. Mercado até interessante para boas fotos. A calçada do bar abarrotada de gente. 

Se essa rua, se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar… A pobre W3 sul já foi palco de nobreza nos idos anos 60. Era a avenida das coisas boas e caras. Passarela da elite. Longe de cidade livre (atual Núcleo Bandeirante).  

A cidade cresceu. Construíram outras ruas. Eixos. Prédios. Bairros. Shoppings. Livrarias. Tudo foi se ajuntando na nova capital, Brasília. Numa derrocada, por volta dos anos 80, a W3 se tornou quase última letra do alfabeto e dos desejos brasilienses. Prédios velhos. Abandono. Descaso. Solidão.  

Eis que surge agora o tal Mercado Municipal “revitalizando” a senhora, praticamente beata, dábliu três. Engraçado ver. Os motores dos ônibus rumando à rodoviária uníssonos ao tom embriagado da sociedade “candanga”. Mesas e cadeiras disputadas nas calçadas imundas e quebradas, apoiando saltos finos, tênis caros, fragrâncias chiques, roupas de grife. Homens e mulheres, de todas as idades, desfilando olhares, competindo chopps, buscando “parceria”. Uma composição surreal (ou hiper-realista?) entre os letreiros antigos indicando “pousada”, “estética facial”, “estética corporal”, “kassabian aluguel de roupas” … 

Nada que perturbasse muito o Mal. Lá estávamos para comer literatura. Discutir Vila-Matas. Criar categorias poéticas. Traçar novas tramas. Cronicar. Durou o suficiente. Contabilizados cinco chopps a R$ 4,10 cada. Caixa aberta. Vamos em frente. Rumo ao gelo seco. Embrenhar nos solos de luz néon. Dançar. Espantar os males? Ou recolhê-los? O que da caixa sai a ela retorna, pode ser.   Depois de muito sacolejo, Perséfone, que tem uma história para lá de controvertida, que já foi raptada por Plutão (planeta que agora saiu do mapa), resolveu ir para outras colheitas. Mais especificamente, para casa cuidar dos seus.

Eu, que animada estava por revelar ainda mais os Males (coaptando retalhos para Montano), segui com a louca dos fins de noite. Uma espécie de ”Hades” noturna. Raptora, agora, de Pandora. Seguimos para a tal sopa. Imagina o que é cantar embriagada por toda a madrugada? Soltar a voz de mesa em mesa, como quem panfleta santinho de canditado!

Fizemos do sopanário uma orquestra de babel. Pagode do Zeca se misturando com Nelson Gonçalves, apimentado da bossa de Tom e Vinícius, remexido do samba de Paulinho, fatiado de MPB variado “a la carte”, raspado no fundo a ópera Carmen de Bizet. Isso mesmo. A maestrina de belos olhos azuis, pele de Branca de Neve, casaco de Salvador Dali, conduzindo a festa.

Um famoso compositor lá estava também. Tocando seu violão e curtindo. Observando as notas musicais, as pautas e  as linhas que só podem ser traçadas na bagaceira. Naquele momento quando todas as luzes de lucidez se apagam e os contos começam a surgir. Só quem anda sob a luz das estrelas, sob o véu da madrugada, é capaz de saber que os personagens são vivos. Deste cenário se constroem enredos. Eu mesma anotei alguns parágrafos, que brevemente estarão publicados aqui.

A noite se acabou as sete da manhã. E, a maestrina, com suas baquetas, oferecia “quem quiser atestado médico para não trabalhar é só me pedir”.  Eu não precisava. Estava com o último segredo da caixa. Podia dormir por toda a manhã. Apenas um advogado, com reunião marcada para as nove, gritava inconsolável. Esbravejava: “só eu vou me ferrar. Só eu estou lascado. Só eu preciso trabalhar cedo”.

O sol brilhou no pára-brisa. Dei um sorriso largo. O último gole de água gasosa. Segui para casa pensando quantos contos se criam numa noite. Quantos livros se perdem na madrugada. Quanto ainda posso descansar para acordar refeita e me tomar novamente do Mal. Abrir outra vez a caixa e soltar todas as frases que ainda não foram escritas… ou já foram?

setembro 24, 2006

Escondida no terraço

Filed under: Resenhas — maldemontano @ 10:50 pm

 

   Por Solange Pereira Pinto 

Pow! Pow! Foi seco. Preto e Branco. Simples? Duplo. Duro. Não entendia aquela impulsividade. Compulsiva. Misturava medo, vergonha e prazer. Olhava de longe e não acreditava. Danado. Eu tentava negociar. Saravá. A menina gritava. Mãeeeeee! Pára! Calma. Respire fundo. Oh mãeenhe! Psiuuu! Silêncio, gente. Silêncio! Por favor, assim as coisas vão piorar. Virei refém. Vai…continua…anda… Aquela capa apontada para minha cara. Não tinha forças para reagir. Onde me esconder? Talvez debaixo da cama. Ou no banheiro? Havia passado uma hora. Palpitação passando pela garganta. Minhas idéias pelos poros. “Hein seu branco safado? Ninguém aqui é escravo de ninguém”, berrou. Ele veio de Sertânia, interior de Pernambuco e chegou em São Paulo. Sabe das coisas. Até do que não sabe, sabe. Se chama Marcelino. Sua origem afiou o olhar. A cidade grande a língua. O tempo as idéias. Negreiros bem ali na minha frente. Forte. Intenso. É o porta-voz. Confessa. Dubla. Denuncia. Meus olhos não piscavam. Eram agora lentes coletoras. As desigualdades. Os preconceitos. As marcas. Os fingimentos. A violência. O silêncio. A vida e a morte severina. Urbana. Intestina. Rural. Favelada. Panorâmica. Ainda assim não perdia a sensualidade. O sexo. O tesão. Lembrei das covardias. Das contradições. Das sacanagens assentidas. “Devia nascer sem coração”, ele sussurrou. Passa logo mulher! Anda. Falta pouco! Minha agonia de chegar ao fim sambava entre meus dedos. Num descuido, corri. Fui para o terraço. Escondida nas alturas. Recostei-me nas barras de ferro. Enferrujadas. Olhei para cada lado. Abaixei os olhos. Trêmula. As páginas saltavam. Ligeiras. Lidas. Refletidas. Impressionadas. Finalmente estava a sós com “Contos Negreiros”. Na boca o gosto de vida de morte. Olhei do sexto andar para baixo. Salivei o cotidiano. Onde estão seus outros livros Marcelino Freire? Agora que estou aqui, mais perto das nuvens e do inferno. Com tempo para ver a lua saltar.  

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                  Foto: Blog do Marcelino

É o fundo do poço?! É o fim do caminho?!

Filed under: Aqui o mal geral,Outros Escritos — maldemontano @ 10:36 pm

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Baga I

por Perséfone Montana

Bem que Penélope falou que a Bagaceira não tinha por quê estar fora do Mal de Montano. “Bagaceira” era o blog  que pretendíamos criar com estórias bem… que como o próprio nome diz… bem…

        

Encontro do Mal. Definição de objetivos, estratégias, o que escrever, publicar, divisão de tarefas. Café Balaio, garçom charmoso na assistência, galera jovem e bonita cantando na mesa atrás, contato para sarau. As Montanas se deram bem, eu sabia. Do mesmo saco, a farinha. Muita cerveja e risada, confissões na madrugada. Começou daí.

Um massagista da Chapada ligou depois de três anos para uma delas, bem no meio do encontro. –Vocês não têm idéia do que era aquela massagem! A outra se anima, pega o telefone: – Está atendendo hoje? O rapaz indo para Goiânia; deu meia volta e rumou para o Gates. Lá fomos nós. Vivência para dar força à imaginação. De onde Trevisan tirou aqueles contos de esbórnia, devassidão?

Gates já um pouco vazio. O barman da semana passada, lindo, servindo a gente: -Por que você me despreza, meu amor? – É que voltei com a minha namorada. – E eu? O que fazer agora com esse sentimento? – Mas ficamos juntos só uma vez! – Mas não é suficiente para o amor?- (Tão bom dar uma de louca!!! Daqui a pouco me esgoelo, tiro a roupa!!!)  – Vou ter que encher a cara para curar a dor. E saí dançando todas. Mais tarde, mensagem para um cara que não vejo há tempos: “Amor da minha vida, saudade do tamanho do mar”. – Deve morrer de arrependimento; nunca mais vai querer me encontrar!

Acabamos nos enturmando com o DJ, coincidência das coincidências, irmão do barman, igualmente interessante. Moreno, alto, bonito e sensual, acreditam que tocou isso?  O cara da Chapada, tadinho, foi prá casa sozinho. Conhecemos, as luzes se acendendo, uma menina mais animada que a gente, seria possível?  Gates fechando: – Conheço um lugar super legal para ir agora. Vamos? –Vamos, claro!!

O lugar, pasmem! no Conic!!! Pelo amor de Deus! É o fundo do poço? É o fim do caminho? Fomos recebidas com boas-vindas e tudo o mais. Não pagamos para entrar, rezamos para sair. Quatro da manhã. “Isso são horas de chegar em casa? – Não estou chegando, amor, vim só buscar o violão”- lembrei de Dalton, de novo. O DJ tinha ido com a gente; um outro cara também, no carro da minha amiga. De onde surgiu esse? Ninguém sabia.

Mortas de fome, a sopa de fim de noite. “Vem cá minha puta”, foi o apelido que alguém deu para o local. Muito boa, não a piada, a comida. Para todo gosto, a opção: caldo de mocotó, aspargos, feijão.

         – Tchau, fofos!

         – 100% de aproveitamento.

Mais de cinco, caminho para casa, nós duas, como sempre. Minha pergunta recorrente, olhando o relógio: Por que a gente é assim? Precisava? A resposta dela, recorrente: Não precisava, mas foi bom para dar uma desopilada!!!

        

Carpinejar: cotidiano sem ser banal

Filed under: Entrevistas,Mal do dia — maldemontano @ 10:12 pm

ENTREVISTA

UM CRIADOR CONTEMPORÂNEO
Antenado com seu próprio tempo, o escritor Fabrício Carpinejar explora as linhas do cotidiano conquistando cada vez mais leitores

Por Katia Michelle
Foto de José Suassuna


Fabrício Carpinejar: “Se eu era um menino feio, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu achava que escrever era covardia, eu fui descobrir depois que escrever era coragem”

Curitiba – Para quem acredita na existência de uma metamorfose no comportamento masculino, existe um exemplo. Alguém a quem apontar o dedo e dizer: esse aí faz parte da revolução. Mas felizmente não é preciso guilhotina, nem tampouco interrogatório para saber mais sobre o tema. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar, 33 anos, não oscila ao falar sobre o assunto nem admitir (ou mostrar) que faz parte dessa mudança. Um exemplar autêntico dos homens que não só querem saber mais sobre os mistérios femininos, como também não têm medo de se admitir sensíveis.

Dono de uma personalidade intrigante e sedutora, Carpinejar utiliza as palavras para soprar ao leitor, masculino ou feminino, a pujança da vida. Depois de saborear um brownie com sorvete de nozes, numa charmosa confeitaria de Curitiba – onde participou do projeto Sempre um Papo, da Caixa Econômica Federal – ele concedeu entrevista à Folha. Acompanhe.

Como a literatura nasceu em você?
Eu não diria que ela nasceu. Eu diria que eu a despertei à medida em que aprofundei meus próprios defeitos. Todas as dificuldades que eu tive na infância e na adolescência eu nunca notei como uma abolição do caráter. Eu notava como se fosse o princípio do caráter porque eu tinha que exigir mais de mim. O fato de ser feio, por exemplo, te torna mais esforçado. Tu vai explorar muito mais a tua capacidade de persuasão. Tu não vai ser preguiçoso. Tem que se esforçar o dobro, o triplo. Mas isso é uma recompensa, porque tu vai aprender a compreender o outro. Tu vai aprender a se antecipar ao outro. Tu vai aprender a sair de si mesmo.

E essas questões te ajudam a escolher os temas que você aborda nos seus poemas e crônicas, já que o cotidiano, as relações amorosas, a família, são questões recorrentes nos seus textos?
Eu acho que isso é do autismo infantil. O fato de estar sempre desatento para o conjunto, mas desperto e atento para o detalhe. E a maioria das pessoas não repara nos detalhes porque não os julgam importantes. Acho que as pessoas são muito ambiciosas no amor. A gente devia ser menos. A gente sempre procura uma salvação. Sempre procura alguma coisa que tem utilidade. Eu fui criado ao lado de um terreno baldio, ao lado de uma reserva de inutilidades, uma reserva de sonho, uma reserva de imaginação. Chegou o momento que eu não queria que minha mãe transformasse aquele terreno ou o comprasse para convertê-lo em um campo de futebol. Porque ali eu podia imaginar, além de um campo de futebol, outras coisas. Eu podia brincar com toda a insuficiência do terreno. A gente tem que brincar na vida com o que a gente também não foi.

Reunindo essas características e esses conceitos, você conseguiu uma coisa que é difícil hoje na literatura, que é a projeção. Você acha que é raro conquistar isso no Brasil?
Eu sou passional. Eu não vivo porque eu posso. Eu vivo porque eu quero. Eu vivo porque eu não sei fazer outra coisa. Aliás, todas as minhas incompetências herdaram essa competência literária. O escritor não é aquele que foi escolhido, é aquele que se escolheu. Eu me escolhi. Eu não tinha ninguém pra fazer no meu lugar aquilo que eu tinha que fazer. Eu não tive a opção da covardia. Se eu não cuidasse de mim, quem cuidaria?

Essa tua experiência de vida é o que te credencia para ter colunas, como a que você publica na Super Interessante, por exemplo, em que você dá conselhos amorosos?
Imagina, se eu era um menino feio, deslocado, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu pensava que escrever fosse covardia. Como eu não tinha capacidade para me expor publicamente, eu escrevia. Eu fui descobrir depois que escrever é coragem. Que é muito mais difícil escrever e se comprometer e assumir o risco, a letra, do que falar. Escrever é olho no olho, não tem como se desviar, não há letra que se desvie. E eu também fui sempre o melhor conselheiro. Sempre trafeguei sobre universos paralelos, masculino e feminino.

Fale um pouco sobre sua relação com a internet, depois do seu blog, que acumula 300 mil visitas, teve alguma transformação na sua maneira de escrever?
Houve tranformações, sim, porque depois do blog eu comecei a ler o leitor e me abrir. Eu contesto os escritores que pensam que se aproximar do público é se diminuir na literatura. Bom escritor é aquele que está no mesmo patamar do leitor, a ponto de ambos se confundirem. Eu não suporto a idéia de que o escritor tem que estar um degrau acima.

Você está lançando um livro infantil. Para quando é e como são os seus projetos agora?
Eu estou escrevendo um livro de poesia intitulado ”Meu filho, minha filha’, que fala sobre minha experiência paterna em dois estágios. Uma com um filho morando comigo e outra com filho morando longe. Eu quero pegar esses dois ângulos da paternidade: o pai de final de semana e o pai da sequência. Estou bem feliz com o resultado, mas só vou lançá-lo em 2008. A Bertrand Brasil também está republicando toda a minha obra. Este ano deve sair ”Um Terno de Pássaros ao Sul”, o ano que vem ”Terceira Sede” e em 2008, ”Biografia de uma Árvore”. O infantil é o ”Filhote de Cruz Credo”, onde eu brinco com a história dos meus apelidos e que vai sair pela Editora Girafa. A ilustração é do Rodrigo Rosa. E no ano que vem sai meu outro livro de crônicas, ”O homem quando chora”, que mostra essa metamorfose masculina de comportamento.

Trecho da crônica “Sou quando deixo de ser”, de Carpinejar

“Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros.

Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei.”

Fonte: Blog de Carpinejar

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