
Primeira edição de 700 mil exemplares esgotada
É fácil julgar ao invejar
Domingo, dia de culto, dia de missa, dia de Faustão, eu estava passeando pelo Café com Letras e encontrei ‘O bispo’ em primeiro plano no balcão do caixa. Confesso que sempre tive preconceito relacionado à Universal, aos evangélicos, aos carolas, aos fanáticos religiosos de qualquer espécie. Aliás, fazendo a famosa mea-culpa: aversão a qualquer fanatismo que não fosse o meu.
Contudo, no caso Edir, eu não sabia a outra versão. Nos dias de hoje é muito fácil se formar uma opinião apenas por um lado da história. Vence a mídia que você mais acessa, mais participa, mais lhe atinge.
Quero dizer com isso que a interferência dos grandes meios de comunicação de massa (MCM) “pautam” nossas idéias, nossos pensamentos e até nossas atitudes (ou principalmente, o que é pior). TV, rádio, internet, jornais…
Porém, minha curiosidade é bem maior do que o meu preconceito e sempre será. Eu boto a cara e quero chafurdar na realidade vista diretamente pelos meus olhos. Comprei o livro (estava ansiosa pelo lançamento). Especular a vida do Edir Macedo, em sua biografia autorizada, foi um prazer. Nem tanto pela leitura, que, apesar da escrita fluente, da excelente diagramação e tipologia, peca por repetir demais. Eu li, eu gostei.
Levei um susto! Embora se tenha em mão um exemplar do “olhar do outro” (no caso o dos autores da obra) dá para se refazer conceitos. A notícias que todos temos, pela mídia “global” (imperial e católica de carteirinha) é que o bispo é, em resumo, charlatão e estelionatário.
Vejamos: qual igreja, religião, não é chartalã e estelionatária? Simples: aquela em que acreditamos! Para os ateus o ateísmo, para os budistas o budismo, para os católicos o catolicismo. Daí a César o que é de César…
Todas as cristãs, praticamente, prometem milagres, cura, um pedaço do céu, a salvação do inferno, realização de promessas etc. Todas pedem uma “oferta”, “oferenda”, “dízimo”, “contribuição” etc.
É o câmbio da salvação: pague e (um dia) terás!
Óbvio que há quem “pague” com dinheiro! A maioria decerto. Há quem pague com doações patrimoniais, alimentos, trabalho voluntário. Uma “ajudinha” daqui e outra dali.
Questionar os “pagamentos” feitos à igreja católica, por exemplo, não entra em cena. Por quê? Estamos acostumados! Simples assim.
Nossa cultura tem base católica e seus dogmas estão profundamente arraigados em nossas atitudes “cristãs”. Mas ela prega o sacrifício, o voto de pobreza, o celibato.
O catolicismo prega a miséria, eu diria.
Eu que fui batizada, fiz primeira comunhão e crisma, aprendi, em síntese, a me sentir culpada. Sentir culpa de transar. Sentir culpa de ganhar dinheiro. Sentir culpa de ambicionar conforto. Sentir culpa de viver com os prazeres “da carne e da grana”.
Lucrei frustrações e culpas que até hoje estão impregnadas no “automático” de minhas ações (claro que quando percebo mudo o rumo imediatamente). Ser “humilde”, dar a outra face e carregar a cruz me foi ensinado. Vida de “penitências”, de “pai-nosso” automático, de 230 aves-maria!
Sim. Nas outras também existem dogmas, submissões e blablabla. É por isso que jogar as pedras no Edir Macedo se torna um pouco ridículo. O papa é pobre? Come pão velho e água? Veste roupa de feira? Não, o papa é nobre! E o Edir é o papa da Universal.
Não, eu não me tornei evangélica. Continuo sem religião, entretanto não aprecio injustiças midiáticas advindas de visões rasas.
Acontece que os neo-evangélicos invadiram a praia e tomaram o terreno monopolizado da Igreja Católica. Isso sacudiu. Abalou. “Almas” foram “perdidas” para a concorrência. Lembremo-nos que estamos no capitalismo globalizado. Perder fiéis significa perder poder, que significa perder dinheiro, bens etc.
Acusam o Edir de atentar contra a “fé pública”. Nada diferente, na minha opinião, do que faz a publicidade de celulares e os noticiários da TV que miram a camêra e editam precisamente as imagens que “devemos” ver… Ah, e o Congresso Nacional, o Executivo, o Judiciário, os padres pedófilos, as freiras autoritárias, as religiosas que usam Gucci… de uma lista sem-fim não escapam às distorções.
A Folha On-line acusa o jornalista Douglas Tavolaro (autor do livro) de ser “parcial”, pois foi pago por seu patrão Edir para escrever…
Digam-me, então, sobre a mídia. Diariamente ela atenta contra o público ao selecionar as “matérias” que vão ao ar e mais, todos jornalistas são pagos por seus patrões para escrever e por isso parciais, não é mesmo? Ou neste caso há dois pesos e duas medidas? (adoro usar clichês em assuntos clichês).
Voltando ao livro “O Bispo”. A obra mostra o que pensa Edir. Sim, o que Edir quer mostrar sobre ele. Sim, o que Edir assume como sendo “ele”. Sabe, vi um Edir sincero. Autêntico. Posso dar meu testemunho: ele prega e dá exemplo! Ele quebra o paradigma da massa pobre, coitada, carente, sem eira, sem auto-estima, penitente, dócil.
Edir sacode a massa e chama, clama, à ação!
Ontem fui em um culto evangélico, como o São Tomé – ver pra crer -, percebi que o que lá acontece é uma verdadeira terapia popular e o dízimo é o seu pagamento. Fundadores de terapias, de religiões, de seitas é que ditam as regras, né! Muitas vezes o que se muda é apenas o nome das coisas, vamos usando sinônimos e criando palavras novas. Roupagem diferente para antigas ações.
Lembrando de outros métodos, quem conhece a psicanálise sabe o quanto é importante o investimento do paciente em sua cura e isso, necessariamente, passa pelo metal. Em psicanálise o dinheiro (o valor da consulta paga ao psicanalista) faz parte da terapia. Se investe tempo e grana!
Se temos, hoje, consultas terapêuticas custando em média R$ 120,00 (por uma hora), em se tratando de dízimo equivaleria a um salário mensal de R$ 4.800,00. Então, quem ganha um salário mínimo poderia pagar cerca de R$ 40,00. Essa é a conta! Um “culto-terapêutico” fica na ordem de R$ 10,00 para quem ganha R$ 400,00. E, ainda, com direito a duas horas e meia de tempo, com direito a música (lembram do couvert de bar? mínimo R$ 3,00 por pessoa), interação grupal… E, mais, elevação da auto-estima pela fé! “Tudo pode quem nele crê”.
Eu li num comentário que: “crente” é quem “crê” mas não se diz em “quê”.
Crer é crer e dar o dízimo é crer e dar a oferta é crer. Jogar flores e champanhe para Iemanjá é crer (e poluir o meio-ambiente). Comer hóstia é crer. Rezar terço é crer. Ser voluntário (mão-de-obra grátis) é crer. Fazemos o que acreditamos que irá ajudar em nossa crença. Ler Saramago é crer. Ler boa literatura é crer nas possibilidades da arte e do intelecto.
Crer é crer. Dar crédito.
Edir Macedo crê no que diz. Seus fiéis também. O problema dele é ser claro. Ele é a favor do aborto e diz que é. Ele apóia o uso de camisinha, o controle da natalidade, o conforto, a riqueza material e espiritual. Ele é contra um monte de coisas também. Quem não é…
Os templos da Universal são requintados, confortáveis, suntuosos. O dinheiro dos fiéis é reinvestido em cadeiras macias, em piso nobre, em ar-condicionado, em pagamento de “salários”. Algums padre trabalha de graça? Algum profissional quer trabalhar de graça?
Edir mostra que o que é bom, é bom, e deve ser para todos e não para poucos. Todavia não é parado que se conquista! Edir é movimento. É modelo.
Por fim, prefiro um Edir Macedo que conscientiza milhões de pessoas da “massa” (que deixam de ver TV apenas) para por a mão na massa e mudar de atitude. Ele prega que não se tenha filhos, pois o mundo já está lotado. Ele prega a adoção. Ele prega o não uso de drogas. Ele prega a união da família. Ele prega valores cristãos e capitalistas.
Ele é atual e prega para uma sociedade atual.
E, no final, como qualquer profissional, como qualquer terapeuta, ele ganha por isso. É injusto?
Por Solange Pereira Pinto
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A guerra da TV Globo Católica com a TV Record Evangélica está no começo. Talvez, a sociedade se equilibre mais.
Se a TV Record foi comprada com dinheiro “ilegal”, a TV Globo também e outras tantas mídias, rádios, afiliadas bláblábla…